Ciência, Religião e Desenvolvimento - Perspectivas para o Brasil
Após a realização de 5 seminários, em Campinas, Salvador, Brasília, São Paulo e Curitiba, onde o conteúdo do livro foi discutido com os autores residentes nestas cidades, foi feita uma sistematização de todos os comentários apresentados que gerou um novo documento síntese que agora apresenta uma visão mais próxima dos desafios brasileiros para com a interação entre ciência, religião e desenvolvimento. Leia e compartilhe aqui as suas percepções sobre esta temática.
- CIÊNCIA, RELIGIÃO E DESENVOLVIMENTO –PERSPECTIVAS PARA O BRASIL
- DESENVOLVIMENTO
- DIFERENÇAS
- CIÊNCIA
- RELIGIÃO
- RELIGIÕES NO PLURAL
- VALORES UNIVERSAIS
- OS PASSOS PRÁTICOS
- JUSTIÇA E GOVERNANÇA
- EDUCAÇÃO
- INTEGRANDO O SABER POPULAR AO CONHECIMENTO CIENTÍFICO
- CONSIDERAÇÕES FINAIS
CIÊNCIA, RELIGIÃO E DESENVOLVIMENTO –PERSPECTIVAS PARA O BRASIL
Encontramo-nos além do auge da modernidade e de seu projeto iluminista. Vivemos hoje o declínio de um sonho de prosperidade. De um lado, pessoas com abundância de conhecimento, tecnologias e bens de consumo. Do outro lado, miséria, fome, condições desumanas de existência. Por todos os lados, pessoas com a alma fraquejada, exaustas de violência, solidão e medo. Um Brasil repleto de agressão – dos assaltos, seqüestros, empregos, capitalismos, competições predatórias. Temos um humano isolado do mundo, dos espaços e das outras pessoas – que não se olham nas ruas, não conversam nos elevadores e não existem uma para a outra. A humanidade está doente, repleta de incertezas e cobranças provenientes de um dever-ser impossível. Vivemos em uma sociedade que anseia por um humano-máquina, o super-humano. Será isso desenvolvimento?
Tanta racionalidade não foi capaz de enxergar que a espiritualidade acaricia a alma, dá sentido à vida e às relações. Tanta racionalidade não soube cuidar da humanidade, da nobreza de cada pulso de vida no universo. Surgem então as perguntas: o que é a verdadeira prosperidade? O que é o desenvolvimento? Como traçar um plano de desenvolvimento no século da globalização e pós-modernidade; século também do aumento da pobreza mundial, da África dizimada, do sectarismo e da contenda religiosa?
“O ser humano já não agüenta mais tanto desenvolvimento.”1
O projeto desenvolvimentista construído após a Segunda Guerra Mundial e aplicado em diversos países por todo o mundo mostra suas falhas e pede uma reestruturação. O progresso científico e tecnológico tal qual estão colocados hoje no mundo não correspondem aos anseios de uma vida digna e ética para todos os seres humanos. É necessário perceber que o desenvolvimento individual e da humanidade andam juntos e complementam-se. O atual conceito de desenvolvimento, aplicado em diversos projetos ao longo da segunda metade do século XX, pressupõe que o valor das pessoas está relacionado à quantidade de bens que ela consegue acumular. Ao colocar o desenvolvimento sob o foco da apropriação de bens, além de trazer a idéia de inclusão e exclusão, construiu-se a idéia de que apenas se atinge a felicidade com a conquista de muitos bens materiais.
Mas ao seguir por esse caminho, a humanidade fragmentou-se, supervalorizou a razão e deixou de lado o sagrado, empobrecendo-se em sua realização no mundo. Desde o advento do paradigma Iluminista de racionalidade e materialismo, as sociedades esqueceram-se da complexa rede de relações do ser humano com o universo; esqueceram-se também de prover as pessoas de alguns de seus direitos essenciais. Isso porque o Iluminismo possui uma lógica excludente, que rejeita visões de mundo que apontem caminhos diferentes dos seus, construindo, como conseqüência, um mundo repleto de contradições profundas.
Essa forma de estar no mundo implica descaso preocupante com os outros humanos e com todos os outros seres – a lógica do “eu por mim mesmo”. E solidão. Desrespeito. Desigualdades. Sofrimentos dos mais variados tipos. Onde está a nobreza inerente a cada ser humano? Ofuscada pelo materialismo. Onde se encontra a humildade de sentir-se parte de um todo tão complexo quanto inexplicável? Esquecida por uma razão arrogante.
Acontece que a própria ciência tem percebido que não dá conta de tudo e começa a abrir espaço para outras vozes explicarem fenômenos que vão além dos cinco sentidos. E assim deveria caminhar o desenvolvimento: percebendo que não basta apropriação material para o bem-estar. É preciso expandir a consciência para a complexidade da vida, respeitando a sacralidade de cada ser e agindo como uma parte de um todo, ou seja, respeitando os espaços, vozes e vidas. É nesse sentido que é mister o exercício da espiritualidade para uma noção de desenvolvimento mais ampla.
Para isso, precisamos ir além da perspectiva histórica do desenvolvimento e da relação entre ciência e religião propostas pela hegemonia ocidental, etnocentrismo e positivismo. Não se trata de negar esses pontos de vista, mas os compor com outros, formando uma teia complexa, em que cada fio, representado por uma etnia, modo de vida ou filosofia, afete positivamente o bem-estar de toda a humanidade. Transformar o relacionar-se com as pessoas, espaços e seres uma arte: a do tear.
Tecer saberes como fios: transdisciplinaridade. No paradigma moderno, impera a visão mecanicista, que valoriza a especialidade e a divisão do conhecimento em disciplinas e relega ao ostracismo a experiência sublime, a interioridade, a subjetividade e a consciência. A modernidade esqueceu-se de que ciência e religião são dois caminhos clássicos de apreensão da realidade, cuja diferença é marcada pelo diferente funcionamento dos dois hemisférios do cérebro. O esquerdo é responsável pelo funcionamento da sensação e razão. O direito, da subjetividade e arte. Ao valorizar muito mais um hemisfério, nos fragmentamos, em um processo esquizofrênico, perdendo a noção de o que é inteireza. Um desenvolvimento preocupado com o todo do ser humano leva em conta a questão material, por meio da economia, a questão psíquica, através da política, e a questão noética(2) , a partir do exercício da espiritualidade.
Falar em desenvolvimento fugindo da lógica tradicional implica defender o envolvimento. O humano envolvendo-se mais entre si e com o mundo. Desenvolver a alma: atentar-se para a qualidade do sentimento, do pensamento, do relacionamento, do coração. Que tal ter como indicador de desenvolvimento a qualidade das relações humanas, como a verdade dos sentimentos, a força dos valores humanos, o grau de unidade dos membros de uma sociedade, a igualdade entre as etnias, a promoção da condição das mulheres? Um desenvolvimento que valorize a Sabedoria.
“(…) temos que considerar a história de toda a civilização independentemente de terem a sua história e suas culturas legitimadas socialmente por civilizações dominantes.”3
Quando falamos sobre desenvolvimento, pensamos no paradigma da sociedade européia ocidental e branca, marcado pela história e cultura desses povos. Entendemos como desenvolvido o que é branco, o que não é “subdesenvolvido” ou “em desenvolvimento”, o que consome toneladas de tudo que vê pela frente e que tem condições de desfrutar de valores da ciência. Desenvolvimento com o eterno estímulo: “vamos lá! Avancem!”.
Se por um lado analisar a questão do desenvolvimento passa por várias linhas dessas culturas, pois sua hegemonia política e econômica marca a vida de grande parte da humanidade, não podemos nos esquecer dos outros povos e suas dinâmicas, histórias e valores para melhor ampliar esse conceito.
Não nos esqueçamos das populações africanas, asiáticas, ameríndias e tantas outras. Como elas pensam o desenvolvimento? Como elas articulam saberes religiosos, técnicos e científicos? Como são suas relações sociais? A idéia de que o cientificismo rompeu com o dogmatismo religioso ocorreu apenas no âmbito europeu e branco. Nas comunidades negras, africanas, asiáticas, etc, isso não ocorreu. Nem todas as sociedades percebem religião e ciência com pólos opostos; pelo contrário, é possível entender a religião como prática estimulante da ciência. Essa contraposição dos dois fragmentos é muito mais nítida no Ocidente europeu medieval e moderno.
