Parte I - Alguns Pensamentos Sobre a Sociedade Brasileira

Ciência, Religião e Desenvolvimento - Perspectivas para o Brasil

Parte I

Alguns Pensamentos Sobre a Sociedade Brasileira

Uma Contribuição da Fundação para a Aplicação e Ensino das Ciências na Colômbia

Outubro de 2003

Este trabalho foi feito com a intenção de contribuir para as deliberações dos líderes de pensamento no Brasil, na definição dos rumos para esta nação. Seu objetivo é modesto. Apresentamos aqui apenas um conjunto de idéias que, se aceitas, poderão ser exploradas em detalhes e expandidas. Ao escrever este documento, fazemos referências a vários documentos internos da FUNDAEC, que refletem nossas próprias deliberações, como também ao documento “Promovendo um Discurso sobre Ciência, Religião e Desenvolvimento”, publicado no livro The Lab, the Temple and the Market, do qual são feitas muitas citações e referências.

Nossa decisão ao oferecer estas idéias nasceu da convicção de que as oportunidades e os desafios extraordinários que o povo brasileiro agora enfrenta exigem que o futuro da nação seja considerado em termos de dois imperativos: trazer prosperidade para a inteira população do país e contribuir de forma destacada para o desenvolvimento de uma emergente civilização global. Estes dois objetivos inter-relacionados demandam uma nova concepção, ainda a ser formulada, do desenvolvimento social e econômico do Brasil.

Décadas de experiência demonstraram que ampliar as vantagens de pequenos grupos - quase sempre às custas de outros - a fim de acelerar o crescimento econômico, não constitui uma estratégia sólida de desenvolvimento. Os ganhos assim alcançados raramente se mantêm com o passar do tempo. Em verdade, com freqüência conduzem à discórdia e a novos problemas. É igualmente aparente que uma estreita visão financeira e uma ingênua fé na tecnologia pouco fazem para aliviar a pobreza. O que é extremamente necessário é o desenvolvimento de capacidades nas pessoas de um país, a fim de se tornarem os verdadeiros protagonistas no processo de mudanças. O maior recurso para o desenvolvimento do Brasil é o seu povo. Este deve ser potencializado para levar avante suas responsabilidades individuais e coletivas, rumo à promoção dos objetivos fundamentais da sociedade brasileira.

Este trabalho propõe uma mudança nas prevalecentes concepções materialistas de desenvolvimento, as quais, achamos, já demonstraram sua incapacidade para diminuir a pobreza no mundo. Não queremos dizer que grande importância não deva ser dada à multiplicação dos meios materiais. Tal mudança sugere, ao contrário, que as estratégias de desenvolvimento devem se focar em seus protagonistas - a inteira população do Brasil - para assegurar que os sistemas e os processos venham servir a sua potencialização final. Geração, aplicação e disseminação do conhecimento, argumenta-se, devem estar no âmago dos processos de mudança. O seguinte trecho de The Lab, the Temple and the Market explica nosso pensamento:

O materialismo, seja convenientemente definido ou oculto em conclusões implícitas, tem pouca chance de sobreviver a não ser colocando a atividade econômica no centro da existência humana. De uma forma ou de outra, todos os outros processos de vida social terminam subordinados a esta atividade, derivando dela a maior parte da importância das contribuições que fazem à criação do conforto material e da riqueza. Especificamente, o conhecimento, muitas vezes confundido com informação, utiliza muito de seu valor do enorme potencial que tem para direcionar o progresso econômico.

Uma afirmação alternativa é que um consenso geral que confirma as dimensões espirituais de consciência deveria considerar a geração e aplicação do conhecimento como o verdadeiro processo essencial à existência social. Evidentemente, a criação da riqueza e sua distribuição eqüitativa continuariam a ser indispensáveis. Porém, a atividade econômica não seria vista como um fim em si mesma. Além da atenção às necessidades de sobrevivência, estaria preocupada com a multiplicação dos meios através dos quais a humanidade poderia trabalhar visando metas com propósitos mais elevados.

Que a geração e a aplicação do conhecimento integram o processo principal através do qual as comunidades são potencializadas para se transformarem e contribuírem para o progresso material e espiritual da civilização não é mera expressão de ideais elevados. O conceito dá margem a um conjunto de idéias que podem ser traduzidas em diretrizes, programas e projetos específicos. O que se faz necessário é um contínuo, vigoroso e sistemático processo de consultas, baseado em discernimentos de um, cada vez mais amplo, círculo de participantes, com o objetivo de chegar a um consenso, visando levar rapidamente a vários passos adicionais. Esses passos incluem a exploração de conceitos básicos, a definição das áreas principais de ação e a identificação das mudanças necessárias nas estruturas e nos sistemas vigentes. A mobilização de recursos e o lançamento de programas de ação complementares deverão ocorrer em seguida. Idealmente, tais programas criam a dinâmica de um processo de aprendizagem que traz à tona a participação da inteira população brasileira.

1. Explorando os Conceitos Centrais

A tese apresentada neste documento é que as diretrizes que efetivamente respondem a estes imperativos gêmeos da nação brasileira - trazer prosperidade para sua inteira população e possibilitar distinta contribuição para uma emergente civilização global - poderiam se basear em grande parte nos sistemas complementares de conhecimento: o primeiro, a ciência, o segundo, um vasto sistema de conhecimento a cerca da dimensão espiritual da existência humana, a qual se manifesta num rico e variado conjunto de valores e crenças que juntos formam a herança de toda a espécie humana.

Além das considerações sobre os conceitos subjacentes a esses dois sistemas, como um primeiro passo em busca de um consenso sobre a direção para a qual a sociedade brasileira deve ser orientada, a natureza do próprio processo de desenvolvimento precisa ser examinada. Neste sentido, organizamos esta breve visão geral dos princípios básicos em três tópicos.

Desenvolvimento

Existem muitas definições de desenvolvimento e, inquestionavelmente, cada uma delas oferece discernimentos da natureza deste complexo processo. A perspectiva que propomos - que reconhece a natureza espiritual do ser humano e, ao mesmo tempo, enfatiza a completa utilização do conhecimento e dos métodos científicos - tem como seu foco principal a construção da capacidade do indivíduo, da comunidade e das instituições da sociedade em todo o país. A seguinte passagem, retirada de The Lab, the Temple and the Market, baseada na convicção de que a humanidade se encontra no limiar de sua maturidade coletiva, provê um modelo dos itens que uma exploração completa do assunto exige que sejam tratados:

Se aceitarmos que o desenvolvimento deve ser configurado pelas exigências da transição da vida humana, de sua infância coletiva para a maturidade coletiva, precisamos reconhecer que, no processo, a criação conceitual de blocos de culturas e ideologias deve passar por mudanças profundas de significado. A lista de termos a serem redefinidos é longa - homem, mulher, jovem, trabalho, ócio, riqueza, honra, lealdade, liberdade, nação, estado, governo etc. Particularmente urgente é a tarefa de repensar conceitos do indivíduo e da comunidade e a relação de cada instituição que tornam possível a vida organizada no planeta.

Aqueles que, em meados do século vinte, encontraram no desenvolvimento um campo distinto de esforço, estão convencidos de que o mundo era essencialmente povoado por dois tipos de indivíduos. De um lado, foi colocada a vasta maioria da humanidade, cujas pessoas, dependendo da oportunidade, seriam consideradas como atrasadas, letárgicas, presas em tradições, limitadas pelas demandas da extensão familiar e da comunidade, dirigidas por tabus, contentando-se com muito pouco e carecendo de iniciativas. De outro lado, situam-se “os homens modernos” - e eram homens - enérgicos, ativos, trabalhadores, disciplinados, automotivados e racionais. O desenvolvimento objetiva mudar, gradualmente, o primeiro neste segundo grupo. Cinqüenta anos mais tarde, o pensamento sobre os habitantes do planeta tornou-se algo muito mais sofisticado e a maior parte da forma de conduta do homem moderno ficou sujeita a um severo questionamento. O individualismo incontido passou a representar um problema assustador para a sociedade e para a natureza, um liberalismo excessivamente auto-confiante provou ser um terreno fértil para o crescimento do desespero e da confusão. A necessidade de um entendimento mais claro sobre os direitos e responsabilidades do indivíduo tornou-se uma preocupação geral.

Mantendo tais pontos de vista bem definidos sobre o indivíduo, os primeiros pensadores do desenvolvimento mostraram notável ambivalência sobre a noção de comunidade - mas, até então, o conceito havia estado em crise por décadas no Ocidente, e seu papel e sua natureza no mundo moderno não estavam bem definidos. Assim, a despeito dos esforços heróicos de uma variedade de programas, a vida comunitária se desintegrou e as estruturas tradicionais da sociedade desabaram, sem serem substituídas por instituições capazes de manter a comunidade unida. Por algum tempo, parecia que pequenas comunidades, especialmente aquelas em áreas rurais, estavam destinadas a desaparecer e que a única opção aberta aos seres humanos era viver em cidades superpopulosas e estagnadas. Então, subitamente, os avanços extraordinários na tecnologia da comunicação nos anos recentes começaram a introduzir elementos inesperados no quadro. A necessidade de centralizar, característica da industrialização do passado, rapidamente diminuiu a ponto de tornar possível afirmar que uma comunidade relativamente pequena, se levada a participar de um esforço coletivo e conectada globalmente a um enorme reservatório de informações, podia ser uma alternativa viável para um número cada vez maior de pessoas. É evidente que o conceito de comunidade também precisa de redefinição.

O papel do indivíduo e a natureza da comunidade que pode reunir os indivíduos em uma ação coletiva ao nível local, são importantes elementos dentre os conceitos básicos que precisam de definição. A organização de tais comunidades e o direcionamento de suas energias para acelerar a transformação social, no entanto, exigem um reexame profundo dos conceitos de autoridade e poder. Especificamente, as noções prevalecentes de poder, associadas à adolescência da humanidade, precisam dar vez a uma consideração madura daqueles atributos do indivíduo e da comunidade local que os potencializam a realizar, sob o impulso do espírito humano, as tarefas decorrentes do propósito comum de transformação da civilização. Novamente, The Lab, the Temple and the Market, enfatiza assuntos relevantes.

