Parte II - Promovendo um Discurso Sobre Ciência, Religião e Desenvolvimento

Farzam Arbab

Experiência Pessoal

Parece-me essencial que, ao início de um programa de pesquisa sobre o tema de ciência, religião e desenvolvimento, dever-se-ia reconhecer francamente o papel privilegiado que a ciência tem como fonte de metodologia. Os assuntos que envolvem a escolha de métodos científicos, porém, são em si mesmos complexos, e algumas palavras sobre o assunto são aqui oportunas.

A ciência, em seu sentido mais amplo, abrangendo uma extensa gama de fenômenos, tanto da natureza como da sociedade, admite uma variedade de enfoques e métodos, cada um deles apropriados ao caráter de um objeto específico de investigação. No estudo dos inúmeros sistemas e processos científicos, não surgem perguntas diretamente relacionadas à existência de Deus, ou à dimensão espiritual de vida; o método apropriado necessariamente tem que excluí-los de consideração, por nenhuma outra razão que a preservação do rigor científico. Ainda mais, quando tal exclusão se torna uma regra a ser aplicada dogmaticamente pelo mundo científico, tal atitude produz uma inflexibilidade que rouba da ciência alguns de seus poderes. Enfoques “científicos” rígidos tornam difícil avaliar as próprias suposições da ciência em comparação com os sistemas de crenças fora dela. Tais enfoques permitem o estudo da religião, mas normalmente como um fenômeno psíquico ou social criado pelas interações de seres humanos entre si e com o ambiente onde vivem, interações que, em uma análise final, julga-se ocorrerem entre agregados de átomos e moléculas, cada qual se comportando rigidamente de acordo com a medida de complexidade outorgada pela natureza. Esta não é a visão da vasta maioria da humanidade, que todos concordam, terá de participar de forma integral no processo de transformação social e cujas culturas, crenças e valores devem ser incorporados no planejamento e na implementação de atividades de desenvolvimento. Tal fato leva a uma contradição que limita severamente a utilidade dos estudos de desenvolvimento dentro apenas das estreitas definições do “método científico”.

Considero como uma premissa de nosso programa de pesquisa ser possível tratar de assuntos de convicção religiosa de forma rigorosa sem considerá-los como triviais ou explicando-os fora do contexto científico, relegando os assuntos de fé para o mundo privado e isolado do indivíduo ou limitando a prática religiosa apenas ao campo do ritual, legitimado pelas necessidades da humanidade como uma espécie social. Isso, naturalmente, não é uma premissa nova: é imanente ao trabalho de cientistas sociais e teólogos de várias escolas. Infelizmente, não teve uma influência significativa na forma de pensar que amoldou o campo de desenvolvimento nas últimas décadas.

Além disso, parece inevitável que, para lidar corretamente com as dificuldades da escolha metodológica, nosso enfoque, para esta pesquisa, deve permanecer mensurável e judicioso. Assim, creio que por algum tempo ainda, a ênfase continuará voltada para a formulação de um discurso sobre o tema ciência, religião e desenvolvimento, em vez de buscar de imediato elaborar estudos ou articular hipóteses. Naturalmente, para ser científico, nosso discurso terá que cumprir certas condições. Por exemplo, sua linguagem tem de se esforçar para ser racional, livre de ambigüidades e objetiva. O desafio à nossa frente é alcançar tal linguagem quando o objeto da investigação toca intimamente na própria convicção religiosa de cada participante.

Acho bastante inadequado o enfoque para o estudo de religião que divide o investigador em duas entidades separadas, o cientista e o crente; o primeiro, apegado às regras acadêmicas e o segundo, obrigado a ignorar os absurdos que esta dualidade introduz em seu sistema de crenças. Que tão insustentável enfoque tenha alcançado ampla aceitação é uma decorrência das imposições do pensamento secular, que age como um tipo de credo fundamentalista. Como resultado, muito da realidade da ciência, da religião e das forças que transformam a sociedade acabou ficando oculta atrás de um véu criado por uma falsa objetividade.

A alternativa para a situação prevalecente não pode restringir-se a apologética ou a uma controvérsia sectária. O que se faz necessário é uma nova consideração à interpenetração da razão e da fé, como também uma exploração sistemática de enfoques racionais que não estejam presos ao materialismo. Embora tal exploração completa não faça parte do escopo deste projeto, o reconhecimento de sua necessidade absoluta é importante para o nosso quadro de referência.

Pode-se questionar que uma conseqüência imediata desta realização é exigir do pesquisador que em certos campos torne explícito os aspectos pertinentes de sua própria convicção e experiência. Para fazer isso de modo significativo, deve-se estar convencido de que é possível manter-se firme em suas convicções sem ser intransigente. Embora a declaração: “se eu acredito que algo é certo e verdadeiro, então aqueles que têm opiniões diferentes devem estar errados” passe pelo teste da lógica formal e embora seja aplicável em incontáveis situações, sua utilidade desaparece quando o assunto em discussão torna-se relativamente complexo. Não é que “A” e “não A” possam ambos estar certos, mas que a vastidão da verdade não permite que a maioria dos assuntos de convicção, se tiverem a devida profundidade, sejam reduzidos apenas a tais comparações. As únicas opções que esta postura simplista acarreta, em instância final, são o fanatismo religioso e ideológico ou o tipo de relativismo que anula a fé, abraça o cepticismo e idolatra a dúvida. É instrutivo observar como as agressões de tal relativismo às crenças, inicialmente voltadas contra a religião, foram dirigidos na era pós-moderna às próprias bases da ciência.

Foi pelas razões acima, e não devido a qualquer intenção de defender um conjunto de convicções religiosas, que decidi incorporar neste trabalho um sumário de certos elementos de minha própria fé. Nesta seção introdutória, tentarei descrever como minha experiência pessoal e meu sistema de crenças determinam o modo como eu trato dos assuntos constantes das seções subseqüentes.

Como Fui Levado ao Desenvolvimento

Fui inicialmente apresentado ao campo do desenvolvimento em 1971, ao ser convidado para participar das deliberações de um grupo interdisciplinar interessado em enfoques integrados relacionados ao desenvolvimento rural. Na ocasião, eu era professor visitante na Universidad del Valle, na Colômbia, ajudando a reorganizar seu departamento de física para harmonizar-se com os padrões de universidades da América do Norte e da Europa Ocidental. Nosso projeto fazia parte de um esforço intensivo da Fundação Rockefeller para melhorar o ensino superior em várias universidades ao redor do mundo e transformá-las em instrumentos eficientes de modernização.

Contribuir à formação de uma geração de cientistas que iriam estabelecer uma base firme para o progresso no seu país, era uma perspectiva emocionante que realmente havia me atraído à Colômbia. Ainda assim, sentia-me incomodado com a distância que separava nosso esforço acadêmico formal da vida de milhões de pessoas cujas necessidades e aspirações exigiam uma atenção imediata. A participação nas deliberações do grupo interdisciplinar, na universidade, era uma excelente oportunidade para eu me dedicar à busca de meios que envolvessem a ciência mais diretamente em sistemas e processos pertinentes à realidade social das massas da humanidade. Afinal de contas, a ciência - a fonte da tecnologia - era para mim a força mais importante que atua no próprio âmago da modernização, aquele processo mágico que eu aprendera a apreciar e venerar em todas as diferentes fases da minha educação.

Como acabou se comprovando, meu entusiasmo pelas discussões do grupo, intelectualmente estimulantes, sobre a natureza do desenvolvimento social e econômico, perdurou por cerca de um ano. De acordo com nossa intenção inicial de nos mudarmos para a América Latina, minha esposa e eu estávamos nos envolvendo cada vez mais nas atividades da comunidade bahá’í colombiana, especialmente em uma região rural perto de Cali conhecida como Norte del Cauca. Na época em que comecei a participar do grupo interdisciplinar, meus colegas já tinham decidido sobre uma série de definições sobre desenvolvimento e haviam se comprometido a construir um modelo para guiar suas atividades futuras. De acordo com este modelo, o bem-estar resultaria da convergência de vários fatores, como saúde, moradia, educação, emprego, vida familiar, organização comunitária e outros elementos que poderiam se agrupar sob o título geral de “cultura”. O desenvolvimento integrado implicava na ação simultânea e unificada de várias organizações governamentais para melhorar estes fatores. O papel da universidade era coordenar estas intervenções e prover o embasamento teórico necessário. O enorme vazio entre a realidade da vida que lá encontramos e o elaborado acervo dos estudos do grupo interdisciplinar, trouxe à tona contradições que me pareceram impossível ignorar.
O exercício no qual nosso grupo estava envolvido era realmente singular. Aqueles foram os anos quando o campo do desenvolvimento começava a voltar sua atenção aos pobres e o Banco Mundial, sob a liderança de Robert McNamara, estava promovendo o crescimento com eqüidade, dando atenção às necessidades básicas e ao desenvolvimento rural integrado. Tínhamos contatos freqüentes com peritos mundiais, alguns dos quais nos visitaram e nos trouxeram o mais recente pensamento sobre desenvolvimento. Com a ajuda deles, nossa elaboração teórica ficou cada vez mais sofisticada; descobrimos fatores novos, refinamos nossas definições, observamos novas relações e pudemos constatar os efeitos de uma mudança em um fator no desempenho dos outros.

Se me lembro bem, o assunto que representou o maior desafio para nós foi a “participação”, um tema que, na ocasião, ganhava proeminência no discurso sobre o desenvolvimento. Foi o meu descontentamento com o modo como este desafio foi enfrentado que ajudou a cristalizar em minha mente uma série de objeções às premissas subjacentes ao enfoque que nosso grupo havia tomado. Minha reação foi distanciar-me do grupo aos poucos e, com a ajuda de alguns outros colegas, começar a formular os alicerces para as atividades de uma organização pequena, mas inteiramente nossa: a Fundación para la Aplicacíon y Ensenanza de las Ciencias (FUNDAEC)1 - Fundação Para a Aplicação e Ensino das Ciências. Algumas perguntas que nos fizemos naquele momento - e algumas respostas que encontramos durante os anos seguintes, à medida que se expandia o campo de nossas ações e a FUNDAEC se tornava uma organização de desenvolvimento bem estabelecida - parecem altamente pertinentes à presente investigação sobre o tema de ciência, religião e desenvolvimento.

A Dicotomia Interna e Externa

A primeira questão levantada, inicialmente na linguagem do grupo anterior, foi a seguinte: Qual era o papel dos próprios aldeões na intervenção interdisciplinar e multi-institucional do desenvolvimento? As análises que encontramos na literatura sobre participação, embora instigadoras de reflexão, não eram inteiramente satisfatórias. Não importa quão arduamente tentamos, o fato é que não pudemos escapar de um sentimento intranqüilo de que, adotando qualquer dos enfoques prevalecentes, estaríamos pedindo às pessoas participar em nossos planos e seguir nossos modelos. Nossa intenção de fazer todo o possível para lhes dar participação no esforço conjunto, especialmente ao nível de implementação, pouco faria para mudar esta mensagem subjacente, a qual, e disso não tínhamos dúvida alguma, seria captada pelas próprias pessoas.

O curioso sobre estas deliberações com relação ao tema da participação era que quanto mais pensássemos em termos de “nós” e “eles”, mais distante parecia estar a disposição das pessoas em servir. O pêndulo parecia balançar de um extremo ao outro, do paternalismo das décadas anteriores para a glorificação da autonomia cultural e autodeterminação. Por que tantas organizações de desenvolvimento estavam assumindo com tamanha tenacidade o papel de um agente externo? Estarão os seres humanos condenados a serem externos a todos os grupos, menos um único, uma sub-cultura estreitamente definida por nacionalidade, etnia, classe social, religião e ocupação?

Minha experiência com a comunidade bahá’í mostrava um agudo contraste com os esforços da maioria dos projetos de desenvolvimento que eu conhecera. Na comunidade bahá’í, eu era um participante de um grupo - neste caso principalmente de pessoas com parcos recursos materiais - moralmente decidido a participar em seus planos, seguir a orientação de suas instituições eleitas e contribuir com meus talentos e recursos pessoais para seu avanço espiritual e material. Embora ter de aprender as sutilezas de uma cultura nova fosse um processo demorado, eu fazia parte, por definição do próprio processo, da coletividade desde o começo; não era um agente externo.

Familiarizar-se com uma população como agente de uma organização de desenvolvimento ou uma instituição de caridade, é algo profundamente diferente do que trabalhar entre amigos em busca de um propósito comum. Nesta segunda opção, a percepção da realidade não é amoldada simplesmente por teorias acadêmicas que descrevem, de fora do grupo, as necessidades e aspirações das grandes massas da humanidade. Embora a gravidade da injustiça social seja sentida e compreendida, a integridade e capacidade de suas vítimas em desfrutarem de alegria, oferece proteção contra algumas emoções que afligem os observadores externos da pobreza: piedade, temor, indignação justificada, ambivalência e o desejo desordenado de conduzir os outros a caminhos irrelevantes, criados conforme as nossas próprias realizações ou frustrações. Para mim, o que me surpreendia sobre a minha nova comunidade não era a pobreza material em si mesma, mas a riqueza de talento que continuava sem ser desenvolvida, juntamente com os sonhos de promissores e condignos futuros não alcançados, à medida que a injustiça sistematicamente bloqueava o desenvolvimento de suas potencialidades.
No decorrer dos anos, fui me convencendo cada vez mais de que o que percebi originalmente como um assunto de escolha pessoal - aprender a ver o mundo de dentro da população que desejava servir e me tornar um participante de seus esforços para transformar o mundo - representava, na realidade, um assunto fundamental na teoria de desenvolvimento até agora tratado inadequadamente. A maioria dos programas de desenvolvimento têm sido intervenções administradas de fora, embora a participação seja exaltada com tanta confiança. Esta é a manifestação de uma estrutura social que aceitou a separação como norma - dividindo as pessoas em grupos de “nós” e “eles” que lutam, que competem entre si, que negociam, que cooperam ou que ajudam um ao outro a partir das fronteiras que delimitam sua separação. Esta tendência reforça e é reforçada por uma intelectualidade que vê como o cunho oficial da inteligência a habilidade de identificar diferenças, dividir e tornar as coisas relativas, tudo em nome de ser científico. Tal enfoque é uma compreensão errada da ciência, pois embora seja verdade que a ciência analisa, ela também integra e aponta os padrões subjacentes de unidade.

A religião, naturalmente, tem contribuído muito para a consolidação das noções separatistas. Porém, seria um engano imaginar que uma postura de superioridade, freqüentemente assumida por um grupo religioso em relação a outro, é algo inerente à religião. A crença na unidade da humanidade, com suas implicações de eqüidade e amor abnegado é, no final das contas, uma concepção religiosa da realidade. Visto do ângulo da unicidade, o desenvolvimento deixa de ser algo que a pessoa faz para os outros. Uma visão começa a emergir quando o rico e o pobre, o analfabeto e o educado, todos podem e devem participar da construção de uma nova civilização que assegure a prosperidade material e espiritual da inteira raça humana.

Como os Pobres São Vistos

A segunda de nossas questões - que permanece pertinente hoje como era para nós no inicio da década de 1970 - tinha a ver com a forma como os programas de desenvolvimento viam a natureza essencial das massas da humanidade, cuja participação buscavam assegurar. Desde o princípio, meus colegas e eu na FUNDAEC, nos identificamos com enfoques que depois chegaram a ser conhecidos como desenvolvimento centrado na pessoa humana. Mas não nos sentíamos à vontade com as imagens que eram evocadas pela frase “os mais pobres dos pobres”, usada tão extensivamente na literatura de desenvolvimento daqueles dias.

Quando, depois da Segunda Guerra Mundial, economistas de desenvolvimento começaram a promover políticas de crescimento entre as nações do mundo, o discurso técnico sobre industrialização, acumulação de capital, planejamento, ajuda externa e transferência de “know-how”, tinha conotações não apenas de pobreza material, mas da condição de subdesenvolvimento das pessoas. Isto era especialmente verdade ao se referirem aos habitantes de áreas rurais, que eram descritos não importa quão polidamente, como ignorantes, desmotivados, preguiçosos e supersticiosos. Assumiu-se até mesmo que 50% deles viviam vidas virtualmente improdutivas e poderiam ser levados prontamente para as cidades, para prover mão de obra barata para apressar a industrialização. Talvez para mitigar as implicações morais de tal suposição, um grande elogio foi feito a essas massas humanas: foram chamados de capital oculto das nações em desenvolvimento. As primeiras fases de migração rural para áreas urbanas, agora tão profundamente lamentadas, não foram acidentes da história; inspiradas e dirigidas por percepções defeituosas de pensadores da área do desenvolvimento, em relação aos seus próprios semelhantes seres humanos.

Os pioneiros da Revolução Verde levantaram protestos contra esta visão sobre os camponeses, mas sem abandonar a maioria das outras premissas que defendiam sobre a economia do desenvolvimento. Não era o camponês, afirmavam, mas a condição da tecnologia a causa do baixo nível da produção. Os aldeões realmente eram inteligentes e eficientes no uso das ferramentas à sua disposição. A solução para o problema estava, então, na transformação da agricultura tradicional. Como seus outros colegas, esses pioneiros veneravam o que viam como racionalismo moderno. Assim, continuaram a proclamar que os camponeses, também, pertenciam à espécie homo economicus, um artigo de fé que caracterizava o seu elaborado - e admirável - esforço para modernizar a produção agrícola e animal.
A Revolução Verde foi apenas parcialmente bem sucedida. A produção de alimentos aumentou notavelmente e milhões foram certamente salvos de fome iminente. Mas a distância entre ricos e pobres também aumentou, tanto nas aldeias como nas cidades que receberam um fluxo constante de migrantes à procura de uma vida melhor. Enquanto isso, o pensamento voltado ao desenvolvimento continuava a enfatizar as necessidades dos pobres, sua parte e participação no crescimento econômico. Mas ainda não havia nenhuma mudança fundamental na forma em que os pobres eram vistos. A nova imagem, que se mantinha desde o início da década de setenta, é que os materialmente pobres eram um amontoado de problemas e necessidades; pessoas que sofriam de desnutrição e da falta dos serviços de saúde pública; pessoas com pouca educação, vivendo em locais inadequados, carecendo de capital, sem acesso à tecnologia moderna e incapazes de desfrutar qualquer nível razoável de consumo. Como fazer com que todos esses problemas tornem-se protagonistas ativos no desenvolvimento - é algo nada fácil de entender.

O problema vai muito mais longe. Os esforços para livrar a noção de desenvolvimento de tais visões paternalistas tendem freqüentemente a cair em armadilhas ideológicas, no centro das quais há um entendimento enganoso sobre a natureza humana. Nas noções nutridas por essas ideologias, os agentes responsáveis pelas mudanças são trabalhadores competitivos, incansáveis e, também, ativos empresários que acumulam riqueza ou politizados atores sociais concentrados unicamente em questões de poder individual e do grupo. Nem o individualismo excessivo da primeira noção acima, nem a consagração ao conflito, da segunda, naturalmente servem somente ao indivíduo. Por alguma alquimia nunca totalmente explicada, esses esforços e lutas resultam em forças sociais que modernizarão nações subdesenvolvidas e levarão a humanidade a uma era de prosperidade. Nos altares de tão trágicos mal-entendidos sobre a natureza humana, foram sacrificadas as vidas das massas da humanidade durante décadas.

É difícil ver como a teoria e a prática do desenvolvimento podem passar por mudanças estruturais, a menos que o discurso correspondente admita um reexame da natureza do ser humano. Tal exploração simplesmente não pode ser efetuada por especulação e expressões arbitrárias de opiniões desinformadas. A discussão séria deste assunto vital exige, inevitavelmente, um novo nível de diálogo entre ciência e religião.

Concepções da Natureza Humana

Muito do que apresentarei nas seções seguintes está baseado em minha visão da natureza humana. Por isso devo fazer alguns comentários a respeito. Idéias do tipo das que expresso aqui correm o perigo de serem rejeitadas como utópicas. Mas, então, contesto que a rejeição instintiva de aspirações nobres, em nome do realismo, ficou habitual nos enfoques que tratam de assuntos sociais, os quais têm falhado tanto em elevar a raça humana como em reconhecer a impotência desses enfoques. As visões prevalecentes - presumivelmente realistas - da natureza humana são confusas e contraditórias. Por um lado, sonhamos com, e labutamos por um mundo de paz e prosperidade; de outro lado, o que é aceito como teoria científica, nos descreve como escravos do egoísmo, incapazes de nos elevarmos e atingirmos as alturas de nobreza que precisamos alcançar para enfrentarmos os desafios. Trabalhamos, então, por objetivos que sempre se mantêm além de nossos propósitos egoístas. São tais contradições que levaram à paralisia que hoje se vê em todos os estratos de sociedade.

Para nos liberarmos dessas contradições paralisantes, temos que, primeiro, indagar se a história da raça humana, com todas as suas loucuras, substância qualquer teoria como a do pecado original, do inocente sendo corrompido pela civilização, o humano a um passo de ser um deus, ou do animal que é impulsionado por uma série de necessidades insaciáveis. Quando ações de amor, da vontade de conquistar o ego, de transcendência e de beleza são examinadas - lado a lado com a crueldade que tem afligido a humanidade em seu árduo caminho evolutivo - o quadro que emerge é o de um ser humano com uma natureza dual e um conjunto de forças complementares que amoldam e reformam aquela natureza.

Não podemos negar que herdamos, de milhões de anos de evolução animal, atributos que pertencem a essas origens. No animal, tais características não são nem boas nem más; são somente características necessárias à sobrevivência individual ou coletiva. Mas não constituem uma base realística sobre a qual a sociedade humana pode ser construída. Há uma ampla evidência histórica e empírica de que possuímos também uma natureza mais elevada, de ordem espiritual, que tornou possível, gradualmente, que entendêssemos que devemos satisfazer as necessidades materiais dentro de limites apropriados, ao mesmo tempo em que nos elevamos acima das exigências da existência animal. Nenhuma das atitudes habituais de nossa natureza física - como rejeição, culpa, aceitação passiva ou fixação amorosa - conduz à transcendência. O desafio é superar as limitações que nos são incitadas pelas demandas de sobrevivência, aprender a controlar os apetites animais e desenvolver as qualidades de nossa natureza mais elevada, as quais buscam expressão externa. Esta é uma tarefa pessoal a cargo de qualquer indivíduo e, ao mesmo tempo, um imperativo na evolução coletiva da raça humana.

A força primária propulsora deste processo evolutivo, do qual agora somos conscientes, é o conhecimento, um conhecimento que criamos e constantemente recriamos, com base em um entendimento bem claro do papel do ego e daquelas motivações que levam à degradação, como também daquelas que conduzem o ser humano à dignidade e à honra. Os dois repositórios deste conhecimento são a religião e a ciência. Com a ajuda de ambos, podemos descobrir em nós os poderes de nobreza, liberdade e unicidade e aprender a aplicar esses poderes para construir uma civilização em permanente evolução. “És assim como uma espada de fina têmpera,” - diz Bahá’u'lláh - “oculta na escuridão de sua bainha, cujo valor se esconde do conhecimento do artífice. Que saias, pois, da bainha do ego e do desejo, para que teu mérito resplandeça e se manifeste ao mundo inteiro” (EBB 2002a, 158:72) Somente a convicção de sua nobreza inerente pode instrumentalizar a humanidade para responder às demandas deste momento histórico crucial. Longe da expressão familiar de um individualismo desenfreado, a liberdade, que é um corolário de tal convicção, é uma dádiva recebida pela obediência às leis de realidade espiritual, fruto do reconhecimento do princípio da unicidade e da interligação que governa o universo.

A Imperatividade de Ser Científico

Outro grupo de assuntos aos quais, meus colegas e eu, na FUNDAEC dedicamos muita atenção - que é também altamente pertinente ao presente discurso - são as preocupações com a natureza científica do empreendimento de desenvolvimento. Minha primeira reação com relação ao modo como a ciência estava sendo discutida no grupo interdisciplinar, que me iniciou no campo do desenvolvimento, fora de surpresa. Por que se dava tanta ênfase - em uma área ainda emergente do conhecimento humano - à criação de modelos elaborados, fazer avaliações precisas e encontrar populações “testemunha”, como se a ciência fosse redutível a uma aplicação simplista de alguns métodos rigidamente definidos? Minha atitude foi surpreendente ao grupo, que esperava que o físico recentemente ingresso trouxesse rigorismo aos seus estudos. O que o grupo recebeu, ao invés, foi um apelo por flexibilidade, para a consolidação gradual de um conjunto de fatos e pela busca de discernimentos, em vez da formulação de grandes teorias e complexos modelos.