Ao colocar o ponto de vista europeu no centro da discussão reforçamos o risco de perder a dimensão sagrada de outras religiões. Devemos aprender com outros povos os valores que eles trazem como contribuição ao processo de desenvolvimento. No Brasil, a colonização, que perdurou por séculos, trouxe tanto a religião quanto a ciência como saberes impostos, inferiorizando e discriminando o conhecimento e cultura indígena e africana.
Por isso, para se pensar desenvolvimento, é fundamental considerar a população de origem africana, assim como outras igualmente não hegemônicas, pois elas possuem um legado civilizatório original, que se reflete em sua espiritualidade, visão de mundo e forma de expressão. Esse segmento da população tem grandes contribuições para a construção de um conhecimento que vise solucionar os problemas sociais brasileiros.
Devemos aprender com outras culturas suas idéias sobre desenvolvimento tanto para aprimorarmos esse conceito em nossas realidades, quanto para conseguirmos pensar em projetos de políticas públicas que realmente respeitem a comunidade beneficiada. Os atuais programas não levam em conta a definição de desenvolvimento da população atingida, reforçando os modelos eurocêntricos e dificultando a reafirmação de outros modos de vida. É preciso parar e olhar o outro, criando uma cultura política de solidariedade e de valorização de todos os seres humanos. No Brasil, onde a cor da pobreza é negra, é fundamental pensar em novos eixos de percepção que saiam da atual visão de desenvolvimento.
Temos muito – e sempre – o que aprender. Escutemos outras vozes e as reconheçamos como legítimas. Entender os próprios valores como os melhores e inquestionáveis é um exercício de fechamento para o mundo. Infelizmente, foi isso que boa parte dos programas desenvolvimentistas fizeram. Ao colocar valores de racionalidade e materialismo como superiores, eles ignoraram o anseio humano pela transcendência e pelo aprimoramento da qualidade de relação entre as pessoas, esquecendo-se de que para a maior parte da humanidade, a natureza tem uma dimensão espiritual. Por isso, é importante ampliarmos o conceito de desenvolvimento e lembrarmo-nos de que a atual significação tem negligenciado os principais interessados: as pessoas no processo de desenvolvimento.
“O compromisso com o conhecimento precisa ser uma aventura radical, pois ele é um convite a uma contínua abertura e investigação, e ao desfrute saboroso das descobertas.”4
Apesar de não conseguirmos apreender a realidade de forma completa apenas com o uso da razão, ela é muito importante para o desenvolvimento. É com o uso da razão que o radicalismo religioso é questionado e outras vozes podem então se manifestar. Foi o racionalismo iluminista, por exemplo, que questionou o dogmatismo religioso medieval e possibilitou a emergência de outras relações sociais, econômicas e morais na modernidade.
Mas devemos separar as coisas: não se pode confundir ciência ou religião em seu estado conceitual com os usos ideológicos que se fazem delas. Tanto o amordaçamento da ciência pelas religiões como a negação das religiões pelas ciências refletem a luta pelo controle das idéias e comportamentos. O paradigma moderno reprimiu a experiência do sublime em nome de algo confusamente chamado de ciência. Vivemos hoje a ditadura da ciência: o que tem valor, o que não é subdesenvolvido, o que faz sentido é a verdade da ciência. A base da ciência moderna é o desejo pelo controle. Coordenar ações é uma qualidade inerente ao racionalismo. Controlar cegamente é sua doença.
O mau uso da ciência e da racionalidade pode ser tão perigoso quanto o extremismo religioso. Portanto, a ciência deve servir como uma ferramenta para maior conhecimento do mundo e não como arma para manter certo discurso no poder. Devemos usar a racionalidade para ressignificar o papel da religiosidade e conferir um sentido mais profundo aos ritos, e não usá-la como tem sido feito: para execrar as outras potencialidades humanas, como a espiritualidade e a sensibilidade.
O conhecimento é uma experiência instigante, que organiza de forma efetiva nossas experiências cotidianas. Todo conhecimento é autoconhecimento, pois, ao conhecer, estamos mergulhando no entendimento de nossas relações constituintes. Por isso, não basta ter ciência, mas viver com ciência, incorporando-a às nossas vidas, aprendendo a cada dia nossas relações com o mundo. O papel do conhecimento é, portanto, proporcionar o reconhecimento da nobreza de todos os seres humanos e não humanos. E essa nobreza deve ser reconhecida no cotidiano. O conhecimento não é algo que se possui como um bem material; ele é algo transformador. A pessoa deve ser conhecimento, tomá-lo como repertório da vida. Por isso é importante pensarmos sempre a serviço de que e de quem o conhecimento foi construído. A ciência institucionalizada não tem capacidade de transformação, pois ela está a serviço de poucas pessoas. Pensemos, pois, uma ciência com compromisso social. Hoje, a ciência nos parece estéril de humanidade. Falta espiritualidade para orientá-la…
Devemos estar sempre atentos para a institucionalização do conhecimento, pois ela enrijece a leveza do pensamento. Uma vez que o conhecimento se transforma em instituição, ele por vezes perde seu sentido original, pois busca então a reprodução infinita de seu discurso, cristalizando-se para manter-se no poder. Onde fica a curiosidade, o olhar sobre o mundo, o constante questionamento, a criatividade de produzir mais –e sempre –novas narrativas? Poderá o conhecimento científico ser institucional e ainda sim manter sua capacidade de contribuir para o desenvolvimento humano?
Um apontamento: diálogo de saberes, uma mutação consensual: abertura da ciência tradicional e da religião tradicional. Humildade das ciências em perceber as limitações de suas contribuições. Quanto mais simples e mais consciente da particularidade de seu papel, mais a ciência tem a contribuir, pois responderá ao que lhe cabe, respeitando os outros saberes. Colocar, portanto, a razão a serviço de um entendimento maior da realidade, incorporando-a como parte do universo que a gerou.
“A religião e a religiosidade podem ajudar a concretizar a expressão da vontade de mudança na sociedade.”5
A espiritualidade dá respostas em um outro nível de explicação, para a junção dos saberes e compreensão do mundo. A expressão espiritual abre espaço para a realização do indivíduo como bem mais precioso da humanidade. Ela também induz no ser humano profundo respeito por tudo, pois, ao ligar seres e coisas através do sagrado, ele entende sua posição no mundo como alguém que compartilha a vida, exercitando, assim, a humildade. O respeito à transcendência não é só uma questão de fé, mas de acolhimento, reconhecimento e cultivo do melhor de nós mesmos.
A quebra de paradigmas, por meio da globalização, tende a cindir as pessoas, deixá-las perdidas, sem rumo. A espiritualidade tem o papel de construir valores comuns para a sociedade, reconhecendo a nobreza e sacralidade de cada ser humano, e dando um sentido mais profundo à vida. Por isso a prática espiritual implica a aplicação cotidiana de seus valores; não pode cair só na repetição dos ritos.
Nesse sentido, é importante diferenciar religião de espiritualidade. É a espiritualidade que une, liga e re-liga e integra Enquanto a religião é um grupo ou instituição em que as pessoas exercitam juntas a espiritualidade através de valores, crenças e normas comuns, a espiritualidade é a manifestação individual dessa característica humana.
Temos, por um lado, pessoas que optam pelo exercício individual da espiritualidade, mostrando aos outros diferentes formas de lidar com a realidade; e por, outro lado, pessoas que optam pela inserção em um grupo ou instituição, dentro do qual compartilham valores e normas comuns. De um lado, a maleabilidade da não institucionalização; do outro, a força da união de um grupo. Tanto uma forma quanto outra auxilia, com suas peculiaridades, na construção de um novo paradigma civilizatório.
Dois problemas que encontramos hoje são o fanatismo e o dogmatismo religiosos, que impedem que outras vozes se pronunciem. Esse extremismo, ao invés de trazer a função original da religião ( a de religar), torna-se um espaço massacrante e despotencializante. Todas as religiões são derivadas do amor em movimento, da força e da chama do sagrado, mas elas podem se transformar em uma espécie de “latifúndio do sagrado”, movimentando-se em um “materialismo religioso”, dominando e alienando rebanhos.
Nos últimos anos, grande parte das guerras que ocorreram no mundo foi por motivos religiosos. A religião pode revitalizar a dimensão humana da espiritualidade, mas não necessariamente gera um modo de ser mais solidário e compassivo. Por isso devemos usar o espírito crítico, a racionalidade, para que a religião não se desvirtue para jogos de poder. Assim como a ciência, a religião deve estar aberta para ser contestada por outros grupos. Isso cria o diálogo e a possibilidade de caminharem juntos. Proponhamos, portanto, às religiões e tradições espirituais fechadas em si mesmas o teste da ética universal: estarão elas infringindo os impulsos da espiritualidade humana, relativos à solidariedade, cuidado e compreensão?