Para este conceito de poder tornar-se amplamente aceito, necessitamos de um novo entendimento do que significa exercer a iniciativa individual e sua participação nos empreendimentos coletivos. A iniciativa individual não é o mesmo que a busca de qualquer coisa que o coração deseje ou uma noção indefinida decorrente de alguma definição romântica de criatividade. Para ser frutífera e para evitar a alienação resultante de um individualismo irrestrito, a criatividade precisa ter disciplina e a iniciativa deve mover-se no sentido da unidade.

A disciplina precisa ser mantida pela força da convicção interior. Quando é imposta, somente conseguirá seus objetivos abafando o fogo da criatividade. No entanto, seria também incorreto ver a disciplina interna simplesmente como um produto da vontade individual. A alma humana manifesta seus poderes latentes ao aprender a submeter-se a uma autoridade superior, fundamentalmente a autoridade das leis materiais e espirituais que governam a existência. Essas leis são tratadas nos contextos da ciência e da religião. Entendê-las, não somente influencia a consciência individual, como também, dá significado à autoridade que a sociedade concede às instituições. Esta última é, em sua essência, a autoridade que canaliza os poderes do indivíduo e do grupo para alcançarem o bem comum, uma autoridade que muitas vezes excede seus direitos, degenerando-se no poder de controlar e manipular.

O conflito entre o indivíduo e as instituições da sociedade - um clamando sempre por maior liberdade e o outro demandando cada vez mais submissão completa - tem sido uma característica da vida política através dos tempos. O modelo de democracia vigorosamente propagado no mundo de hoje aceita naturalmente este estado de conflito, mas tenta fixar parâmetros afim de que os direitos individuais não sejam transgredidos no processo. Além de qualquer dúvida, a versão de democracia até agora alcançada é preferível aos sistemas despóticos de governo, aos quais a humanidade tem se submetido muitas e muitas vezes. Porém, o processo histórico de democratização não termina aqui, neste seu atual estágio de imaturidade; a interação entre a autoridade institucional para decidir e o poder individual de realizar apenas começou a se conscientizar de suas possibilidades. Melhores formas de organização e ação surgirão, mas somente quando as instituições cessarem de ser vistas como instrumentos de imposição à sociedade de pontos de vista de uma facção particular, seja democraticamente eleita ou não. Na extensão em que as instituições tornarem-se canais através dos quais os talentos e as energias dos membros da sociedade possam ser expressados a serviço da humanidade, um senso de reciprocidade crescerá gerando o apoio e ajuda dos indivíduos às instituições, e estas, por sua vez, prestarão atenção sincera à voz do povo a cujas necessidades servem.

A existência social, naturalmente, não pode ser reduzida a um intercâmbio de ações entre indivíduos e instituições. Estes somente podem existir e interagir em um ambiente do qual possam obter o sustento e a riqueza que precisam para poder melhor dedicar seus esforços pela vida. Assim, um novo entendimento de poder e autoridade terá implicações profundas para a natureza da vida comunitária daqui por diante. Sobre a comunidade apoia-se o desafio de prover condições às vontades individuais de se unirem onde os poderes sejam multiplicados, se manifestem em ações coletivas e onde possam surgir expressões mais elevadas do espírito humano.

É no contexto dos comentários acima que vemos a tarefa principal do desenvolvimento como agente de construção de capacidade. Construir capacidade implica fazer com que as pessoas manifestem seus poderes inatos de uma forma criativa e disciplinada, significa preparar as instituições para exercer a autoridade devida a fim de que esses poderes sejam canalizados para a elevação espiritual da humanidade e para desenvolver a comunidade a fim desta poder atuar como um ambiente que leve ao enriquecimento da cultura. O grande desafio diante desses três aspectos é aprender a utilizar os recursos materiais do planeta e os recursos espirituais e intelectuais da raça humana para o progresso da civilização.

Para se alcançar o grau de capacidade à altura de tão grandioso desafio, certamente, faz-se necessária uma enorme expansão do conhecimento. A preocupação fundamental em qualquer programa de desenvolvimento iniciado no Brasil, acreditamos, deve ser o direito de todos os seus cidadãos de não somente ter acesso à informação, como também de participar de forma integral na geração e aplicação do conhecimento.

Claramente, então, o processo de desenvolvimento que achamos adequado para o Brasil nada tem em comum com aqueles que tratam as massas como “subdesenvolvidas”, como recipientes passivos de pacotes de auxílio para a melhoria da saúde, educação e agricultura produzidos pelos “desenvolvidos”. A inteira população deve estar envolvida no processo de aprendizagem que forma a textura exigida por uma sociedade próspera.

Ciência

Os métodos da ciência possibilitaram à humanidade alcançar uma compreensão coerente das leis e dos processos que governam a realidade física e os afazeres da própria sociedade. Utilizando os métodos da ciência, as pessoas podem se tornar mais sistemáticas em seus enfoques para solucionar problemas e em seu entendimento dos processos sociais.

Propomos que uma questão fundamental e urgente, em qualquer tentativa de elaboração de uma visão de desenvolvimento de uma nação, é a determinação bem definida do papel da ciência na sociedade. Embora seja um assunto complexo e que demanda profunda elaboração, pelo menos três linhas de investigação são sugeridas para consideração imediata.

A primeira e mais urgente é o sistema vigente de pesquisa e desenvolvimento no Brasil. Tal sistema deverá, necessariamente, focar-se em dois temas principais: um, é o quanto este sistema poderá levar o Brasil à linha de frente das pesquisas nos vários campos do trabalho científico; o outro, o grau em que poderá servir às necessidades do povo brasileiro, ajudando a tratar de problemas específicos de comunidades bem definidas. Em muitas nações em desenvolvimento, esses dois objetivos são considerados mutuamente exclusivos, se não totalmente inatingíveis. Centros altamente sofisticados dedicados à pesquisa e ao desenvolvimento nas fronteiras da ciência moderna pertencem, quase que universalmente, àqueles países que conseguiram eliminar a pobreza e que podem se dar ao luxo de canalizar vastos recursos para a geração do conhecimento científico. O restante do mundo, enquanto isso, desenvolve sua capacidade científica na extensão necessária para tornar possível a transferência das tecnologias produzidas por este pequeno grupo de nações. A seguinte passagem, do documento The Lab, the Temple and the Market, descreve aspectos adicionais do problema:

Em sua maior parte, o que se conhece como conhecimento científico moderno é gerado em universidades e em centros especializados de pesquisas nos países industrializados. Réplicas dessas instituições no hemisfério sul participam deste processo somente em graus limitados. A maioria das pessoas no mundo recebe uma educação formal inadequada deste sistema de desenvolvimento e de elaboradas pesquisas, bem como, instruções de órgãos governamentais e de ONG’s sobre o uso devido de pacotes tecnológicos e uma variedade de cursos de curta duração sobre os muitos aspectos da vida moderna, na qual as massas da humanidade devem ser incorporadas. As pessoas são simultaneamente expostas à propaganda comercial, política e cultural de inumeráveis grupos e organizações que competem para obter sua atenção.

Achamos tal divisão do mundo totalmente inadequada. Toda nação, mais especificamente uma como o Brasil, que tem tão sólida infra-estrutura e tal riqueza de recursos humanos, deve considerar com urgência a criação de um sistema para ampliar suas pesquisas científicas e dinamizar seu desenvolvimento, criando uma rede de agências e instituições interconectadas. Tal sistema poderia abranger, de um lado, as agências devotadas às pesquisas do mais elevado nível, recebendo o necessário suporte financeiro do governo, para capacitar um corpo de cientistas que possam trabalhar lado a lado com seus colegas em outras nações e contribuir para o progresso do conhecimento, tanto no que tange às ciências naturais como as sociais e, de outro, aquelas instituições e agências engajadas na geração formal, aplicação e propagação do conhecimento junto às raízes da sociedade. Sendo que a função essencial da sociedade seria a pesquisa, a ação e a capacitação relacionadas a todos os aspectos da vida social, econômica e cultural das populações às quais servem. Como tal, não estariam envolvidas apenas em atividades meramente acadêmicas, mas suas pesquisas seriam realizadas com a participação das populações nos próprios locais onde concentram tais esforços, como produção agrícola e industrial, mercado, educação, socialização de valores e enriquecimento cultural. Uma instituição deste porte, conforme sugere o texto abaixo, estaria presente…

… em quase todos os níveis de ação social, acompanhando a população, sistematizando o conhecimento existente, gerando novos conhecimentos, incorporando os resultados do aprendizado sistemático em programas de educação formal e não-formal, provendo discernimento e uma perspectiva bem clara dos órgãos de tomada de decisão. O estabelecimento de tal instituição e a definição de seu modo de operar são componentes cruciais da criação de capacidades em qualquer região - um desafio que exige criatividade e habilidade de inovar. Os modelos tradicionais de uma já estagnante educação superior têm pouco a oferecer. Novos parâmetros precisam ser estabelecidos tanto para a pesquisa quanto para a ação. A meta é criar um espaço social, no qual cada tipo de estrutura - a fazenda, a fábrica, a escola - sirva como um centro dinâmico de aprendizado.

Para ser estabelecido tal sistema de pesquisa e desenvolvimento, certas exigências precisam ser atendidas. Claramente, um volume de recursos financeiros há que ser investido no empreendimento. Mais importante ainda, exige um novo entendimento sobre a verdadeira natureza da pesquisa científica. A seguinte passagem, de Jerome R. Ravetz, em seu famoso livro Conhecimento Científico e Seu Problema Social, dá uma indicação dos assuntos envolvidos:

A atividade da ciência natural moderna transformou nosso conhecimento e o controle do mundo à nossa volta; mas nesse processo acabou se transformando também; e suscitou problemas que a ciência natural sozinha não pode resolver. A sociedade moderna depende cada vez mais de produção industrial baseada na aplicação de resultados científicos; mas a produção desses resultados gerou uma grande e dispendiosa indústria; os problemas com a administração dessa indústria e o controle dos efeitos de seus produtos, é uma tarefa urgente e difícil. Tudo isso aconteceu tão depressa dentro da geração passada que essa situação nova e suas implicações, são ainda imperfeitamente entendidas. Abre novas possibilidades para a ciência e para a vida humana, mas também apresenta novos e até perigosos problemas. Para a própria ciência, as analogias entre a produção industrial de bens materiais e aquela de resultados científicos têm ambas utilidades próprias, mas também seus riscos. Como produto de uma atividade socialmente organizada, o conhecimento científico é muito diferente de um produto como o sabonete, por exemplo; e aqueles que planejam no campo científico negligenciarão aquela diferença por seu próprio risco. Também, há que se considerar que a compreensão e controle dos efeitos de nossa ciência, baseada na tecnologia, apresentam problemas para os quais, nem a ciência acadêmica do passado, nem a ciência industrializada do presente, possuem técnicas ou enfoques que lhes dêem solução. A ilusão de que há uma ciência natural, que permanece pura e separada de qualquer envolvimento com a sociedade, está desaparecendo rapidamente; mas tende a ser substituída pela redução vulgar da ciência a um ramo de comércio ou de indústria militar. A não ser que a própria ciência, humilhada e corrompida, tivesse suas realizações empregadas, com uma rapidez impetuosa, para provocar uma catástrofe social ecológica - é preciso haver uma compreensão renovada quanto à forma muito especial do trabalho, tão delicado e tão poderoso, prestado pela investigação científica.