Tendo observado uma ampla gama de políticas e programas por muitos anos, estou agora convencido que o campo de desenvolvimento se ressente, em vários níveis, de uma compreensão adequada sobre a ciência. Primeiro, na ausência de uma base conceitual consistente, aceitável para a maioria dos praticantes, ela é uma presa das imposições de disciplinas competitivas - economia, ciência agrícola, saúde pública, antropologia, administração e assim por diante - cada uma delas, embora reconhecendo o papel desempenhado pelas outras disciplinas, insiste em formatar o campo de acordo com suas próprias premissas ideológicas. Segundo, na falta de uma interpretação clara das ligações entre ciência e tecnologia, o pensamento desenvolvimentista supervaloriza a tecnologia e não presta a atenção necessária ao avanço da cultura científica dos povos. Terceiro, ao se concentrar em certas ferramentas e procedimentos - para planejar, informar e avaliar - perde a visão dos requisitos necessários a uma aprendizagem sistemática e estruturada, uma característica essencial de qualquer enfoque que reivindique ser científico.

Tratando dos pontos acima, não desejo sugerir que o conjunto bastante complexo das interações sociais, culturais, políticas e econômicas, necessárias para provocar mudanças, deveriam ser estritamente científicas. Nem é razoável assumir que a transformação social seja um problema de engenharia a ser administrado por tecnocratas e levado para direções fixadas pelo poder político e econômico. O que nós temos o direito de esperar é uma aprendizagem sistemática sobre o desenvolvimento, através da qual alguma forma de conhecimento comprovado seja acumulado gradualmente nas comunidades e instituições.

Reflexões como estas levaram a FUNDAEC a dedicar seus primeiros esforços para a criação do que foi chamado universidade rural, uma instituição definida como o “espaço social” no qual os habitantes de uma determinada região rural aprenderiam a trilhar seu próprio caminho de desenvolvimento. Dentro deste contexto, focalizamos nossa atenção em várias esferas de atividade da vida rural dentro deste contexto - produção, comercialização, tomada de decisão, educação, socialização e outros - iniciando um processo de aprendizagem para cada um deles, que consistia de pesquisa, ação e capacitação, realizado com a participação crescente de pessoas da região, à medida que alcançavam um senso de propriedade da universidade rural.

Que o desenvolvimento não é um pacote pronto de “desenvolvidos” entregue a “subdesenvolvidos”, mas um processo no qual populações inteiras devem, de uma maneira ou de outra, participar; uma constatação que ocorreu simultaneamente em muitas organizações e agências. Logo de início em nossa experiência com a universidade rural, aprendemos que tal visão de desenvolvimento, enquanto livrando o campo de fórmulas simplistas, trazia novos desafios. O processo não se desenvolve com a mera aplicação da tecnologia, até mesmo quando apoiado pela vontade política e deve estar conectado intimamente com a aprendizagem científica estruturada. Mas embora a ciência possa oferecer os métodos e as ferramentas de investigação e aprendizado, ela por si só não pode fixar a direção correta; a meta do desenvolvimento não pode vir de dentro do próprio processo. O caminho do desenvolvimento deve ser iluminado pela luz dos princípios morais e espirituais que emanam da religião, mas da religião que se disponha a submeter suas propostas ao escrutínio da ciência.

O Equilíbrio Rural-Urbano

Minha experiência em desenvolvimento começou com um intenso envolvimento na vida de uma população rural relativamente pequena e só gradualmente cresceu para abranger assuntos em um contexto global. Durante o tempo todo, o futuro imediato da vida rural no planeta era uma pergunta de importância suprema em meu pensamento. A pergunta é significativa para a atual investigação porque traz à baila a direção que foi fixada para o desenvolvimento social e econômico das nações.
Ninguém afirmaria que os objetivos de desenvolvimento são determinados por consenso, decorrente de uma profunda reflexão religiosa sobre a natureza e propósito da existência humana ou pela exploração científica das opções disponíveis à raça humana. Uma demanda tão simplista não podia ser feita por alguém que não fosse consciente da complexidade dos assuntos humanos. Contudo, seria razoável esperar que, depois de tantas décadas, a definição das metas de um empreendimento global, no qual se tornou o desenvolvimento, não mais fosse feita de forma desorganizada.

O direcionamento atual do desenvolvimento continua sendo - na prática, se não também em teoria - a modernização através da industrialização impelida por uma atividade febril para sustentar o progresso tecnológico. Foi determinado por indivíduos cujas experiências foram amoldadas antes de Segunda Guerra Mundial e pelo colapso de impérios coloniais. As teorias que ajudaram defini-lo, marxista ou capitalista, consideravam a cidade como o fruto mais justo da civilização e a fábrica como a fonte das riquezas. Eles acreditavam que aquele desenvolvimento levaria finalmente a um mundo no qual os camponeses representariam uma porcentagem extremamente pequena da população total e que, até mesmo estes, teriam as características de trabalhadores industriais.

Pessoalmente, nunca me rendi ao romantismo de um passado bonito, da vida tranqüila na aldeia ou a espiritualidade da rejeição de meios. O futuro que pressinto é altamente tecnológico, um futuro no qual os avanços científicos terão possibilitado à humanidade viver livre da luta por mera sobrevivência. Nem vejo muito valor especulando sobre qual será, eventualmente, a forma que cidades e aldeias terão, embora ache difícil de acreditar que uma humanidade madura viverá sob condições que definimos hoje como urbana ou rural. O que me parece ser indispensável é a criação de um futuro viável para que no vasto número de vilas existentes no mundo, seus moradores possam dele participar de forma significativa na construção de uma civilização mundial. Os cinturões de pobreza de Lima e Calcutá não são opções viáveis.

Um fato que perturba, com relação à atual desintegração da vida rural, é que ela é resultado direto de um programa de ação. As convicções que predizem e exaltam a tendência rural-urbana se auto anulam, porque são traduzidos em estratégias que empobrecem a zona rural e aumentam os problemas urbanos, desta forma absorvendo cada vez mais seus recursos e apressando seu ciclo. O Colonialismo transferiu para as nascentes cidades do Sul as condições detestáveis que caracterizaram tantas cidades européias no início da industrialização. Cinco décadas de desenvolvimento provocaram a multiplicação e crescimento dessas cidades cujos problemas parecem insuperáveis, apesar dos esforços combinados de milhares de instituições que labutam infatigavelmente para superá-los. Mas as vítimas desses conceitos e práticas incorretos de desenvolvimento não são somente as famílias carentes que moram, parte nas aldeias, parte nas favelas das cidades. O planeta inteiro sofreu em decorrência desse entusiasmo desenfreado pela industrialização e urbanização, com seus líderes e políticos seguindo seus sonhos impensados e morando com ostentação em ambientes de prosperidade, perderam contato com a alma das massas e sua natureza. Sua persistência inexorável naquilo que definiam como progresso não foi suficientemente influenciada, nem pelo poder de uma rigorosa investigação científica, nem pelos discernimentos espirituais da religião.

A Direção do Desenvolvimento

Ao longo dos anos, meus colegas e eu na FUNDAEC participamos de numerosas deliberações sobre a natureza e o propósito do desenvolvimento, e aprendemos muito de teorias que focalizavam a atenção em um conjunto crescente de temas relacionados entre si, como escolha tecnológica, ambiente, necessidades básicas, desenvolvimento humano, pesquisa e ações participativas. Porém, foi sempre difícil para mim entender como os resultados dessas deliberações poderiam, por si mesmas, mudar a direção do desenvolvimento. Poderia ser fixada uma nova direção se as massas da humanidade continuassem sendo consideradas meras beneficiárias dos projetos, em vez de serem os reais protagonistas do desenvolvimento? E esta mudança pode ocorrer no vazio institucional que caracteriza a vida de tão vasto número de seres humanos?

A maioria das intervenções voltadas “ao pobre” pelo governo e organizações não governamentais (ONG’s) é de dois tipos: a provisão de serviços e a criação de grupos que, de uma maneira ou de outra, cooperem para melhorar as suas próprias condições. Normalmente, ambos os tipos incluem um componente notável de capacitação. Os objetivos da capacitação vão desde preparar os beneficiários para receberem os serviços continuamente, até a elevação da consciência política e sua própria capacitação. Porém, não importa quão extensas sejam essas intervenções e a capacitação que provêm, elas não definem o caminho do desenvolvimento para a maioria das nações. Isto é, em grande parte, decorrente de políticas arraigadas em instituições encarregadas de governar e administrar os assuntos sociais, instituições que, infelizmente, pertencem e são principalmente acessíveis apenas a uma minoria privilegiada, apesar do fato de que a maioria das pessoas estejam repetidamente votando neste ou naquele candidato que concorrerem a cargos públicos.

Por que razão o incremento da capacidade institucional entre populações rurais e habitantes de bairros de cidade pobres foi negligenciado por tantos planos de desenvolvimento - é uma pergunta para a qual nunca encontrei resposta adequada. Os economistas que fixaram o tom de todo o empreendimento falaram muito sobre a importância das instituições. Mas a ênfase dada na tradicional dicotomia moderna parece tê-los levado a se concentrarem em criar e fortalecer instituições do assim chamado setor moderno.

Afinal de contas, a existência dos setores tradicionais estava se acabando e aqueles que deles participavam deviam passar gradualmente para um mundo moderno que estava sendo construído para eles. O sonho, naturalmente, não se tornou realidade. O que emergiu, em vez do esperado, foi um mundo no qual a maioria não só vive em pobreza, mas está sendo cada vez mais marginalizada pelos canais institucionais que deveriam permitir sua participação no processo de desenvolvimento de seu futuro. As instituições tradicionais da maioria das sociedades não estão livres de defeitos ou nem mesmo são viáveis em um mundo que passa por rápida transição. O ponto é que eles foram impiedosamente assediados pelas forças da modernização sem lhes ser oferecido substitutos àqueles que só poderiam ser testemunhas passivas da desintegração de seus sistemas e processos de vida. O resultado está aumentando cada vez mais a distância que hoje separa uma sociedade tecnologicamente avançada de um mundo no qual vive a grande maioria da raça humana.

A inabilidade da teoria e da prática de desenvolvimento de adequadamente solucionar os assuntos relacionados à criação, transformação e fortalecimento das estruturas de uma civilização mundial emergente, foi exacerbada pelo conflito existente há muito tempo entre duas visões extremas. Em um extremo, a convicção de que a transformação é efetuada basicamente ao nível do indivíduo; no outro extremo, a concepção do ser humano como um mero produto da sociedade, com a mudança estrutural revolucionária como o único modo para acabar com os problemas da maioria das nações. Os partidários da primeira visão incluem, obviamente, os seguidores de movimentos religiosos que vêem a solução para os problemas humanos na salvação das almas, incluindo apenas uma parte delas ou mesmo para todos no planeta. Embora tal posição seja desaprovada em círculos de desenvolvimento, é surpreendente o fato de quantos planos internacionais de desenvolvimento buscaram superar a pobreza com mudanças estruturais mínimas, elevando a capacidade dos indivíduos através de programas de treinamento elaborados para serem reconhecidos como habilitados ao trabalho ou mesmo para conseguirem emprego. A insistência de parte daqueles que defendem a segunda visão, alguns tendo ido a ponto de rotular os esforços pela melhoria da condição humana como mera tentativa de adiar uma revolução, cumpriu sua parte para desviar a atenção dos desafios do desenvolvimento institucional. Talvez hoje, quando o debate entre esses extremos parece ter sido exaurido, a teoria social possa examinar a transformação da sociedade humana sem estar condicionada às complexidades das interações das mudanças profundas dentro do indivíduo, podendo deliberar quanto a uma recriação sistemática da estrutura social.

A criação das instituições de uma sociedade global, uma teia de estruturas interconectadas que une a sociedade em todos os níveis, do local ao internacional - instituições que gradualmente se tornam o patrimônio de todos os habitantes do planeta - é para mim um dos principais desafios do planejamento e da estratégia do desenvolvimento. Sem isso, temo, a globalização será sinônimo de marginalização das massas. Não vejo como, no presente estado de coisas, as ciências sociais possam tratar deste desafio adequadamente. O enorme avanço científico necessário para tal tarefa exige vontade e uma aplicação rigorosa dos métodos da ciência. Mas somente o método não é suficiente. É necessária uma visão e a própria visão não se transformará em realidade se a herança espiritual da inteira raça humana continuar sendo negligenciada.

Técnica, Poder, Espiritualidade e Conhecimento

Finalmente, em minha tentativa de explicitar certos elementos de convicção e experiências pessoais que influenciaram meu tratamento de nosso tema de pesquisa, eu deveria fazer um comentário sobre o modo como vejo algumas questões relacionadas ao desenvolvimento, que estão interligadas.
Como mencionado antes, o convite inicial para unir-me às deliberações de um grupo sobre desenvolvimento era a de um cientista do qual se esperava total apego ao rigor científico. Logo percebi que o que esperavam de mim era que fizesse contribuições técnicas ao grupo. Com certeza esforcei-me para fazer isso com muito prazer. Porém, aprendi gradualmente que lidar com desenvolvimento - e na realidade com a maioria dos assuntos sociais - ao nível da técnica, era uma tendência crescente e perturbadora de nossas tempos. Dei-me conta, cada vez mais, das limitações de uma tecnocracia e cheguei a sentir-me desestimulado de pertencer a ela. No entanto, a escolha oferecida pelos críticos das regras tecnocratas era a exaltação de políticas normativas e do poder político, que achei muito menos atrativa.

Que mudanças e transformações envolvem a participação do poder, é um fato inegável. Que numerosos assuntos no campo de desenvolvimento têm uma dimensão política significativa, é também irrefutável. Mas a premissa que o poder político e econômico - interpretado como vantagem desfrutada por pessoas ou grupos ou como um atributo que indivíduos, facções, povos, classes e nações buscavam alcançar, com o objetivo de superar, dominar, resistir e ganhar - e como o agente que trará prosperidade à inteira raça humana, é uma premissa insustentável. Apesar de todas as reivindicações em contrário, não há uma evidência histórica convincente para esta suposição. A mim parece que a aceitação de tal premissa, em nome do realismo é em si mesma uma indicação da confusão que aflige o pensamento social.

A rápida expansão da civilização ocidental leva a todas as partes do mundo as bênçãos e também os desacertos do Iluminismo. As bênçãos incluem a remoção sistemática dos véus da superstição. Mas, infelizmente, isto é acompanhado pela rudeza da mente que tende a descartar o ideal e chamar de real o que é feio e vil. O resultado, depois de alguns séculos de insistência, é o esquecimento generalizado dos inúmeros poderes do espírito humano, o qual é, na realidade, responsável por algumas das maiores realizações do passado da humanidade. Entre estes estão os poderes de unidade, de serviço humilde, de ações nobres, de amor e de verdade. Mas até mesmo mencionar a palavra verdade em discurso respeitável ficou inaceitável; a verdade foi destronada e reduzida a algo que pode ser negociável ou uma mera expressão de domínio. A mais enfática mensagem anunciada no mundo inteiro para toda uma geração ouvir foi: “aquele que é bem sucedido é que está certo.”
A única explicação que encontrei sobre como um processo de desenvolvimento intelectual, tão intimamente associado em suas origens com a livre investigação da verdade, mas que nos levou às atuais dificuldades, é a persistente negligência quanto a dimensão espiritual da existência humana. O moderno conhecimento científico tem mostrado seu poder de nos libertar das garras das religiões nas quais impera a superstição e que se mantêm por prerrogativas farisaicas. Mas tem demonstrado, também, como a religião pode perder sua direção quando cai vítima do materialismo. O sistema de conhecimento que atualmente impulsiona o desenvolvimento do mundo é fragmentado. Seus fragmentos, por si mesmos, não podem atender aos problemas, altamente complexos e inter-relacionados, de sociedades profundamente carentes de uma transformação completa. No entanto, o poder que pode, em última instância, salvar a humanidade de sua presente condição é o poder do conhecimento. Minha percepção do papel do conhecimento no desenvolvimento, que me leva a examinar o tema de nossa pesquisa no contexto da capacitação, será o assunto da quarta seção deste documento.

Comentários Adicionais

No restante desta seção, trato de vários pontos relacionados diretamente com os argumentos das páginas anteriores. Tais comentários têm o objetivo de prover um contexto adicional para as idéias apresentadas até agora e lhes dão uma clareza adicional.

Definições de Ciência

Ao escrever este documento, tentei evitar definições explícitas de ciência. A literatura de vários campos está, naturalmente, repleta de tais definições. A nenhuma delas eu seriamente daria meu endosso, convencido que estou que entidades complexas revelam suas operações internas somente se forem enfocadas a partir de uma diversidade de frentes. Afirmativas sobre o que a ciência é e não é, são úteis até o ponto em que são utilizadas para oferecer e ampliar discernimentos e não numa atitude reducionista. Para o propósito deste documento, uma frase como “um sistema de conhecimento e de práticas” parece suficiente, ao que me permite discutir a ciência em termos bem amplos. Espero, contudo, que o que emergir seja consistente com a noção de ciência como uma expressão daquelas faculdades da alma racional que, através tanto das percepções sensitivas como das faculdades da razão, lance luz sobre a realidade dos fenômenos internos e externos.

Minha própria visão da ciência foi formada pela física teórica, um volume modesto de leituras sobre filosofia e história da ciência e anos de trato com as ciências sociais, com meu trabalho nos campos de desenvolvimento. Mas a fé imutável que tenho na ciência, que eu confio, vem dos argumentos apresentados neste documento, tem suas raízes na crença religiosa como também no treinamento científico. Tão insistentes são os ensinamentos bahá’ís sobre o papel crítico da ciência no avanço de civilização que seria difícil a um bahá’í não se impressionar diante tanto da herança científica da humanidade, como de seu potencial de realizações futuras. Estes ensinamentos definem, sem qualquer ambigüidade, o quão supersticiosa é qualquer convicção religiosa que claramente discorda dos resultados confirmados da investigação científica. Tais declarações, como a seguinte, de ‘Abdu’l-Bahá, é representativa dos numerosos escritos sobre este assunto:

As virtudes da humanidade são muitas, mas a ciência é a mais nobre de todas elas…. A ciência é o esplendor do Sol da Realidade, o poder de investigar e descobrir as verdades do universo, um meio pelos qual o homem encontra caminho a Deus. …
A ciência é a primeira emanação de Deus ao homem. Todas as coisas criadas incorporam a potencialidade da perfeição material, mas o poder de investigação intelectual e conquista científica é a maior virtude, especificamente do o homem apenas…. O desenvolvimento e progresso de uma nação estão de acordo com a medida e o grau das suas realizações científicas. Por esse intermédio, sua grandeza aumenta continuamente, e dia a dia, o bem-estar e a prosperidade das pessoas são asseguradas. (EBB, 2005, pp.58-59)

Estaria me enganando, porém, se desse a impressão, de que a ciência só recebe elogios nas escrituras bahá’ís. Também existem passagens que advertem sobre o dano que pode ser causado pela ciência quando se divorcia da percepção espiritual. “As ciências de hoje são pontes para a realidade”, declarou ‘Abdu’l-Bahá, “se elas não conduzirem à realidade nada resta senão inútil ilusão.” (EBB, 1993, 99:72)

Religião e Desenvolvimento

As limitações de um discurso sobre desenvolvimento restringido por definições limitadas do “método científico”, às quais aludi, não são somente teóricas em natureza; elas afetam a operação de programas de desenvolvimento em todos os níveis. Desde seu início, o pensamento desenvolvimentista adotou as atitudes de uma tradição secular que, historicamente, foi influenciada por uma concepção inadequada sobre o conhecimento:

Este enfoque reducionista do conhecimento leva a maioria dos especialistas em desenvolvimento a se tornar gigantes de um olho só, cientistas carentes de sabedoria. Eles analisam, prescrevem e agem como se o homem pudesse viver somente de pão, como se o destino humano pudesse ser reduzido unicamente à sua dimensão material.
(Goulet, 1980, p., 481, ênfase no original)

As atitudes em relação à religião estimuladas pela cultura secular no campo do desenvolvimento floresceu de uma condição de desinteresse para uma de aberta hostilidade. O agora clássico de Gunnar Myrdal, Drama Asiático, provê uma cândida declaração - na verdade nada excepcional - deste ponto de autoconfiança da fé secular:

A religião é, naturalmente, crucial, mas não a interpretação das antigas escrituras e das elevadas filosofias e teologias desenvolvidas durante séculos de especulação. Realmente, é surpreendente o quanto escritores do Ocidente, como também do Sul da Ásia, julgam estar falando de povos da região quando se referem livremente ao impacto do Hinduísmo, do Budismo ou do Islã, cujas religiões consideram como conceitos gerais e, freqüentemente, como intelectualizados e abstrusos. Deveria ser estudada a religião da forma que realmente se manifesta entre as pessoas: um complexo estratificado e ritualístico de convicções altamente emocionais e tradições que dão a sanção de santidade, tabu e imutabilidade a arranjos institucionais herdados, modos de viver e atitudes diante da vida. Entendido neste sentido realista e abrangente, a religião normalmente age como uma tremenda força para a inércia social. O autor não conhece nenhum exemplo no Sul da Ásia atual onde a religião tenha induzido a mudança social. No máximo alimenta a compreensão dos ideais de modernização. De um ponto de vista de planejamento, esta inércia relacionada à religião, como outros obstáculos, deve ser superada através de políticas voltadas a mudanças, formulada no contexto de um plano para desenvolvimento. Mas as convicções e tradições, religiosamente sancionadas, não só agem como obstáculos entre as pessoas para aceitarem o plano aprovado, como criam inibições nos próprios planejadores ao compartilharem das mesmas ou com medo de contrariá-las.
(Myrdal, 1972, pp. 48-9)

Declarações magistrais deste tipo por muito tempo inibiram trabalhadores na área do desenvolvimento de dar a atenção devida à força da religião, até mesmo quando eles próprios tinham firmes convicções religiosas. Mas agora, quando cinco décadas de intervenção revelaram as forças e fraquezas dos padrões dominantes de pensamento, aqueles envolvidos na área do desenvolvimento estão cada vez mais expressando em voz alta o seu descontentamento com as conseqüências deste enfoque limitado em seu campo de especialização. Esta mensagem é fortemente exposta em “Cultura, Espiritualidade e Desenvolvimento Econômico: Abrindo um Diálogo”, de William F.Ryan (1995) ao narrar suas entrevistas com cerca de 200 especialistas de todo o mundo, que serviu de ponto de partida para nosso esforço atual.

Incorporar o assunto da religião em um discurso de desenvolvimento não é uma tarefa fácil. É verdade que o campo foi razoavelmente aberto a novas idéias, mas mostrou relutância extraordinária em abandonar sua atitude mental fundamentalmente materialista. Com lentidão dolorosa, foi sendo aceita a participação de pessoas, suas culturas e seus valores como assuntos legítimos a serem considerados; até mesmo a menção de espiritualidade está começando a desfrutar de uma alguma aceitação. Porém, são levantadas mil objeções no momento em que a palavra religião é apresentada. Não existe oposição, evidentemente, ao que Goulet chamou de uso “instrumental” de convicções religiosas. Estes são “vistos principalmente como meros meios - de ajuda ou obstáculos - para a realização de metas decorrentes de fontes externas aos sistemas de valores em questão”. (Goulet 1980, pág., 484, ênfase no original) Embora os agentes de desenvolvimento possam ser sensíveis a valores locais, eles

normalmente baseiam suas metas em um universo externo a esses valores; de modelos de desenvolvimento ou de suposições comuns de suas respectivas disciplinas científicas. Assim, um demógrafo se esforçará para “somar” valores locais ao seu objetivo de reduzir a concepção ou alcançar um nível zero de crescimento da população. Semelhantemente, o agrônomo buscará uma prática tradicional sobre a qual “enxertar” sua recomendação quanto ao uso de pesticidas químicos. O mesmo ocorre com um agente comunitário, tentará “mobilizar” a população para fins políticos em torno de símbolos tradicionalmente reconhecidos.
(Goulet, 1980, p. 484)

Este tratamento instrumental da religião é acompanhado de uma série de observações superficiais sobre a relação entre religião e progresso, que demonstram uma má vontade em estudar, em qualquer grau que seja, a forma como várias tradições religiosas tratam do assunto em discussão. Uma declaração feita por W. Arthur Lewis ilustra a atitude prevalecente:

Tem a religião produzido um efeito independente em amoldar a conduta econômica ou reflete apenas as condições econômicas? É óbvio que as convicções religiosas se transformam à medida que mudam as condições econômicas e sociais. As doutrinas religiosas estão sendo continuamente reinterpretadas e ajustadas a novas situações…
Não podemos aceitar a conclusão que é sempre a mudança econômica que causa a transformação religiosa e nunca que a transformação religiosa cause a mudança econômica ou social. Não é verdade que, se os interesses econômicos e as doutrinas religiosas entrem em conflito, o interesse econômico sempre ganhará. A vaca hindu permanece sagrada durante séculos, embora isso seja claramente contrário aos interesses econômicos. Ou, para citar outro exemplo, o fracasso da Espanha em obter e explorar as oportunidades econômicas decorrentes da descoberta do Novo Mundo não pode ser explicado satisfatoriamente sem levar em conta as atitudes e convicções religiosas que impediram a Espanha de competir com outros países. É possível uma nação abafar seu crescimento econômico adotando, de forma apaixonada e intolerante, uma doutrina religiosa de um tipo que seja incompatível com o crescimento. É possível, alternativamente, que a conversão a uma nova fé seja a faísca que provoca crescimento econômico.
(Lewis, 1995, pp. 106-107)

O Campo do Desenvolvimento

A palavra desenvolvimento - que envolve uma gama enorme de significados no idioma inglês - é principalmente usada neste trabalho para denotar um processo histórico particular. Durante os últimos anos da década de 1940 e os primeiros da década de 1950, seguindo-se ao colapso dos impérios coloniais, o mundo estava pronto para uma transformação econômica e social sem precedentes, tendo testemunhado o aparecimento de um conjunto de atividades cujo propósito, exceto o da reconstrução da Europa, foi o “desenvolvimento” das nações então consideradas atrasadas. Este campo de atividade, originalmente preocupação de um grupo de economistas de desenvolvimento (veja, por exemplo, Meier e Seers, 1984), rapidamente tornou-se um empreendimento global gigantesco envolvendo os governos, uma constelação de agências internacionais, o setor privado e uma corrente cada vez maior de ONG’s.