Ao mesmo tempo, a institucionalização da espiritualidade através da religião cria um espaço de convivência, aprendizado e construção de valores comuns. A religião pode proporcionar a auto-estima necessária para o aprendizado e atuação e para a construção de uma identidade coletiva positiva. Ela também proporciona a criação de uma rede de solidariedade em uma comunidade, incentivando, assim, uma atuação cidadã. O universo religioso facilita, nesse sentido, a expressão de valores culturais mais autênticos de certos grupos sociais. É o caso das Casas de Santo. Há situações em que a economia da cidade gira em torno do turismo gerado pelo candomblé. E as Casas de Santo, além de gerarem e dividirem a renda, funcionam como creche, abrigo para mulheres violentadas pelos maridos e possuem considerável representatividade política.
“A experiência de viver a fé em uma “aldeia global” exige que os diferentes ensinamentos religiosos saibam responder às situações que ameaçam a paz e a justiça. (…) É preciso que todas as religiões façam um exame de autocrítica com respeito a certas práticas de educação religiosa que têm favorecido as divisões e inclusive a repressão.”6
“Para se construir uma sociedade harmônica e vitalizada, devemos valorizar e não massacrar as diferenças (…)Se a religião for oprimida, no mesmo sentido, perde-se a contribuição que ela pode dar ao somatório social.”7
Religar, enxergar a nobreza de todos os seres humanos é compreender as diferenças. Não basta a condescendência do “eu respeito, mas bem longe de mim”. É necessário diálogo entre as diferenças e a eterna abertura para o aprendizado. Não se trata de homogeneizar as culturas e valores, tampouco seguir a lógica do “cada um na sua”. Trata-se de alegrar-se com a alteridade, pois ela é uma rica fonte de aprendizado, aprimoramento de si e autoconhecimento. Mas é igualmente importante questioná-la para permitir que os outros também se aprimorem. É apenas com o diálogo sincero que é possível relacionar-se com respeito e amor.
Ao falar em religião, logo lembramos das grandes tradições monoteístas, e então reduzimos nossa capacidade de compreensão e de criação sobre a questão religiosa. É necessário considerar outras experiências religiosas que não as hegemônicas, como a vivência espiritual dos negros e indígenas. É também preciso respeitar as contribuições que as religiões podem dar ao somatório social.
No Brasil, a experiência religiosa dos povos da floresta, por exemplo, pode nos ensinar uma forma diferente de entender nossa forma de estar e se relacionar com o mundo. Esses grupos indígenas pensam a natureza de forma criativa (no sentido de estar continuamente criando), usando-a para simbolizar sua realidade social. Diferentemente ocorre na modernidade ocidental, em que a chave das relações está na lógica da produção. Nessa lógica, enxergamos apenas um pólo – o nosso – e entendemos o outro pólo como objeto passivo, passível de exploração. Esses grupos, pelo contrário, unem espírito e matéria. Para eles, tudo o que existe é vivo, ativo, capaz de partilha, recíproco e, portanto, relacional. Aprendamos com os povos da floresta para pensarmos em um eco-desenvolvimento, abandonando o ponto de vista antropocêntrico e enxergando-nos como parte que interage e troca com o mundo.
“(…) somente mata o outro, somente viola, exclui o outro, aquele que não se conhece, porque se conhecer é se conhecer na relação, na vinculação com o outro.”8
“Ousaria afirmar que a sociedade padece de credibilidade em si mesma porque os seres humanos ficaram impróprios.” 9
Falamos em articular ciência e religião para uma nova concepção de desenvolvimento. Mas de que religiões e de que ciências falamos? Como não calar vozes minoritárias ou enfraquecidas, impondo a toda a humanidade os discursos das instituições mais fortes? É necessário, pois, estabelecer valores universais para que, apesar das diferenças, todos os humanos possam caminhar juntos em prol de um projeto maior: o desenvolvimento global. Nesse sentido, por exemplo, tanto os artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ainda que sofram a crítica de terem marcante viés ocidental e liberal, quanto os valores contidos em diversas escrituras sagradas de todo o mundo defendem posturas semelhantes em relação à humanidade.
É preciso resgatar e exercitar uma potencialidade humana latente: o respeito às pessoas. É necessário desenvolver uma cultura solidária, que observe e cuide tanto de seus direitos como dos direitos dos outros. Para isso, devemos sempre estar atentos para a nobreza de cada ser humano e respeitosos com suas limitações. O desafio é o encontro com o âmago da verdade dos outros. Ciência e razão para conhecer e questionar. Religião e espiritualidade para sensibilizar-se além dos cinco sentidos, para desenvolver a humildade de reconhecer-se como parte de um todo incomensurável e assim perceber o propósito de nossa caminhada humana.
Criar uma nova ética, baseada no autoconhecimento e na consciência de si e dos outros. Criar uma nova lógica e não buscar um resgate romântico do passado. Não é o caso de reforçar a moral, pois uma nova ética exige uma nova ótica. Uma ética do pertencimento, em que as diferenças possam existir e interagir com respeito. É preciso investir em uma ótica de união, ligação e sinergia com a Terra e com os que nela habitam. Precisamos ver o homo ludens, homo demens não como um descanso nos intervalos do período de trabalho. A esfera do lúdico, mítico, mágico e poético é tão importante para o desenvolvimento humano quanto a técnica, o trabalho e a racionalidade. Lembrar-se do ser humano não só pela sua capacidade de produção, como ele tem sido visto hoje, mas também como ser de relações ilimitadas, criativo, terno, sensível e com espiritualidade.
Nesse sentido, a ética do futuro deve trabalhar a humanização da humanidade; a valorização das qualidades associadas ao feminino; a capacidade de obedecer e guiar a vida; a unidade através da diversidade; a solidariedade; e o exercício de reconhecer ao outro o direito de não ser. Aprender com a sustentabilidade da natureza, que nos ensina que para manter-se vivo é preciso do apoio de toda uma comunidade de seres diversos. Compreender o princípio da ecologia, que mostra que a vida não surgiu através da competição, mas sim da cooperação.
“A felicidade, então, é uma das maneiras como poderemos chamar aquele estágio em que uma pessoa realiza, de forma plena, seu potencial.” 10
“O grito dos excluídos, além do medo, angustia a todos.” 11
É necessário um novo paradigma de humanidade, em que se estabeleça o mínimo e também o máximo de bens que uma pessoa deve possuir, pensando, assim, na condição coletiva. Essa mudança pode ocorrer por medo de se perder o que tem ou por solidariedade, ao indignar-se com a injustiça social. Ou a sociedade assume a solidariedade, impulsionada pelo binômio espiritualidade/ religiosidade, ou será dominada pelo medo. No caso do Brasil, é preciso uma mudança do rumo do investimento social. Atualmente, o investimento público brasileiro está voltado para a classe média, com a criação de empregos e redução de custos de produção de capital, ao invés de investir na melhoria das condições dos mais pobres. Todo o investimento para a redução da pobreza está relacionado à minimização das mazelas, em uma lógica assistencialista, sem que de fato se empodere o pobre a promover a sua mobilidade social.
Uma nova noção de desenvolvimento implica um novo sentido ao trabalho. Fazer do serviço o viço do ser. Trabalho para dar aos outros o que se tem de melhor. Por isso, as pessoas têm de respeitar sua vocação, para que possam executar suas atividades com amor e felicidade. É preciso também mudar a valoração do trabalho: hoje, por exemplo, os serviços domésticos são inferiorizados; já os voltados para a guerra, são valorizados.
“Ser solidário é lutar por um direito que não é seu.”12
Outro pilar a ser ressignificado é a justiça e a governança. Dar à justiça uma lógica coletiva, ao invés da lógica individualista que temos hoje, permitindo a todas as pessoas dignidade e liberdade para agir. Incorporar uma perspectiva espiritual à prática da cidadania e ampliar, então, o sentido de justiça.
Mudar a noção atual de governo: menos centralizado, que disponibilize recursos às comunidades locais e deixe-as agir com independência. Menos estados centralizados e mais unidades básicas de gestão pública. Ampliar os espaços comunitários e dar-lhes voz para as tomadas de decisão, formando conselhos e parlamentos mais orgânicos. As questões básicas de vida deveriam ser discutidas em todos os níveis de decisão e gestão. Devemos participar mais e deixarmos de ser tão representados. Para isso, é preciso a busca do empoderamento, e não a espera para que nos seja concedido o poder. Empoderamento não pelo confronto, mas pela conspiração: aceitar a realidade para, ao se alinhar a ela, ter plena energia e entendimento para transformá-la. As mulheres, por exemplo, ao lutarem para ter mais voz e poder e ao conquistarem esse direito modificaram toda a sociedade.