Um segundo conjunto de assuntos que exigem atenção, em qualquer esforço que vise elaborar uma visão factível para o futuro do Brasil, diz respeito à natureza científica do próprio empreendimento de desenvolvimento. Como já foi sugerido nos comentários acima, somos de opinião que o processo desenvolvimentista não ocorre com a mera aplicação da tecnologia, a qual, ainda que tenha o apoio da vontade política, precisa estar intimamente relacionada com a estrutura do aprendizado científico. Infelizmente, muitos esforços no sentido de tornar possível o progresso de uma nação passam, em vários níveis, por uma inadequada compreensão da ciência. Citamos a seguir uma passagem de The Lab, the Temple and the Market que oferece uma análise do campo do desenvolvimento

Primeiro, na ausência de uma base conceitual consistente, aceitável para a maioria dos praticantes, ele é uma presa das imposições de disciplinas competitivas - economia, ciência agrícola, saúde pública, antropologia, administração e assim por diante - cada uma delas, embora reconhecendo o papel desempenhado pelas outras disciplinas, insiste em formatar o campo de acordo com suas próprias premissas ideológicas. Segundo, na falta de uma interpretação clara das ligações entre ciência e tecnologia, o pensamento desenvolvimentista supervaloriza a tecnologia e não presta a atenção necessária ao avanço da cultura científica dos povos. Terceiro, ao se concentrar em certas ferramentas e procedimentos - para planejar, informar e avaliar - perde a visão dos requisitos necessários a uma aprendizagem sistemática e estruturada, uma característica essencial de qualquer enfoque que reivindique ser científico.

Esses desentendimentos, acreditamos, tendem a reduzir a transformação social a um problema de engenharia, que é administrado por tecnocratas e cuja direção é estabelecida pelas forças econômicas e políticas. Esta tendência poderia ser evitada se os legisladores considerassem o desenvolvimento como um processo de aprendizagem contínuo, no qual o conhecimento é gerado e gradualmente acumulado por comunidades e instituições.

O terceiro conjunto de assuntos está relacionado com o que pode ser qualificado como cultura científica e tecnológica do povo brasileiro. O sistema de pesquisa e desenvolvimento acima descrito e um processo desenvolvimentista que seja de natureza científica somente poderão emergir em um ambiente cultural apropriado. Isso implica a existência de certas atitudes, convicções, percepções, habilidades e hábitos que influenciam as interações diárias tanto de indivíduos como de organizações com relação à ciência e à tecnologia. Estratégias são, desta forma, necessárias para desenvolver uma cultura científica da inteira população do Brasil. De um lado, elas irão assegurar que os processos educacionais para o crescimento do país nutram, desde a infância, um pensamento científico adequado. Por outro lado, buscarão desmistificar a ciência, ajudando a população em geral a entender o progresso científico e tecnológico, buscarão libertá-la das garras da superstição e protegê-la contra a pseudo-ciência. Neste último esforço, a mídia pode exercer um papel significativo.

Princípios Espirituais

Na formulação de uma nova concepção de desenvolvimento social e econômico para o Brasil, um país cujo povo tem tão elevada sensibilidade, atenção devida deve ser dada aos princípios espirituais. Historicamente, a religião tem sido o sistema de conhecimento através do qual esses princípios foram expressados de uma forma coerente e acreditamos que ainda permanece assim em nossos dias. Pelo termo “religião” não nos referimos a “crença sectária”, mas sim, ao conjunto de conhecimentos que é a herança compartilhada da raça humana e que pode prover discernimento quanto às mais profundas questões do propósito da vida e da motivação humana. Neste sentido, é o sistema de conhecimento que complementa a ciência, que busca responder às questões relacionadas com o funcionamento do universo material. Porém, considerando que as religiões organizadas muitas vezes sucumbiram às forças da divisão e do sectarismo no passado, preferimos evitar entrar em debate sobre os méritos da própria religião e iremos nos ater à consideração de alguns princípios espirituais que julgamos serem essenciais à formulação de planos e políticas para um desenvolvimento sensato e confiável. Os seguintes princípios-chave são apenas algumas idéias que, é nossa recomendação, precisam ser colocados no âmago de tais considerações.

A Unidade da Humanidade

O princípio sobre o qual deve se basear qualquer estratégia de desenvolvimento alcançável é o da unidade da humanidade. Este princípio não representa uma noção romântica sobre amor fraternal ou um vago ideal de tolerância. Não é também um chamado à uniformidade. Crer na unidade da humanidade implica a rejeição de teorias que explicam a vida coletiva dos seres humanos em famílias, grupos, tribos, cidades e nações, unicamente em termos dos imperativos de sobrevivência. A evolução da vida coletiva e de suas instituições é vista como um desenvolvimento gradual das potencialidades do espírito humano. Tal processo evolucionário atingirá um estágio de realizações quando a humanidade, finalmente, assumir a tarefa de estabelecer as fundações sobre as quais poderá ser erigida uma civilização unificada e evoluída.

As implicações deste princípio para a sociedade brasileira, ao buscar um caminho viável de desenvolvimento, são imediatas. A meta de trazer prosperidade para as massas da sociedade brasileira, por exemplo, seria alcançada se estratégias claras não forem definidas para levá-las progressivamente em níveis mais altos de unidade de pensamento e de propósito? Poderiam os extraordinários desafios que o Brasil enfrenta serem superados, a não ser pela ação unificada de todos os seus cidadãos? Ainda mais, não há dúvida de que a aplicação deste princípio implica um processo de globalização. Não seria razoável assumir que, ao avançar a sociedade brasileira rumo à sua própria unidade, iria também se empenhar para ocupar uma posição de liderança num processo de globalização, o qual, diferente do deficiente processo atual, poderá levá-la a uma civilização que beneficiará a inteira raça humana?

Justiça

É um fato inegável ser a justiça social uma condição necessária para diminuir a pobreza. Para estabelecer tal condição, porém, é preciso reconhecer que a justiça é, primariamente, um princípio espiritual, uma exigência do espírito humano. Este reconhecimento abre inúmeras possibilidades que geralmente não estão presentes quando a discussão se limita a assuntos considerados importantes, como a distribuição de renda e o predomínio da democracia. A justiça, como um princípio espiritual, sensibiliza o indivíduo em seu mais profundo nível de consciência. Sua influência motiva a participação, eleva a atenção a novos patamares, potencializa as pessoas, comunidades e instituições. As raízes espirituais do princípio em questão podem ser encontradas naquela faculdade da alma humana que nos possibilita ver com nossos próprios olhos e não com os alheios. Cultivar a justiça, portanto, exige processos educacionais conscientes desta faculdade, a qual estrutura e alimenta as energias espirituais dos indivíduos de forma livre de superstição e de ideologias materialistas importadas.

O estabelecimento de tal sistema educacional, associado a estratégias que buscam soluções para as gritantes iniqüidades que criaram raízes na sociedade, colocaria o Brasil em uma posição de destaque entre as nações, posição esta que lhe permitirá promover um processo de globalização orientado pelo princípio da justiça.

A Igualdade Entre Homens e Mulheres

O princípio da igualdade entre homens e mulheres é um elemento essencial do pensamento realista sobre o bem-estar do planeta e de seus povos. Um dos critérios para avaliar o progresso da implementação deste princípio é a extensão na qual mulheres e homens estão trabalhando lado a lado em todos os campos do esforço humano - científico, político, econômico, social e cultural. Um passo importante nesta direção é assegurar que as mulheres efetivamente recebam, em números significativos, uma educação com a mesma qualidade científica que é oferecida aos homens.

Uma área inicial de preocupação que merece atenção particular dos legisladores é a mudança de atitude dos homens. O avanço do conhecimento entre as mulheres precisa ser acompanhado do apoio dos homens em suas comunidades. Quando os homens entenderem que a promoção do princípio da igualdade é tanto sua responsabilidade quanto o é para as mulheres, certamente, poderá ser alcançado um progresso efetivo para o estabelecimento deste princípio.

A igualdade dos sexos deve direcionar a estratégia de desenvolvimento. A longo prazo, o estabelecimento da igualdade irá transformar radicalmente as instituições da sociedade, como também as relações entre todos os seus membros. É essencial que a sociedade brasileira não se contente apenas com a remoção das desigualdades mais aparentes, deixando de ver as transformações profundas que o princípio da igualdade entre homens e mulheres irá acarretar.

Cuidados Com a Natureza

O princípio que envolve os cuidados que se deve ter com a Natureza tem como certa a aspiração da humanidade em transcender as limitações do mundo material, em uma atitude de respeito e cooperação com a natureza, que esteja em harmonia com a unidade da existência. A atenção devida à natureza, como um participante consciente, compassivo e criativo na evolução da vida no planeta, é uma responsabilidade inescapável da humanidade.

A rica herança ecológica do Brasil inclui alguns dos mais importantes recursos naturais do mundo. Questões sobre o uso e a exploração desses recursos têm sido por muito tempo de crucial interesse para o país. Seu significado ressalta a necessidade de se evitar recorrer a um debate simplista entre os interesses nacionais e globais a uma tendência indesejável de culpar os pobres pela degradação ambiental. O uso racional e sustentável dos recursos naturais está intimamente relacionado com os princípios de justiça. O Brasil está em uma posição privilegiada para dar exemplo ao resto do mundo provando que a defesa do meio ambiente e a eliminação da pobreza, longe de serem metas contraditórias, podem se apoiar e reforçar mutuamente.