Em seus primeiros anos, a prática do desenvolvimento estava intimamente relacionada à ajuda estrangeira. Na maioria dos países, porém, a proporção de ajuda financeira canalizada através de programas de desenvolvimento aos fundos gastos pelos governos e companhias privadas para efetuar mudanças sociais e econômicas, diminuiu gradualmente até que, hoje, em muitos casos tornou-se irrisória. No entanto, o campo do desenvolvimento cresceu continuamente em importância, em termos tanto do número daqueles que participam em suas atividades, como na influência que exerce sobre a opinião pública e na formulação de políticas. Seus sucessos e fracassos se tornaram assuntos vitais na vida social e política das nações, desafiando os recursos intelectuais de pensadores famosos em uma variedade de campos científicos e profissionais. Sua linguagem entrou até mesmo no vocabulário popular, com termos como Terceiro Mundo, transferência de tecnologia, necessidades básicas e sustentabilidade, agora já muito populares.

É razoável a reivindicação, então, de que o discurso multifacetado de hoje sobre desenvolvimento é de grande importância para o futuro da humanidade e que o rumo que deveria tomar nos anos próximos é um assunto merecedor de séria consideração. Dada a magnitude das forças em jogo, novas idéias somente serão difundidas se forem comprovadamente oportunas e isto não pode ser feito sem uma compreensão adequada da evolução do desenvolvimento durante as cinco décadas, ou mais, desde o seu começo. Embora uma discussão mais profunda do assunto esteja além da extensão do presente trabalho, alguns comentários parecem-me cabíveis.

Em um primeiro relance, certas características do discurso sobre desenvolvimento podem sugerir uma evolução linear de pensamento através de uma série de fases bem definidas e progressivas. Na verdade, as primeiras três décadas de atividade têm sido repetidamente descritas nestes termos. Dennis A. Rondinelli, por exemplo, dá o seguinte relato em seu trabalho, de 1983, intitulado: Projetos de Desenvolvimento como Experiências em Políticas.

As complexas e incertas mudanças que ocorreram em políticas de desenvolvimento e estratégias de ajuda podem ser classificadas em três períodos distintos na história das teorias de desenvolvimento. As políticas de desenvolvimento industrial dos anos cinqüenta e do início da década de 1960 buscavam um crescimento máximo nas economias das nações em desenvolvimento, acreditando o efeito-cascata-e-espalhe envolveriam a maioria dos pobres em atividades econômicas produtivas. As políticas da época buscavam altas e rápidas taxas de crescimento na produção nacional com pequeno interesse quanto a efeitos distributivos e assim utilizou largamente de estratégias de ajuda sem alvo definido.
As políticas de desenvolvimento dos anos sessenta foram previstas para superar obstáculos e eliminar as limitações existentes ao crescimento econômico, redistribuindo ativos produtivos, capacitando recursos humanos, controlando o crescimento populacional e aumentando a capacidade produtiva nos setores mais atrasados das economias em desenvolvimento. Os planos de desenvolvimento setorial buscavam mudar essas condições sociais e econômicas, que eram consideradas obstáculos ao desenvolvimento. Estas políticas utilizavam formas de ajuda com alvos semi-definidos: as ajudas técnica e financeira focalizavam-se e concentravam-se mais em problemas de desenvolvimento específicos e junto a grupos de pessoas consideradas com características adversas a um crescimento econômico.

As políticas da década de 1970 buscavam o crescimento econômico com eqüidade social; preocupavam-se muito com a distribuição de benefícios, como também com a taxa e a rapidez da produção econômica. Buscavam canalizar ajuda à maioria pobre e recursos a populações que subsistiam em áreas rurais, provendo as necessidades básicas nos países mais pobres e melhorando os padrões de vida de “públicos especiais” ou grupos de pobres. Estes objetivos foram largamente perseguidos através de estratégias definidas de ajuda.
(Rondinelli, 1983, pp. 23-4)

Relatos como o anterior mostram um quadro mais ou menos preciso do que pode ser chamado de “principal corrente de desenvolvimento” do fim de Segunda Guerra Mundial até os primeiros anos da década de 1980. Para serem completos, eles teriam também que descrever a relevante proeminência das organizações da sociedade civil, imperceptível no princípio, mas já célebres no final do período. Com tal projeção, poderiam contar a história de como, pelas interações de dois fluxos de esforços e em pouco mais de três décadas, o discurso sobre desenvolvimento ampliou sua gama de preocupação para incluir assuntos essenciais como crescimento com eqüidade, necessidades básicas, tecnologia apropriada, a condição da mulher, planejamento e implementação de projetos como instrumentos de aprendizagem, avaliação, participação e organização comunitária para um desenvolvimento centralizado nas pessoas.

Apesar desta expressiva acumulação de idéias, porém, seria difícil argumentar que a política e a prática do desenvolvimento ocorreram em fases sistemáticas e sucessivas. Já nos primeiros anos dá década de 1980, podiam ser vistos os sinais de um colapso. Rondinelli assim continua:

Mudanças turbulentas na economia mundial e nas condições econômicas, sociais e políticas entre as nações em desenvolvimento no início da década de 1980 criaram um ambiente de maior incerteza no qual os objetivos e enfoques quanto a ajuda estrangeira mudaram rapidamente. Uma nova ênfase foi colocada em ajustes macro-econômicos nos custos ascendentes de importações para as nações em desenvolvimento e baixa demanda de suas exportações. Foi dada maior atenção à produtividade do setor privado. Menos recursos estavam disponíveis para ajuda internacional e começou a minguar a forte ênfase em satisfazer às necessidades e aumentar a produtividade dos pobres, que haviam caracterizado as teorias de desenvolvimento na década anterior.
(Rondinelli, 1983, p. 24)

O que antes parecera ter sido um movimento progressivo, começou a parecer algo cíclico à medida que o discurso sobre desenvolvimento retomou algumas atitudes que o haviam caracterizado em seu início. Toda a década de 1980 chegaria a ser considerada por alguns observadores como uma “década perdida.” Porém, outros seriam menos benevolentes na análise da disseminação da pobreza - especialmente na África - para a qual as políticas de ajustes estruturais haviam tão decisivamente contribuído. É verdade que durante o mesmo período, o interesse pela sustentabilidade do desenvolvimento começou a ocupar posição central, mas, com a década dos anos noventa chegando ao fim, ficava claro que o conceito nunca possuíra o poder necessário para alcançar seus objetivos. Provou-se incapaz de dar foco ao já, cada vez mais, diversificado conjunto de atividades voltadas ao estreitamento do vazio que separava o mundo materialmente rico do materialmente pobre, uma condição que afeta seriamente a consciência moral da sociedade moderna.

Parece-me, então, que em nosso esforço para explorar o tema de ciência, religião e desenvolvimento, faríamos bem em lembrar de algumas características que se opuseram ao discurso desenvolvimentista em sua evolução durante os últimos 50 anos.

Primeiro, muito conhecimento foi gerado que serve para explicar a natureza dos muitos fatores interagindo que contribuem ao processo de desenvolvimento, que é altamente complexo. O pensamento desenvolvimentista, pelo menos em sua literatura, foi crescentemente aprofundado à medida que os diferentes níveis de assuntos que se interligavam eram descobertos e analisados, às vezes com notável brilho. Contudo, política e prática continuaram a ignorar as lições aprendidas. Os mesmos enganos foram periodicamente repetidos e adotados modismos passageiros com um entusiasmo extraordinário. Estratégias, adormecidas por longo tempo, foram reavivadas de repente, com recursos significativos colocados à disposição de programas e enfoques favoritos, às lideranças de órgãos influentes, estas em constante mudança.

Segundo, em toda a fase deste progresso, os pensadores da área de desenvolvimento fizeram o máximo que puderam para expressar suas teorias e observações em termos técnicos. A tecnocracia, com sua reivindicação familiar de estar livre de julgamentos de valor começou a ditar o modo vigente de operação. No entanto, era aparente a todo o mundo envolvido que as decisões importantes eram baseadas em valores e alcançadas através do jogo do poder político.

Terceiro, a evolução do pensamento desenvolvimentista levou a uma preocupação crescente das pessoas. Em decorrência, culturas, valores, tradições e cosmovisões, vieram a ser consideradas vitais ao planejamento e implementação do desenvolvimento. Porém, apesar do fato da espiritualidade ser tão central às cosmovisões, apoiadas pela vasta maioria dos habitantes da Terra, as premissas da teoria e da ação de desenvolvimento, permaneceram quase que inteiramente materialistas, olvidadas da dimensão espiritual da existência humana.

Intervenção para o Desenvolvimento

As idéias expressadas anteriormente, sob o título “A dicotomia interna e externa”, são elementos de uma categoria mais ampla de consideração, que podem ser com precisão chamadas de “a ética do desenvolvimento”. Como um campo de ação, o desenvolvimento tem que estar permanentemente alerta para não transgredir os limites além dos quais os esforços para melhorar as vidas das pessoas degenerem em uma interferência anti-ética. A pergunta “Quem me deu o direito de intervir?” deveria estar sempre na mente do planejador consciencioso do desenvolvimento. Majid Rahnema traz à tona, talvez com bastante severidade, os aspectos inquietantes desse desafio:

Para impedir que o fracasso do desenvolvimento seja seguido de novas formas de colonização e mais perniciosos sistemas de intervenção, o próprio conceito de intervenção deveria ser explorado a fundo. Em particular, “os ativistas” e os assim chamados agentes de transformação, como também os intelectuais para os quais os escritos ou palavra oral tendem a dar significado à vida, deveriam tentar examinar as dimensões éticas da intervenção.
Minha experiência pessoal, às vezes amarga, ensinou-me a ser tão cauteloso neste respeito ao ponto de perceber a intervenção como um ato próximo do sagrado. Que direito tenho de intervir na vida de outrem, a quem não conheço, de cuja pessoa tenho apenas uma impressão pessoal, egocêntrica?
Há que se reconhecer haver o gesto espontâneo, compassivo do Bom Samaritano que, sem abrigar qualquer projeto de intervenção, dirige-se a um homem aparentemente ferido e agonizante em uma estrada deserta e busca ajudá-lo como pode. Aquele ato não é uma intervenção, no sentido usado no vocabulário moderno de ajuda. É um gesto que não tem nenhum outro propósito senão o próprio ato e, conseqüentemente, é um ato de amor e compaixão, uma “ação correta” no sentido budista da palavra. Aqui, aquele que presta ajuda não se pergunta se a pessoa que irá receber a ajuda ser-lhe-á de utilidade algum dia, se se trataria de um santo, de uma pessoa pobre ou até mesmo de um criminoso potencial. Isso é por que o ato do Bom Samaritano está bem próximo do território do sagrado.
O caso é diferente com um projeto de intervenção, que é preparado e desenvolvido em algum outro lugar, freqüentemente dentro de uma estrutura institucional, com uma visão para mudar a vida de outras pessoas, de uma forma útil ou benéfica para o interventor. Aquela pessoa tem que perceber, pelo menos, que, ele ou ela, está sendo lançada em uma aventura cheia de perigo. A consciência desse fato impõe àquele que intervém a se questionar sobre o “porquê” e “para que” de seus atos. São necessárias qualidades pessoais excepcionais para evitar a possibilidade de que intervenções bem-intencionadas possam terminar produzindo o oposto do que foi planejado. A maioria dessas qualidades é de fato qualidade essencial para qualquer tipo de relação genuína, no verdadeiro sentido da palavra.
A qualidade mais importante é manter-se aberto e sempre atento ao mundo e para todos os outros seres humanos (atento, significando pronto para atender, ajudar). Estar atento implica a arte de escutar, no sentido mais amplo da palavra, sendo sensível ao que é, observando as coisas como realmente são, livre de qualquer julgamento preconcebido, não como gostaria que as pessoas fossem e acreditando que a experiência ou visão de toda e qualquer pessoa é uma fonte potencial de aprendizado. Tal atitude é basicamente diferente daquela que peritos ou consultores com alta remuneração, que geralmente agem com base em uma série de certezas que procedem de seu “conhecimento pessoal” ou de sua “experiência profissional.” Tais “autoridades”, particularmente quando se recusam questionar suas próprias “certezas”, não só desencaminham as pessoas em cujas vidas intervêm, mas também perdem o contato com os próprios objetos de seu conhecimento. Por não serem capazes de escutar, constatam que o conhecimento acumulado por eles logo se torna obsoleto e será de pequena relevância para as realidades mutáveis das quais tratam. Os militantes e outros entusiastas de vários “ismos,” missionários, políticos carismáticos e outros “sedutores profissionais”, pastores, vendedores e especialistas de todos os tipos, inclusive “eruditos” à procura de reconhecimento e fama, são todos exemplos de interventores cuja incapacidade de escutar e aprender de seus públicos-alvos, os desqualifica de qualquer tipo de intervenção. Eles raramente percebem que fazem aos outros aquilo que seus egos todo-poderosos, com suas técnicas de sedução e manipulação, lhes fazem.
A intervenção deveria ser considerada somente num contexto de um exercício constante de autoconsciência, de um estado “meditativo” onde a pessoa aprende ver a si mesma como realmente é, não como a pessoa gostaria de ser. Tal intervenção se opõe à ajuda e ao desenvolvimento institucionalizado, que representam a corrupção e o oposto completo do gesto espontâneo, compassivo do Bom Samaritano.
(Rahnema, 1997, pp. 8-9)

A Dignidade Humana

O texto a seguir de Robert L. Heilbroner extraído de A Grande Ascensão: A Luta pelo Desenvolvimento Econômico em nosso Tempo (1963) é citado aqui, não pela relevância de seus argumentos econômicos, mas para realçar a forma como o discurso sobre o desenvolvimento tem freqüentemente tratado os materialmente pobres. Por “grande ascensão”, Heilbroner quis significar o desenvolvimento econômico do mundo inteiro, um processo pelo qual mais de 100 nações a maioria delas, de acordo com ele, que até então “não tiveram nenhuma história”, tornar-se-iam entidades nacionais a se inserirem na “crônica de eventos registrados”. Esse fato foi por ele considerado como “o primeiro ato efetivo da história mundial”. O livro foi publicado antes que expressões politicamente corretas tivessem nos ensinado a evitar frases sensíveis - mas que infelizmente quase nunca mudando as atitudes subjacentes aos argumentos aparentemente técnicos:

Do que aprendemos sobre o aspecto estritamente econômico do subdesenvolvimento, já sabemos como deve ser o processo básico de expansão econômica. Deve consistir no aumento do baixo nível de produtividade que em cada área subdesenvolvida constitui a causa econômica imediata de pobreza. Este baixo nível de produtividade, como já vimos, é em grande parte devido à falta geral de capital nas nações atrasadas…
Mas como uma nação atrasada começa a acumular o capital que tão desesperadamente precisa? A resposta não é diferente de uma nação atrasada para uma já desenvolvida. Em toda e qualquer sociedade, o capital é formado através da poupança. Isto não significa necessariamente colocar dinheiro em um banco. Significa economizar no sentido “real” da palavra, como os economistas a usam. Significa que uma sociedade tem de evitar gastar todas as suas energias e materiais disponíveis para satisfazer suas necessidades atuais, não importando quão urgentes possam ser….
Esta liberação de esforço produtivo dirigido aos anseios de consumo do momento, a fim de abrir espaço ao esforço voltado para o futuro, não representa um problema assustador para uma nação rica. Mas o problema é diferente para uma nação assolada pela pobreza. Como pode um país que está sofrendo fome restringir suas atividades de auto-sustento? Como pode uma nação, com 80 por cento do povo trabalhando em sua própria terra para se alimentar, redirecionar suas energias para a construção de represas e estradas, fossos e casas, diques de via férrea e fábricas, todos, embora indispensáveis para o futuro, não podem servir de alimento para o dia de hoje? O camponês que cultiva com dificuldades seu infinitésimo pedaço de chão, pode ser o símbolo vivo do atraso, mas pelo menos ele produz as raízes e o arroz que podem mantê-lo vivo. Se fosse acumular capital - para construir uma represa ou cavar um canal - quem o alimentaria? Quem poderia poupar o excesso quando não há excesso algum?
Em síntese, este é o problema básico enfrentado pela maioria dos países subdesenvolvidos e que na aparência parece uma questão insolúvel. Porém, quando analisamos o problema mais a fundo, descobrimos que a situação não é tão derrotista como parece. Pois para um grande número de camponeses que cultivam a terra, seu trabalho não serve apenas para sua própria alimentação. Em outras palavras, assim fazendo, eles estão também roubando seus vizinhos. Na maioria das áreas sub-desenvolvidas, como vimos, o crescimento de populações camponesas numa região tem resultado em uma diminuição da produtividade agrícola bem abaixo daquela que ocorre em países desenvolvidos….
Agora começamos a ver uma explicação ao dilema das sociedades subdesenvolvidas. Existe, em quase todas essas sociedades, um excedente de produção que fica oculto ou que é disfarçado, o qual, se fosse tirado da terra, poderia ser utilizada para formar capital. Trata-se, para ser claro, de capital de um tipo especial e bem simples: capital caracterizado principalmente por grandes projetos que podem ser construídos através de trabalho com muito pouco equipamento: estradas, represas, diques de estrada de ferro, tipos simples de edifícios, fossos de irrigação, esgotos. Embora humildes, estes modelos de “capital social” são essenciais se uma estrutura adicional de capital industrial complexo - máquinas, equipamentos de base, e outros - for seguramente suprido. Assim, o trabalho do camponês, libertado de um trabalho de campo pouco econômico, torna possível um crucialmente importante passo para a solução do problema de escassez de capital…
Vimos como uma sociedade subdesenvolvida pode aumentar sua produção agrícola e simultaneamente “achar” os recursos de mão de obra que precisa para tarefas de desenvolvimento. Mas onde se encontra a poupança - a liberação dos bens de consumo - da qual falamos? Isso nos traz a um segundo importante passo necessário em nosso processo de criação. Quando a produtividade agrícola é aumentada pela formação de fazendas maiores (ou por técnicas melhoradas nas fazendas existentes), parte da colheita resultante deve ser economizada.
Em outras palavras, considerando que o camponês que permanece na terra será agora mais produtivo, ele não pode desfrutar da produtividade aumentada consumindo ele mesmo toda a sua colheita maior. Ao invés, o ganho adicional de sua produção individual deve ser levado para fora da fazenda. A colheita extra conseguida pelo afortunado camponês deve ser economizada por ele e compartilhada com seus até então improdutivos primos, sobrinhos, filhos e filhas, que estão agora ativos no trabalho de projetos de criação de capitais.
Não esperamos que um camponês faminto faça isso voluntariamente. Ao contrário, por tributação de vários tipos ou através de transferência forçada, o governo de um país subdesenvolvido tem que organizar a redistribuição essencial de alimento. Assim, nas fases iniciais de um programa de desenvolvimento bem sucedido, não deve haver nenhuma elevação visível no consumo de alimentos de parte do camponês, embora deve haver uma elevação na produção dos alimentos que planta. Ao invés disto, o que é apto a ser visível é um mecanismo mais ou menos eficiente e, algumas vezes, severo para assegurar que alguma porção desta produtividade recentemente aumentada, seja economizada - quer dizer, não consumida na fazenda, mas tornada disponível para apoiar o trabalhador de criação de capital. É por isso que devemos ter muito cuidado ao avaliar um programa de desenvolvimento, não medindo o sucesso do programa por padrões de vida do camponês. Por muito tempo, tais padrões terão de permanecer estáticos - possivelmente até que os novos projetos importantes comecem a dar resultados.
(Heilbroner, 1963, pp. 92-7, ênfase no original)

É encorajador observar que, ao longo dos anos, foram levantadas numerosas vozes contra tais ataques à dignidade humana, que estão, finalmente, sendo ouvidas. Dimensões éticas e Espirituais do Progresso Social, um relatório preparado para a Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Social, de 1995, provê um exemplo útil:

Uma característica assustadora de muitas culturas - antigas e modernas - é de associar níveis diferentes de dignidade com uma hierarquia de profissões e atividades. Na base de tudo estão, naturalmente, os adultos que nunca trabalharam ou perderam seus empregos e não podem prover o sustento de suas famílias. O “emprego” - não o que ele é ou faz - é que determina a identidade do indivíduo. A pessoa precisa ter grande coragem e recursos internos para resistir à pressão social e cultural que aparta o indivíduo de sua dignidade quando ele não é mais “produtivo.” Ao nível internacional, a cultura dominante tende também a tirar a dignidade de grupos sociais e nações quando não contribuem ou não mais contribuem para o crescimento e prosperidade da economia mundial. Como ocorre com a erradicação de pobreza, a luta contra o desemprego e sub-emprego tem que começar com o reconhecimento da dignidade e valor de todo o trabalho humano, até mesmo os mais humildes, inseguros, “improdutivos” ou não remunerados.”
(Nações Unidas, 1995, pp. 32-33)

A religião, naturalmente, é uma fortaleza segura para a preservação da dignidade humana. Infelizmente, no curso da História seus apelos característicos quanto à libertação do acúmulo obsessivo de riqueza material têm sido quase sempre totalmente distorcidos. O resultado foi uma tendência para a rejeição do mundo e a exaltação de uma passividade que tem atraído a opressão. Tais distorções devem ser corrigidas para que a força da religião possa cumprir seu papel na luta contra o culto da ganância e os sinais são que isso realmente está acontecendo em muitos movimentos religiosos.

Um elemento de crença religiosa parece crucial neste respeito ou seja, a convicção de que o trabalho realizado em espírito de serviço à humanidade é um ato de adoração a Deus. Dá origem a atitudes que valorizam o progresso econômico mas rejeitam servidão a uma noção errônea da produtividade material. Nas palavras de ‘Abdu’l-Bahá:

Na Causa Bahá’í as artes, as ciências e todos os ofícios são tidos como adoração. O homem que faz um pedaço de papel da melhor forma que lhe é possível, conscienciosamente, concentrando todas as suas forças a fim de aperfeiçoá-la, está dando louvores a Deus. Em resumo, todo esforço ou trabalho que o homem faça de todo coração é adoração se for inspirado pelos motivos mais nobres e pelo desejo de servir à humanidade. Servir à humanidade e suprir as necessidades do povo: isto é adoração. Servir é orar. Um médico cuidando de um doente, meiga e ternamente, livre de qualquer preconceito e acreditando na solidariedade da raça humana, está dando louvor.
(EBB, 2001a, p. 78)

O Estado e o Mercado

As duas ideologias que dominaram a vida social e econômica do planeta depois da II Guerra Mundial consideravam o Estado e o mercado como opostos, o primeiro sendo considerado como o guardião do bem coletivo, por um lado; e o segundo, como o protetor da liberdade individual, por outro lado. A bancarrota do sistema soviético levou aparentemente a um fim abrupto a deificação do Estado. Mas a adoração pelas conquistas alcançadas, atribuídas à “mão invisível”, ainda subsiste. Pelo contrário, pelo menos ainda no presente, sua voz exuberante pode ser ouvida mais ruidosamente do que nunca, prometendo uma prosperidade que está claramente além das possibilidades da grande maioria dos seres humanos alcançar. Enquanto isso, o fenômeno mais prontamente observado é a marginalização. Seria demais esperar que o campo do desenvolvimento, preocupado como está com as condições do pobre, pudesse utilizar sua vasta experiência e conceder sua sabedoria à consecução do que parece ser um outro caso de sonho evasivo de progresso?