As religiões podem ter um papel importante nesse sentido, uma vez que proporcionam a seus participantes sentimento gregário e elevada auto-estima. Por outro lado, as religiões podem dificultar esse processo, se sinalizarem uma opção por uma cultura paternalista, em que os cidadãos buscam um salvador da pátria, um protetor a quem devem obediência. É importante que a população brasileira aprenda a cobrar dos governantes, pois não existe um líder perfeito. . Enquanto cidadãos, temos de ter consciência de que o desenvolvimento também depende de nós e não só dos nossos governos. Para toda essa mobilização, a população tem de ser bem informada e bem formada. Uma nova educação torna-se necessária para uma nova humanidade.
“As pessoas estão querendo novamente que lhes ensinemos valores mais simples (…) porque elas estão em um processo tão alucinante que não sabem mais como abordar e vivenciar o dia e dormir.”13
É necessária uma revolução cultural e não só educacional. Como romper uma cultura paternalista como a do Brasil, por exemplo, sem rechaçá-la? Precisamos compreender que todos os seres humanos têm um projeto de felicidade a realizar, para, então, compreendermos que devemos valorizar uns aos outros, compartilhando um destino comum e valores como solidariedade e compaixão.
Como utilizar a educação para essa revolução cultural? Uma possibilidade é incluir o ensino da espiritualidade nas escolas. Lembrando-se de que religião é diferente de espiritualidade: ensinar não os dogmas e especificidades de uma religião, mas sim desenvolver nos alunos a inteligência emocional e espiritual, colocando alma nas escolas. O racionalismo científico foi muito ingênuo achando que conseguiria entender o cérebro sendo uma parte dele – são necessárias outras inteligências para entendermos a psique. Incluir o desenvolvimento da inteligência onírica, emocional e espiritual no cotidiano escolar. Educar para conhecer, fazer, conviver e ser. Colocar em todas as nossas ações e pensamentos a transdisciplinaridade, unido o efetivo ao afetivo, a razão ao coração, a análise à síntese, o intelecto ao espírito, o masculino ao feminino.
Mas devemos ter cuidado ao usar a palavra “transdisciplinaridade”. Não se trata de misturar tudo, mas sim utilizar cada ferramenta que temos em mãos. A ciência tem seu caminho: o analítico; bem como a religião possui o seu: o sintético. Um complementa o outro, mas não precisam ser misturados; o ser humano precisa de ambos, como duas pernas necessárias para a locomoção.
Mesmo sem modificar tanto a estrutura das escolas, uma pequena transformação já surte efeitos: permitir que as diferenças sejam ouvidas e respeitadas no colégio, que colegas de turma possam ser diferentes sem serem excluídos ou ridicularizados, que as diferenças aprendam entre si com a convivência diária.
Integrando o saber popular ao conhecimento científico
Uma outra proposta, voltada para a relação entre governo, comunidade e universidade, é a criação de um Centro de Excelência, em que os programas sociais fossem integrados à realidade da comunidade, possibilitando o empoderamento da população daquele local e a construção de um conhecimento que reconheça a inter-relação entre as aspirações materiais e espirituais das pessoas envolvidas, valorizando o saber popular e integrando-o ao conhecimento científico. Esse centro teria uma estreita relação com as universidades da região, demandando do saber acadêmico a atenção às realidades locais e à prática cotidiana das comunidades.
As mudanças de paradigmas educacionais, independente de como foram definidas, devem transformar os alunos em exemplos vivos de modos de vida possíveis e transformadores. Começar, mesmo que com poucos (pois há uma grande dificuldade em se mudar paradigmas) que sirvam de exemplo e multipliquem os novos valores no cotidiano. Realizar uma pedagogia do fazer, do ‘ensina-me a viver’. Ao mesmo tempo, ter sempre consciência de que os novos valores também são passíveis de questionamento, aprimorando, assim, e sempre, o conhecimento, em um processo contínuo de ação e reflexão.
“O momento que vivemos pode ser visto nesta metáfora que aprecio muito: ‘a lagarta já morreu e a borboleta ainda não nasceu’.” 14
“A sustentabilidade individual depende da sustentabilidade das comunidades da qual a pessoa participa.” 15
A relação ciência, religião e desenvolvimento passa por novas propostas de pensar a realidade, e as políticas para o desenvolvimento. Neste particular, a educação ganha nova dimensão enquanto um processo gerador de ciência, de desenvolvimento e de abertura para compreensão das dimensões religiosas existentes sob diferentes formas no ser humano. A relação entre ciência, religião e desenvolvimento tramita sempre entre o real e o ideal, o material e o imaterial; ela também toca na auto-estima, autoconfiança, valorização pessoal e social, não discriminação, busca por igualdade e exercício da cidadania para a melhoria social.
Ao aprender a conectar-se com o mundo, com seus seres e espaços, o ser humano sente-se parte de um todo e, portanto, responsável por suas ações. Os valores deixam de ser moral enrijecida para se tornarem ética construída no cotidiano, consciência. O fazer político muda, a partir de então. As pessoas tornam-se ativas, porque responsáveis e participantes. Para isso, devemos construir uma civilização de base materna, que abriga, acolhe, cuida, respeita, ama. Interação ao invés de integração. Sair do modo de vida excessivamente masculinizado que o cientificismo propôs. Mais carinho, intuição, estética.
Mudar implica desapego de conceitos. Transformá-los ou criar outros. Assim como a si, pois o indivíduo é uma construção dinâmica, tanto de células e órgãos quanto de subjetividade. Por isso é preciso aprender sempre. Conhecer os grandes mestres e líderes religiosos – exemplos da aplicação viva de valores no cotidiano. Questionar, observar, sentir, construir, reformar. Religião na vida. Existência com-ciência. É preciso que a ciência desça do pedestal e que a religião promova a percepção da coletividade e a busca da humana-unidade.
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1 CORRÊA, Rosângela. In: EGHRARI, Iradj Roberto (org.). Ciência, Religião e Desenvolvimento –perspectivas para o Brasil. São Paulo, Ed. Planeta Paz, 2005, p. 322.
2 Termo ainda pouco conhecido, “noética” refere-se a uma forma de consciência intuitiva, capaz de acessar direta e imediatamente o conhecimento que vai além daquele acessível à nossa racionalidade.
3 SIQUEIRA, Maria de Lourdes. Ibid., p. 270.
4 EMEDIATO, Carlos. Ibid., p. 222.
5 NUNES, Mônica. Ibid., p.275.
6 CORRÊA, Rosângela. Ibid., p. 337.
7 COSTIN, Claudia. Ibid., p. 226.
8 CREMA, Roberto. Ibid., p. 308.
9 MENDES, Joaquim. Ibid., p. 259.
10 CAMARGO, Affonso. Ibid., p. 216.
11 MARCHI, Euclides. Ibid., p. 242.
12 OLIVEIRA, Guacira. Ibid., p. 249.
13 MENDES, Joaquim. Ibid., p. 261.
14 CREMA, Roberto. Ibid., p. 287.
15 EMEDIATO, Carlos. Ibid., p. 236/A.
dezembro 11th, 2007 at 09:03
Acho importante e necessário, principalmente hoje em dia, haver um diálogo entre ciência e Religião,pois são dois grandes pilares do conhecimento humano, perfeitamente relacionáveis e harmonisáveis.
dezembro 15th, 2007 at 10:03
Com razão William. A ciência por si só não consegue alcançar os ideais de um desenvolvimento social pleno, pois necessita da força impulsora de valores universais e fundamentais de respeito ao ser humano encontrados nos preceitos religiosos de todas as religiões. Estes preceitos de valorização do indivíduo, humildade, colaboração, altruísmo,entre outros , são, como você bem colocou, aspectos perfeitamente harmonisáveis com a ciência.
Ana Caroline.
Assistente do Programa Ciência Religião e Desenvolvimento
fevereiro 22nd, 2008 at 09:10
Gostaria também de frizar, que religião e ciência podem dialogar na vida do próprio cientista, desde que haja um relacionamento aberto, sem sectarismos das duas partes, pois a religião pode trazer bons valores afetivos, e a ciência nos traz um conhecimento indispensável se compreender a realidade, cabe lembrar que há correntes religiosas que valorizam o conhecimento científico, como é o caso do espiritismo e o budismo.
março 10th, 2008 at 12:03
Sim, prezado William, como você bem acentuou, os próprios cientistas deveriam reconhecer e partilhar das contribuições da religião, sem que nos apeguemos a rótulos, da mesma forma que os líderes espirituais e a comunidade também deveriam reconhecer e disseminar que a ciência trás inúmeros benefícios a sociedade em geral.