Riqueza e Trabalho

Igualmente como no caso da natureza, a idéia de riqueza tem recebido tratamento contraditório em todos os períodos da evolução social. O conceito precisa ser reexaminado no contexto de um processo de desenvolvimento que contribua para o progresso material e espiritual da raça humana. Os princípios espirituais que ajudam a definir as atitudes apropriadas quanto à riqueza são consistentes com a verdadeira natureza e propósito do trabalho. Através do trabalho, necessidades essenciais da vida humana são atendidas e muitas potencialidades são realizadas. Para alcançar este propósito, no entanto, o trabalho não pode ser reduzido a uma mera luta pela sobrevivência. Nem pode sua finalidade ser vista unicamente como a satisfação das demandas individuais. Vista desta forma, a riqueza pessoal é aceitável na medida que cumpra com determinadas condições. Deve ser alcançada através de um trabalho honesto, físico ou intelectual, e sua aquisição pelo indivíduo não pode ser causa, não importa quão indiretamente, do empobrecimento de outros. Ainda mais, a legitimidade das possessões materiais depende, igualmente, de como são conseguidas e como são usadas. Cada um deve aproveitar os frutos de seu trabalho e fazer uso de sua riqueza não somente para o bem-estar de sua família, mas também para o da sociedade. O grau mais elevado de trabalho é o serviço à humanidade.

Parece-nos que nenhuma das ideologias prevalecentes no mundo é capaz de dar respostas satisfatórias às questões básicas de como o trabalho deve ser visto, recompensado e valorizado. A elaboração de estratégias e políticas viáveis para o desenvolvimento econômico e social do Brasil requer tais respostas. Nesse sentido, certamente poder-se-ia tratar dos problemas do desemprego e dos níveis de renda e, ao mesmo tempo, evitar o mal crônico da sociedade moderna, na qual, os seres humanos acabam virando bens de mercado.

Liberdade e Potencialização

Para a sociedade livrar-se da opressão, deve adotar uma teoria sobre a natureza humana que corresponda à realidade da existência. Não têm apoio na evidência histórica os pontos de vista de que os seres humanos são criaturas inocentes, corrompidas pela civilização, animais movidos por desejos insaciáveis ou deuses virtuais que nunca devem sofrer restrições. Quando consideramos a totalidade das qualidades humanas, como amor, vontade de sobrepujar o ego, atração pela beleza, bem como seu potencial para a crueldade e rebaixamento, a cena que emerge é a de um ser que possui uma natureza dual -espiritual e material. No âmago da espiritualidade, encontra-se o anseio da alma humana para libertar-se dos grilhões e das disputas da existência material.

A sociedade que viola os direitos humanos é claramente opressiva, mas também o é a sociedade que utiliza, como seu princípio organizacional, a satisfação de todos os caprichos do ego no sistema de livre competição. O maior crime decorrente da opressão é que ela rouba das pessoas sua verdadeira identidade. Ironicamente, o perpetrador e a vítima da opressão vêem-se ambos privados das oportunidades de desenvolvimento das potencialidades, das quais, em última instância, depende a realização. A principal arma da opressão é o prolongamento da ignorância através da manipulação da informação e o impedimento do acesso ao conhecimento. Uma tarefa central do desenvolvimento, então, é a propagação sistemática do conhecimento espiritual e material, com a finalidade bem definida de potencializar as pessoas.

Esperamos que esta discussão, embora aqui muito sintética, ilustre nosso ponto principal, de que o reconhecimento da natureza espiritual do ser humano trará um contexto positivo ao progresso de uma nação em termos bem reais. Em verdade, se o Brasil não incluir, em sua visão do futuro, a dimensão espiritual da existência, será forçado a seguir as pegadas dos países materialmente prósperos, tornando-se cada vez mais enredado em uma forma de vida que não conduz à realização plena, perdendo a oportunidade que agora tem em mãos de ocupar uma posição ímpar na história humana.

2. Definição das Principais Áreas de Ação

Os conceitos básicos que servem como fundamentos para uma estratégia de desenvolvimento para o Brasil certamente não se limitam àqueles que foram apresentados na seção anterior. À medida que a lista é expandida e um consenso alcançado sobre as implicações de cada um dos conceitos, atenção deve ser dada às principais áreas de ação. Embora as efetivas linhas de ação precisem cobrir todos os setores, sentimos existir quatro campos particulares de atividade que merecem um tratamento especial: atividade econômica, tecnologia, educação e vida familiar. Essas áreas abrangem uma ampla gama de outros assuntos, como saúde, agricultura e proteção ambiental. Esta seção tratará apenas de alguns itens relevantes a cada um desses quatro campos de atividade.

Antes de entrarmos na discussão dessas quatro áreas, sentimo-nos motivados a mencionar algumas palavras sobre a questão da governabilidade, pois sobre a mesma repousa o sucesso de qualquer empreendimento realizado para o progresso de uma nação. Tendo em vista que a descentralização deve merecer atenção contínua em qualquer conjunto consciente das diretrizes de desenvolvimento para um país da vastidão do Brasil, apresentaremos nossos comentários e a discussão que se segue, no contexto de uma região que abrange várias vilas, muitos povoados e, possivelmente, uma ou mais cidades. Tais regiões, normalmente com identidades política, cultural e ecológica bem definidas, são quase sempre o foco de programas de desenvolvimento nos quais agências internacionais, o governo e algumas organizações da sociedade civil têm todos um papel definido a cumprir.

Se aceitarmos a premissa de que o desenvolvimento envolve a construção de capacidade das pessoas, das comunidades e de suas instituições para criarem seu próprio caminho de progresso, então, devemos nos perguntar que tipo de sistema político será conducente à participação das pessoas na administração de seus próprios assuntos. A seguinte passagem de The Lab, the Temple and the Market sugere que, quaisquer que sejam seus aspectos principais, tal sistema exigirá uma mudança fundamental nos atuais processos de tomada de decisão:

Hoje, a competição irrestrita, a obsessão pelo poder e o abuso da autoridade viciam a forma como são tomadas as decisões. O processo sofre de dois excessos: apatia ou superentusiasmo, apego à técnica ou a improvisação, devoção à minúcia ou a propensão para tratar apenas de abstrações. O que se faz vitalmente necessário é a forma de operação na qual o sistema de aprendizado seja envolvido.

Efetuar uma mudança fundamental nestas condições, envolve claramente a criação e fortalecimento de autênticas estruturas de governo, especialmente em nível local. Mas onde - a pergunta deve ser feita - devem os pensadores desenvolvimentistas buscar aqueles conceitos que poderiam ajudar as instituições inexperientes a se engajarem em um bom processo de tomada de decisão e levá-lo à respectiva implementação? Seria ingênuo esperar que a política, conforme praticada na região, seria uma fonte de inspiração proveitosa. Enfim, o propósito que se vê é o de aprender a manipular, acumular riqueza material e consolidar grupos de poder em detrimento de outros e ser habilidosos jogadores em um interminável jogo que tem levado ao empobrecimento das massas.

O que, então, dizer dos processos característicos dos países materialmente avançados? São eles modelos que devem ser emulados por outros países do mundo? Incorporam eles os valores necessários para possibilitar aos habitantes de nossa região, até agora marginalizados das decisões que governam sua vida coletiva, construir um caminho de progresso por si mesmos? Seriam as contribuições passadas para a riqueza de algumas nações, por parte dos políticos, provas suficientes de sua capacidade para produzir as transformações que irão engendrar a prosperidade material e espiritual da raça humana como um todo?

Se formos seguir o modo de ser de nosso tempo, ficaríamos entusiasmados com a última alternativa na proporção que medidas foram instituídas para evitar corrupção. Atribuir as inadequações óbvias dos atuais modos de conduta dos políticos unicamente à corrupção, porém, é ignorar profundamente os defeitos enraizados em determinadas concepções fundamentais. Por exemplo, é verdade que o uso da força física, um bem aceito instrumento de autoridade através da história, tem perdido credibilidade e interesse nos anos recentes. Mas a democracia, definida como um processo que separa as pessoas de acordo com os interesses, talentos e ideologias, as quais, então, “negociam” decisões, continua a apoiar a violência. O propósito de cada grupo é vencer. Os meios para alcançar os fins propostos são as vantagens econômicas e a mobilização de apoio para superar o oponente. Tão forte é este legado de “o que vence é que está certo”, que essencialmente determina a forma como a justiça é administrada. Devemos aceitar isso como a realização do coroamento da evolução da tomada de decisão coletiva no planeta?

Em vez de definir a tomada de decisão coletiva como a maestria da arte de manipulação política, a estratégia de desenvolvimento faria bem em vê-la como a investigação coletiva da realidade e a análise racional de opções. Tal processo está aberto ao uso de métodos que, embora não necessariamente sofisticados ou complexos, são fundamentalmente científicos. Em verdade, durante anos os programas voltados à ação comunitária têm criado métodos altamente imaginativos para detectar necessidades, analisar tendências casuais, avaliar cursos de ação, planejar e monitorar. É verdade que alguns desses esforços envolvem uma aplicação de técnicas um tanto negligentes. Mas também existem programas que têm claramente ajudado as pessoas a adquirirem as ferramentas intelectuais para tratar com a tomada de decisão coletiva, entendida como a investigação científica da realidade. Os aspectos particulares desses métodos não são tratados aqui. O importante é que o valioso conhecimento já existente nas ciências sociais poderá ser incorporado à corrente principal de atividades, mas a estrutura decisória deverá ser favorável a esta dimensão do desenvolvimento.
Que o poder da ciência pode ser utilizado para tratar do objetivo dos mecanismos efetivos para a tomada de decisão é apenas metade da história. O sucesso de um processo consultivo que assume as características da investigação da realidade e não se degenera facilmente em conflito e jogo de poder, depende também das qualidades espirituais dos participantes. Honestidade, franqueza, tolerância, paciência e cortesia são algumas dessas qualidades. Fazer uma lista de tais atributos não é difícil. A questão é como desenvolvê-los. Que força pode dotar as pessoas com a capacidade de se oporem às suas próprias paixões, a aderirem à verdade, mesmo quando for contra seus interesses pessoais e aceitar a disciplina que exige tanto coragem para expressar uma opinião franca como sabedoria para se tornar um ativo participante de um consenso? Claramente, esta força interna é religiosa em natureza.