Embora nenhum compromisso claro para esta tarefa se mostre visível, declarações podem ser encontradas na literatura do desenvolvimento que refletem uma prontidão, por parte de alguns órgãos, em assumir tal responsabilidade, se existir a vontade política em assim fazê-lo. O relatório do Banco Mundial, de 1992: Desenvolvimento e Meio Ambiente oferece um exemplo:

A realização de um desenvolvimento contínuo e eqüitativo permanece como o maior desafio à frente da raça humana. Apesar do progresso positivo ocorrido na última geração, mais de 1 bilhão de pessoas ainda vivem em profunda pobreza e com acesso gritantemente inadequado aos recursos de educação, serviços de saúde, infra-estrutura, terra para trabalhar e o crédito necessário, que poderiam lhes possibilitar uma oportunidade de alcançar uma vida melhor. A tarefa essencial do desenvolvimento é prover oportunidades de forma a que essas pessoas e as centenas de milhões em condições nada melhores, possam usufruir do potencial que têm e que não está sendo utilizado.
Mas embora o desejo de desenvolvimento seja reconhecido universalmente, os últimos anos têm testemunhado uma crescente preocupação sobre se as limitações ambientais irão limitar também o desenvolvimento e se o desenvolvimento causará sério dano ambiental - o qual, por sua vez, prejudicará a qualidade de vida, desta e de futuras gerações. Esta preocupação está superada….
Há fortes oportunidades de “ganhar - ganhar” que continuam inexploradas. A mais importante delas está relacionada com a redução da pobreza: não só porque o combate à pobreza é um imperativo moral, mas também porque é essencial para a preservação ambiental. Além disso, somente as políticas que se justificam no campo econômico podem trazer significativos benefícios ambientais. Eliminando subsídios para o uso de combustíveis fósseis e água, dando direito de posse à terra a fazendeiros pobres que a cultivam, tornando mais competitivas as empresas do Estado que causam forte poluição ambiental, eliminando concessões que recompensam com propriedade aqueles que devastam florestas - são exemplos de políticas que podem melhorar a eficiência econômica e a preservação ambiental. Semelhantemente, investir na melhoria dos serviços sanitários e suprimento de água e aperfeiçoar as pesquisas e serviços de extensão, ambos podem melhorar o ambiente e aumentar as rendas.
Mas estas políticas não são suficientes para assegurar uma boa qualidade ambiental; instituições públicas fortalecidas e políticas para a proteção ambiental também são essenciais. O mundo aprendeu durante as últimas duas décadas que deve confiar mais nos mercados e menos nos governos para promover o desenvolvimento. Mas a proteção ambiental é uma área na qual o governo tem de exercer um papel central. Mercados privados provêm pequeno ou nenhum incentivo para restringir a poluição. Seja poluição do ar em centros urbanos, pelo descuido com a eliminação do lixo público ou o incorreto uso da terra ocupada por proprietários desconhecidos, são casos urgentes de ação governamental. Aqui pode haver um equilíbrio entre crescimento de renda e proteção ambiental, requerendo uma avaliação cuidadosa dos benefícios e custos de políticas alternativas, já que afetam a população de hoje e as gerações futuras. A evidência indica que os ganhos com a proteção do ambiente são freqüentemente altos e que os custos com a renda perdida são modestos, se forem adotadas políticas apropriadas. A experiência sugere que as políticas são mais eficazes quando buscam atacar as causas subjacentes, em vez de apenas concentrar-se nos sintomas, focalizando-se nos problemas para os quais os benefícios de reforma sejam maiores, usando incentivos em vez de regulamentos onde for possível e reconhecendo as limitações administrativas.
(Banco Mundial, 1992, p. 1, ênfase no original)

Nobreza

Um aspecto notável da crença bahá’í é o otimismo extraordinário que demonstra sobre o futuro da humanidade. Tal esperança seria insustentável não fosse uma convicção profunda decorrente dos ensinamentos da Fé de que o ser humano foi criado nobre. O leitor poderá achar útil ver alguns exemplos de como essa questão é tratada nas Escrituras Bahá’ís.
O primeiro adorno (Taráz) do caráter humano, de acordo com Bahá’u'lláh, é o autoconhecimento:

O primeiro Taráz e o primeiro resplendor que despontou do horizonte do Livro Mater é que o homem deve conhecer a si próprio e reconhecer o que leva à sublimidade ou à humilhação, à glória ou ao rebaixamento, à riqueza ou à pobreza. Havendo atingido a etapa do cumprimento e alcançado sua maturidade, o homem necessita riqueza e a riqueza que ele adquire mediante ofícios ou profissões é recomendável e digna de louvor aos olhos dos homens sábios e, especialmente, dos servos que se dedicam à educação do mundo e à edificação de seus povos. Eles, em verdade, são os portadores do cálice da água vivificadora do conhecimento e guiam ao caminho ideal. Dirigem os povos do mundo à senda certa e lhes mostram o que conduz à elevação humana, à sublimidade. A senda certa é aquela que guia o homem ao alvorecer da percepção e da compreensão verdadeira e o conduz àquilo que redundará em glória, honra e grandeza.
(EBB, 1983, p. 43)

Trilhar o caminho reto com a perseverança necessária, seria impossível sem fé na nobreza da nossa própria natureza. Os bahá’ís são instados a prestar atenção à voz de um Criador todo-misericordioso, em exortações como as seguintes:

Ó Filho do Ser!
Tu és Minha lâmpada e Minha luz está em ti. Que obtenhas dela o teu resplendor e não aspires a outro senão a Mim; pois Eu te criei rico e generosamente derramei sobre ti as Minhas graças.
(As Palavras Ocultas, 2002, p. 12)

Ó Filho do Espírito!
Eu te criei rico; por que te empobreces? Nobre te fiz; com o que te rebaixas? Da essência da sabedoria, Eu te concedi a existência; por que buscas iluminação de outro, senão de Mim? Da argila do amor, te moldei; como é que te ocupas com outro? Volta teus olhos a ti mesmo, a fim de que, dentro de ti, Me possas encontrar, forte, poderoso, O que subsiste por Si Próprio.
(As Palavras Ocultas, 2002, p. 14)

De maneira alguma a convicção bahá’í sobre a nobreza inerente à raça humana, porém, confirma a noção romântica de que, deixados a si mesmos, os seres humanos instintivamente evitarão ações más de sua própria natureza. ‘Abdu’1-Bahá rejeitou esta posição enfaticamente:

Existem alguns que imaginam que um senso inato de dignidade prevenirá o homem de cometer más ações e assegurará sua perfeição espiritual e material. Isto é, que um indivíduo que é caracterizado por inteligência natural, elevada determinação e um potente zelo, refrear-se-á instintivamente, sem qualquer consideração pelas severas punições conseqüentes de más ações ou pelas grandes recompensas da retidão, de infligir danos aos seus semelhantes e terá fome e sede de fazer o bem. E, no entanto, se ponderarmos as lições da história, tornar-se-á evidente que este próprio senso de honra e dignidade é, em si mesmo, uma das graças que derivam das instruções dos Profetas de Deus. Nós também observamos em crianças os sinais de agressão e ilegalidade, e que, se uma criança for privada das instruções de um professor, suas qualidades indesejáveis aumentarão de um momento para o outro. É, portanto, claro que a emersão deste senso natural de dignidade humana e honra é o resultado da educação.
(EBB, 2003a, pp. 114-115)

Em outra passagem, declarou o seguinte:

A causa básica da maldade é a ignorância, razão pela qual temos de segurar firmemente as ferramentas da percepção e do conhecimento. O bom caráter tem de ser ensinado. A luz precisa ser difundida em toda parte, de modo que, na escola da humanidade, todos possam adquirir as características celestiais do espírito e ver, por si mesmos, sem a menor sombra de dúvida, que não há inferno mais horrendo ou abismo mais abrasador do que possuir caráter mau e doentio; nenhum fosso mais negro nem tormento mais repugnante do que manifestar qualidades merecedoras de condenação.
(EBB, 1993, pp. 122:111)

Na Fé Bahá’í, então, a firme convicção na nobreza do ser humano está intimamente ligada a uma fé igualmente forte do poder da educação, mas uma educação que conduza ao caminho da verdadeira compreensão, não aquela que perpetue a tirania do ego.

Fé e Razão

Nossa ansiedade em promover um discurso sobre o tema triplo de ciência, religião e desenvolvimento, surge da convicção que a teoria e a prática do desenvolvimento têm que dar atenção urgente à dimensão espiritual da existência humana. Que tal reivindicação encontre uma audiência receptiva é, até certo ponto, um sinal de maturidade crescente no campo de desenvolvimento. Porém, temos que admitir que o desejo de tratar da espiritualidade não é o resultado de avanço teórico mensurável; está sendo forçado em toda área do esforço humano em decorrência de uma profunda crise que está abalando as próprias estruturas da ordem social. A filosofia materialista se esgotou. Não foram cumpridas as promessas anunciadas com imensa auto-confiança por seus profetas. E, em todas as partes, as vítimas despertas dos sistemas e processos por eles gerados, levantam suas vozes, clamando por uma prestação de contas por seus fracassos:

Chegou o momento em que aqueles que pregam os dogmas do materialismo, quer do Oriente ou do Ocidente, tanto o capitalismo quanto o socialismo, terão de apresentar contas da tutela moral que têm presumido exercer. Onde está o “novo mundo” prometido por essas ideologias? Onde está a paz internacional a cujos ideais proclamaram a sua devoção? Onde estão os avanços para novos domínios de progresso cultural, produzidos pelo enaltecimento desta raça, daquela nação ou de determinada classe? Por que é que a vasta maioria dos povos do mundo está se afundando cada vez mais na fome e na miséria, quando os árbitros atuais dos afazeres humanos têm a sua disposição riquezas incalculáveis, a uma escala jamais concebida pelos Faraós e pelos Césares e nem mesmo pelas potências imperialistas do século dezenove?
(EBB, 2002b, pp. 6-7)

É tentador argumentar, certamente, que a necessidade de incorporar espiritualidade no escopo da nossa ação, não importa quão incontestável seja, não justifica mergulhar-se em assuntos religiosos. A perspectiva de envolver-se no que é reconhecido amplamente como um antigo debate entre ciência e religião, poderá ser inclusive menos atraente, especialmente para aqueles que vêem a urgência de se aplicar soluções imediatas a problemas práticos. Mas, uma vez consciente da necessidade da espiritualidade, como poderia alguém recusar-se a investigar a religião não na forma de disputa sectária, mas como investigação de um sistema de conhecimentos e práticas que teve um papel bem definido no avanço de civilização? A questão não é uma noção vaga de espiritualidade - uma espiritualidade que estudos recentes inclusive estimulam que sejam tornados disponíveis como um produto necessário para maximizar a satisfação, uma gama de atividades para acalmar os nervos em uma vida materialista por essência. As questões que se apresentam no campo do desenvolvimento estão voltadas à prosperidade da humanidade, relacionadas com a natureza do ser humano, com os propósitos essenciais da vida individual e coletiva e também com a direção que a sociedade deve tomar. Respostas a estas questões têm que esclarecer a próxima fase de evolução nas relações que são essenciais à existência e ao progresso: entre as espécies e a natureza, na família, na comunidade e entre o indivíduo e as instituições da sociedade. A humanidade deve ocupar-se cada vez mais com a busca de um significado e tal indagação é inerentemente religiosa em natureza.

Ao rejeitar o enfoque materialista ao desenvolvimento, não reivindicamos que os assuntos serão solucionados, de alguma forma, através das soluções provenientes da religião. A tarefa diante de nós não é destronar a ciência, como tantos se mostram empenhados em fazer. Em razão de suas realizações extraordinárias, a pessoa poderia afirmar que a ciência merece uma posição mais elevada do que aquela que a humanidade tem até agora lhe concedido. Levantar a questão da religião não significa o retorno à superstição. Nem é a introdução de uma pseudo-ciência, em suas miríades de formas, a porta de entrada para a percepção espiritual. As soluções para os problemas urgentes que a humanidade enfrentam devem ser buscadas por uma aplicação rigorosa da ciência, no contexto de seu significado mais amplo. Mas para atender a esta expectativa, a ciência precisa iniciar um sério diálogo com a religião. Ao final do século XX, ambos os sistemas, juntamente com o restante da ordem social, estavam em crise profunda. Mas as crises, em sistemas de conhecimento são ocorrências bem-vindas, porque invariavelmente são precursores de progresso. Espero demonstrar neste trabalho que a teoria e a prática do desenvolvimento, em sua maior parte, foram influenciadas por postulados da ciência e da religião, que estão destinados a desaparecer quando, ambos, passarem por uma transformação radical nas próximas décadas. Argumentarei que o campo do desenvolvimento, admitindo uma exploração rigorosa dos assuntos relacionado à fé e à razão e reconhecendo a relevância de cada uma delas em suas políticas e programas de ação, alcançará o avanço esperado que todos aqueles que estão envolvidos nesse trabalho acreditam ser possível atingir, abrindo-se definitiva-mente as portas para a descoberta de estratégias eficazes.

A Verdade Científica

Vivemos em um tempo em que a ciência é cegamente venerada ou violentamente atacada por aqueles que não possuem uma compreensão adequada sobre ela. Muitos vêem a ciência principalmente como a responsável por criações que parecem mágicas. Infelizmente, isso é freqüentemente comprovado quando pessoas, que, sem refletir um pouco sobre a natureza tanto da ciência como da tecnologia, se engajam em atividades científicas de escopo limitado. Uma variedade de cursos sobre o método científico oferecidos a estudantes em várias carreiras infelizmente perpetua mal entendidos de há muito enraizados.

A ciência começa com a observação. Assim começa a história geralmente contada. O cientista utiliza seus sentidos para observar coisas e fenômenos. A verdadeira pesquisa científica requer que tal observação seja levada a cabo com uma mente sem preconceitos e com extrema objetividade. Os resultados imediatos da aplicação disciplinada e impoluta desses sentidos são numerosos “relatos de observação”, das quais as leis e as teorias da ciência finalmente surgirão.

Os relatos de observação são singulares no sentido de que se referem a um evento particular em um momento particular. Mas a mente treinada é capaz de chegar a constatações mais universais pela aplicação cuidadosa do princípio da indução. Para que generalizações sejam verdadeiras, é necessário repetir as observações em uma variedade enorme de condições, tantas quantas forem possíveis realizar. O número de relatos de observação que formam a base da generalização deve ser suficientemente grande para justificar a aplicação do raciocínio indutivo. Quando as constatações universais são descobertas, os princípios da dedução são aplicados para explicar outros fatos observados e resultar em conseqüências que possam ser conferidas, então, pela experimentação. O poder da ciência para predizer é uma de suas características essenciais, a qual dá validez às suas reivindicações de grandeza.

Ao apresentar esta visão simplista de ciência, não desejo sugerir que até mesmo dentro do que pode ser chamado de campo positivista, os teóricos do desenvolvimento não estejam bem familiarizados com perspectivas mais sofisticadas. Mais recentemente, debates da ciência têm freqüentemente tratado das complexidades da relação entre teoria e observação e a forte influência que a primeira exerce sobre a outra. Invocando a noção de probabilidade e separando a forma como de fato uma generalização decorre de sua justificação subseqüente, certas escolas de pensamento se afastaram da explicação simplista do “método científico” em termos de observação e indução, seguidas por dedução e predição. Elaborados e engenhosos esforços para explicar o raciocínio científico em termos de falsificação - o conhecimento científico como um conjunto de hipóteses falseáveis e teorias em perigo constante de serem eliminadas por rivais mais adequados - levou a valiosos discernimentos nos métodos de ciência. A introdução, no discurso de ciência, dos conceitos de um paradigma científico, por um lado, e de programas de pesquisa competitivos, de outro, teve um impacto notável na maioria dos círculos intelectuais. Ainda assim, fortes convicções sobre a natureza da verdade científica, surgidas com base em uma concepção essencialmente ingênua de ciência, não só sobrevivem mas amoldam campos inteiros do esforço humano. A conseqüência deplorável é que um antigo debate histórico entre ciência e religião tem se perpetuado e um diálogo significativo entre os dois sistemas continua bloqueado.

“O conhecimento científico é conhecimento comprovado” é um conceito que está ao coração de tais convicções. “A ciência, em sua forma incorrupta, é objetiva e livre de opiniões pessoais.” “O conhecimento científico é conhecimento confiável porque é o resultado da aplicação rigorosa de um método cuja validez é insofismável.” Porém, os termos objetivo, rigoroso e confiável são palavras que trazem um julgamento de valor. A linguagem prega peças no processo de pensamento. A ciência logo torna-se a única fonte de verdade indisputável e qualquer outra fonte de conhecimento parecerá menos valiosa, menos confiável e, no final das contas, sem valor e desacreditada. Sob tais condições, como poderá a religião ser ouvida de forma a que a questão de uma interação harmoniosa entre as duas - ciência e religião - possa ser explorada? A crise contemporânea exige uma mudança significativa na percepção da humanidade quanto ao inteiro papel da ciência, porque a percepção prevalecente surgiu das primeiras tentativas para entender uma força nova e poderosa e que se tornou popular muito depressa, antes que fosse examinada criteriosamente.

Qualquer que seja a natureza precisa de seus processos e métodos, a ciência é claramente um sistema dinâmico de conhecimento e prática que desafia tentativas que pretendam reduzi-la a qualquer fórmula simplista. O trabalho vital e fascinante de filósofos e historiadores da ciência leva a teorias que explicam alguns de seus resultados e alguns de seus processos. Como os outros modelos que a ciência cria de várias partes da realidade física, intelectual ou social, cada uma das explicações tem uma gama finita de validez. Juntos, trazem à luz muitos aspectos mais salientes, mas nenhum deles descreve a ciência em sua totalidade.

A ciência contém claramente elementos que são em essência questões de fé - a começar pela fé na existência de ordem no universo e fé na habilidade da mente humana em dar sentido àquela ordem e expressar tal capacidade em uma linguagem precisa. Nas palavras de Einstein (1954, pág., 52), “aqueles indivíduos aos quais devemos as maiores realizações da ciência estavam todos imbuídos com a convicção verdadeiramente religiosa de que este nosso universo é algo perfeito e suscetível ao esforço racional do conhecimento”.

As teorias científicas são todas baseadas em suposições, algumas das quais não podem ser provadas logicamente. Elas representam proposições simplesmente aceitáveis à razão humana, derivando seu valor do sucesso dos modelos e teorias construídas sobre elas. Durante séculos, a ciência reconhecida julgava que as leis que governam a movimentação de objetos na Terra eram diferentes das que determinavam a movimentação dos corpos celestes. As teorias baseadas nesta suposição provaram ser inadequadas. Hoje, uma premissa básica da ciência é que as leis da Física são as mesmas nos céus como na Terra; a força de gravidade, por exemplo, determina muito dos comportamentos que ocorrem no espaço, no tempo e na matéria, em todos os lugares do universo. Por enquanto, esta suposição levou a modelos que parecem explicar tudo o que observamos, justificando, assim, sua aceitação integral.

A prática da ciência também se baseia especificamente em qualidades espirituais do ser humano como o amor à beleza e compromisso com a veracidade. É altamente dependente do uso das faculdades de intuição, criatividade e imaginação. Estes recursos da alma racional não operam a esmo na atividade científica. Eles são produtivos, quando treinados e disciplinados e quando o resultado de suas operações passa pelos testes de uma racionalidade reconhecida pela comunidade científica.
A tarefa principal da ciência é criar modelos da realidade. Seus modelos - chamados de teorias quando são suficientemente complexos - raramente tomam a forma de representações físicas simples. Ao contrário, são estruturas em uma linguagem que tanto usa palavras como expressões matemáticas. A linguagem da ciência tem características típicas para alcançar seus objetivos. Entre outras coisas, busca ser racional de um modo bem definido, sem ambigüidade, objetiva. Não é fácil determinar se estas qualidades também distinguem todos os processos pelos quais a ciência é gerada: o próprio pensamento científico é obviamente muito complexo para ser inteiramente objetivo, perfeitamente lógico ou totalmente destituído de ambigüidade. Estando presa a uma linguagem rígida, através da qual deve ser expressada e comunicada, a ciência assume muitos atributos pelos quais recebe elogios bem merecidos.

Embora as falhas intrínsecas ao positivismo tivessem sido claramente expostas nos últimos anos, o papel indispensável da observação disciplinada, embora condicionada pela teoria, permanece central à prática científica. Generalização, formulação de hipóteses, dedução, avaliação de predições e falsificação, são componentes vitais de qualquer método científico. Mas deveria ser lembrado que eles não são realizados mecanicamente através de entidades programadas, mas por membros de comunidades de cientistas, os quais estão sujeitos à influência de forças sociais. Tais comunidades exibem padrões de conduta característicos de grupos compostos de seres humanos. Especificamente, trabalham dentro de determinadas cosmovisões e embasamento teórico que determinam os tipos de perguntas que se dispõem a fazer, e os tipos de respostas que estão dispostos a explorar. O conceito de um paradigma, embora não universalmente válido, é uma ferramenta altamente útil de pensar sobre a ciência. O conhecimento científico é acumulativo somente até certo ponto; alguns avanços da ciência acontecem através de evidentes mudanças de paradigmas, cuja dinâmica evoca imagens de uma revolução.

A prática científica depende de uma variedade de programas de pesquisa concomitantes. Cada programa é essencial à proposta da teoria para cuja construção uma comunidade de cientistas decide se dedicar. Uma das metas de tal pesquisa é estender a gama de fenômenos que uma teoria pode explicar com sucesso. Mas nenhuma comunidade científica busca responder a todas as perguntas no mundo. Um elemento indispensável de qualquer modelo científico é um conjunto de declarações que definem sua gama de validez. Teorias mais avançadas necessariamente não provam serem as anteriores erradas, mas definem os limites dentro dos quais elas operam e provêm uma compreensão de porque trabalham dentro desses limites. Assim, relatividade e mecânica quântica, por exemplo, não “desaprovam ” a física newtoniana; ao contrário, definem a gama de tamanho e velocidade sobre os quais as predições newtonianas são totalmente confiáveis.

Ao fazer estas observações, não pretendo ser eclético, de alguma forma amalgamando o trabalho de Kuhn e Popper, Lakatos e Feyerabend. Minha intenção é argumentar que sem entrar em debate sobre assuntos já profundamente explorados pelos filósofos e historiadores da ciência durante as últimas décadas, podemos decidir prontamente que a relação entre ciência e verdade não é aquela relação simplista propagada por descrições ingênuas da ciência. Certamente, a relação entre ciência e verdade é de enorme importância. Declarações científicas são afirmativas sobre a realidade objetiva; têm uma existência própria, não sendo somente produtos da mente de alguns cientistas. Não satisfeita em só oferecer explicação, a ciência exige aplicação e gera tecnologia - e políticas no caso de algumas ciências sociais - que por sua vez atuam na realidade objetiva. Neste sentido, a tecnologia parece ser intrínseca à ciência; nasce dela e juntamente com outros fatores define o campo de suas operações. Embora direcionada pelos poderes da alma racional, a ciência é também uma exigência da existência social, que tem como um imperativo o avanço tecnológico. O conhecimento científico é, desta forma, uma expressão da verdade que esclarece realidades que estão interligadas: a realidade física do universo, a realidade social e a realidade interna do ser humano.

A Verdade Religiosa

Com esta perspectiva sobre a ciência, voltemo-nos agora para a religião. Em assim fazendo, confrontamo-nos de início com a questão se o conhecimento científico, com o grau de complexidade acima esclarecido, engloba toda a realidade que a mente humana pode conhecer. Será que os elementos de fé subjacentes na vida humana - não adquiridos através de cega imitação, mas por um processo de observação, estudo e reflexão - incluem a convicção em uma realidade espiritual além do mundo acessível aos nossos sentidos? Será que não podemos dar crédito à suposição que a inteligência não é um mero produto de operações mais elevadas de organização, mas considerá-la, ao invés disso, como uma qualidade de ser que transcende a existência física? Será que tal qualidade determina a estrutura e operação do mundo, inclusive o aparecimento evolutivo de uma mente humana capaz de observar e pensar no universo? Será que, realmente, o nosso senso inextinguível de identidade individual - o qual, enfim, dá definição à afirmativa de “eu sei” - aceita a suposição que se extinguirá com a morte física, sem nenhum significado razoável, levando-nos a explorar as implicações da intemporalidade e imortalidade?