Outras ponderações acerca dessa dinâmica do compartilhamento do conhecimento, que tanto ciência como religião podem contribuir, encontra-se no artigo de Farzam Arbab, aqui neste mesmo blog. Segundo ele a difusão do conhecimento é o que gera nas pessoas a capacidade de mudança e a vontade de transformação desse modelo de desenvolvimento em que vivemos, voltado somente aos anseios econômicos e materiais, de modo que ele sugere a criação de “Centros de excelência” com a função de propagar o conhecimento junto á sociedade. Estimulando a busca por suas metas e não somente colocar-se em uma postura passiva de espera á iniciativa dos outros e do governo em resolver os problemas da comunidade, mas sim de articulação entre ciência e novas tecnologias com os sistemas tradicionais de conhecimento dessas populações, ou seja, respeitando suas experiências, crenças, costumes, muito do que nasce da prática da espiritualidade através dos sistemas religiosos.
Tais centros deverão reconhecer os talentos existentes em cada comunidade e fazer uso de suas competências em favor da mesma. E da mesma forma trazer especialistas para ajudar na implementação do conhecimento em áreas específicas, e daí nasce a necessidade da participação das universidades nessas atividades, a contribuição acadêmica somará grandemente a essa discussão.
O centros atuarão como um canal para que os diferentes segmentos do governo atinjam a comunidade, promoverão os interesses e soluções de problemas levando sempre em conta a participação dos membros da coletividade, principalmente os que tem sido excluídos do processo de desenvolvimento por todo esse tempo.
O objetivo é a propagação do conhecimento nas mais diversas parcelas da população, mas para além disso, sua função é a mudança de paradigmas, a estruturação de um conhecimento solidificado em fatores como a moral e a igualdade entre todos.
Em respeito ao pensamento espírita e budista acho excelente a sua lembrança. Pois os espíritas kardecistas, influenciados pelo positivismo -o qual exorta a experiência imediata, pura, sensível, como já fizera o empirismo- consideram sua doutrina uma ciência que tem como objeto de estudo o elemento espiritual e que a mesma é racional e sedimentada em observações científicas. Da mesma forma que o budismo tem como ensinamentos básicos: evitar o mal, fazer o bem e cultivar a própria mente de modo que a investigação, base da ciência, resulta no método de se descobrir a verdade.
Assim ciência e religião devem andar juntas compartilhando conhecimentos e experiências pela busca de um novo modelo de desenvolvimento focado no principal sujeito dessa temática, o ser humano.
Ana Caroline.
Assistente do Programa Ciência Religião e Desenvolvimento
março 22nd, 2008 at 11:59
Religião sem ciência é cega, ciência sem religião é manca
março 24th, 2008 at 13:20
Com toda razão William. Ambas se completam, nenhuma delas detém a verdade absoluta, precisamos ter discernimento e buscarmos a cada dia novas experiências.
A ciência, quando bem entendida, só tende a nos favorecer. Assim como a religião, se bem compreendida, dá à ciência seu verdadeiro sentido. Cada uma delas tem a sua própria aplicação, pois todos nós deveríamos ser cientistas e religiosos, a fim de que estas não entrem mais em conflito, pois é exatamente desse combate que se derivam as maiores infelicidades que a humanidade já vivenciou até hoje.
Ana Caroline.
Assistente do Programa Ciência Religião e Desenvolvimento.
março 31st, 2008 at 10:47
Talvez a mais importante finalidade de aproximar ciência e religião, e a de mostrar que ao lado do progresso intelectual que a ciência oferece,a religião abre o caminho para a afetividade,ensinando valores essenciais para a nossa vida,para o nosso relacionamento com outros, ensinando valores como o perdão baseado no mais importante dos sentimentos que é o amor a Deus amando o próximo, mensagem essa, presente em todas as religiões
abril 3rd, 2008 at 12:18
Com certeza, William Oliveira. O caminho da ciência é o da análise, que constela duas funções psíquicas, a do pensamento e a da sensação. A via da espiritualidade, essência da religião, é o da síntese, envolvendo o diálogo do sentimento com a intuição. Quando foi estabelecido um princípio equivocado e perverso de antagonismo entre estes dois hemisférios, o conhecimento se desvinculou do amor e da fraternidade.
É momento de reparar esta dissociação, através de uma visão integrativa. Estes caminhos são complementares, como as duas asas que um pássaro necessita para voar. Quando somos capazes de integrar e harmonizar estas quatro funções ou inteligências, surge uma quinta: a inteligência do Self. O corpo caloso, que faz a ponte entre nossos hemisférios cerebrais, pode representar uma metáfora desta possibilidade, que os antigos denominavam de Chifre do Unicórnio. O futuro da humanidade depende desta metanóia da consciência, uma Aliança entre a ciência e a consciência, entre o Ocidente e o Oriente, entre o mundo da quantidade e o da qualidade, entre o masculino e o feminino, entre a matéria e a Luz. Em marcha!
Roberto Crema
abril 19th, 2008 at 06:58
Gostaria também de parabenizar o site por esse grande e imenso trabalho que é estabelecer um bom diálogo entre esses grandes ramos do conhecimento humano que são a ciência e a religião, que são tão vitais para o ser humano.
abril 21st, 2008 at 09:55
Meu parabéns, ótima matéria exelente, condiz com que eu imagino, pois faço licenciatura em História e bacharel em teologia e estou pesquizando neste sentido e estou maravilhado, sque Deus te abençoe mais ainda.
Atenciosamente, Francisco Paulo de Souza
abril 24th, 2008 at 10:45
William, nós que agradecemos a sua constante participação e contribuição com seus comentários sempre tão coerentes. Pensamos que é exatamente assim, através do debate e compartilhamento de conhecimentos que esse dialogo ganhará forças.
Cordialmente,
Ana Caroline.
Assistente do Programa Ciência Religião e Desenvolvimento
abril 24th, 2008 at 10:51
Prezado Francisco,
Ficamos enormemente felizes que tenha gostado do nosso trabalho. Além do blog nós buscamos parcerias com ONGs e universidades para a promoção de debates e seminários sobre o tema, acreditamos que as instituições de ensino superior são grandes campos onde esses ideais poderão ser germinados. De modo que seria interessantíssima a expansão do debate e que divulgasse o site aos seus colegas de classe, para que eles assim como você também possam se maravilhar lendo os textos de pessoas tão capacitadas como os autores dos artigos do blog.
Cordialmente,
Ana Caroline.
Assistente do Programa Ciência Religião e Desenvolvimento.
maio 22nd, 2008 at 07:51
Gostaria de saber se;
Existi relaçao entre ciência e espiritualidade?
agosto 28th, 2008 at 04:57
ola,
estou fazendo uma pesquisa escolar e gostARIA MUITO QUE VCS ME AJUDASEM EM:
DESENVOLVIMENTO,COMCLUSAO,BIOGRAFIA,INTRODUÇAO DA RELIAGIAO E CIENCIAS OK
MUITO OBRIGADA
JENNIFER MUNIZ.
setembro 3rd, 2008 at 10:37
Cara Jennifer lhe enviei o material necessário via e-mail.
Um abraço.
Lorayne - Assistente do Projeto Ciência, Religião e Desenvolvimento.
setembro 25th, 2008 at 14:18
Recebi o material enviado pela Lorrayne e o levei para estudo e reflexõ em nossa pequena capela anglicana em Curitiba. Os retronos que recebi de várias pesoas foi positivo. A inciativa de vocês está de acordo com nossa visão, com a visão do futuro. Fazer da religião e da ciência (ambas tem um substrato messiânico: gerar o novo Ser) companheiros é o caminho do futuro; a religião assim superará o dogmatismo e fundamentalismo exlusivista. A ciência ganhará alma e uma ética ensinada pelas Grandes Luzes. Parbéns pela iniciativa.
novembro 20th, 2008 at 11:30
É fantástico o conteúdo deste debate envolvendo ciência, religião e desenvolvimento. Estou lendo o material, porém estou encantado a cada página. Creio ser este o caminho para superação do paradigma iluminista de ciência que negligenciou a religião, colocando-a sobre o manto das trevas. Contudo, a história demonstrou que a ciência positivista iluminada e a religião do obscurantismo, ambas não resltaram em felicidade humana. A boa equação entre ciência, religião e desenvolvimento, quem sabe seja o paradigma da solidariedade humana a que tantos iluministas e misticos religiosos desejaram.