Não somos tão ingênuos para imaginar que para a aquisição das qualidades exigidas por uma investigação desapaixonada da realidade, necessariamente devemos remover todas as formas de auto-interesse. Nem podemos negar as dificuldades inerentes para se chegar a um consenso sobre assuntos que afetam o bem-estar dos participantes em um processo consultivo. Mas, seguramente, deve ser possível em um país como o Brasil, cujo povo e líderes são bem conscientes de suas responsabilidades sociais, desenvolver nos órgãos de tomada de decisão, com base nos recursos da ciência e da religião, determinadas habilidades que deles se exige para as funções que têm a exercer na sociedade.

Não deveria toda região do Brasil poder contar com órgãos governantes capazes de manter uma percepção clara da realidade social e das forças que nela atuam? Não poderiam tais órgãos ter a habilidade de detectar algumas oportunidades oferecidas em cada momento histórico para, de forma apropriada, utilizar-se dos recursos de suas comunidades e consultar livre e harmoniosamente como uma entidade com seus membros constituintes? Não deveriam ser capazes de reconhecer que toda decisão tem tanto uma dimensão espiritual como material e, conscientes disso, tomar suas decisões? Tais corpos de tomada de decisão veriam, como sua responsabilidade, ganhar a confiança, o respeito e o apoio genuíno daqueles que são afetados por suas decisões. Seriam capazes de efetivamente utilizar as energias e a variedade de talentos dos recursos humanos disponíveis, bem como, fazer a integração da diversidade de aspirações e atividades de indivíduos e grupos em um movimento que se projeta, criando e mantendo a unidade. Poderiam promover critérios de justiça e implementar decisões de forma aberta e flexível, para evitar qualquer traço de conduta ditatorial.

As questões acima colocadas sugerem que os corpos de tomada de decisão em todas as regiões do Brasil necessitarão ser recriados como organizações caracterizadas por um senso de aprendizagem. O que está em jogo é a transformação da forma atual de governabilidade, baseada em conceitos tradicionais de poder e autoridade, em uma que adote uma postura genuína de aprendizagem. Não somente acreditamos ser tal transformação possível, como consideramos ser um imperativo do presente estágio da evolução humana e uma conquista essencial para o sucesso de qualquer um dos quatro campos de atividades abaixo descritos.

Atividade Econômica

Central à tarefa de rever o conceito de organização dos assuntos humanos encontra-se um adequado entendimento do papel da atividade econômica. É nosso ponto de vista que a desigualdade e desequilíbrio econômico, atualmente tão espalhados no mundo, resultam diretamente do fracasso em colocar as questões econômicas em seu contexto mais amplo no que concerne à existência social e espiritual da humanidade. Os arranjos econômicos deveriam atender às necessidades das pessoas; as sociedades não devem se amoldar para servirem a um modelo econômico específico - particularmente aqueles que mantêm hábitos arraigados de consumo. Com o fracasso das atuais teorias baseadas na idéia de que uma boa sociedade é aquela na qual dos indivíduos espera-se que apenas maximizem sua utilidade pessoal, qual conceito de economia deveria substituí-las? Algumas tentativas de respostas a esta questão são encontradas no texto seguinte.

O aumento da capacidade de uma região típica para alcançar a prosperidade material e espiritual de sua população envolve o fortalecimento de sua economia, um processo inclusivo, porém, não idêntico ao crescimento econômico. Tal esforço deve, certamente, acontecer no contexto de alguma forma de pensamento econômico. A busca de uma base teórica apropriada, porém, está longe de ser facilmente alcançada, em um tempo em que os conceitos fundamentais do “pensamento econômico” atual considerado, já por muitas décadas, como a incorporação da racionalidade - estão sendo vigorosamente questionados. A resultante perda de fé é exacerbada continuamente pela crescente crise ambiental e pela ascensão e queda de sistemas econômicos cujas performances recebem exagerados elogios, até que começam a se desintegrar e expor as reais condições sob as quais vivem suas vítimas.

As críticas às economias vigentes provêm tanto de dentro como de fora; exigem tanto uma revisão da metodologia como da estrutura conceitual de análise. De acordo com os críticos, os economistas, diferente dos cientistas em muitos outros campos, demonstram pouca vontade para examinar, de forma desapegada, a natureza de sua metodologia ou para entender suas origens. A apreciação da física clássica os inspirou a criar metáforas e métodos sem levar em conta a disparidade entre os objetos de estudo. A estrutura mecanicista de suas mentes impede que dediquem a atenção devida aos fatores cruciais como o conhecimento, propósitos e mudanças qualitativas. O conceito mais central de suas análises tem sido um “homem” imaginário, juiz exclusivo de seus próprios caprichos e desejos, tomando decisões para otimizar sua utilidade. O mecanismo pelo qual estas escolhas “racionais” devem ser entendidas tem sido uma abstração do mercado, uma abstração bem além do que é permitido em uma prática científica razoável. De uma forma curiosa, tanto o mundo físico, origem de todos os recursos materiais, como a cultura, ambiente dentro do qual são amoldados os recursos humanos, são relegados a uma consideração secundária.

Sem a necessidade de analisar profundamente os argumentos dos críticos e defensores da teoria econômica atual, parece claro que os portões de uma fortaleza poderosa, até pouco tempo presumidamente inexpugnáveis, estão sendo assediados com sucesso. O que esta atividade intelectual em rápida expansão irá trazer e como afetará a estratégia do desenvolvimento, não são perguntas fáceis de responder. Mas as poucas indicações sobre a natureza do “novo pensamento econômico” são muito encorajadoras. Por exemplo, pode-se assumir seguramente que as novas economias não irão ignorar a questão dos valores ou permitir que sejam ocultas atrás do véu das conveniências externas. Apoiará o princípio da igualdade entre homens e mulheres, reconhecerá o papel e as necessidades da comunidade e deixará de promover o individualismo desenfreado. Pode-se afirmar com certeza, prestará atenção considerável às questões relacionadas aos recursos naturais e ao meio ambiente.

Embora as novas direções que estão sendo consideradas sejam promissoras, um avanço marcante na teoria econômica não pode ser esperado a curto prazo. Em primeiro lugar - e isto é esperado de uma ciência que entrou em um período de crise - o leque de opções é muito vasto, havendo uma tendência de buscar uma teoria que trate também de muitos aspectos da vida individual e da existência social. Sem dúvida alguma, a humanidade precisa de uma renovação da filosofia moral. Mas também é verdade, pelo menos do ponto de vista da estratégia de desenvolvimento e planejamento, que precisamos de uma ciência econômica que esteja diretamente preocupada com a geração, distribuição e utilização dos meios materiais. Tal ciência deve ser rigorosa sem ser reducionista. Precisará escolher métodos apropriados ao objeto de estudo e não seguir cegamente algumas impressões inadequadas da física. Deverá estar interessada em propósitos e deixar claro suas suposições e seus valores subjacentes. Acima de tudo, deve ser uma ciência capaz de modificar suas premissas progressivamente -especialmente as relacionadas com a conduta humana - à medida que desenvolve o processo de construção da civilização. Reconhecendo que as políticas que engendra têm a capacidade de mudar sistemas de valores, terá de levar em conta suas próprias interações com um objeto mutável de estudo e permitir um reexame constante dos fatos sobre os seres humanos e sobre as estruturas sociais, a partir das quais constrói seus modelos de conduta e de desenvolvimento econômico.

Não é o propósito deste documento comentar em profundidade a teoria econômica. O que gostaríamos de enfatizar é que uma estratégia de desenvolvimento para o Brasil, baseada na construção de capacidade, necessita que se dê enorme atenção àquelas dimensões da capacidade regional que têm a ver com a criação e utilização dos recursos materiais - desde dimensões específicas de atividade econômica como a produção agrícola de forma comercial e em pequenas unidades familiares rurais, até a formulação e implementação de diretrizes econômicas que permitam às regiões participarem de uma economia global, não como uma vítima desamparada, mas como um contribuinte forte e auto-confiante. O trabalho exigido para alcançar tal fortalecimento da economia regional é complexo sob qualquer circunstância, ainda mais atualmente quando a teoria econômica precisa passar por tão vasta e fundamental revisão.

Uma palavra de advertência, porém, cabe aqui. Sentimos que seria um erro para as diretrizes e estratégias brasileiras focalizarem-se apenas nos pobres. É indispensável à criação da prosperidade de qualquer nação - em verdade, para a humanidade como um todo - a eliminação dos extremos de riqueza e pobreza. Não é verdade que onde quer que se encontrem grandes focos de pobreza, encontram-se também extremos de riqueza? Poderá qualquer sociedade que apóia os princípios de justiça permitir a continuidade de tal disparidade? Como deveria o conceito de riqueza pessoal ser estruturado em um povo que rejeita ideologias e que vê o sucesso econômico como justificativa final para qualquer ação, como o próprio padrão pelo qual é medida a moralidade? Os pensadores brasileiros, parece-nos, estão bem credenciados para buscar respostas a essas indagações e considerar como poderão ser utilizadas as melhores ferramentas científicas para desenvolver uma economia cujas premissas éticas sejam explícitas e cujas estruturas e processos sejam guiados por uma força moral toda abrangente.

Tecnologia

Conforme já sugerido neste documento, o progresso tecnológico é inerente ao processo de desenvolvimento. De fato, a passagem abaixo mostra que é tanto a meta do desenvolvimento como um meio de alcançá-lo. O acesso à tecnologia apropriada e a construção de capacidade das comunidades para fazerem suas próprias escolhas tecnológicas são, então, é nossa opinião, fundamentais ao progresso de uma nação e para alcançar prosperidade.

O tema tecnologia tem sido inseparável do discurso de desenvolvimento desde seu início e, agora, está sendo examinado de todos os ângulos possíveis. Um conjunto de adjetivos - grande ou pequeno, com ênfase no capital ou trabalho, moderno, avançado, intermediário, nativo, energeticamente eficiente, ambientalmente sustentável - tem sido usado para descrever quão apropriada é a tecnologia em uma ou outra de suas várias formas. Seus processos associados de transferência, inovação, pesquisa e desenvolvimento, adaptação e difusão aplicáveis em muitos campos do esforço humano têm sido escrupulosamente analisados e seus resultados debatidos de forma completa. O intercurso entre tecnologia e os fatores determinantes da vida econômica, cultural, política e social de uma nação tem sido também estudado em detalhes. É intrigante, então, o fato das discussões sobre tecnologia no campo do desenvolvimento terem continuado tão inconclusas. Na maioria dos países desenvolvidos, a formulação de políticas científicas e tecnológicas continua a ser um enorme desafio. Toda vez que o tópico da tecnologia é destacado, um conjunto de outros fatores, principalmente econômicos e políticos, são apresentados e o resultado é que tal enfoque acaba sendo desconsiderado.