A afirmativa habitual de que certas convicções e premissas não são necessárias e, por isso, de acordo com algum tipo de princípio minimalista, não devem ser consideradas, levanta pelo menos duas questões. Primeiro, pressupõe que a negação de uma realidade em expansão seja algo objetivo e não, por si mesma, uma suposição que tem conseqüências profundas para a direção do esforço intelectual. Desta forma, ela distorce o fato que a escolha, em cada caso, seja entre dois elementos de fé, nenhum deles provável e não entre “nenhuma suposição” e uma “suposição estranha”. Segundo, supõe que a supremacia da ciência como meio singularmente válido para a investigação da realidade e sua reivindicação de autonomia como uma prova irrefutável desta validez. Certamente, suposições relacionadas à dimensão espiritual da existência são desnecessárias em muitos estudos científicos, mas por que razão estendermos isso para todo tipo de investigação, negando a necessidade de qualquer outro sistema de investigação com o qual a ciência tem que interagir se não quiser parecer dogmática e vulnerável?

Historicamente, a religião foi o sistema que se preocupou principalmente com a realidade espiritual e sua relação com o indivíduo e com a vida coletiva. Como a ciência, a religião é um sistema altamente complexo de conhecimento e de práticas, com um padrão particular de evolução em sua natureza e uma história profundamente entrelaçada com o desdobramento da civilização. Como um conjunto de práticas religiosas, teve, inevitavelmente, sua parte de insensatez, corrupção e abuso de confiança. Mas também foi causa da voz infalível chamado para a transcendência, a fonte principal de toda aspiração digna e a luz que tem iluminado a compreensão humana e lhe permitido saber distinguir entre o vil e o nobre.

Para examinarmos a religião com mente não preconceituosa e descobrirmos como suas interações com a ciência deveriam acontecer, precisamos pôr de lado apreensões que, por quaisquer razões julgadas justificáveis, ganharam aceitação geral. A mais notável delas é expressada na opinião de que não existe tal coisa conhecida como “religião”, mas meramente numerosas religiões em discordância fundamental uma com a outra. Tal conclusão representa uma visão altamente restritiva de religião. Não há justificativa para tal disputa religiosa, juntamente com conflitos tribais, nacionais e raciais, que foi uma característica marcante do passado da humanidade e que continuam nos assediando durante o que pode ser visto como uma era de transição. Mas se concordamos que o caminho à nossa frente é de progresso material e espiritual, precisamos olhar mais profundamente para a herança espiritual da raça humana e não partir para um julgamento precipitado.

Da mesma forma como existem e se desenvolvem a ciência e suas múltiplas estruturas, assim também acontece com a religião e suas estruturas. Os ensinamentos e as convicções religiosas se apresentam em miríades de formas e estas expressões mostram diferenças significativas entre si. Mas esta circunstância não nega a existência de um sistema de conhecimento dinâmico, com seu próprio campo de investigação, sua própria linguagem e seus próprios métodos evolutivos. Uma vez livres da preocupação com as diferenças, ficaremos surpresos com a unidade dos temas tratados pelas principais religiões do mundo e a continuidade das soluções que propõem aos problemas mais agudos da vida. Neste contexto, a variedade de expressão se torna uma fonte de riqueza de discernimentos, em vez de ser causa de disputas. Mas tal perspectiva só será possível se cada uma das grandes religiões for examinada principalmente pelos olhos de alguém que focaliza sua atenção nos ensinamentos morais e espirituais entesourados em suas escrituras autênticas. Separar tais escrituras dos dogmas acrescentados por aqueles que, na direção de tais religiões, tiveram uma sede insaciável de poder mundano é, sem dúvida alguma, uma tarefa difícil em alguns casos, mas que não é de todo impossível realizar.

No caso da ciência, o que é compreendido e explicável é uma realidade basicamente observável e objetiva - física, psicológica ou social. Mas o que é a realidade objetiva focalizada pela religião com a finalidade de servir como um sistema de conhecimento e práticas dentro de uma comunidade? Para responder a esta pergunta, é essencial refletir no conjunto de ensinamentos que se encontra no âmago de cada uma das principais religiões do mundo e que proveram o impulso inicial à sua existência. Sem entrar no familiar debate teológico sobre a transcendência versus imanência, a pessoa pode observar que simplesmente o encontro entre a consciência humana e o Divino tem resultado, invariavelmente, em um texto religioso, oral ou escrito, em cujo âmago encontram-se os pronunciamentos do profeta-fundador e de algumas figuras históricas diretamente ligadas a essa pessoa especial. No texto, a vida é descrita tanto em sua dimensão material como na dimensão espiritual. “Revela” aspectos da realidade espiritual que, uma vez definida, pode se tornar assunto de investigação, nem só pela alma individual, mas também por populações inteiras. Sem o texto revelado, a espiritualidade seria uma expressão de experiência pessoal, nunca algo validado por interações intelectuais que criam o conhecimento social. Pois, por verdade religiosa não se quer significar meras afirmações sobre o lado esotérico da vida, mas declarações que levem à experimentação, aplicação e à criação de sistemas e processos cujos resultados possam ser validados pela observação prática e pelo uso da razão. A Humanidade, por sua própria natureza, é, desta forma, agraciada com dois Livros, o da Criação e o da Revelação, cujo estudo, como “ciência” e como “religião”, dá impulso ao progresso da civilização.

Harmonia Entre Ciência e Religião

Cabe aqui uma nota de precaução. Esforços para descrever a religião como um sistema de conhecimento correm sempre o perigo de ir muito longe, antecipando argumentos que tornariam a religião uma mera extensão da ciência, uma ramo de aprendizagem científica dedicado ao estudo de fenômenos invisíveis. Que um sistema de conhecimento seja capaz de abranger todos os aspectos da vida individual e social não implica que tenha de ser definido como ciência. Evidentemente, como os dois principais sistemas de conhecimento e práticas vivenciais, religião e ciência terão muitas características em comum. Artigos de fé, suposições, uso das várias faculdades da alma, como razão, intuição, imaginação e a habilidade para criar modelos de realidade - inclusive o metafísico e a vida interna de indivíduos e comunidades - em nível mundial e até mesmo algo afim com um conjunto de coexistentes programas de pesquisas, são todos elementos prontamente observáveis na operação e evolução da religião. Realmente, pode se argumentar que em muitas de suas aplicações encontram-se métodos da alçada da religião que podem ser e devem ser científicos. No entanto, ciência e religião continuam sendo sistemas de conhecimento distintos, nunca um representando um subsistema do outro.

De importância particular é a distinção que tem de ser feita entre a linguagem da ciência e a linguagem da religião. Em muitos aspectos, a linguagem na qual a verdade religiosa é expressada, como ocorre também com a linguagem científica, busca ser bem clara e objetiva. Mas seu desafio primário é transcender as limitações da ciência e utilizar imagens poéticas, histórias, parábolas, mandamentos, advertências e exortações, para enfatizar o significado e falar diretamente ao coração humano de uma forma que a ciência, por sua natureza pragmática, não faz.

Enfatizar a distinção entre o conhecimento religioso e o científico não é negar o inter-relacionamento existente entre eles. A convicção difundida da existência de um conflito intrínseco entre os dois surgiu em uma época de crise na história do Cristianismo, quando as mesmas concepções da ciência e da religião eram inadequadas para acompanhar o rápido desenvolvimento intelectual que ocorria. Hoje, vários séculos depois, a pergunta diante de nós é se o tipo de entendimento alcançado mais recentemente torna possível uma nova estrutura para interações entre os dois sistemas. Não é igualmente provável que a harmonia e não o conflito, deveria caracterizar essas interações? Na verdade, não seria de importância vital a existência de tal harmonia para assegurar que nenhum dos sistemas se degenere em vãs imaginações e que ambos permaneçam autênticos à sua própria natureza?

Assuntos relacionados à harmonia entre ciência e religião podem ser focalizados de vários modos. Pode ser argumentado que os dois sistemas são tão distintos que de forma alguma pode haver conflitos significativos entre eles. A ciência estuda o universo material. O conhecimento que gera torna-se a base para o progresso tecnológico, mas a tecnologia pode ser utilizada para o bem-estar da humanidade ou em seu detrimento, para construir a civilização ou para sua destruição. A ciência em si mesma não tem condição de determinar os usos que seus produtos deveriam ter. A religião, ao contrário, preocupa-se precisamente com a dimensão espiritual da existência humana. Sua tarefa é lançar luz sobre a vida interna do indivíduo, tocar as raízes da motivação e gerar um código de ética e moralidade para guiar a conduta humana de forma adequada. Pode determinar os fundamentos éticos pelos quais a tecnologia pode ser corretamente desenvolvida e devidamente empregada. O processo civilizatório depende de ambos os sistemas de conhecimento; contanto que cada um deles se mantenha dentro da esfera de seu próprio campo de ação, com isto não haverá razão alguma para entrarem em conflito.

Esta visão da harmonia entre ciência e religião é válida, mas somente ao nível de aplicação. No final das contas, neste enfoque, ciência e religião estão separadas e livres para buscar suas próprias formas de ação e o que assume importância é a interação entre tecnologia e moralidade, as progênies dos dois. Mas tal análise da relação entre ciência e religião chega logo aos seus limites, pois os dois sistemas de conhecimento têm muito em comum e ultrapassam a gama de fenômenos dentro de seus próprios campos de estudo. Popularmente, no campo religioso são incluídas certas suposições e elementos de fé, qualidades e atitudes, métodos e processos mentais e sociais; outros aspectos das áreas da religião e da ciência, embora não contraditórios, são mais necessários em apenas um dos dois. Superar certos aspectos comuns é uma realidade intrínseca à operação dos dois sistemas e surge do fato de que uma dicotomia profunda entre matéria e espírito seria, em si mesma, impossível. Embora seja necessário, para muitas finalidades práticas, separar os dois sistemas e permitir que corram paralelamente, tentar negar seu inter-relacionamento na mente do ser humano e na sociedade pode tirar deles os poderes extraordinários que ambos possuem.

Pensando na relação entre religião e ciência, sempre achei de ajuda utilizar alguns dos discernimentos sobre o funcionamento do universo oferecido pelo princípio da complementaridade. Em sua formulação rígida, afirma o princípio que a onda-partícula dual, claramente observável ao nível dos componentes menores da matéria é inerente ao processo da observação científica e sua avaliação. Por exemplo, o elétron é algumas vezes uma onda e outras vezes uma partícula; quer dizer, nem ambos, nem um só. A complementaridade nos leva além da pergunta de ” um…ou” e nos pede que consideremos diretamente o fato de que, sob certas “formas” experimentais, o elétron sempre se comportará como uma partícula e, sob outras, sempre agirá como uma onda. Estes dois tipos de organização esvaziam todas as possibilidades de medição. Impossível - quer dizer - estabelecer uma experiência na qual poder-se-ia perguntar - o que realmente é o elétron, uma onda ou uma partícula?

Não é minha intenção afirmar que a complementaridade da mecânica quântica seja de alguma maneira diretamente aplicável à dualidade entre ciência e religião. Na realidade, o que é conhecido como a interpretação de Copenhague, com que a anterior formulação está associada, voltou à baila mais uma vez nos anos recentes. Mas qualquer que seja a solução das dificuldades enfrentadas pelo modelo, o fato permanece que, fundamentalmente, ele não permite medidas simultâneas de certas quantidades e se submete a descrições complementares. Em razão das complexidades do processo de medida em ciência, tal declaração não pode somente valer para o universo físico. Modelos teóricos elaborados pela mente humana são subjacentes à preparação do instrumental de organização experimental, modelos que, como já comprovado, são estruturas de linguagem. Então, a complementaridade, em quaisquer de suas possíveis formulações, está nos revelando algo fundamental sobre duas realidades coexistentes e suas interações - a consciência humana e a realidade objetiva. Particularmente, está oferecendo discernimentos de como a mente humana pode abarcar aspectos de um universo tão complexo para admitir uma única descrição.

Aceitando que este é o caso, poderíamos deixar de nos questionar sobre os níveis da realidade além do mundo da matéria? Seria irracional assumir que quando o objeto de análise é a junção tanto da realidade espiritual como da realidade física - um assunto muito mais complexo que o universo material - uma única forma de descrição seria também inadequada? Não é possível que para entender e explicar esta realidade, a humanidade precisa pelo menos de duas linguagens, a da ciência e a da religião, que juntas possibilitariam penetrarmos em seus mistérios?

Comentários Adicionais

Os comentários a seguir ampliam e focalizam alguns detalhes dos argumentos apresentados nas páginas precedentes.

O Propósito de Religião

A passagem sobre fé e razão, citada na abertura desta seção, vem da publicação A Promessa de Paz Mundial (EBB, 2002b), uma declaração escrita pelo corpo administrativo internacional da Fé Bahá’í. O documento apresenta uma análise das forças sociais e espirituais que contribuem ao estabelecimento da paz entre os povos da Terra, uma condição que implica muito mais que a mera ausência de conflito armado. Afirma que a paz mundial é inevitável, mas que seu advento requer a vontade coletiva dos líderes do mundo e a aplicação de uma gama de princípios religiosos específicos.

Os argumentos definidos em A Promessa de Paz Mundial refletem a ênfase que os ensinamentos bahá’ís colocam sobre a religião como um instrumento vital na construção de uma civilização. Porém, embora o papel da religião como uma força social positiva seja exaltada, também é reconhecido que ela pode ser distorcida em seus propósitos pela manipulação de líderes egoístas. Realmente, mal-entendimentos e confusões de toda natureza, perpetradas em nome da religião, estão entre as causas das condições deploráveis em que se encontra o mundo de hoje. Atribuir estas condições à elevação do secularismo seria injusto. Em muitos aspectos, o secularismo é claramente um desenvolvimento bem-vindo na história de humanidade, uma reação inevitável e necessária à religião, quando esta se prende ao fanatismo e à superstição. Referindo-se à religião como um meio para o progresso humano, Bahá’u'lláh declarou o seguinte:

O objetivo da religião, assim como é revelado do céu da santa Vontade de Deus, é estabelecer unidade e concórdia entre os povos do mundo; não a façais a causa de dissensão e contendas. A religião de Deus e Sua lei divina são os mais poderosos instrumentos e os mais seguros de todos os meios para o alvorecer da luz da unidade entre os homens. O progresso do mundo, o desenvolvimento das nações, a tranqüilidade dos povos e a paz de todos os que habitam na terra, figuram entre os princípios e preceitos de Deus.
(EBB, 1983, p 143)

Para os bahá’ís, como para milhões de pessoas religiosas de todas as convicções, o fato da religião, apesar de seu impulso de origem divina, estar sujeita à mesma distorção que afeta todas as instituições humanas, não diminui a importância de seu papel no progresso da civilização. O que deve ser entendido e aceito é que a religião necessita da ciência para evitar cair nas armadilhas do fanatismo.

A Crise de Ciência

A maioria dos leitores destas páginas aceitará prontamente que, como é o caso com muitos outros aspectos da civilização, a religião está em crise. Mas há muitos que hesitariam atribuir crise semelhante à ciência como um sistema. Os problemas éticos enfrentados pela humanidade, como resultado do progresso científico e tecnológico acelerado são, evidentemente, geralmente reconhecidos. É possível, porém, considerar-se estes assuntos como desafios que emergem naturalmente no curso do progresso, os quais serão tratados pela ciência no tempo devido. A crise à qual me refiro é de ordem sistêmica, com muito mais dimensões que aquelas puramente éticas; surge de insuficiências no próprio processo pelo qual o conhecimento científico é gerado e aplicado. No célebre livro, de alguns anos atrás, O Conhecimento Científico e Seus Problemas Sociais, Jerome R. Ravetz expôs as conseqüências alarmantes que são o resultado da falta de um “entendimento renovado” da natureza da investigação científica:

A atividade da ciência natural moderna transformou nosso conhecimento e o controle do mundo à nossa volta; mas nesse processo acabou se transformando também; e suscitou problemas que a ciência natural sozinha não pode resolver. A sociedade moderna depende cada vez mais de produção industrial baseada na aplicação de resultados científicos; mas a produção desses resultados gerou uma grande e dispendiosa indústria; e os problemas com a administração dessa indústria e o controle dos efeitos de seus produtos, é uma tarefa urgente e difícil. Tudo isso aconteceu tão depressa dentro da geração passada que essa situação, nova, e suas implicações, são ainda imperfeitamente entendidas. Abre novas possibilidades para a ciência e para a vida humana, mas também apresenta novos e até perigosos problemas. Para a própria ciência, as analogias entre a produção industrial de bens materiais e aquela de resultados científicos têm ambas utilidades próprias, mas também seus riscos. Como produto de uma atividade socialmente organizada, o conhecimento científico é muito diferente de um produto como o sabonete, por exemplo; e aqueles que planejam no campo científico negligenciarão aquela diferença por seu próprio risco. Também, há que se considerar que a compreensão e controle dos efeitos de nossa ciência, baseada na tecnologia, apresentam problemas para os quais nem a ciência acadêmica do passado, nem a ciência industrializada do presente, possuem técnicas ou enfoques que lhes dêem solução. A ilusão que há uma ciência natural, que permanece pura e separada de qualquer envolvimento com a sociedade, está desaparecendo rapidamente; mas tende a ser substituída pela redução vulgar da ciência a um ramo de comércio ou de indústria militar. A não ser que a própria ciência, humilhada e corrompida, tivesse suas realizações empregadas, com uma rapidez impetuosa, para provocar uma catástrofe social ecológica - é preciso haver uma compreensão renovada quanto à forma muito especial do trabalho, tão delicado e tão poderoso, prestado pela investigação científica.
(Ravetz, 1973, p. 9)


Fatos Científicos

Reflexões sobre a natureza da verdade científica no contexto de um diálogo emergente entre religião e ciência, podem beneficiar-se de uma leitura cuidadosa da obra de Ludwik Fleck (1979 [1935]) uma monografia intitulada Gênese e Desenvolvimento de um Fato Científico. Neste inspirado trabalho, escrito originalmente em alemão, Fleck decidiu examinar em detalhes o aparecimento e o estabelecimento final do fato que uma experiência de serodiagnóstico desenvolvida nos anos vinte, conhecida como a reação de Wassermann, ter indicado, dentro de limites estatísticos aceitáveis, a presença da sífilis em um paciente. Ele descreveu o conjunto complexo de fatores que tiveram que convergir, durante um longo período de tempo, antes que a sífilis chegasse a ser considerada como uma “doença” com características definidas - começando com uma massa indiferenciada e confusa de informações sobre as várias doenças crônicas que foram caracterizadas através de sintomas de pele e freqüentemente foram localizadas nos órgãos genitais, doenças que, no século XV, eram todas misturadas. Fleck mostrou como várias convicções e padrões de pensamento tiveram papéis cruciais no caminho tortuoso que conduziu ao reconhecimento aberto desta forma de doença. Por exemplo, acreditava-se, na ocasião, que a “conjunção de Saturno e Júpiter sob o signo de Escorpião e a Casa de Marte em 25 de novembro de 1484″, foi a causa do flagelo carnal, pois o “benigno Júpiter havia sido derrotado pelos planetas Saturno e Marte” e o signo de Escorpião “comandava os órgão genitais”. (Fleck 1979 [1935], p. 2) “A crença em flagelo carnal foi a pedra de toque da sifilologia, dando-se a ela um caráter bastante destacado.” (p. 3)

Depois, foi-nos dito que: “como resultado de décadas de prática, certamente por várias gerações, foi possível distinguir e isolar do campo crônico das infecções da pele um grupo particular que, quando tratado com ungüento de mercúrio, reagia favoravelmente”. (Fleck, 1979 [1935], pp. 3-4) “Assim, dois pontos de vista se desenvolveram lado a lado, freqüentemente em conflito entre si: (1) uma doença ética-mística de “flagelo carnal”, e (2) uma doença terapêutica-empírica”.(p.5) Este enfoque dual foi completado, então, por uma convicção que a sífilis estava associada com uma mudança no sangue, que abandonara seu “estado natural” tornando-se desde logo uma doença “deteriorada por uma infecção que ataca sem inflamações e por isso era relativamente difícil de diagnosticar”.(p.12) Mais tarde, com o crescimento da idéia moderna dos microorganismos patogênicos, o agente que causa a sífilis foi identificado como Spirochaeta pallida. A descoberta da reação de Wassermann levou as pesquisas além e constatou a associação da doença com o sangue e “ajudando a classificar a tabes dorsalis e a paralisia progressiva definitivamente com a sífilis. Considerando que esta spirochaera foi encontrada logo em seguida nos tubos linfáticos logo após a infecção, até mesmo o primeiro estágio da sífilis não foi mais considerado como uma doença localizada”.(p. 17)

Na análise do conceito da evolução da sífilis como uma doença autônoma claramente definida e do desenvolvimento da reação de Wassermann e o aparecimento de serologia como um campo científico, (Fleck 1979 [1935]) introduziu várias idéias como sistemas de opinião, estilos de pensamento e pensamentos coletivos. O uso de conceitos desta natureza não está de forma alguma livre de problemas. Porém, quaisquer que sejam as discordâncias com relação a alguns aspectos da análise, a pessoa não pode mais ser iludida por definições simplistas de verdades científicas após refletir nos argumentos brilhantes de Fleck. A pessoa pode tentar modificar, mas não pode ignorar sua declaração de que:

A cognição é a atividade humana mais socialmente condicionada e o conhecimento é a criação social suprema. A própria estrutura da linguagem cria uma característica filosófica marcante daquela comunidade e até mesmo uma única palavra pode representar uma teoria complexa. A quem pertencem estas filosofias e teorias?
Os pensamentos passam de um indivíduo para outro, normalmente sofrendo sempre alguma alteração, pois cada indivíduo pode adicionar aos conceitos associações um pouco diferentes. No sentido exato, o receptor nunca entende exatamente o pensamento do modo que o transmissor pretendeu que fosse entendido. Depois de uma série de tais encontros, praticamente nada será igual ao conteúdo original. De quem é o pensamento que continua a circular? É um que obviamente não pertence a qualquer único indivíduo, mas para uma coletividade. Se um indivíduo interpreta algo como verdade ou erro, entende-o corretamente ou não, uma série de meandros de descobertas ocorridas na comunidade, são continuamente polidas, transformadas, reforçadas ou atenuadas, embora influenciando outras descobertas, formando conceitos, opiniões e hábitos de pensamento. Depois de passar por várias rodadas dentro da comunidade, uma descoberta, muitas vezes, retorna consideravelmente modificada em seu conteúdo original. O cientista, ou não reconhece a nova versão como sua própria, ou acredita que sim, e isso acontece com bastante freqüência com relação às versões finais das pesquisas científicas. A história da reação de Wassermann nos propicia a oportunidade para descrever tais meandros, no caso particular de uma descoberta completamente “empírica”.
Este caráter social inerente à verdadeira natureza da atividade científica não está livre de conseqüências expressivas. Expressões que antigamente eram simples palavras, tornam-se slogans; frases, que foram simples declarações, tornam-se apelos para grandes conflitos. Isto altera completamente seu valor sócio-cogitativo. Não mais influenciam a mente pelo significado lógico que assumem - na verdade, agem freqüentemente contra ela - adquirem um poder mágico que exerce uma influência mental simplesmente ao serem aplicadas. Como exemplo, alguém pode considerar o efeito de expressões como “materialismo” ou “ateísmo”, os quais, em alguns países, de imediato desacreditam seus proponentes, mas, em outros, imediatamente funcionam como senhas essenciais para aceitação geral. Este poder mágico dos slogans, como “vitalismo” na biologia, “especificidade” em imunologia, e “transformação bacteriana”, em bacteriologia, claramente dá enorme profundidade à pesquisa especializada. Sempre que expressões como essas são encontradas em um texto científico, não são examinadas logicamente e imediatamente criam inimigos ou encontram amigos.
(Fleck 1979 [1935]), pp. 42-3)

Beleza

Examinar o papel exercido pela beleza na pesquisa de um pesquisador científico, pode abrir discernimentos inestimáveis à natureza da ciência. Infelizmente, não é possível em uma breve exposição como esta e sem o uso da matemática, explorar com alguma precisão o conceito de beleza, por exemplo, no estudo da Física. Em A Mente de Deus: A Base Científica para um Mundo Racional, Paul Davies (1993) empregou seu admirável talento para tornar idéias científicas acessíveis aos não-especialistas, expressando o seguinte:

De um modo geral, os cientistas acreditam que a beleza é uma guia segura para a verdade e muitos progressos na física teórica foram feitos por teóricos que exigiam a distinção matemática de uma nova teoria. Às vezes, quando testes de laboratório são difíceis, estes critérios estéticos são considerados mais importantes que a própria experiência. Einstein, ao falar de um teste experimental de sua teoria geral da relatividade, foi perguntado o que faria se a experiência não estive de acordo com a teoria. Não se perturbou pelo que sua resposta iria causar e disse: “Tanto pior para a experiência, a teoria está correta!” Paul Dirac, o teórico físico cujas deliberações estéticas o levaram a construir uma equação matematicamente mais refinada para o elétron, que em conseqüência levou à predição que confirmou a existência da antimatéria, revelou estes sentimentos quando reconheceu que: “é mais importante ter beleza em suas equações do que fazê-las adequar-se à experiência.”
A beleza matemática não é um conceito fácil de transmitir àqueles que não estão familiarizados com a matemática, mas é reconhecido sutilmente por cientistas profissionais. Como todos os julgamentos de valores estéticos, porém, é altamente subjetivo. Ninguém ainda inventou um “metro de beleza que pode medir o valor estético das coisas sem referir-se a critérios humanos. Pode alguém realmente dizer que certas formas matemáticas são intrinsecamente mais bonitas que outras? Talvez não. Em quais circunstâncias seria tal beleza uma boa guia para a ciência? Por que as leis do universo deveriam parecer bonitas a humanos? Não há dúvida da existência de diversos tipos de fatores biológicos e psicológicos no trabalho de moldar nossas impressões sobre o que é belo. Por exemplo, ninguém se surpreende com o fato da forma feminina ser atraente aos homens e que as linhas curvas de muitas belas esculturas, pinturas e estruturas arquitetônicas, tenham alguma referência sexual. A estrutura e operação do cérebro também podem ditar o que está agradando ao olho ou ao ouvido. A música pode refletir ritmos cerebrais de alguma forma. De qualquer modo, entretanto, há algo curioso aqui. Se a beleza é apenas o resultado de uma programação biológica, criada unicamente por valor de sobrevivência, é ainda mais surpreendente vê-la re-emergir no mundo esotérico da Física fundamental, que não tem nenhuma conexão direta com a Biologia. Por outro lado, se a beleza for mais que mera biologia em ação, se nossa avaliação estética se originar de um contato com algo mais firme e mais penetrante, então seguramente trata-se de um fato de importância primordial, “algo” que as leis fundamentais do universo parecem refletir.”
(Davies, 1993, pp. 175-176)

Minha própria inclinação é supor que qualidades como engenhosidade, economia, beleza e assim por diante, têm uma realidade transcendente genuína - não são meramente produto da experiência humana - e que estas qualidades se refletem na estrutura do mundo natural. Se tais qualidades podem por si mesmas trazer o universo à existência, não sei. Se podem, a pessoa poderia conceber Deus como sendo apenas uma personificação mítica de tais qualidades criativas, em vez de um agente independente. Isso, certamente, não iria satisfazer qualquer pessoa que sinta ter uma relação pessoal com Deus.
(Davies, 1983, pp. 214-215)

Davies está, obviamente, correto ao assumir que uma mera personificação de qualidades criativas está longe do conceito de Deus aceito pela maioria das religiões. Mas o conceito de que o universo físico reflete em sua estrutura os atributos de Deus é algo que encontra ressonância considerável no discurso religioso. Por exemplo, Bahá’u'lláh, cujos ensinamentos confirmam a existência de um Deus cuja essência não se pode conhecer, declarou que:

Ainda mais, qualquer coisa que esteja nos céus e qualquer coisa que esteja sobre a terra, é evidência direta da revelação, no seu imo, dos atributos e nomes de Deus, já que dentro de cada átomo estão encerrados os sinais que dão eloqüente testemunho da revelação daquela mais grandiosa Luz. Se não fosse a potência dessa revelação, jamais poderia existir, parece-me, ser algum. Como são resplandecentes os luminares de conhecimento que brilham num átomo e vastos os oceanos de sabedoria que se encapelam dentro de uma gota!
(EBB, 1977, p. 65)

Racionalismo

Muito freqüentemente, o racionalismo é identificado com um ou outro modo específico de pensar. A alma racional é uma característica sem igual do ser humano; seus poderes incluem investigação científica, compreensão dos significados e contemplação da beleza. Estes poderes podem se expressar na criação em mais de uma forma: pensamento e ações racionais. Somente quando estivermos dispostos a abandonar definições restritas de racionalismo, é que iremos poder apreciar a harmonia subjacente entre ciência e religião. As definições às quais chegamos deveriam permitir o cepticismo que caracteriza qualquer método científico, mas também deveríamos reconhecer a necessidade dos repetidos impulsos de fé, pois é um fato inegável da vida que um sem o outro não leva a nada. A seguinte citação de David Bohm em Totalidade e a Ordem Envolvida, ilustra o quero dizer com um “modo de pensar”:

No entanto, este tipo de habilidade do homem de separar-se de seu ambiente e dividir e repartir as coisas, no final das contas conduziu a uma extensa gama de resultados negativos e destrutivos, porque o homem perdeu a consciência do que estava fazendo e, desta forma, estendeu o processo de divisão além dos limites dentro dos quais opera corretamente. Em essência, o processo de divisão é um modo de pensar em coisas que são principalmente convenientes e úteis no domínio de atividades práticas, técnicas e funcionais (por exemplo, dividir uma área de terra em diferentes campos onde várias colheitas possam ser cultivadas). Porém, quando esta forma de pensar é mais amplamente aplicada à noção do homem sobre si mesmo e ao mundo inteiro no qual vive, (i.e. para a visão de seu ego-mundo), então o homem deixa de considerar as divisões resultantes como meramente úteis ou convenientes e começa a ver e experimentar a si mesmo e ao seu próprio mundo como de fato é constituído, de fragmentos existentes separadamente. Sendo guiado por uma visão ego-mundial fragmentária, o homem então age de um modo tal que busca fragmentar a si mesmo e ao mundo ao seu redor, de forma a que tudo pareça corresponder ao seu modo de pensar. O homem, assim, obtém uma prova aparente da justeza de sua visão ego-mundial fragmentária; entretanto negligencia o fato de ter sido ele, agindo de acordo com seu modo particular de pensar, que provocou a fragmentação que agora parece ter uma existência autônoma, independente de seu desejo e de sua vontade.
(Bohm, 1981, pp. 2-3, ênfase no original)

Complementaridade

Tentativas para aplicar o princípio de complementaridade em áreas diferentes das da Física, não encontram guarida em todos os cientistas. Em primeiro lugar, os físicos não concordam unanimemente quanto ao significado preciso da complementaridade, nem compartilham de todas as visões filosóficas expressas pelos arquitetos da interpretação de Copenhague, principalmente Niels Bohr. Um assunto no qual existem diferenças profundas, por exemplo, é se as idéias humanas podem atingir a essência das coisas. Bohr duvidava abertamente de tal possibilidade; para ele, como definia Henry P. Stapp (1993) o “progresso no entendimento humano consistiria mais provável no crescimento de uma rede de compreensões complementares entrelaçadas de vários aspectos da natureza como um todo”. Stapp continuou:

Tal visão, embora retendo a promessa de uma eventual iluminação completa relativa à última essência da natureza, aceitava a possibilidade da investigação humana poder continuar descobrindo novas e importantes verdades indefinidamente. E estas podem ser finais no sentido de abarcar ou trazer luz a alguns aspectos da natureza como é revelada à experiência humana. E a esperança pode persistir de que o ser humano perceberá cada vez mais claramente, através de sua crescente mistura de visões complementares, a forma geral de uma presença cada vez mais abrangente. Mas não se pode esperar que esta presença penetrante ocupe o espaço tridimensional de intuição espontânea ou ser descrita, fundamentalmente, em termos de quantidade associada com pontos de um espaço de tempo tetra-dimensional contínuo.
(Stapp, 1993 p. 70)

Pessoalmente, não me sinto à vontade com todos os aspectos da interpretação de Copenhague sobre mecânica quântica, muito menos com todo o seu pragmatismo extremo. Mas em relação ao conhecimento humano, as idéias que expressei neste trabalho se harmonizam muito mais com a declaração acima do que, digamos, com a convicção de que toda a explicação será por fim reduzida às ramificações de uma única teoria científica global.

Dualidade

Há uma enorme diferença entre a dualidade da mecânica quântica e as dicotomias nas quais a visão mundialmente aceita da mecânica parece ter alcançado. Uma das contribuições mais importantes da “nova Física” para um padrão de pensamento que está emergindo no mundo de hoje, é sua rejeição desta universalidade de aceitação. Em “O Ego Quântico: Uma Visão Revolucionária da Natureza e da Consciência Humana: Com Base na Nova Física”, Danah Zohar (1991) faz uma análise criteriosa da alienação resultante da interpretação mecânica do universo:

As três “dicotomias perniciosas” nos deixaram imaginando como nós, seres humanos conscientes, relacionamo-nos conosco mesmos (nossos próprios corpos, nosso próprio passado e futuro, nossos próprios egos substitutos), uns com os outros ou com o mundo e com os fatos da natureza. Tentando responder a estas indagações, nossa psicologia, nossa filosofia e nossa religião fragmentaram-se em opostos extremos. Como Yeats disse sobre esta era: “As coisas se rompem e o centro não pode segurá-las.”
A divisão entre a mente e o corpo ou entre o ser interior e o exterior, deu origem à dicotomia entre o subjetivismo extremo (um mundo sem objetos) e o objetivismo extremo (um mundo sem assuntos). Assim, o Idealismo negou a realidade ou a importância da matéria e reduziu tudo à mente, enquanto que o materialismo negou a realidade ou a importância de mente e reduziu tudo à matéria. Freud afirmava que a parte interna era real e acessível, enquanto que a exterior era toda projeção e muitas ondas de misticismo refletiam esta visão - por exemplo, o mundo é o véu de Maya, um véu de ilusão. Em outro extremo, o Behaviorismo afirma que o exterior era real, negando a relevância do mundo interior. Tornou-se psicologia sem a psique.
A divisão entre o indivíduo e seu relacionamento levou, por um lado, a um individualismo exagerado, a uma vontade egoísta pelo poder e por possessões e por outro lado, a um comunitarismo como aquele do Marxismo, que negou o significado ou a importância dos indivíduos, dando ênfase à primazia absoluta do relacionamento.
A divisão entre cultura e natureza levou ambos ao relativismo de todos os tipos - factível, moral, estético e espiritual (julgamentos de valores) - e para dogmas de fundamentalismo extremo. Não parecia haver um ponto mediano entre os dois extremos, um afirmando que um determinado modo de ver as coisas era apenas uma entre muitas formas contingentes e relativas de apreciação; outro, dizendo haver um único, verdadeiro e absoluto modo de ver as coisas. Parecia não existir uma forma de dizermos que não éramos nem criaturas de cultura e, portanto, não enraizadas em qualquer fato estabelecido ou inteiramente criaturas da natureza (do que foi dado), sem flexibilidade ou espaço para um desenvolvimento criativo.
No Ocidente, estas dicotomias roubaram nossa individualidade de seu contexto e nos colocaram num isolamento mais profundo, levando ao narcisismo. Fomos cortados de uma confirmação exterior de nossa vida interior, que conduziu ao niilismo e negou a confirmação de nossas idéias, deixando-nos com o relativismo e o subjetivismo. Cada uma alimentou uma forma de alienação e a soma total desta alienação é a maldição de modernismo.
(Zohar, 1991, pp. 217-218)

Ao tentamos promover um discurso sobre ciência, religião e desenvolvimento, o maior desafio que encontramos é superar os hábitos mentais descritos por Zohar na citação acima. O que amedronta é que nosso discurso tem de se focalizar principalmente no desenvolvimento, o próprio processo que tomou sobre seus ombros a responsabilidade de propagar estes hábitos em todo o planeta.

Princípios Espirituais e o Papel do Conhecimento

Os programas de desenvolvimento somente continuarão sendo pertinentes à vida de sociedade na extensão em que forem formulados e realizados no contexto de uma civilização mundial emergente. Isso não significa que o campo do desenvolvimento tem que ampliar seu escopo para abranger todos os aspectos de existência humana. Pelo contrário, como um empreendimento global seu valor está em sua consagração à tarefa de fomentar prosperidade entre os diversos habitantes do planeta. No entanto, para alcançar a vitalidade exigida, o esforço sistemático para realizar o desenvolvimento social e econômico de nações deve ser concebido no contexto de um processo maior que levará a humanidade a sua próxima fase de evolução.

Não importa quão superficial, uma análise das forças históricas que estão moldando a estrutura da sociedade - junto com as revoltas devastadoras que estas forças já precipitaram e as mudanças prodigiosas que geraram - ela deveria convencer os defensores intransigentes das políticas globais de hoje que o progresso material incontrolado não é o que a sociedade precisa.

Um duplo clamor é ouvido em toda parte, que surge do coração das vastas massas da humanidade. Exige a extensão dos frutos do progresso materiais a todos os povos e, ao mesmo tempo, clama pelos valores espirituais da civilização. Pois a “civilização material assemelha-se a uma lâmpada e a divina, à luz. Sem luz, a lâmpada permanece escura. A civilização material é como o corpo. Por infinitas que sejam sua formosura, graça e beleza, ele é morto. A civilização divina é como o espírito. É o espírito que insufla vida no corpo”. (EBB, 1993, 276:227) A verdadeira prosperidade tem tanto dimensão material quanto espiritual.

Que a humanidade está sendo irresistivelmente impelida para alguma espécie de forma coerente de existência é algo que não se discute. A escolha está naquilo que deve ser globalizado - o mais vil dos desejos humanos ou os mais nobres ideais e aspirações. As idéias expostas nestas páginas originam-se da convicção de que o aparente domínio atual usufruído pelos primeiros, os desejos mais vis, é apenas ilusório; são os segundos, os ideais e aspirações mais nobres, que terão a palavra final no destino da raça humana. A visão aqui projetada, portanto, é otimista, não em relação ao futuro imediato, mas a um futuro mais distante, o qual, felizmente, é inteiramente discernível desde já.

É uma característica de numerosas formas de existência a necessidade de passar por sucessivos estágios de transformação antes de alcançar o nível de maturidade a ela destinado. Mesmo o ser humano está sujeito a essa característica da evolução, tem de passar da infância à adolescência e à juventude antes de alcançar a idade adulta e sua maturidade, quando todos os poderes do espírito humano se manifestam. Os atributos do adulto não são definidos pelas imperfeições da infância; nem as vicissitudes da adolescência duram além do período de transição para a maturidade. Não sugere a História um padrão similar para a vida coletiva da humanidade?

Se a humanidade está, na verdade, se aproximando da idade adulta, as transformações revolucionárias que estão ocorrendo com incrível rapidez em todos os setores de sua vida coletiva assumem o caráter de dois processos paralelos, um integrativo e outro de desintegração ruinosa. A ocorrência de ambos é necessária durante esse período tumultuoso quando as barreiras erguidas pelos pensamentos, atitudes e hábitos da infância da raça humana precisam ser removidas e, em seu lugar, construídas as estruturas de uma civilização que possam sustentar as fortes e pesadas responsabilidades da fase de maturidade. Se esta concepção é razoável e correta quanto a crise atual da civilização, então torna-se imperativo que aqueles de nós que estão envolvidos em um empreendimento global que chamamos desenvolvimento e que deve contribuir para o surgimento das instituições e práticas da vida adulta, devemos todos entender a natureza do processo dual que está afetando nossos esforços. Pois, por inevitável que seja o resultado, a desintegração pode ser dolorosamente prolongada pelas decisões de líderes mundiais que se recusam a atender às exigências de uma nova era.

Esta interpretação da natureza de nosso tempo pode nos ajudar a nos libertar do apego excessivo aos padrões do passado e caminharmos à frente para encontrar novos e viáveis caminhos para o desenvolvimento. Se permitirmos que antigas convenções persistam ditando os padrões de desenvolvimento, o destino da humanidade será uma sociedade global dirigida pelos interesses de uma minoria e estará sob o jugo de forças políticas e econômicas. Tal sociedade será inaceitável para a raça humana, que já superou antigos hábitos de sua adolescência. Neste contexto, a visão de desenvolvimento como algo que é dado pelos “desenvolvidos” para os “em desenvolvimento” ou como uma imitação de todas as nações ao modelo da industrialização, que historicamente levou alguns países à prosperidade material, não pode sobreviver diante de uma opção realista. Igualmente inadequada é a visão de desenvolvimento como um processo desordenado cujos objetivos surgem de dentro de sua própria dinâmica. A transição para a maturidade aqui mencionada prevê que a humanidade deve desenvolver-se como um todo, num nível de consciência coletiva. Como isso está ocorrendo de forma crescente, as únicas estratégias de desenvolvimento aceitáveis serão aquelas que consideram as pessoas e suas instituições como os reais protagonistas das transformações - toda a humanidade e as instituições que servem legitimamente aos seus interesses. Se desejarmos definir corretamente o desenvolvimento, é necessário fazê-lo em termos de criação de condições e capacitação adequada em indivíduos, comunidades e instituições, para participarem efetivamente no tecimento da estrutura social de uma próspera civilização material e espiritual.

Princípios Espirituais

Claramente, a relação entre a civilização material e a espiritual acima apresentada não é algo simples. Matéria e espírito interagem em padrões intrincados e em vários níveis. No campo do desenvolvimento, uma interação essencial deve ocorrer ao nível de princípios. Reconhecendo a necessidade de modificar a declaração em um estágio posterior, gostaria de propor que o progresso na civilização material receba seu impulso fundamentalmente da força da ciência. É decorrência das diferentes aplicações da faculdade racional da alma humana, por exemplo, entender as leis da natureza e da sociedade, promover a agricultura e a indústria, aprender as lições da história, alcançar discernimentos sobre uma viável organização social e mesmo criar métodos de governança humana. No entanto, essas aplicações devem estar voltadas para, e ser governadas pelos princípios da civilização espiritual, sem a qual o progresso material pode levar tanto à miséria quanto à felicidade.

No mundo de hoje não será fácil argüir que a prática do desenvolvimento devia ser guiada por princípios espirituais. A prescrição que “o fim justifica os meios” tem sido por tanto tempo e tão amplamente aceita por tantos que já se tornou um conceito normal na cultura popular, como o é a idéia a ele ligada de que o sucesso é o árbitro final dos componentes conflitantes do problema. Consideremos, por exemplo, a questão da justiça. Se a justiça deve ser um princípio obrigatório na prática do desenvolvimento, então a criação propositada da injustiça, mesmo como uma medida temporária para alcançar a prosperidade em uma data futura, não é algo permissível. No entanto, não somente o pensamento desenvolvimentista endossou tal prática não só nos primeiros anos, como trinta anos depois, mesmo após a dolorosa experiência adquirida, mantendo ainda práticas similares, embora expressa no vocabulário de forma amena para tornar mais palatável tal conceito, que voltou e continua sobrevivendo até nossos dias.

O efeito de incorporar a discussão dos princípios espirituais nas deliberações sobre desenvolvimento social e econômico envolve outras dificuldades, muitas enraizadas já há longo tempo na história de atos condenáveis dos movimentos religiosos. Mesmo a lembrança de tais experiências de arrogância e hipocrisia, inevitavelmente gera resistência. No entanto, conforme argüido em outros pontos deste documento, reações extremas de mentes eruditas para corromper formas de crença religiosa têm acarretado um grande peso sobre a humanidade, sendo já tempo de mostrar disciplina neste respeito. Acreditar em princípios e defendê-los não implica um senso de superioridade espiritual. Existe uma diferença entre crer em ideais elevados e o fato de incorporá-los em seus ensinamentos. Para traduzir princípios em ações devemos nos engajar em um processo de aprendizado, um processo cujos métodos devem ser científicos. Ainda mais, um aprendizado efetivo depende de uma postura de humildade e nosso temor à hipocrisia não nos deve impedir de dar à humildade o mérito que merece. A discussão dos princípios que se seguem, então, não é um tratado sobre religiosidade; é apresentada no contexto do aprendizado como o modo ideal de operação no campo do desenvolvimento.

A Unidade da Humanidade

A marca distintiva da era da maturidade será a unificação da raça humana.

O princípio da unidade da humanidade não é uma mera expressão de uma noção romântica de amor fraternal ou de louvor a algum ideal vago de tolerância e respeito mútuo. Não é um chamamento à uniformidade. Não tem nada em comum com o avanço agressivo de uma cultura superficial que idolatra a gratificação desenfreada dos desejos e que devora toda cultura que encontra em nome da universalidade.

Acreditar na unidade da humanidade, conforme aqui definido, implica a rejeição de teorias que explicam a vida coletiva dos seres humanos em famílias, grupos, tribos, cidades e nações unicamente em termos de imperativos de sobrevivência. Mais que isso, a evolução de tal vida coletiva e suas instituições é vista como um desenvolvimento gradual das potencialidades do espírito humano. Este processo evolutivo alcançará um estágio de realização no qual a humanidade será, finalmente, capaz de assumir a tarefa de assentar as bases de uma civilização unida e evoluída. O progresso rumo a essa meta demanda uma mudança rápida e orgânica em todas as estruturas da sociedade, acompanhada por uma igualmente profunda transformação na consciência humana.

Os esforços para entender a operação destes princípios devem ter em mente que a unidade precisa necessariamente expressar-se em uma variedade infinita de formas. Diversidade e unicidade são complementares e inseparáveis. A diversidade nem sempre acarreta inimizade e oposição. As diferenças de etnia, nacionalidade e raça que existem hoje em dia podem ser avaliadas no contexto de um processo histórico que tem passado por estágios progressivos de unidade. As diferenças que são vistas como as causas de divisão e conflito devem ser na verdade tratadas como fontes de estabilidade. A diversidade traz enorme força à composição do todo quando a unificação ocorre.
A conscientização gradual do significado da interconexão nos processos que ocorrem no universo está crescendo cada vez mais não somente nos meios religiosos e filosóficos, mas também no campo da observação científica. Muitos progressos ocorridos nas últimas décadas - por exemplo, no entendimento da evolução dos sistemas biológicos e cognitivos, na ecologia, no estudo do cosmos e de suas mais ínfimas partículas - tornaram obsoleta a noção, mundialmente aceita, fundamentada na mecânica de um relógio e nas interações de bolas de bilhar. O pensamento desenvolvimentista precisa ser igualmente desafiado a deixar para trás a visão de uma sociedade que se originou em mentes vítimas da fragmentação e buscar em novos paradigmas científicos as idéias e as ferramentas necessárias à realização de suas tarefas.

A analogia que parece demonstrar a operação do princípio da unidade na sociedade é o corpo humano. Dentro deste sistema, milhões de células, com uma extraordinária diversidade de formas e funções, colaboram para tornar possível a existência humana. Elas são e recebem o que quer que seja necessário ao bem estar do todo. Ninguém ousaria tentar explicar a vida de um corpo sadio em termos de alguns princípios que usamos tão livremente em nossas teorias sociais, como a competição entre as partes em luta por parcos suprimentos. O princípio que governa o funcionamento do corpo é a cooperação. Mas não uma cooperação sem um propósito - a existência devido à sua própria existência. O resultado deste complexo conjunto de interações é um sistema que serve como o templo da alma. A faculdade racional surge e a inteligência, uma qualidade que parece estar presente profundamente na estrutura do universo, se manifesta. Não poderia a sociedade tornar-se também a arena para uma harmoniosa interação entre os seres humanos, interações cujo propósito não seria uma mera satisfação de alguns momentos passageiros nesta Terra, mas o aparecimento de uma forma superior de civilização humana?

Visto desta forma, o princípio da unidade da humanidade entraria no discurso desenvolvimentista em três níveis. O primeiro seria o nível de tomada de decisões e direcionamento. O que fomenta a separação, consolida o isolamento e fortalece a ascendência de um grupo de pessoas sobre outro - mesmo sob a máscara da unidade e globalização - poderia de forma alguma ser considerado como desenvolvimento. O segundo ocorre ao nível dos enfoques e metodologias. O desenvolvimento, entendido como uma prosperidade adicional a tudo, não pode ocorrer através da glorificação do conflito, seja de classe ou ideológico. Nem pode a busca de objetivos egoístas e competitivos ser considerada como o princípio organizador da sociedade e como o único caminho para a excelência, embora alguém possa aceitar que as idéias e os produtos devem poder competir entre si. A excelência não será alcançada se as qualidades nobres da alma humana não puderem florescer num ambiente de liberdade criado pela cooperação. O terceiro nível no qual o princípio da unidade pode ser encontrado é o da atividade programática. A união dos corações humanos e o alcance progressivo da unidade de propósitos, unidade de pensamento e unidade de ação devem ser incorporadas tanto nas metas como nos métodos dos projetos de desenvolvimento; assim, também, têm de ser medidas que promovam a integração das pessoas em todas as partes em uma rede crescente de relações globais. Neste mesmo sentido, creio, é que a frase bem conhecida: “Pense globalmente, aja localmente” - encontra o seu verdadeiro significado.