Lenivaldo Lima - Diretor Geral da Escola Quilombo dos Palmares e Membro da Coordenação do Forum Brasileiro de Economia Solidária.
novembro 26th, 2008 at 08:35
Prezado Lenivaldo,
Estamos afinados em nossa visão sobre o tema central do blog. Ciência e Religião são dois pilares do conhecimento humano indispensáveis e que movem a sociedade humana. E por quê a ciência neglicenciar a religião ou vice-versa?
O mundo caminha cada vez mais rumo ao desenvolvimento; pesquisas, tecnologias cada vez mais avançadas tendem a criar um novo contexto na sociedade atual. No entanto, há uma visão um tanto materialista de tal progresso social e econômico. Temos de encontrar um modelo de desenvolvimento capaz de levar a humanidade a tranqüilidade e propriedade que tanto buscamos.
O ser humano não se preocupa somente com as questões materiais e crescimento econômico individual; somos seres morais preocupados com a consciência e os propósitos espirituais, que tantas vezes as iniciativas sociais e econômicas tem negligenciado. Por isso, o critério econômico e material que guiam o desenvolvimento, deve ser ampliado também para as questões espirituais que dão sentido à natureza humana.
O civilização não precisa somente de um desenvolvimento material e econômico, é necessário mais um componente, que una, que dê valores morais que sejam compartilhados pela sociedade e direcione os seres humanos. Os princípios espirituais junto com a ciência, podem levar a uma maior possibilidade a mudanças duradouras, não só individuais, mas coletivas. Para ser efetivo, o desenvolvimento precisa voltar-se diretamente para a vida interna e para o caráter dos seres humanos, como também para a organização da sociedade. Um desenvolvimento com propósito de transformação social que tenha enraizadas sementes como a cooperação, a compaixão, a retidão de conduta e a justiça; transformações que permearão todos os aspectos do relacionamento que dirigem a atividade humana.
O avanço do bem estar-estar material somente decorre quando há a aplicação concreta dos preceitos espirituais como eqüidade, fidelidade e altruísmo.
Como você mesmo citou, a ciência já tanto negligenciou a religião e quantas guerras, tantas desigualdades e sofrimento fazem parte da história da humanidade. A ciência e a religião não precisam ser conflitantes entre si. A ciência tanto contribui para os avanços da sociedade, mas que se mal usada e colocada, pode causar tanta destruição. A colaboração entre ciência e religião, pode contribuir com seus valores, a melhorias e bom uso de todo conhecimento científico para um desenvolvimento justo e de bem-estar.
E como ciência e religião podem contribuir para esse desenvolvimento tão sonhado? A educação é mais do que importante.
A educação deve esforçar-se para desenvolver um conjunto integrado de capacidades - técnicas, artísticas, sociais, morais e espirituais - de forma a que as pessoas possam conduzir vidas com um propósito bem definido e tornar-se agentes de uma transformação social positiva. É a criação de currículos e metodologias adequados que estimulam tais capacidades inter-relacionadas, que exigirá uma parceria efetiva entre a ciência e a religião.
O desenvolvimento tecnológico deve refletir nas necessidades básicas dos povos do mundo. As políticas tecnológicas dos governos raramente dão atenção explícita às exigências sociais e ambientais, enquanto que as políticas voltadas a estas duas áreas raramente levam em conta as oportunidades tecnológicas. Um primeiro passo importante nessa direção é estimular a compreensão e o respeito à base de conhecimento existente em uma comunidade ou cultura. Se o comprometimento espiritual e o princípio moral constituírem o caráter subjacente dos princípios da vida comunitária, as descobertas científicas e as inovações técnicas serão utilizadas de forma a servir para enriquecer a experiência individual e coletiva.
A boa governança também é essencial para o desenvolvimento. Uma forma eficaz de governar é necessária se as comunidades devem manter seu equilíbrio, direcionar-se corretamente nas dificuldades, e responder criativamente aos desafios e às oportunidades que se encontram diante delas. E a justiça é o único instrumento que assegura que o acesso e as oportunidades sejam eqüitativamente distribuídos.
Assim, ” a tarefa de construir uma sociedade global justa e pacífica deve envolver todos os membros da família humana.”
Por isso, buscamos parcerias com diversas instituições para que essas idéias possam ser disseminadas. Há várias formas de participação, desde a distribuição de folders, como realização de seminários internos, grupos de estudos e também contribuir com suas idéias no documento Síntese Brasileiro que você encontra no blog. Continuemos nosso diálogo e encontremos os caminhos para uma colaboração mútua.
Um abraço cordial,
Lorayne Oliveira
Assistente do Projeto Ciência, Religião e Desenvolvimento.
Fone: (61) 3364 3594 Fax (61) 3364 3470
janeiro 29th, 2009 at 13:38
Gostaria de iniciar a exposição com a seguinte máxima: ‘Não há nada que se alcance pela fé que não se possa alcançar pela razão’. Dito isso, partamos para argumentos pontuais acerca das afirmações presentes neste site.
1. É de se estranhar que apenas opiniões eivadas pelo sentimento religioso figurem, até o momento, entre os posts desta página. Se atentarmos bem para as questões postas, inclusive pelos autores do relatório brasileiro, identificaremos uma tendência da Religião em tentar se legitimar por meio da Ciência. Sendo o conhecimento científico a materialização da racionalidade humana e o azimute da verdade no mundo atual, ao afirmarmos que “Devemos usar a racionalidade para ressignificar o papel da religiosidade e conferir um sentido mais profundo aos ritos…” estamos nada mais que submetendo a Religião à “…ditadura da ciência: o que tem valor, o que não é subdesenvolvido, o que faz sentido é a verdade da ciência…”. Este tem sido um ponto comum no debate Ciência x Religião. Ironicamente, sem perceber, aqueles que defendem uma comunhão/complementaridade entre esses dois campos do saber humano tem atribuído à Ciência um papel protagonista e à Religião um papel coadjuvante na explicação da existência, uma vez que é a abordagem racional, científica que é sempre invocada como legitimadora daquilo que foi previamente produzido pela fé, numa descaracterização da própria identidade do conhecimento religioso: a crença em algo que, por princípio, não possui explicação racional, não necessita de prova material de existência e possui plenos poderes para realizar obras imponderáveis e racionalmente impossíveis, ou seja, Deus (ou deuses). Não há registro de trabalhos científicos sérios que invoquem a crença no divino, no sobrenatural como pré-requisito à fundamentação de seus achados, mas são inúmeras as produções literárias que tentam vincular as verdades religiosas a um método ou achado científico. Ou seja, o conhecimento científico se basta. Aquilo que ele não explica (ainda) é aceito como dúvida e objeto de estudo e, ainda que hajam hipóteses explicativas que busquem preencher o vazio produzido, essas são tidas como POSSÍVEIS respostas e passíveis de refutação. Os preenchimentos dessas lacunas com respostas definitivas e absolutas ficam ao encargo do senso comum e da Religião, mas não sob solicitação da Ciência, que apenas se resguarda no direito de silêncio temporário e refletido, aceitando a existência da dúvida como um motor do conhecimento, entendendo que, parafraseando Kant, a inteligência é medida pela capacidade em conviver com as incertezas.
2. “Apesar de não conseguirmos apreender a realidade de forma completa apenas com o uso da razão” e, consequentemente, pela Ciência, isso também não é possível por meio de qualquer outra forma de conhecimento, seja filosófico, artístico, teológico ou vulgar. Mas foi pela própria razão que se chegou a tal conclusão e não por outros atributos da mente humana, tais como a sensibilidade ou a espiritualidade.