À parte da complexidade dos assuntos envolvidos, o avanço tecnológico é em si mesmo um tema ambíguo, pois é tanto uma meta de desenvolvimento como um meio de realizá-lo. Muito da modernidade é definido em termos do uso da moderna tecnologia. Isso não reflete uma incompreensão, já que a mudança tecnológica é inerente ao progresso material. Assim, quando a água corrente é levada a uma vila, os habitantes podem com razão afirmar que o acesso a esta nova tecnologia constitui um passo avante no desenvolvimento. Pelo mesmo critério, a introdução de computadores em uma sociedade pode ser considerada uma contribuição ao seu progresso. O problema surge quando o elo essencial entre o progresso material e espiritual é ignorado e a civilização material acaba conseguindo ir avante com pouca ou nenhuma atenção dada à realidade espiritual. O papel da tecnologia como um meio de prover soluções às mais altas aspirações escapa à visão. Em vez disso, a tecnologia torna-se uma força autônoma e misteriosa que define como será o futuro. As pessoas se perdem neste pano de fundo, como se não tivessem outra escolha a não ser seguir qualquer tendência estabelecida pela invenção de novas tecnologias.

Obviamente, a solução para o dilema é não negar o valor intrínseco do progresso tecnológico, muito menos perpetuar noções defeituosas de espiritualidade e harmonia com a natureza. O que é preciso, em verdade, é proporcionar aos habitantes de cada região a capacidade de fazer escolhas cada vez mais válidas, tanto individual como coletivamente, relativas ao desenvolvimento, transferência e adoção da tecnologia.

Em um mundo acostumado a distorcer as palavras para justificar interesses econômicos, a capacidade de fazer escolhas tecnológicas apropriadas poderia facilmente tornar-se sinônimo de possuir os atributos de um bom consumidor. Claramente, não é isso o que pretendemos. O tipo de capacidade em discussão representa um conjunto complexo de atitudes, convicções, compreensões, habilidades e hábitos - que caracterizam a conduta dos indivíduos e organizações em sua interação diária com a tecnologia.

Para que tal construção de capacidade seja significativa, deve ser acompanhada pela compreensão de que a tecnologia não é neutra. A noção de que a tecnologia pode ser boa ou ruim, dependendo de como é usada, é valida, mas somente dentro de um contexto muito limitado: obviamente, uma faca pode ser usada para matar ou cortar pão. Porém, a um nível mais fundamental, a tecnologia traz consigo uma ideologia e tem voz ativa no modo como a vida individual e social deve ser organizada. A escolha tecnológica influencia todas as outras escolhas feitas sobre a qualidade e direção de vida em uma região. Ela mesma é uma expressão de valores - políticos, sociais, culturais e, no final das contas, também morais e espirituais.

Em uma região, pelo menos dois tipos de esforços deveriam ser incrementados para que a tecnologia possa ser um processo deliberadamente aberto ao escrutínio de uma população consciente. Primeiro, deve-se caminhar na direção de tornar explícitos os valores que estão subjacentes à operação de cada conjunto de produtos, instrumentos, processos e procedimentos inter-relacionados introduzidos na região. Infelizmente, em anos recentes, a palavra “valor”, como vários outros importantes termos incluídos no discurso social em moda, tem sido tão negligentemente considerada que se tornou quase inútil. O tipo de investigação do assunto aqui proposto implica uma oposição corajosa a uma cultura agressiva que não tem condições de lidar corretamente com questões de valores, podendo, conseqüentemente, reduzi-la a um assunto de caráter pessoal. Como poderia ser de outra forma, em um vazio moral e espiritual no qual propósito e identidade representam nada mais que um derivativo da própria atividade? Em contrapartida, em uma cultura ainda presa às suas raízes religiosas surgem valores decorrentes dos ensinamentos espirituais que iluminam a vida individual e coletiva e definem o propósito do esforço construtivo.

Segundo, deveriam ser adotadas medidas para desenvolver na região a habilidade para compreender a ciência que há por trás da tecnologia propagada. Mais especificamente, pelo menos parte do texto científico responsável por cada passo dado no avanço do progresso tecnológico, deveria ser introduzido no sistema de conhecimento da região. O grau de sofisticação com que isso é feito depende da natureza da tecnologia, da complexidade do texto científico em particular e das realizações antecedentes da população.

Além da preocupação com a cultura, a dimensão tecnológica de criar capacidades em uma região tem implicações claras para os órgãos independentes encarregados do desenvolvimento, adoção e propagação da tecnologia. Essas agências precisam ser fortalecidas para estar em condições de assumir suas inúmeras responsabilidades, as quais incluem avaliar as exigências tecnológicas do processo de desenvolvimento; avaliar os recursos naturais da região, como também, os subprodutos de atividades em andamento e determinar como eles devem ser utilizados; planejar e monitorar a transferência de tecnologias específicas e avaliar seus efeitos; realizar pesquisas de alta qualidade e soluções tecnológicas para problemas concretos; além de suprir as necessidades de educação técnica.

Da imensidade das tarefas acima descritas, deve ficar claro que não acreditamos que qualquer programa possa dotar a população de uma região com a capacidade de fazer uma escolha tecnológica segura. A tecnologia, reconhecidamente, é um assunto global e seu papel no progresso da civilização deve ser explorado e esclarecido nesse contexto. Assim, a rede de instituições de aprendizagem, as quais este documento recomenda que sejam estabelecidas, trabalhando com as diversas populações no Brasil, necessitariam fazer parte de uma rede muito maior dessas organizações operando em todos os países no mundo. Isso tornaria possível, cremos, a exploração mundial de assuntos relacionados com a escolha tecnológica - uma exploração que não seria facilmente cooptada por grupos privilegiados que direcionam o progresso material e que recebem uma parte gigantesca do poder que este gera. Embora científico em seu enfoque dos problemas, este esforço vigoroso beneficiar-se-ia em grande parte na herança religiosa da humanidade para esclarecer questões de valores e propósitos. A presente revolução nas comunicações torna tal esforço global eminentemente praticável e abre possibilidades para uma rápida transformação tecnológica de uma maneira impensável até há algumas décadas.

Educação

Nenhum dos ideais descritos neste documento ou as sugestões práticas aventadas, poderiam levar a uma transformação duradoura, em qualquer país, sem uma reforma educacional substancial. O Brasil não é uma exceção. A passagem abaixo, de The Lab, the Temple and the Market, dá um foco especial aos assuntos envolvidos e destaca o caminho a seguir:

Desde o início, aumentar a habilidade dos governos do mundo em prover educação aos seus cidadãos tem sido um componente essencial na estratégia de desenvolvimento. Inicialmente, a ênfase era dada, em grande parte, à infra-estrutura, mas, no decorrer dos anos, outros assuntos relacionados a currículo, administração, tecnologia educacional, capacitação de professores e até mesmo a relação entre a escola e a comunidade foram também sendo considerados. Deve-se reconhecer que um progresso enorme foi feito nessas áreas inter-relacionadas de esforço educacional, particularmente no contexto da universalização da educação primária. No entanto, há um sentimento difundido de que, apesar dessas marcantes realizações, a educação não está podendo cumprir com suas promessas; que, em verdade, os sistemas educacionais estão em crise em toda parte.

…Aparte de um número relativamente pequeno de estudantes afortunados que freqüentam escolas de alto nível, a maioria das crianças e dos jovens recebe hoje em dia uma educação cada vez mais superficial, que sistematiza a fragmentação da mente dos estudantes, fazendo crescer, desta forma, a fragmentação de toda a sociedade. A solução para o problema não pode ser buscada simplesmente através de melhor administração dos parâmetros e relações que envolvem a escola e de uma melhoria do ensino - aprendendo a dinâmica dentro e fora da sala de aula, aplicando a mais recente tecnologia ou elaborando um fluxo de documentos que definem um jogo impressionante de objetivos para todo curso e toda área de estudo. Estas medidas são importantes em si mesmas e, certamente, criam a imagem de um movimento progressivo sempre envolvido com a reforma educacional em todos os países, um após o outro. As raízes da crise que aflige a educação, no entanto, encontram-se na forma como o conhecimento é entendido e tratado em muitos sistemas educacionais.

Na maioria das escolas, os currículos são organizados por assuntos. Embora enfoques mais avançados permitam atividades educacionais que buscam integrar dois ou três assuntos, a escolha do conteúdo de todo curso é feita dentro de uma estrutura que divide o conhecimento em componentes distintos e desconexos. A divisão em disciplinas é vista como virtualmente inerente ao conhecimento, o qual, por sua vez está definido em termos de seus fragmentos - como a soma de todas as disciplinas em ciências naturais e sociais, artes e ciências humanas e campos profissionais como a engenharia e medicina. Ano após ano, os estudantes acumulam conhecimento em categorias separadas, sem se dar conta das relações essenciais que unem as partes, talvez sem ter ao menos idéia da interconexão subjacente à existência social e, menos ainda, do universo material.

O problema é exacerbado pela ênfase que é colocada na assimilação de fatos em vez de ênfase na compreensão de conceitos profundos. O aprendizado superficial é categoricamente condenado, mas é apenas brandamente substituído pelo domínio de técnicas de manipulação da informação. Até mesmo a pedagogia atrativa de aprender fazendo é distorcida por uma atitude exagerada de atividade recreativa. Em nenhuma parte, está isto mais aparente do que nos enfoques denominados modernos para a educação da ciência onde, em nome da descoberta individual, a cogitação é apresentada como a essência da investigação científica, entretanto, sendo que a avaliação da estrutura complexa da ciência como um corpo crescente de conhecimentos recebe pouca atenção. A moralidade, quando considerada, é tratada como outro fragmento, outro assunto discreto. A noção de serviço à humanidade é apresentada de forma mínima e o estímulo ao desenvolvimento de uma consciência espiritual é praticamente ignorado. Uma dicotomia entre teoria e ação resulta em uma tendência para ensinar habilidades práticas e manuais a alguns, o ensino através de livros, a outros, capacidade de participar em planejamento e tomada de decisão, a poucos, e de levar a cabo as ordens dadas, à maioria. Nessas circunstâncias infreqüentes quando aprender a pensar recebe determinada prioridade, assume-se essencialmente que o método analítico preenche as exigências. O resultado é uma população de indivíduos com algum treinamento prático, que crescentemente podem se focalizar em partes mais minuciosas da realidade mas, que são incapazes de uma visão maior, particularmente num contexto histórico. Não é de surpreender que, quando tais indivíduos alcançam posições de liderança, ficam propensos a fazer julgamentos sem se dar conta das implicações morais e éticas envolvidas. Eles são capazes de negar a si mesmos o mais nobre dos sentimentos humanos em nome de fins escusos ou por conveniência. Somente agora começa a ser reconhecida a destruição provocada em nosso ambiente físico e social por tais mentes, aparentemente polidas e ostensivamente educadas, com alarmante e estreitas margens de entendimento.