Justiça

Dizer que a justiça deve ser uma preocupação fundamental da estratégia do desenvolvimento é expressar um truísmo. Existe, porém, pouca concordância sobre os meios pelos quais a justiça pode ser aplicada em planos reais e colocada em ação. Reconhecer que a justiça é basicamente um princípio espiritual, uma exigência do espírito humano, ajuda a superar a dificuldade e abre as portas à possibilidades que não estão disponíveis quando a discussão é limitada à distribuição da produção ou à aplicação da democracia. Como um conceito não aplicável á rede de conexões que definem o reino animal, a justiça é, irrefutavelmente, uma exigência de uma vida que transcende a existência animal. Mais que uma mera preocupação com assuntos sociais, a justiça, como um princípio espiritual, diz respeito ao indivíduo em seu nível mais profundo de consciência.Sua influência motiva a participação, eleva a consciência a novos níveis e fortalece os indivíduos, as comunidades e as instituições.
As raízes espirituais do princípio podem ser encontradas naquela faculdade da alma humana que nos possibilita ver com nossos próprios olhos e não com os alheios. O cultivo desta faculdade cria no indivíduo a responsabilidade de investigar a realidade livre das cadeias das tradições perpetuadas através da imitação. Quando suficientemente desenvolvida, ela protege a pessoa, por exemplo, de ser uma vítima ingênua da propaganda de mercado, que de forma constante induz à compra de coisas, serviços e ideologias. A eliminação de tal credulidade é, claramente, uma exigência do processo de desenvolvimento que convoca a participação das pessoas na definição de seu próprio caminho de desenvolvimento coletivo.

Entendido como um princípio espiritual, a justiça ajuda os formadores de programas de ação a evitar as armadilhas da uniformidade, respeitando ainda as exigências da eqüidade. A analogia do corpo humano mencionada em relação ao ideal de unidade assume um novo significado quando examinada à luz deste princípio. Em vez de apenas definir o relacionamento entre os membros da sociedade em termos de uma igualdade extemporânea à própria estrutura da criação, a pessoa é levada a ver o bem estar individual e coletivo como resultado de uma intrincada operação de um sistema que avalia as necessidades, as aspirações, os talentos, as motivações, os atos e as recompensas, todos de forma eqüitativa. Quando apropriadamente aplicada a assuntos sociais, a justiça é singularmente o instrumento mais importante para o estabelecimento da unidade.

Sem justiça, as metas de desenvolvimento tornam-se distorcidas. Elas nem são ditadas pelos interesses das ideologias dominantes e grupos poderosos, nem representam nada mais que as crenças, freqüentemente admitidas como baseadas no altruísmo, daqueles que trabalham profissionalmente no campo do desenvolvimento. Observe-se quão ruidoso é o louvor dado a enfoques imperfeitos para a globalização e quão maior ainda é o valor que se gasta para cobrir a resultante marginalização das massas. Sabe-se que milhares de projetos que foram lançados para aliviar a pobreza, mas que somente conseguiram proporcionar a um pequeno grupo de beneficiários algumas poucas vantagens, enquanto que o distanciamento entre o rico e o pobre na área sob sua influência continuou sempre a aumentar. Certamente, em cada estágio da atividade - desde a formulação das políticas até a definição dos programas de ação e à implementação de projetos específicos - o princípio da justiça deve ser o árbitro final.

Igualdade Entre Homens e Mulheres

Não há dúvida de que a igualdade entre homens e mulheres será uma característica distintiva da civilização a emergir do presente estágio evolutivo da raça humana, atualmente em fase de transição. O desafio é assegurar que, de um lado, o princípio possa dar uma direção à estratégia de desenvolvimento e, de outro, seja traduzido em estruturas e atitudes apropriadas, aceitas como meta integral de projetos específicos.

Reconhecer que a igualdade entre homens e mulheres é um princípio espiritual elementar acaba com todos aqueles argumentos que, abertamente ou de forma sutil, procuram defender a noção da superioridade masculina. Promover, como um elemento da crença religiosa, a convicção de que a alma do ser humano não tem sexo - como é o caso da raça e da cor - é atacar as próprias bases de antigo preconceito contra as mulheres. A ciência, evidentemente, muito faz para acabar com crenças errôneas. Mas a história está repleta de exemplos de povos inteiros que prontamente aceitaram premissas erradas como verdades científicas, devido a convicções herdadas que os levaram a assim agir.

Infelizmente, no que diz respeito à consideração deste tema sobre mulheres, os anais das principais religiões demonstram fatos surpreendentes. Denunciar a religião como perpetradora da desigualdade entre mulheres e homens, porém, não se justifica. A aceitação da realidade da igualdade dos sexos tem sido progressiva, certos elementos da religião considerando apenas à histórica realidade dos povos entre os quais foi promulgada. Isso deve ser entendido no contexto de um processo crescente, através do qual a verdade espiritual tem sido alcançada progressivamente, a fim de ir superando aos poucos os desafios do processo civilizatório.

A sociedade contemporânea está sendo levada por uma tendência prevalecente de relegar a segundo plano certos princípios, muito importantes, mesmo após o reconhecimento de seu valor, isso mais especificamente no campo da retórica e da discussão acadêmica. Se o princípio da igualdade entre mulheres e homens não está alcançando um reconhecimento generalizado, precisa pelo menos poder ser expresso de forma contínua através da adoção de uma meta especial: assegurar que os homens e as mulheres compartilhem, lado a lado, em todos os campos do esforço humano - científico, cultural, social e político - dos mesmos níveis de remuneração e em igualdade de condições. Para a grande maioria das mulheres no mundo, a implicação mais importante de tal meta é o direito à educação de forma irrestrita, uma educação com a mesma qualidade à que é oferecida aos homens e que é da máxima importância a educação das meninas, algo que precisa ser reconhecido internacionalmente como um tema das políticas sociais. A seriedade deste comprometimento poderá ser melhor apreciada ao se constatar o cuidado que está sendo tomado para complementar a ênfase dada à educação das mulheres com medidas de transformação das atitudes dos homens.

Por mais bem-vinda que seja esta conquista, a mudança de atitude é no entanto, apenas, parte da resposta de uma sociedade formatada dentro de antigos preconceitos. O princípio da igualdade entre homens e mulheres, tem profundas implicações nas mudanças de estrutura, que irão caracterizar a idade de maturidade da humanidade. Não seria exagero afirmar que a aplicação rigorosa deste principio irá revolucionar todas as instituições da sociedade, desde as famílias até os governos, desde as menores unidades de produção até às maiores organizações financeiras, desde as estruturas que apóiam a criatividade individual até os canais mais complexos de expressão coletiva da cultura. Pois o objetivo não é apenas criar oportunidades para as mulheres poderem fazer tudo o que os homens fazem atualmente, muito até vergonhoso e cruel. O princípio da igualdade de homens e mulheres traz muita luz ao entendimento das verdadeiras qualidades da alma humana, tão necessárias à organização da vida social. Confirma a realidade humana e sua aplicação constitui um requisito vital para o estabelecimento da paz, afasta em definitivo a violência, é uma exigência de uma nova e longamente esperada civilização espiritual. Sem ela, o desenvolvimento simplesmente não ocorre.

Gestão e Intendência da Natureza

A moderna era científica testemunhou uma rebelião justificada contra os pontos de vistas religiosos que pregam o abandono deste mundo em troca de recompensas no próximo. Para as pessoas em geral, tornou-se cada vez mais aparente que colocar o espiritual e o material em uma oposição forçada engendra passividade, que é uma influência importante para a perpetuação da pobreza através da opressão. O credo do materialismo que acompanhou a rebelião contra a tradição, porém, não promove a relação da humanidade com o mundo material no qual vive. Colocando Deus de lado, a resposta a toda essa questão foi buscada nos fatos da natureza, vagamente definidos como tudo o que é acessível aos sentidos. Mas, com esta mudança, baniu-se também a reverência pela natureza que havia sido um aspecto vital dos estágios anteriores da evolução social. A Terra tornou-se basicamente um reservatório de recursos materiais a serem explorados dentro de um enfoque que foi caracterizado como hostil e irresponsável. O resultante desastre ecológico agora força os líderes mundiais a re-examinarem o significado de progresso e a relação existente entre a humanidade e a natureza.
Muito da culpa pelo grande desequilíbrio criado na ecosfera é colocado sobre o antropocentrismo da civilização atual. A alternativa freqüentemente oferecida, porém, é um biocentrismo que parece igualmente inalcançável. Em sua formulação extrema, esta filosofia é apenas outra marca do materialismo, uma forma de adoração da natureza que ignora as exigências de uma consciência singular da espécie humana e ausente do universo material. Mais uma vez, o foco é exclusivamente sobre a sobrevivência da raça. Podem os seres humanos ser agora induzidos a crer que seu único propósito na vida é passar algumas dezenas de anos neste planeta em harmonia com a natureza, como fazem os peixes e os pássaros?

O princípio da gestão e intendência ambiental defendido neste estudo afirma ser uma aspiração humana natural transcender as limitações do mundo material, mas o faz mantendo uma atitude de respeito e cooperação com a natureza, o que está em harmonia com a unidade da existência. Defende uma visão de inteireza e interconexão através da criação, o que inclui tanto a natureza como a consciência humana, o primeiro sendo uma expressão da vontade de Deus no mundo contingente e o segundo um imperativo de uma ordem mais elevada de existência. A gestão e intendência da natureza, então, constituem um papel imprescindível que a humanidade, dentre outras incontáveis espécies na biosfera, tem de exercer - o papel de ser um participante consciente, compassivo e criativo na evolução da vida do planeta. Longe de considerar a presente crise ecológica uma causa de desespero, os pensadores desenvolvimentistas devem reconhecê-la como um ponto de mutação providencial na evolução da consciência humana, um ponto de mutação no qual a fragmentação dá lugar à unidade do todo.

Trabalho e Riqueza

Como acontece com a natureza, a riqueza recebeu também um tratamento contraditório em cada período da evolução social. Repetidamente, o pêndulo tem se movido de um lado para o outro, de repulsa à riqueza como corruptora da alma humana à sua adoração como provedora final da felicidade. O conceito, claramente, precisa ser reexaminado no contexto de um processo de desenvolvimento que pode contribuir para o avanço espiritual e material da raça humana.

O princípio espiritual que pode ajudar a definir uma atitude apropriada com relação à riqueza tem consistência com a natureza real e com o propósito do trabalho. O trabalho é tanto uma exigência da vida neste planeta como um impulso inerente ao caráter humano. Através dele, as exigências necessárias da alma humana encontram sua realização e muito de seu potencial é realizado. Para alcançar sua finalidade, porém, o trabalho não pode ser reduzido a uma luta pela sobrevivência. Nem pode seu objetivo ser apenas a satisfação de anseios pessoais. O mais elevado grau do trabalho é o de serviço à humanidade e quando realizado neste espírito torna-se um ato de adoração espiritual.
O fruto mais nobre do trabalho é a realização intelectual e espiritual decorrente. Mas o trabalho precisa produzir também os meios materiais de sustento do indivíduo e da sociedade, tornando possível o progresso. Uma civilização mundial próspera, já ao alcance da humanidade, exige a produção da riqueza em uma escala até então não imaginada. O sucesso de tal esforço depende de uma definição rigorosa dos parâmetros de propriedade da riqueza, a fim de escapar das armadilhas tanto do excessivo controle do estado como do imensurável acúmulo de riquezas nas mãos de alguns poucos. Os extremos de riqueza e pobreza estão estreitamente ligados - a pobreza não poderá ser abolida enquanto se permitir a existência extrema da riqueza.

Visto sob este enfoque, a riqueza pessoal é aceitável enquanto atender a certas condições. Deve ser adquirida através de trabalho honesto, físico ou intelectual e sua aquisição não pode ser a causa, não importa quão indiretamente, do empobrecimento de outros. Ainda mais, a legitimidade das possessões materiais depende igualmente de como foram ganhas e como são usadas. A pessoa tem o direito de usufruir os frutos de seu próprio labor e gastar a própria riqueza não somente com sua própria família, mas também para o bem estar da sociedade.

Liberdade e Empoderamento

No âmago da espiritualidade está o anseio da alma humana pela libertação das cadeias e disputas pela existência material. Paradoxalmente, o impulso recebe oposição de outro: permissão para atender aos seus próprios desejos. Ao longo da história, aqueles dois impulsos têm coexistido e têm se misturado, formando dezenas de ideologias, cada uma delas apelando às nobres aspirações e cada uma carregando dentro dela as sementes de suas própria destruição. Revolução tem sido seguida por revolução - justificadas inicialmente pelo desejo legítimo de ser livre, apenas para servir de opção, mais tarde, às mais cruéis manifestações de uma natureza inferior. O desespero que caracteriza a sociedade de hoje deve muito de sua força à confusão daqueles que não podem distinguir entre a verdadeira liberdade e a entrega ao desejo animal.

A ciência provê as ferramentas e os métodos que podem ser usados para se alcançar a liberdade. Mas é a luz da religião que separa a nobreza da vileza. Do ponto de vista religioso, a verdadeira liberdade está em conformidade com os ensinamentos divinos. Pois, somente na extensão em que os seres humanos despertam sua consciência para a capacidade do amor, generosidade, justiça, compaixão, confiabilidade e humildade, é que podem manifestar os poderes extraordinários com os quais foram dotados.

Certamente, libertar-se da opressão é uma causa a ser apoiada durante toda a era de transição da infância à maturidade. Os que trabalham para esta meta encontrarão pouca dificuldade para detectar a conduta opressiva de regimes tiranos e medidas políticas e econômicas instituídas por um grupo para suprimir outro. O que é bem mais difícil de entender é o fato de que a versão reinante de democracia, tão intimamente ligada às operações de mercado, alimente outras formas de opressão, sutis, mas igualmente danosas, pois o maior crime da opressão é aquele que rouba das pessoas suas verdadeiras identidades. Sua arma é a manutenção da ignorância através da manipulação da informação e a negação do acesso ao conhecimento. Ironicamente, tanto o perpetrador como a vítima se vêem privados de oportunidades para o desenvolvimento de potencialidades das quais, em última instância, depende a sua realização. Uma tarefa central do desenvolvimento, então, é a propagação sistemática do conhecimento material e espiritual quanto ao claro propósito de fortalecimento das pessoas.

O Papel do Conhecimento

Como a prática do desenvolvimento tem de ser orientada por princípios espirituais, o papel que concede à geração e aplicação do conhecimento deve ser reavaliado. O materialismo, seja convincentemente definido ou oculto em conclusões implícitas, tem pouca chance de sobreviver a não ser colocando a atividade econômica no centro da existência humana. De uma forma ou outra, todos os outros processos de vida social terminam subordinados a esta atividade, derivando dela a maior parte da importância das contribuições que fazem à criação do conforto material e da riqueza. Especificamente, o conhecimento, muitas vezes confundido com informação, adquire muito de seu valor do enorme potencial que tem para direcionar o progresso econômico.

Uma afirmativa alternativa, feita neste estudo, é que um consenso geral que confirma as dimensões espirituais de consciência devia considerar a geração e aplicação do conhecimento como o verdadeiro processo essencial à existência social. Claramente, a criação da riqueza e sua distribuição eqüitativa continuariam a ser indispensáveis. Mas a atividade econômica não seria vista como um fim em si mesma. Além da atenção às necessidades de sobrevivência, estaria preocupada com a multiplicação dos meios através dos quais a humanidade poderia trabalhar no sentido de metas com propósitos mais elevados.

Em uma análise final, se a necessidade de alcançarmos tão fundamental mudança em nossa percepção da vida social está sendo reconhecida, ou rejeitada, isso depende de nossa convicção sobre o significado e propósito da vida. Mas, quaisquer que sejam nossas convicções, será cada vez mais difícil ignorar a evidência que aponta de forma surpreendente para a incapacidade da prática de desenvolvimento enraizada no materialismo dogmático assegurar pelo menos o bem-estar de grandes setores da humanidade. Na verdade, como pode alguém negar que a opressão econômica e política são inerentes à visão materialista da existência? Não importa quão heróica seja a luta contra a miséria e a opressão, a causa principal da miséria, prevalecerá de uma ou de outra forma, dentre as miríades de formas existentes, pelas quais a sociedade transforma a expressão dos mais elevados imperativos da natureza humana.

Para a construção de uma civilização mundial - o conteúdo nela contido, já argüi aqui -o campo do desenvolvimento precisa organizar devidamente suas operações, exige um nível de capacidade bem maior que qualquer outro que a humanidade tenha imaginado durante seu longo período de infância. Para alcançar tal nível é necessária uma expansão enorme do conhecimento. Mas se tudo o que for realizado representa apenas crescimento em magnitude, os resultados práticos serão lamentáveis, na verdade. Se os atuais arranjos que limitam o acesso da ciência moderna a pequenos setores da sociedade forem mantidos, as conseqüências nada mais serão que o alargamento da distância que separa o rico do pobre. O desenvolvimento verdadeiro não pode ser visto como a mera preparação da maioria dos seres humanos para tornar-se ativos usuários dos produtos da ciência e da tecnologia. Uma preocupação fundamental de qualquer programa de desenvolvimento social e econômico não pode esquecer que se trata de um direito das massas da humanidade não somente ter acesso à informação, mas também participar inteiramente na geração e aplicação do conhecimento; a extensão da participação de cada ser humano deve ser determinada somente em decorrência de suas próprias capacidades.

Colocar à disposição de todos os membros da raça humana uma forma de educação bem qualificada irá certamente ter um papel crucial para se chegar ao nível de participação aqui proposto, como será a extensão do trabalho de sofisticados centros de pesquisas em todas as regiões. Mas, além desses avanços, o fluxo do conhecimento no mundo terá de ser reorganizado.

Em sua maior parte, o que se conhece como conhecimento científico moderno é gerado em universidades e em centros especializados de pesquisas nos países industrializados. Réplicas dessas instituições no hemisfério sul participam deste processo somente em graus limitados. A maioria das pessoas no mundo recebe uma educação formal inadequada deste sistema de desenvolvimento e de elaboradas pesquisas, bem como instruções de órgãos governamentais e de ONG’s sobre o uso devido de pacotes tecnológicos e uma variedade de cursos de curta duração sobre os muitos aspectos da vida moderna na qual as massas da humanidade devem ser incorporadas. As pessoas são simultaneamente expostas à propaganda comercial, política e cultural de inumeráveis grupos e organizações competindo para obter sua atenção.

Que esses centros altamente sofisticados existentes no mundo, dedicados à pesquisa e ao desenvolvimento das fronteiras da ciência moderna, são essenciais, é um fato inegável. A necessidade de eficientes canais através dos quais indivíduos e comunidades recebam serviços benéficos em áreas tais como saúde, educação e produção, é igualmente evidente. Mas o que é amplamente ignorado é que, além do treinamento e da disponibilização de serviços, a aplicação do conhecimento no propósito da transformação das complexas realidades sociais exige a geração de novos conhecimentos que levem a pesquisas dinâmicas e eficazes, bem como à participação de uma diversidade cada vez maior de mentes.

Ainda mais, é certamente evidente que a pesquisa sobre o desenvolvimento não pode ter como propósito exclusivo o aumento do conhecimento em círculos acadêmicos ou ser realizado apenas por cientistas estranhos às populações para cujo progresso estão sendo promovidas. Por mais valiosos que sejam os frutos de tais pesquisas, elas falham na promoção do desenvolvimento da capacidade institucional dentro das populações para tratarem da geração e aplicação do conhecimento, não necessariamente na dianteira da moderna ciência e tecnologia, mas em áreas onde as ciências naturais e sociais possam juntas tratar de problemas de povos específicos. É a consideração desta última necessidade que constitui um dos principais desafios no campo do desenvolvimento. Se satisfatoriamente atendido, o resultado será o rompimento do modelo atual da fluência do conhecimento no mundo, dissociando o desenvolvimento de todos os processos destrutivos e mal concebidos de modernização, focalizando a atenção sobre o verdadeiro progresso cultural.

Comentários Adicionais

Os dois comentários seguintes parecem-me necessários para esclarecer a natureza dos princípios que tentei descrever aqui.

Relação com Textos Bahá’ís

Conforme mencionado anteriormente neste estudo, a metodologia adotada para este projeto de pesquisa convida a todos os participantes deixarem claro quais são as crenças religiosas nos quais se baseiam os argumentos que apresentam. Esta sub-seção é basicamente uma exposição de alguns ensinamentos bahá’ís relevantes à criação de capacidades, o tópico a ser tratado no próximo capítulo. Embora as idéias expressadas representem meu próprio entendimento desses ensinamentos, tentei seguir os textos bahá’ís tão intimamente quanto possível. Darei um exemplo que ilustra como fiz isso. Minha breve descrição do conceito da idade de maturidade da humanidade está baseada em várias passagens dos escritos bahá’ís. Bahá’u'lláh faz repetidas referências ao surgimento de uma nova era na vida da humanidade:

Este é o Dia em que os mais excelentes favores de Deus manaram sobre os homens, o Dia em que Sua graça suprema se infundiu em todas as coisas criadas. Todos os povos do mundo devem reconciliar suas diferenças e, em paz e união perfeitas, se abrigar à sombra da Árvore de Seu cuidado e Sua benevolência. É mister aderirem a tudo o que, neste Dia, lhes possa elevar a condição e promover os melhores interesses.
(EBB, 2001b, IV)

‘Abdu’l-Bahá , interpretando os ensinamentos de Seu pai, elabora ainda mais esta idéia:

Desde o princípio até o fim de sua vida, o homem passa por certos períodos ou estágios, cada um dos quais é marcado por certas peculiaridades. Por exemplo, durante o período da infância, suas condições e requisitos são característicos daquele grau de inteligência e capacidade. Depois de algum tempo ele entra no período da juventude, no qual suas condições e necessidades anteriores são substituídas por novos requisitos aplicáveis ao avanço de sua condição. Suas faculdades de observação se ampliam e se tornam profundas; sua capacidade de inteligência é treinada e despertada; as limitações e o ambiente da infância não mais restringem suas energias e realizações. Finalmente, ele deixa o período da juventude e entra no estágio ou estado de maturidade, o qual necessita de nova transformação e correspondente avanço nas atividades de sua vida. Ele é provido de novas capacidades e percepções, e aprendizado e educação correspondentes ao seu progresso ocupam sua mente, graças e dádivas especiais lhe são concedidas na proporção de sua ampliada capacidade, e seu período anterior de juventude e suas condições não mais satisfazem sua visão e perspectiva amadurecidas.
De modo semelhante, há períodos e estágios na vida coletiva da humanidade,…
O mundo humano está sofrendo transformações sob todos os pontos de vista. As leis dos antigos governos e civilizações estão em processo de revisão; as idéias e teorias científicas estão se desenvolvendo e progredindo para se adequarem a nova categoria de fenômenos; invenções e descobertas estão penetrando campos até agora desconhecidos, revelando novas maravilhas e segredos ocultos do universo material; indústrias têm âmbito e produção imensamente mais amplos; em toda parte, a humanidade está passando pelas dores do parto da atividade evolutiva, que indicam o abandono das velhas condições e o advento de nova era de reforma. …
Este é o ciclo da maturidade e da reforma da religião também. Imitações dogmáticas de crenças ancestrais estão sendo abandonadas. … Fanatismo e adesão dogmática a velhas crenças se tornaram a fonte central e fundamental de animosidade entre os homens, o obstáculo ao progresso humano, a causa de guerra e conflito, o destruidor da paz, tranqüilidade e bem-estar no mundo. …
… Esta reforma e renovação da realidade fundamental da religião constituem o verdadeiro espírito de realização do modernismo, a inconfundível luz do mundo, o esplendor manifesto da Palavra de Deus, o remédio divino para todas as enfermidades humanas e a graça da vida eterna para toda a humanidade.
(EBB, 2005, pp. 550-552)

As operações de dois processos, um de desintegração e outro de integração, através dos quais a “união” dos povos do mundo será realizada, são também o assunto de exposição detalhada nos textos bahá’ís. Os bahá’ís são convocados, então, a fazer tudo o que puderem para promover as forças de integração na sociedade, mas devem estar bem conscientes dos inevitáveis efeitos das forças destrutivas que estão em ação em suas próprias vidas e na vida dos outros. Assim fazendo, devem manter-se alertas quanto à visão de um futuro que é descrito em termos como os seguintes:

As rivalidades entre as nações, os ódios e as intrigas cessarão e os preconceitos e animosidades de raça serão substituídos por amizade, entendimento mútuo e cooperação. Não mais existirão os motivos de contenda religiosa; abolir-se-ão as barreiras e restrições econômicas e a desmedida distinção entre as classes será eliminada. Desaparecerão a pobreza extrema, por um lado e, por outro, a excessiva acumulação de bens. A quantidade enorme de energia que se desperdiça com a guerra, quer econômica ou política, será dedicada a fins como estes: a extensão do alcance das invenções humanas e do desenvolvimento técnico, o aumento da capacidade produtiva da humanidade, o extermínio das moléstias, a ampliação das pesquisas científicas, a adoção de mais altos padrões de saúde física, a refinação do cérebro humano, a exploração dos recursos do planeta que ainda não foram utilizados ou descobertos, o prolongamento da vida do homem, a promoção de qualquer outro meio de estimular a vida intelectual, moral e espiritual da humanidade inteira.
(EBB, 2003b, p. 275)

O leitor não familiarizado com a Fé Bahá’í pode achar essas idéias utópicas e deterministas. Para os bahá’ís não têm essa conotação. Quando examinadas no contexto da totalidade do sistema de crença, que coloca grande ênfase na escolha individual e coletiva, essas declarações são entendidas como descrições de um processo de crescimento orgânico, a revelação de potencialidades com as quais a existência humana foi dotada.