3. “O mau uso da ciência e da racionalidade pode ser tão perigoso quanto o extremismo religioso…”, se é “…com o uso da razão que o radicalismo religioso é questionado”, é a partir de valores morais alicerçados no pensamento religioso que o racionalismo frio da Ciência, no qual os fins justificam os meios – estes, muitas vezes, cruéis e desumanos –, é colocado em xeque e obrigado a rever suas diretrizes. Contudo, é relevante observar que o racionalismo estéril e desumano da Ciência - ou mesmo da Religião enquanto instituição social - não representa uma atitude racional de fato, mas tão somente um arremedo ideológico do conceito de razão (e de Ciência) com fins de afirmação do poder político ou econômico no contexto em que se produziu o evento. A razão (e a Ciência), em sua dimensão conceitual, deve primar pelo respeito à vida e ao direito de bem viver, não em decorrência de uma moral religiosa ou sensibilidade espiritual, mas porque o desrespeito à vida e ao direito alheios, em menor ou maior medida, em maior ou menor prazo, irá se refletir sobre todos os seres existentes, humanos e inumanos, uma vez que compartilhamos um mesmo ambiente sócio-cultural ou natural, um mesmo espaço físico (em sentido amplo ou restrito), necessidades semelhantes de sobrevivência, e nossas ações, ainda que de forma imperceptível a olhos desatentos ou menos acostumados a contemplar a realidade numa perspectiva da totalidade, do global, estão direta ou indiretamente relacionadas. Redigo, esta afirmação não se encontra assentada no plano da metafísica ou do sentimento de fraternidade e desejo união dos povos, mas na lógica dos fatos, em sua análise racional e nas evidências que já se nos apresentam.
4. A Ciência (e, por conseguinte, a racionalidade) deve se configurar não como uma instituição social estabelecida ou instrumento de dominação e legitimação do poder, mas sim como uma atitude perante a vida, uma visão de mundo, uma forma de se portar diante do conhecimento e das experiências pessoais e coletivas que nos instigue a buscar respostas despidas de fantasias e dogmatismos, novas narrativas, ainda que iluminadas por um paradigma que, invariavelmente, irá ruir sob a crítica severa do próprio pensamento científico que o criou, em um movimento de interminável questionamento retroalimentado. Nesse contexto, a humildade da Ciência está em aceitar, como dúvida produtiva, aquilo que não consegue explicar, para o qual não gerou ou coletou evidências suficientes a uma afirmação provisória, aproximada, mas consistente e coerente. A humildade não consiste em invocar elementos do sobrenatural, do metafísico para preencher as lacunas deixadas por sua própria incompletude como ferramenta explicativa. Nem em aceitar passivamente tais elementos como uma explicação concreta, definitiva ou não, para questões ainda vagas, apenas porque enseja-se apoiar o reconhecimento acadêmico, social, cultural e/ou psicológico desses elementos.
5. “A espiritualidade dá respostas em um outro nível de explicação…”, podemos entender esse nível como referente à necessidade do ser humano em preencher lacunas, em buscar conforto para seus anseios e angústias diante das incertezas sobre o futuro ou mesmo o presente. Uma necessidade diretamente relacionada ao instinto de sobrevivência característico do homem: explicar para entender e dominar, o que, na esteira da seleção natural, nos garantiu supremacia em relação a outros animais na disputa por alimento e segurança. Ainda que o pensamento mítico apresentasse explicações, por vezes, estapafúrdias, ainda assim eram explicações que permitiam ao ser humano certo controle sobre o ambiente e adversários. A Ciência não ampara sentimentos desse quilate, ao menos não da forma como o faz a Religião. O ser humano, confrontado com a finitude da vida, a insignificância perante os eventos da natureza, as injustiças sociais e as dificuldades pessoais, aparentemente, intransponíveis e inexplicáveis por meio dos recursos cognitivos e tecnológicos disponíveis, recorreu, e ainda recorre, a alternativas explicativas que atendam sua necessidade de respostas, ainda que estas se apóiem na criatividade fantástica e se deem à revelia de evidências concretas ou mesmo neguem tais evidências quando contrárias às suas postulações. Por esse caminho são construídos os artigos da fé, contudo não podemos afirmar que tais construções se deram (ou se dão) à margem da razão, em que pese o fato da crença a posteriori prescindir de tal recurso cognitivo em níveis elevados. Tentativas de explicação, em qualquer modalidade que ocorram, irão recorrer aos atributos da razão e da lógica na estruturação de seu discurso. O que se constitui como elemento diferencial entre Ciência e Religião não é, necessariamente, a ausência de processos lógico-racionais na produção de seus argumentos, mas o nível da relação razão-emoção aplicada nessa produção e a maior ou menor possibilidade de julgamento de suas proposições segundo os critérios de verdade semântica, sintática e pragmática ou conforme as emanações de escrituras sagradas e verdades reveladas. Ou seja, devemos entender o intervalo entre Ciência e Religião como uma linha descontínua extremada por cada um desses conceitos (Ciência e Religião) e em cuja “tessitura” são produzidas as afirmações, que serão melhor julgadas por critérios veritativos relativos a campos de conhecimento próprios, sendo invalidados ou fracamente avaliadas por critérios inadequados ao seu objeto. Descontínua porque, apesar da abordagem mítico-religiosa da realidade ter fomentado o nascimento do pensamento científico por representar um esforço cognitivo do ser humano em explicá-la a partir dos recursos disponíveis, tais formas de explicação não apresentam uma continuidade entre si, não se convertem naturalmente uma na outra, mas tão somente fazem parte de um mesmo processo de apreensão da realidade, ainda que por métodos dissonantes e segundo critérios contraditórios.
6. “A espiritualidade tem o papel de construir valores comuns para a sociedade…dando um sentido mais profundo à vida…”, contudo, não podemos entende-la como a única ou melhor forma de se construir isso. Talvez seja, sim, a mais fácil por lidar com elementos que prescindem da racionalidade para sua validação como verdade (a razão estaria presente, apenas, na construção do argumento e das estratégias necessárias à transmissão e legitimação do conhecimento, ou seja, uma ferramenta de convencimento pela qual seria estruturada uma narrativa coerente aos ouvidos mais propensos à aceitação e à crença). Como já mencionado, anteriormente, pela razão se é plenamente possível construir valores morais tão ou mais eficientes no que diz respeito à necessidade de dar sentido à vida, bastando para isso que o homem compreenda e aceite sua finitude, o que demandará um alto grau de amadurecimento emocional e autonomia intelectual. Conquistado este status para o homem, Deus morrerá, principalmente se considerarmos que muitas das características biológicas, geneticamente determinadas, uma das quais nos tornou seres espirituais, e destinadas à autopreservação da espécie, já não são tão necessárias no ambiente em que vivemos hoje e estão desaparecendo como resultado da contínua evolução animal. Portanto, não seria absurdo dizermos que o ateísmo pode ser o próximo passo evolutivo da humanidade, acreditem os religiosos ou não no evolucionismo.
Prof. Msc. Walner Mamede Jr
Professor de Metodologia Ciência
Analista em Ciência e Tecnologia/CAPES
walner.junior@capes.gov.br
junho 6th, 2009 at 19:22
Participei da mesa-redonda em que foi discutido o documento síntese, na cidade de Curitiba. Em minha palestra, apresentei uma série de críticas ao conteúdo do documento, cujas análises e propostas se inspiravam, quase sempre, num pensamento de esquerda pós-modernista que, muito embora se apresente como democrático e defensor da diversidade cultural, é, na verdade, autoritário, preconceituoso e intolerante.
Não é o caso de reproduzir aqui todas as críticas que teci contra o texto e os questionamentos que foram feitos à minha fala durante a sessão de debates, já que isso implicaria elaborar um artigo muito longo. Meu objetivo é questionar apenas um dos argumentos expostos pelo professor Iradj Roberto Eghrari na ocasião.
De fato, a primeira crítica que lancei contra o referido documento é a de que existem pesquisas internacionais que contestam frontalmente uma afirmação feita logo em sua seção introdutória (conforme ainda se lê acima), qual seja, a de que estamos vivendo o século do “aumento da pobreza mundial”.
Essa afirmação foi feita sem qualquer referência às fontes que a justificariam, de modo que eu citei dados que demonstram justamente o contrário. De 1981 a 2005, o número de habitantes de países em desenvolvimento que vive com menos de 1,25 dólares por dia, a preços de 2005, caiu de 1,9 bilhões para 1,4 bilhões. Assim, com o grande aumento da população desse conjunto de países no período em foco, o percentual de pobres foi reduzido de aproximadamente 50% para 25%. Uma pesquisa um pouco mais antiga, que fixa a linha de pobreza em um dólar por pessoa por dia, indica que, de 1984 a 2004, o percentual de pessoas vivendo nessas condições nos países em desenvolvimento foi reduzido de 33% para 18%.
Ora, um dos argumentos apresentados pelo professor Iradj no debate que se seguiu foi que a divulgação desse tipo de pesquisa pode levar as pessoas a uma posição de comodismo, isto é, pode levá-las a não atuar politicamente em prol de avanços sociais pelo fato de acharem que tudo já está sendo resolvido. Não rebati esse argumento em particular durante os debates, posto que havia muitas outras ideias a serem refutadas e discutidas. Contudo, é o caso de indagar: será ético um pesquisador e professor ocultar informações da opinião pública (e, portanto, dos seus alunos) com o argumento de que eles devem ser induzidos a atuarem politicamente? Não será essa uma forma de manipulação inaceitável para profissionais que devem ter o compromisso de fazer ciência e divulgar conhecimento?