Hoje, a tarefa de ampliar o alcance da educação, felizmente, desfruta de apoio geral e entusiástico. Se a avaliação precedente do drama por que passa a educação é de todo plausível, há que se reconhecer que a reforma do sistema educacional tem de ser a prioridade mais alta nos planos de desenvolvimento de nossa região específica. Aqui novamente, em um enfoque que coloque a aprendizagem no âmago de todos os esforços para transformar a sociedade, a universidade tem de exercer um papel preponderante, desenvolvendo um processo educacional apropriado para a população à qual serve. Por sua própria natureza, a universidade está preocupada com a educação a níveis mais altos. O que dela se requer, no contexto de tão específica dimensão do processo de capacitação, é um esforço combinado para desenvolver sistematicamente o conteúdo e os métodos de três programas de educação: a educação pré-escolar, a educação básica, para crianças de 6 a 14 anos de idade e a escola secundária, que se focaliza no desenvolvimento intelectual e moral de jovens de 15 a 18 anos de idade.

O maior desafio da universidade neste sentido é unir o conhecimento pertinente à criação de programas pedagogicamente fortes que respondam às exigências de cada fase do desenvolvimento intelectual e emocional dos estudantes. Em uma era de progresso acelerado da ciência e da tecnologia, ninguém negará a necessidade da especialização e aprimoramento técnico em campos bem definidos do esforço humano. Mas antes que ocorra a capacitação especializada - seja em um comércio ou profissão, ou em pesquisa e desenvolvimento - a estrutura básica da mente do estudante precisa seguramente ser considerada. A maioria dos livros texto hoje existentes parece assumir que todo estudante está sendo preparado para se especializar nos assuntos específicos que tais textos focalizam. O resultado é não ocorrer nenhum desenvolvimento intelectual sólido, nem um conhecimento razoável de qualquer disciplina. Uma indicação da seriedade do problema é a preocupação geral expressa pelas universidades, de todos os lugares, sobre a qualidade da educação recebida pela maioria dos seus calouros.

A situação exige uma nova e séria atenção no universo do conhecimento, em busca de um modo novo de reunir seus diversos elementos em currículos que respeitem a totalidade do conhecimento, prevendo especializações em uma fase posterior. O foco de cada conjunto de atividades educacionais relacionadas deveria ser o desenvolvimento de uma ou mais capacidades - científica, artística, técnica, social, moral e espiritual - dotando o indivíduo com a compreensão de conceitos, conhecimento de fatos e domínio de métodos, com habilidades, atitudes e qualidades que ele ou ela precisam para levar uma vida produtiva. Especificamente, nesta época de transição, é imperativo dotar os jovens de um duplo propósito moral: encarregar-se de seu próprio crescimento intelectual e espiritual e fazer contribuições significativas para a transformação da sociedade.

A reivindicação aqui exposta… é que um processo educacional organizado em torno do desenvolvimento de um conjunto de capacidades, cuidadosamente selecionadas, pode dar muito mais conhecimento às crianças e jovens, do que programas que visem cobrir a gama natural de habilidades e matérias estudadas. O cultivo de tais capacidades exige demandas especiais de cada um dos três estágios do empreendimento pedagógico. A pré-escola precisa enfatizar o desenvolvimento do caráter. Deve prestar atenção à estrutura emocional de cada criança e ajudar na aquisição das qualidades espirituais que amoldarão as atitudes e perspectivas da/do futuro/futura jovem. Precisa ensinar alegria e liberdade, instilando-lhes autodisciplina e criando em suas mentes uma estrutura moral duradoura. Precisa fomentar hábitos de investigação e reflexão, encorajar a pronta manifestação de pensamento bem delineado e fala eloqüente. Tais objetivos estão em completa harmonia com o desenvolvimento dos vários tipos de destrezas e poderes de percepção que preocupam tantos programas pré-escolares, amplamente propagados internacionalmente.
Qualquer que seja a definição da educação básica, um nível apropriado de proficiência em áreas de conhecimento, tais como matemática, ciências naturais, história, geografia, línguas e literatura, é claramente um elemento importante. Mas o enfoque aqui defendido permitiria aos sistemas educacionais ir muito além das metas bem modestas de hoje. Temos que perguntar quais atributos, em uns oito anos de educação, deveriam ser cultivados em um adolescente de 14 ou 15 anos de idade, a fim de lhe permitir uma transição clara da infância para a mocidade. Podemos prontamente identificar alguns que são especialmente úteis à natureza da educação prevista: a compreensão de que é principalmente o serviço à humanidade e a dedicação à unificação da humanidade que liberam poderes criativos ocultos na natureza da pessoa; a compreensão de que não somente o conhecimento de princípios, mas o exercício e a aplicação da vontade são essenciais ao crescimento pessoal e à mudança da sociedade; uma convicção de que honra e felicidade não residem na busca da riqueza e do poder, mas em respeito próprio e propósitos nobres, em integridade e qualidade moral; uma disposição para analisar e um desejo para entender as características de formas diferentes de governo, leis e administração pública. A estes devem ser somados outros atributos que aumentam a efetividade social: uma compreensão adequada, pelo menos no contexto local, das preocupações com programas de progresso social em tais áreas como saúde e serviço sanitário, agricultura, artes e indústria; um pouco de desenvolvimento do poder de investigação intelectual como um instrumento de uma bem sucedida ação individual e coletiva; uma certa habilidade para analisar as condições sociais e descobrir as forças que as causaram; a habilidade correspondente para expressar idéias e contribuir para a consulta sobre os problemas da comunidade; a capacidade de participar em ações da comunidade como um integrante, humilde, mas decidido, que ajuda a superar conflito e divisão e contribui para o estabelecimento de um espírito de unidade e colaboração e, um grau razoável de excelência, em pelo menos uma habilidade produtiva, através da qual se comprove a verdade de que trabalho é adoração quando executado em espírito de serviço.

Estes são, sem dúvida, os objetivos mais necessários para os oito anos de educação básica. Entretanto, um bom começo pode ser feito em cada uma dessas direções. A escola secundária, então, deve assumir a responsabilidade de assegurar que tais capacidades - relativa tanto à aquisição de conhecimento como às qualidades da mente e do espírito - se desenvolvam a ponto de possibilitar que todo homem e toda mulher continue a cumprir com o papel devido a cada um deles como membros da raça humana. Porém, isto não implica que o programa da escola secundária deva ser uma mera continuação da educação básica. Pelo contrário, a transição pede uma mudança qualitativa, particularmente em termos de rigor científico, uso de linguagem e conteúdo social, pois é nesta fase da educação que esperanças e ideais vagos, em relação ao futuro da pessoa e serviço à humanidade, têm de se cristalizar no duplo propósito moral acima mencionado. O estudante tem agora que se tornar um agente decidido, para com sua própria educação. Todo esforço precisa ser feito para elevar a consciência do estudante a um nível mais alto - consciência das ramificações das escolhas pessoais que são feitas, das forças sociais às quais a comunidade é sujeitada e da natureza dos processos históricos nos quais encontra-se imerso.

Reconhecemos que a concepção e a implementação dos três programas acima descritos representam um ousado desafio para qualquer nação. Sem dúvida, o Brasil tem enorme riqueza de imaginação criativa que pode utilizar para enfrentar este desafio. Já produziu, por exemplo, um eminente pensador como Paulo Freire, cujas idéias influenciaram educadores em todo o mundo. Porém, o sucesso da reforma educacional sugerida neste documento exigirá um comprometimento total de parte do governo e sua vontade em investir os necessários recursos humanos e financeiros. Acima de tudo, aqueles que estiverem envolvidos na reforma precisam aprender com a experiência do passado. Novas gerações no Brasil precisam ser potencializadas - o que é diferente de serem simplesmente instruídas - para que possa ser quebrado o círculo vicioso que se perpetua de crise social e econômica.

Vida Familiar

Não importa quão bem sucedidas sejam as reformas no sistema educacional, os esforços para educar as novas gerações da juventude brasileira falharão a longo prazo se igual atenção não for dada ao fortalecimento da vida familiar. A família é o alicerce básico de uma emergente civilização global. No entanto, a modernização e o extremo individualismo que promove estão levando, à deterioração desta unidade vital, em todas as partes do globo. Trata-se de uma tendência que pode e deve ser redirecionada. A seguinte passagem, extraída de um texto da FUNDAEC, apresenta nossa perspectiva sobre este assunto:

Desde o alvorecer da História, a sociedade reconhece a família como sua unidade organizacional básica. A família é o espaço social no qual o indivíduo é preparado para enfrentar os desafios da vida. É o lugar onde se aprende a amar, a ser tolerante e agir com justiça. O sistema de valores que irá nos caracterizar no decorrer de nossas vidas é principalmente formado durante os anos em que vivemos com nossa família e, a forma como iremos nos comportar e nos comunicar com outras pessoas, é determinada, quase que inteiramente, durante esse período crucial. Mas, infelizmente, é também na família onde podemos receber as influências mais danosas - a tendência a sermos injustos, a agirmos violentamente, a suprimir todos os sentimentos, a temer, a ter preconceitos, a dominar os outros e a sermos um individualista egocêntrico. Estes hábitos, uma vez formados, são levados do ambiente familiar à interação social, tornando-se obstáculos ao progresso e gradualmente rompendo o próprio material básico da sociedade.

Como todas as outras instituições da sociedade nesta era de transição, a instituição da família está em crise. Os valores e os princípios positivos que têm sustentado a vida familiar por séculos estão sendo esquecidos e, como resultado, a humanidade está perdendo rapidamente o espaço saudável no qual, os futuros construtores de uma civilização em constante evolução, devem ser nutridos. A crise da família, contudo, não pode ser resolvida através de tentativas românticas para recuperar o passado. Temos de admitir que o próprio conceito de família como um espaço ditatorial, dentro do qual um ou dois adultos dominam a vida dos outros membros, ou como uma unidade que une seus membros em absoluta lealdade somente para explorar os outros, está totalmente inadequada para a era de maturidade da raça humana. A família permissiva, centrada na auto-gratificação de seus membros, uma alternativa que está sendo oferecida em nome do modernismo, também provou ser deficiente. De fato, sua ascendência trouxe conseqüências desastrosas à sociedade e contribuiu grandemente para o processo de desintegração social.

O que sentimos ser necessário, então, é formular um novo conceito de família, que seja adequado ao presente estágio da História, marcado pela maturidade coletiva que está sendo alcançada pela humanidade. Tal concepção reconheceria que o ambiente mais apropriado no qual o ser humano pode crescer é a família, na qual os filhos vivem com ambos os pais, enquanto ao mesmo tempo usufruem o contato com outros membros da família: os avós, os tios e as tias, os sobrinhos, as sobrinhas e os primos. Neste contexto, a família reconheceria que determinados direitos e responsabilidades acompanham cada posição dentro da sua estrutura. Ainda mais, aceitaria que, para cumprir seu propósito, a família precisa ser guiada pelos mesmos princípios que devem guiar a construção de uma civilização mundial material e espiritualmente próspera. Embora já tenhamos nos referido a eles, dois merecem atenção especial. Um é o princípio da igualdade entre homens e mulheres, o outro, a justiça. Somente quando os padrões de conduta baseados na igualdade entre os sexos forem adotados na família e a justiça oriente todos os relacionamentos poderão os direitos de cada um dos membros da família ser mantidos e as responsabilidades de cada um cuidadosamente cumpridas. Além disso, uma concepção da família de uma forma apropriada para os dias de hoje consideraria como sua preocupação central a busca do conhecimento.

Os esforços unidos da família que se consolida através do amor, que é orientada pelos princípios de justiça e que dedica todos os seus recursos disponíveis à educação de seus membros, especialmente os jovens e as crianças, podem libertá-la dos grilhões da pobreza e contribuir para o progresso da nação. Em um país como o Brasil, onde existem fortes laços familiares e onde as influências corrosivas de uma cultura consumista agressiva ainda não fizeram sentir seus efeitos amplos, diretrizes e programas deviam buscar reforçar aqueles aspectos da vida familiar que resultam na honra de cada um de seus membros, enquanto eliminam aqueles que podem minar a união desta unidade essencial. Atenção particular, cremos, deve ser dada às quatro áreas em consideração: casamento, saúde familiar, paternidade e educação moral; também, à adolescência.

Programas e diretrizes relacionadas ao casamento, parece-nos, precisariam se voltar tanto para o indivíduo como para a sociedade. Ao nível individual, deviam se esforçar para preparar os jovens brasileiros para se conscientizarem da importância de adotarem uma atitude de responsabilidade com relação ao casamento, alcançarem uma compreensão profunda da base moral e espiritual do casamento e se conscientizarem das qualidades e atributos que levam ao estabelecimento da verdadeira união entre marido e mulher, adicionalmente àqueles dons e habilidades necessários para compartilharem sua vida com a de outrem. Para que tais programas tenham sucesso, uma ação paralela deve ser tomada para assegurar que as práticas prevalecentes e as imagens que se tem na sociedade brasileira não endossem, implícita ou explicitamente, a promiscuidade, a infidelidade e o divórcio.

A saúde da família é um assunto que exige inúmeros enfoques. Além da necessidade óbvia de programas que tratem da ampla gama de assuntos relacionados com o bem-estar físico, incluindo planejamento familiar e saúde materno-infantil, existe um desafio mais forte, o de se criar estratégias mais efetivas para combater destrutivos males sociais como o alcoolismo, o uso de drogas e a violência doméstica. Embora programas econômicos e de cunho legal sejam claramente essenciais, os programas educacionais deveriam despertar a compreensão de que qualquer forma de violência ou abuso, seja psicológico ou físico, é fundamentalmente incompatível com a nobreza do espírito humano.

Diretrizes bem definidas, relacionadas com o papel dos pais e a educação moral podiam servir para reforçar os programas relacionados com a saúde e bem-estar da família. O principal objetivo aqui seria prover oportunidade para os pais no Brasil equiparem-se com as destrezas e habilidades, atitudes e conhecimentos necessários para criar condições nas quais as potencialidades espirituais e intelectuais de suas crianças possam ser inteiramente desenvolvidas e florescer.

Quanto à adolescência, acreditamos que a idade entre 12 e 15 anos representa um tempo especial no desenvolvimento da vida de uma pessoa. É durante este período que os conceitos fundamentais sobre a vida individual e coletiva são formulados na mente de um jovem. Os programas, então, precisam ser estabelecidos através do país buscando ajudar as centenas de milhares de jovens brasileiros a formarem uma identidade adequada através de um lado, tornarem-se capazes de enfrentar as forças de um materialismo incansável, a lassidão moral, a violência e a corrupção e, de outro lado, cultivando e canalizando sua enorme energia, espírito, criatividade e capacidades em benefício de suas comunidades locais.

Tudo isso implicaria a existência de uma razoavelmente sofisticada infra-estrutura dedicada à promoção da vida familiar no Brasil, financeiramente apoiada pelo governo e recebendo seu apoio irrestrito. Em termos de uma região típica, o que seria necessário é uma rede de centros locais, estendendo-se ao nível de bairros em alguns casos, com o apoio de um grupo local de servidores que administrariam um vasto programa, abrangendo homens e mulheres, jovens e crianças.

3. Passos Subseqüentes

Diferente dos assuntos que se enquadram nos títulos dos conceitos básicos e das principais áreas de ação que receberam a atenção preliminar que aqui lhes demos, a revisão das estruturas e dos sistemas já existentes no Brasil - o próximo passo de um esforço para direcionar o país em um novo rumo - adentra o campo do planejamento e estaria além do escopo deste documento. Tal passo, como também os passos subseqüentes de mobilização de recursos e lançamento de programas complementares de ação, teria de receber a atenção devida de um processo contínuo de consulta no Brasil conforme descrito no início deste documento. Oferecemos a seguinte passagem como uma contribuição à discussão sobre uma mudança estrutural, assunto que consideramos de importância singular:

A maioria das intervenções voltadas “ao pobre” pelo governo e organizações não governamentais (ONGs) são de dois tipos: a provisão de serviços e a criação de grupos que de uma maneira ou de outra cooperem para melhorar as suas próprias condições. Normalmente, ambos os tipos incluem um componente notável de capacitação. Os objetivos da capacitação vão desde preparar os beneficiários para receberem os serviços continuamente, até a elevação da consciência política e sua própria capacitação. Porém, não importa quão extensas sejam essas intervenções e a capacitação que provêm, elas não definem o caminho do desenvolvimento para a maioria das nações. Isto é em grande parte decorrente de políticas arraigadas em instituições encarregadas de governar e administrar os assuntos sociais, instituições que, infelizmente, pertencem e são principalmente acessíveis apenas a uma minoria privilegiada, apesar do fato de que a maioria das pessoas estejam repetidamente votando neste ou naquele candidato que concorrerem a cargos públicos…

A inabilidade da teoria e da prática de desenvolvimento para adequadamente solucionar os assuntos relacionados à criação, transformação e fortalecimento das estruturas de uma civilização mundial emergente foi exacerbada pelo conflito existente há muito tempo entre duas visões extremas. Em um extremo, a convicção de que a transformação é efetuada basicamente ao nível do indivíduo; no outro extremo, a concepção do ser humano como um mero produto da sociedade, com a mudança estrutural revolucionária como o único modo para acabar com os problemas da maioria das nações. Os partidários da primeira visão incluem, obviamente, os seguidores de movimentos religiosos que vêem a solução para os problemas humanos na salvação das almas, incluindo apenas uma parte delas, ou mesmo para todos no planeta. Embora tal posição seja desaprovada em círculos de desenvolvimento, é surpreendente o fato de tantos planos internacionais de desenvolvimento terem buscado superar a pobreza com mudanças estruturais mínimas, elevando as capacidades dos indivíduos através de programas de treinamento elaborados para serem reconhecidos como habilitados ao trabalho ou mesmo para conseguirem emprego. A insistência de parte daqueles que defendem a segunda visão, alguns tendo ido a ponto de rotular os esforços pela melhoria da condição humana como mera tentativa de adiar uma revolução, cumpriu sua parte para desviar a atenção dos desafios do desenvolvimento institucional. Talvez hoje, quando o debate entre esses extremos parece ter sido exaurido, a teoria social possa examinar a transformação da sociedade humana sem estar condicionada às complexidades das interações das mudanças profundas dentro do indivíduo, podendo deliberar quanto a uma recriação sistemática da estrutura social.

A criação das instituições de uma sociedade global, uma teia de estruturas interconectadas que une a sociedade em todos os níveis, do local ao internacional - instituições que gradualmente se tornam o patrimônio de todos os habitantes do planeta - é… um dos principais desafios [que a humanidade enfrenta]. Sem isso, [tememos], a globalização será sinônimo de marginalização das massas.

Nesta altura, já deve ter ficado bem claro que acreditamos que este desafio somente poderá ser enfrentado através da rigorosa aplicação dos métodos da ciência. Mas, unicamente o método não será suficiente. É necessária uma visão, e a visão apropriada jamais será delineada, dissemos, se a totalidade da herança espiritual da raça humana continuar sendo negligenciada.

Deve ser deixado claro também que, enquanto enfatizando a necessidade de uma mudança estrutural, o que visualizamos não é uma mudança brusca, mas uma que ocorra através de um processo sistemático e gradual. Um enfoque adequado à maturidade da humanidade considerará as realizações alcançadas, as fraquezas e fortalezas, os ajustes necessários e permitirá que as instituições e os sistemas tomem forma gradualmente, utilizando-se dos talentos e capacidades de vasto número de pessoas. Isso nos leva novamente à questão do conhecimento e da necessidade das comunidades, em todos os níveis, de serem dotadas da capacidade de se engajar em um processo de aprendizagem sistemático e estruturado. Com isso em mente, gostaríamos de sugerir que, qualquer que seja o resultado inicial das consultas no Brasil sobre a questão das estruturas e sistemas, urgente atenção deve ser dada ao assentamento das fundações daquelas instituições que possam se devotar à geração formal, aplicação e propagação do conhecimento através das raízes das comunidades em todo o país.

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