Temos aí um problema ético que ganha maior dimensão se o pesquisador se eximir de dizer o que as estatísticas mostram mesmo quando lê um estudo acadêmico no qual se afirma categoricamente estar havendo “aumento da pobreza mundial” mesmo sem a apresentação de qualquer comprovação empírica. Nesse caso, um pesquisador que se omitir não estará apenas sonegando informações para induzir as pessoas a agirem politicamente, mas colaborando com um engano ou talvez com uma mentira deliberada!
Conforme eu defendi na referida mesa redonda, mentir é, até certo ponto, aceitável quando se trata da luta política, visto que os militantes de partidos, ONGs, sindicatos e “movimentos sociais” usam da retórica para advogar em defesa de certas causas políticas, sociais e ambientais. A retórica é um tipo de discurso que visa alcançar objetivos práticos, de sorte que é da sua natureza elaborar argumentos e selecionar evidências de modo a convencer as pessoas da justeza do objetivo em pauta. Mas um cientista social não pode trabalhar com a retórica! A missão do pesquisador não é ser advogado de causas, mas sim advogado da “verdade”. Se a arma dos militantes é a retórica, a função do pesquisador é produzir conhecimento com base num compromisso estrito com a coerência do discurso e com a apresentação de evidências que sustentem todas as suas afirmações. Por esse motivo, também não cabe ao professor selecionar informações com vistas a induzir os alunos a agirem como ele deseja, mas sim transmitir a eles conhecimentos científicos. E se é verdade que existem teorias antagônicas para a explicação dos fenômenos (sobretudo nas ciências sociais), isso significa que o professor deve apresentar essa diversidade teórica aos alunos para permitir-lhes refletir autonomamente sobre cada teoria, ao invés de sonegar evidências com o fim de induzi-los a aceitar uma delas.
É claro que, a essas considerações, alguém poderia objetar que o professor Iradj não estava propondo induzir as pessoas a aceitar esta ou aquela teoria ou ideologia, mas apenas omitir informações sobre os avanços sociais ocorridos para levá-las a agir politicamente, sem se importar quais seriam as opções políticas de cada pessoa. Todavia, esse argumento seria incorreto por dois motivos. O primeiro é que, se as pessoas acreditarem que a pobreza mundial está aumentando, quando na verdade está havendo o contrário, é óbvio que serão induzidas a aceitar como corretas as teorias e ideologias que lançam os ataques mais radicais ao “capitalismo globalizado”, ao “neoliberalismo” ou ao “modelo ocidental de desenvolvimento”. O segundo motivo é que, se as pessoas pensarem que a ampliação do comércio internacional e outros processos associados ao contexto da globalização prejudicam a maior parte da humanidade, tenderão a apoiar propostas políticas que visem restringir esses processos que têm permitido tirar centenas de milhões de pessoas da pobreza, bloqueando ou até revertendo tal benefício. Isso significa, literalmente, manipular a opinião pública para que ela dê apoio a certas políticas que podem ser um tiro no pé!
Pesquisadores e professores só prestam uma contribuição original aos debates públicos quando se recusam a fazer retórica para defender causas e se concentram no esforço de produzir conhecimentos tão objetivos quanto possível. O uso de métodos tidos como adequados não dá garantias absolutas de que os enunciados científicos são de fato objetivos e neutros em relação a valores e interesses, mas a objetividade e a neutralidade têm de continuar existindo como compromissos que o cientista assume quando elabora e aplica seus métodos de pesquisa. A principal função dos acadêmicos ao participarem dos debates públicos é corrigir as mentiras sempre que elas forem enunciadas, sem se importar com quem as enuncia e nem com quais são as causas por trás das mentiras.
Fontes:
CHEN, S.; RAVALLION, M. The developing world is poorer than we thought, but no less successful in the fight against poverty. The World Bank, Development Research Group, ago. 2008 (Policy Research Working Paper, 4703). Disponível em: Acesso em: 04 mar. 2009.
FERREIRA, F. H. G; LEITE, P. G.; RAVALLION, M. Poverty reduction without economic growth? Explaining Brazil’s poverty dynamics, 1985-2004. The World Bank, Development Research Group, dec. 2007 (Policy Research Working Paper, 4431). Disponível em: Acesso em: 04 mar. 2009.
outubro 5th, 2009 at 01:36
O professor Sylvio Fausto Gil Filho, meu amigo e colega de Departamento, escreveu-me para manifestar sua preocupação com as críticas que eu fiz ao professor Iradj no comentário acima. Ele acha que o meu texto pode sugerir que eu esteja fazendo críticas pessoais, chamando o professor Iradj de mentiroso, ou algo assim. Minha intenção não era essa, mas, se o Sylvio avaliou que o texto pode dar margem a esse tipo de interpretação, achei por bem fazer um comentário explicativo adicional (tentei fazer isso outras vezes, mas havia um problema na página).
Assim, cabe dizer que, como afirma o filósofo Roberto Romano, a diferença entre moral e ética é que a primeira é um conjunto de regras que regula o comportamento do indivíduo em sua vida privada, ao passo que a ética rege o comportamento de grupos, como ocorre, por exemplo, nos códigos de ética profissional. É por isso que, no meu texto, usei sempre a palavra “ética”: porque a minha intenção era apenas debater a questão da conduta que os cientistas e professores devem assumir ao participarem dos debates públicos, o que nada tem a ver com o comportamento deste ou daquele acadêmico no âmbito de sua vida privada. Não se trata, pois, de críticas pessoais, mas de um debate sobre as relações entre ciência, ética e política.
Realmente, um dos princípios fundamentais do positivismo é o da neutralidade do método, segundo o qual existe uma distinção bastante clara entre fatos e valores, devendo o cientista produzir conhecimento pautando-se unicamente pela análise factual. O marxismo e as correntes pós-modernistas refutam essa visão, pois afirmam que as relações de poder permeiam todos os discursos e todas as condutas, inexistindo um conhecimento científico que seja completamente neutro. Ora, eu concordo que, nas ciências sociais, não existe um método que garanta a capacidade de produzir conhecimento sem qualquer influência de valores políticos, sociais e culturais. Todavia, mesmo no âmbito do marxismo e de outras correntes intelectuais críticas da sociedade capitalista (como é o caso do documento-síntese, que ataca o capitalismo explicitamente) a questão da neutralidade ética se impõe, como defende o sociólogo marxista José de Souza Martins. Segundo ele, o intelectual não pode assumir a defesa apaixonada deste ou daquele “movimento social” na suposição de que certos grupos, unicamente por terem discursos ou pautas de reivindicação anti-capitalistas ou anti-globalização, estejam automaticamente certos. Mesmo para um marxista, impõe-se o dever ético de avaliar criticamente as pautas e reivindicações desses grupos, apontando seu potencial progressista, se houver, mas também os seus limites e elementos regressivos.
De modo análogo, acrescento eu que os pesquisadores e professores, mesmo quando críticos do capitalismo, não podem se furtar de reconhecer os avanços sociais inequívocos que estão sendo alcançados no contexto da globalização, como mostram os indicadores de pobreza que eu mencionei e também os dados do PNUD sobre o IDH. O argumento de que é preciso mostrar somente o lado ruim das coisas para motivar as pessoas a agirem politicamente também não é válido, pois essa é a função do militante partidário, sindical ou de ONG, não do intelectual. Além do mais, se as pessoas tiverem uma visão parcial das coisas, é óbvio que serão induzidas a aceitar propostas políticas ideologicamente orientadas, como argumentei em meu texto.
Enfim, se não temos um método que garanta a capacidade de produzir um conhecimento absolutamente despido de valores, por outro lado temos de manter o compromisso com a neutralidade e a objetividade das análises. Isso implica pensar em métodos científicos nos quais os resultados das pesquisas independam das convicções e valores do pesquisador tanto quanto for possível, ao invés de assumir que certos grupos sociais, somente por serem o que são, devem ter mais poder do que os outros para intervir nas políticas públicas. Essa é a discordância que eu tenho em relação ao professor Iradj e outros autores que participaram da elaboração do documento-síntese no que diz respeito às relações entre ciência, ética e política. Meu comentário anterior visava expor essa discordância, não fazer críticas de teor pessoal a quem quer seja.