Conhecimento, Amor e Fé

Os princípios analisados com brevidade nesta parte de nosso estudo representam a convicção de um número crescente de pessoas de muitas tradições religiosas e seculares. Para os bahá’ís, são considerados como elementos essenciais de seu sistema de crença e recebem extensas citações em suas Escrituras. Em razão do nome deste projeto de pesquisa, as crenças que tenho tentado tornar explícitas estão relacionadas primariamente com a transformação da sociedade. Isso, eu temo, pode transmitir uma visão estreita da Fé Bahá’í como religião. De fato, uma elevada porcentagem da literatura da Fé trata dos aspectos místicos da vida, assuntos de adoração e prática religiosa e, naturalmente, de conceitos teológicos. Embora estes não tenham relação direta com os assuntos em discussão, devo expressar minha convicção de que sem eles os princípios que tenho tratado perdem a força necessária para realizar a transformação desejada. O conhecimento deve ser acompanhado da vontade de agir para que os ideais possam ser traduzidos em realidade. Para uma pessoa religiosa, a vontade de agir recebe seu impulso de duas forças principais: a do amor e a da fé. De acordo com ‘Abdu’l-Bahá: “O amor é a benévola luz do céu, o sopro eterno do Espírito Santo que vivifica a alma humana. … (ele) revela com poder infalível e ilimitado os mistérios latentes no universo.” (EBB, 1993, 24:12) E fé, em Suas palavras, é “o magneto que atrai a força celestial”. (BPC, 1930, 1:62) “O significado de fé é, primeiro, conhecimento consciente e, segundo, a prática de bons atos.” (BPT 1930, 3:549)

“No jardim de teu coração, nada plantes salvo a rosa do amor”, é o conselho de Bahá’u'lláh (EBB, 2002ª, 79:3) “Somente por amor,” diz o Bhagavad Gita, “podem os homens me enxergar e me conhecer e vir a mim.” (11:54) “Nem mesmo a água de muitos rios pode apagar o fogo do amor”, assegura-nos o Cântico de Salomão, “nem podem as grandes enchentes afogá-lo. Se um homem oferecesse por amor todas as riquezas de sua casa, seria certamente escarnecido”. (8:7) Dos ensinamentos budistas aprendemos que “um homem de fé é reverenciado onde quer que vá: possui virtude e fama, ele prospera”. (Dhammapada, 21: 303) “Se tiverdes fé, do tamanho de um grão de mostarda”, Jesus prometeu, “podereis dizer a esta montanha que seja removida daqui para bem longe e isso ocorrerá; pois nada será impossível a vós.” (Matheus, 17;20) E o testemunho do Alcorão é igualmente enfático: “Deus é o protetor daqueles que têm fé: das profundezas da escuridão Ele os conduzirá à luz.” (Q 2:257)

Capacitação

Em uma tentativa para explorar as características de uma teoria de desenvolvimento que leve em consideração a dimensão espiritual da existência humana, tenho delineado alguns princípios que proponho devem governar tanto a estratégia como a operação do projeto. A visão do desenvolvimento demonstrada é a de um empreendimento global cujo propósito é criar prosperidade para todas as pessoas, um empreendimento que, tenho afirmado, deve buscar seus objetivos no contexto da emergência de uma civilização mundial. Tenho afirmado que a humanidade está passando por uma era de transição, melhor apreciada como uma passagem da infância coletiva para a maturidade coletiva e que, para ser efetiva, os esforços desenvolvimentistas devem transcender os padrões de conduta da adolescência. Escolhi a força do conhecimento como propulsora da civilização e afirmei que a participação na geração e aplicação do conhecimento é um direito inalienável de todo ser humano no planeta. Dentro deste contexto, propus que o desenvolvimento deve se focalizar na capacitação das pessoas, comunidades e instituições - os três protagonistas que devem participar na construção da civilização material e espiritual.

Se aceitarmos que o desenvolvimento deve ser configurado pelas exigências da transição da vida humana, de sua infância coletiva para a maturidade coletiva, precisamos reconhecer que no processo a criação conceitual de blocos de culturas e ideologias deve passar por mudanças profundas de significado. A lista de termos a serem redefinidos é longa - homem, mulher, jovem, trabalho, ócio, riqueza, honra, lealdade, liberdade, nação, estado, governo etc. Particularmente urgente é a tarefa de repensar conceitos do indivíduo e da comunidade e a relação de cada instituição que tornam possível a vida organizada no planeta.

Aqueles que encontraram no desenvolvimento um campo distinto de esforço, em meados do século XX, estão convencidos de que o mundo era essencialmente povoado por dois tipos de indivíduos. De um lado foi colocada a vasta maioria da humanidade, cujas pessoas, dependendo da oportunidade, seria considerada como atrasada, letárgica, presa em tradições, limitada pelas demandas da extensão familiar e da comunidade, dirigida por tabus, contentando-se com muito pouco e carecendo de iniciativa. No outro lado situam-se “os homens modernos” - e eram homens - enérgicos, ativos, trabalhadores, disciplinados, automotivados e racionais. O desenvolvimento objetiva mudar gradualmente o primeiro neste segundo grupo. Cinqüenta anos mais tarde, o pensamento sobre os habitantes do planeta tornou-se algo muito mais sofisticado e a maior parte da forma de conduta do homem moderno ficou sujeita a um severo questionamento. O individualismo incontido passou a representar um problema assustador para a sociedade e para a natureza e um liberalismo excessivamente autoconfiante provou ser um terreno fértil para o crescimento do desespero e confusão. A necessidade de um entendimento mais claro sobre os direitos e responsabilidades do indivíduo tornou-se uma preocupação geral.

Mantendo tais pontos de vistas bem definidos sobre o indivíduo, os primeiros pensadores sobre desenvolvimento mostraram notável ambivalência sobre a noção de comunidade - mas até então o conceito havia estado em crise por décadas no Ocidente e seu papel e sua natureza no mundo moderno não estavam bem definidos. Assim, a despeito dos esforços heróicos de uma variedade de programas, a vida comunitária se desintegrou e as estruturas tradicionais da sociedade desabaram, sem serem substituídas por instituições capazes de manter a comunidade unida. Por algum tempo parecia que pequenas comunidades, especialmente aquelas em áreas rurais, estavam destinadas a desaparecer e que a única opção aberta aos seres humanos era viver em cidades superpopulosas e estagnadas. Então, subitamente, os avanços extraordinários na tecnologia da comunicação nos anos recentes começaram a introduzir elementos inesperados no quadro. A necessidade de centralizar, característica da industrialização do passado, rapidamente diminuiu a ponto de tornar-se possível afirmar que a uma comunidade relativamente pequena, se levada a participar de um esforço coletivo e conectada globalmente a um enorme reservatório de informações, podia ser uma alternativa viável para um número cada vez maior de pessoas. É evidente que o conceito de comunidade também precisa de uma redefinição.

A idéia que gostaria de colocar é que novas definições de indivíduo e de comunidade surgirão somente se estivermos dispostos a re-examinar em profundidade os conceitos de autoridade e poder. Adicionalmente, ao ser o desenvolvimento intimamente relacionado com o conhecimento, novas percepções sobre a natureza da autoridade e poder surgirão de um diálogo entre ciência e religião.

Poder e Autoridade

No capítulo de abertura deste documento, expressei certos receios sobre a forma como o poder tem sido compreendido e utilizado através do período da infância da humanidade e subseqüentemente durante sua adolescência. Argumentarei, aqui, que com o aparecimento da maturidade o poder seria visto, primariamente, como um atributo do indivíduo e da comunidade local - poder de realizar, sob o impulso do espírito humano, as tarefas exigidas para a criação de uma civilização que atenda aos seus interesses comuns.

Para este conceito de poder tornar-se amplamente aceito, necessitamos de um novo entendimento do que significa exercer a iniciativa individual e sua participação nos empreendimentos coletivos. A iniciativa individual não é o mesmo que a busca de qualquer coisa que o coração deseje, ou uma noção indefinida decorrente de alguma definição romântica de criatividade. Para ser frutífera e para evitar a alienação resultante de um individualismo irrestrito, a criatividade precisa ter disciplina e a iniciativa deve mover-se no sentido da unidade.

A disciplina precisa ser mantida pela força da convicção interior. Quando é imposta, somente conseguirá seus objetivos abafando o fogo da criatividade. No entanto, seria também incorreto ver a disciplina interna simplesmente como um produto da vontade individual. A alma humana manifesta seus poderes latentes ao aprender a submeter-se a uma autoridade superior, fundamentalmente a autoridade das leis materiais e espirituais que governam a existência. Essas leis são tratadas nos contextos da ciência e da religião. Entendê-las não somente influencia a consciência individual como também dá significado à autoridade que a sociedade concede às instituições. Esta última é, em sua essência, a autoridade que canaliza os poderes do indivíduo e do grupo para alcançarem o bem comum, uma autoridade que muitas vezes excede seus direitos, degenerando-se no poder de controlar e manipular.

O conflito entre o indivíduo e as instituições da sociedade - um clamando sempre por maior liberdade e o outro demandando cada vez mais submissão completa - tem sido uma característica da vida política através dos tempos. O modelo de democracia vigorosamente propagado no mundo de hoje aceita naturalmente este estado de conflito, mas tenta fixar os parâmetros para que os direitos individuais não sejam transgredidos no processo. Além de qualquer dúvida, a versão de democracia até agora alcançada é preferível aos sistemas despóticos de governo aos quais a humanidade tem se submetido muitas e muitas vezes. Mas o processo histórico de democratização não termina aqui, neste seu atual estágio de imaturidade; a interação entre a autoridade institucional para decidir e o poder individual de realizar apenas começou a se conscientizar de suas possibilidades. Melhores formas de organização e ação surgirão, mas somente quando as instituições cessarem de ser vistas como instrumentos de imposição à sociedade de pontos de vistas de uma facção particular, seja democraticamente eleita ou não. Na extensão em que as instituições tornarem-se canais através dos quais os talentos e as energias dos membros da sociedade possam ser expressados a serviço da humanidade, um senso de reciprocidade crescerá, gerando o apoio e ajuda dos indivíduos às instituições e estas, por sua vez, prestarão atenção sincera à voz do povo a cujas necessidades servem.

A existência social, naturalmente, não pode ser reduzida a um intercâmbio de ações entre indivíduos e instituições. Eles somente podem existir e interagir em um ambiente do qual possam obter o sustento e a riqueza que precisam para poderem melhor dedicar seus esforços de vida. Assim, um novo entendimento de poder e autoridade terá implicações profundas para a natureza da vida comunitária daqui por diante. Sobre a comunidade pesa o desafio de prover condições às vontades individuais de se unirem, onde os poderes sejam multiplicados e se manifestem em ações coletivas e onde possam surgir expressões mais elevadas do espírito humano.

Com estes breves comentários sobre o caráter dos três protagonistas do desenvolvimento, passo agora a tratar do assunto da capacitação, primeiro para considerá-lo em termos gerais e então analisando algumas capacidades específicas que considero indispensáveis para o progresso de um povo.

Tomada de Decisão e Implementação

Capacitação, como proposto aqui, implica tornar possível ao indivíduo manifestar seus poderes inatos de uma forma criativa e disciplinada. Significa a formação de instituições que possam exercer autoridade para que esses poderes possam ser canalizados com vistas à elevação das condições de vida da humanidade e para que o desenvolvimento da comunidade se realize em um ambiente conducente ao enriquecimento da cultura. O desafio de todos os três é aprender a usar os recursos materiais do planeta e os acervos intelectuais e espirituais da raça para o progresso da civilização. Enfrentar este desafio implica também uma mudança fundamental do processo de tomada de decisão, tanto individual como coletiva. Hoje, a competição irrestrita, a obsessão pelo poder e o abuso da autoridade viciam a forma como são tomadas as decisões. O processo sofre de dois excessos: apatia ou superentusiasmo, apego à técnica ou à improvisação, devoção à minúcia ou a propensão para tratar apenas de abstrações. O que se faz vitalmente necessário é a forma de operação na qual o sistema de aprendizado seja envolvido.

Para facilitar a discussão aqui e no restante do documento, desejo apresentar meus argumentos sob o contexto de uma região de um país, uma região que abarca várias pequenas cidades, muitas vilas e possivelmente uma ou mais grandes cidades. Tais regiões, normalmente com identidades ecológicas, culturais e políticas bem definidas, com um governo estabelecido e com algumas organizações da sociedade civil - todas tendo partes distintas a realizar.

Podemos seguramente assumir que a maioria dos habitantes de nossa região típica raramente tem voz nas decisões substanciais que afetam sua vida coletiva - por exemplo aquelas relacionadas com a infra-estrutura física, a natureza e o volume da produção agrícola e industrial, tecnologia, educação ou comunicações. Essas decisões são tomadas externamente à região ou por uma elite regional, a qual, dependendo da extensão da descentralização alcançada no país como um todo, exercem mais ou menos um papel importante na estrutura geral de poder através da qual a nação é governada. A própria elite está dividida em numerosas facções, isto sem considerar se os arranjos políticos são de natureza democrática ou não.

A região que aqui descrevo não é uma onde inexistam processos políticos. A democratização, com seus ciclos recorrentes de triunfos e revezes, tem estimulado o surgimento de instituições que tratam da vida do indivíduo em pequenas cidades e vilas. Como a aceitação dos valores de descentralização tem aumentado, o grau de autoridade bem pode ter se desenvolvido nessas instituições locais. Mas o que está na ordem do dia é a necessidade de um sistema político que leve à participação das pessoas na administração de seus próprios assuntos. Na realidade, mesmo os conselhos eleitos nas menores vilas funcionam como instrumentos nas mãos de pessoas indicadas por diferentes chefes políticos. Estes utilizam suas ligações políticas para levar recursos às pessoas, as quais, em troca, garantem-lhes apoio, cada vez maior na forma de votos, à medida que mais e mais nações se juntam àquelas que promovem eleições democráticas.

A despeito das imperfeições existentes, seria enganoso considerar a situação nessas regiões como de desesperança. A elite não é inacessível às reformas e ao fato de que indivíduos de integridade comprovada alcancem posições de influência. A corrupção é geral, mas existe freqüentemente também um desejo genuíno de criar prosperidade para as massas. O altruísmo e a ganância caminham lado a lado em constante oposição mútua.

Uma grande fonte de esperança para a região é a ascensão gradual das organizações não-governamentais na área do desenvolvimento. Elas já trabalham em todos os cantos do mundo, um acervo de serviço que já duram décadas. Muito de seu trabalho é realizado através de organizações populares - cooperativas, associações, clubes e outras - dotando a sociedade civil com as indispensáveis estruturas políticas e econômicas. Por mais importante que seja o trabalho que realizam, porém, mesmos esses arranjos institucionais não substituem um imprescindível sistema apropriado de governo. Na ausência de tal sistema, também as entidades não-governamentais tendem a reforçar o poder dos grupos de interesse locais, prontos que estão para absorver os recursos de quaisquer projetos de desenvolvimento que surgirem.

Efetuar uma mudança fundamental nestas condições, envolve claramente a criação e fortalecimento de autênticas estruturas de governo, especialmente em nível local. Mas onde - a pergunta deve ser feita - devem os pensadores desenvolvimentistas buscar aqueles conceitos que poderiam ajudar as instituições inexperientes a se engajar em um bom processo de tomada de decisão e levá-lo à respectiva implementação? Seria ingênuo esperar que a política, conforme praticada na região, seria uma fonte de inspiração proveitosa. Enfim, o propósito não é aprender a manipular, acumular riqueza material e consolidar grupo de poder em detrimento dos outros e ser habilidosos jogadores em um interminável jogo que tem levado ao empobrecimento das massas.

O que, então, dizer dos processos característicos dos países materialmente avançados? São eles modelos que devem ser emulados por outros países do mundo? Incorporam eles os valores necessários para possibilitar aos habitantes de nossa região, até agora marginalizadas das decisões que governam sua vida coletiva, construir um caminho de progresso por si mesmos? Seriam as contribuições passadas para a riqueza de algumas nações, de parte desses políticos, provas suficientes de sua capacidade para produzir as transformações que irão engendrar a prosperidade material e espiritual da raça humana como um todo?

Se formos seguir o modo de ser de nosso tempo, ficaríamos entusiasmados com a última alternativa na proporção em que medidas foram instituídas para evitar corrupção. Atribuir as inadequações óbvias dos atuais modos de conduta dos políticos unicamente à corrupção, porém, é ignorar profundamente os defeitos enraizados em determinadas concepções fundamentais. Por exemplo, é verdade que o uso da força física, um bem aceito instrumento de autoridade através da história, tem perdido credibilidade e interesse nos anos recentes. Mas a democracia, definida como um processo que separa as pessoas de acordo com os interesses, talentos e ideologias, as quais, então, “negociam” decisões, continua a apoiar a violência. O propósito de cada grupo é vencer. Os meios para alcançar os fins propostos são as vantagens econômicas e a mobilização de apoio para superar o oponente. Tão forte é este legado de “o que vence é que está certo”, que essencialmente determina a forma como a justiça é administrada. Devemos aceitar isso como a realização do coroamento da evolução da tomada de decisão coletiva no planeta?

Em vez de definir a tomada de decisão coletiva como a maestria da arte de manipulação política, a estratégia de desenvolvimento faria bem em vê-la como a investigação coletiva da realidade e a análise racional de opções. Tal processo está aberto ao uso de métodos que, embora não necessariamente sofisticados ou complexos, são fundamentalmente científicos. Na verdade, durante anos os programas voltados à ação comunitária têm criados métodos altamente imaginativos para detectar necessidades, analisar tendências casuais, avaliar cursos de ação, planejar e monitorar. É verdade que alguns desses esforços envolvem uma aplicação de técnicas um tanto negligentes. Mas também existem programas que têm claramente ajudado as pessoas a adquirirem as ferramentas intelectuais para tratar com a tomada de decisão coletiva, entendida como a investigação científica da realidade. Os aspectos particulares desses métodos não são tratados aqui. O importante é que o valioso conhecimento já existente nas ciências sociais poderá ser incorporado na corrente principal de atividades, mas a estrutura decisória deverá ser favorável a esta dimensão do desenvolvimento.
Que o poder da ciência pode ser utilizado para tratar do objetivo dos mecanismos efetivos para a tomada de decisão é apenas metade da história. O sucesso de um processo consultivo que assume as características da investigação da realidade e não se degenera facilmente em conflito e jogo de poder, depende também das qualidades espirituais dos participantes. Honestidade, franqueza, tolerância, paciência e cortesia são algumas dessas qualidades. Fazer uma lista de tais atributos não é difícil. A questão é como desenvolvê-los. Que força pode dotar as pessoas com a capacidade de se oporem às suas próprias paixões, a aderirem à verdade mesmo quando for contra seus interesses pessoais e aceitar a disciplina que exige tanto coragem para expressar uma opinião franca como a sabedoria para tornar-se um ativo participante de um consenso? Claramente, esta força interna é religiosa em natureza.

Insistir na aquisição de qualidades que uma investigação desapaixonada da realidade demanda não é ignorar o interesse pessoal. Nem pode alguém negar as dificuldades para alcançar um consenso sobre assuntos que afetam o bem estar dos participantes em um processo consultivo. Tudo o que está sendo solicitado é que as pessoas se utilizem dos recursos da ciência e da religião para o desenvolvimento de órgãos de tomada de decisão e das habilidades deles exigidas quanto às suas funções na sociedade. Tais funções incluem a capacidade de manter uma percepção clara da realidade social e das forças que nela operam; detectar algumas oportuni- dades oferecidas em cada momento histórico; utilizar apropriadamente os recursos da comunidade; consultar livre e harmoniosamente como um corpo consultivo e com a anuência de todos os seus participantes; saber que toda decisão tem uma dimensão tanto espiritual quanto material; chegar a uma decisão após as consultas; ganhar a confiança, o respeito e o apoio genuíno daqueles cujas vidas são afetadas pelas decisões; usar de forma efetiva as energias e os diversos talentos dos recursos humanos disponíveis; integrar a diversidade de aspirações e de atividades dos indivíduos e grupos em um movimento positivo e progressista; construir e manter a unidade; apoiar os padrões de justiça e implementar as decisões com abertura e flexibilidade que evite todo traço de conduta ditatorial.

Mesmo uma análise superficial dessas habilidades sugere a necessidade de se recriar os órgãos de tomada de decisão de nossa região como organizações de aprendizado. O que está em risco é a transformação do modo atual de governar, baseado em conceitos tradicionais de poder e autoridade, transformá-lo em um novo modelo, que tenha uma postura genuína de aprendizado. Não há como negar que a tarefa demanda comprometimento com princípios e o reconhecimento de que os projetos de desenvolvimento raramente administram para unir e utilizar a participação daqueles aos quais buscam servir. Porém, sinceramente, não será a mudança de governar pela força, para uma administração por aprendizado, uma das características distintivas da passagem da humanidade da infância à maturidade?

A Universidade

Para que os esforços de desenvolvimento operem completamente como uma forma de aprendizado, é necessário algo mais que o aprendizado experimental das comunidades e organizações. Toda região em desenvolvimento precisa de uma instituição devotada à geração, aplicação e propagação formal do conhecimento. Referir-me-ei aqui a essa instituição como a universidade. A extensão em que esta universidade assumirá as tarefas tradicionais a ela determinadas - oferecer educação superior e realizar pesquisas nas fronteiras do esforço científico moderno - dependerá das condições específicas da região em consideração. No contexto do desenvolvimento como capacidade construtiva, suas funções essenciais são pesquisa, ação e capacitação relacionadas com o inteiro conjunto de processos da vida social, econômica e cultural da população à qual serve. O que está sendo sugerido não é uma mera atividade acadêmica, mas sim um trabalho de pesquisa realizado com a participação da população nos próprios espaços onde ela está engajada, em atividades como produção agrícola e industrial, mercado, educação, socialização de valores e enriquecimento cultural.

Em sua relação com o desenvolvimento regional, então, a universidade é uma instituição presente em quase todos os níveis de ação social, acompanhando a população, sistematizando o conhecimento existente, gerando novos conhecimentos, incorporando os resultados do aprendizado sistemático em programas de educação formal e não-formal e provendo discernimento e uma perspectiva bem clara dos órgãos de tomada de decisão. O estabelecimento de tal instituição e a definição de seu modo de operar são componentes cruciais da criação de capacidades em qualquer região - um desafio que exige criatividade e a habilidade de inovar. Os modelos tradicionais de uma já estagnante educação superior têm pouco a oferecer. Novos parâmetros precisam ser estabelecidos tanto para a pesquisa quanto para a ação. A meta é criar um espaço social, no qual cada tipo de estrutura - a fazenda, a fábrica, a escola - sirva como um centro dinâmico de aprendizado.

Desenvolvimento, Transferência e Adoção de Tecnologia

Uma das tarefas mais necessárias diante das pessoas de uma região, tarefa que exige a atenção constante da universidade e dos órgãos de tomada de decisão em diferentes níveis, é a de fazer escolhas tecnológicas apropriadas. O tema tecnologia tem sido inseparável do discurso de desenvolvimento desde seu início e agora está sendo examinado de todos os ângulos possíveis. Um conjunto de adjetivos - grande ou pequeno, com ênfase no capital ou trabalho, moderno, avançado, intermediário, nativo, eficiente energeticamente, ambientalmente sustentável - tem sido usado para descrever quão apropriada é a tecnologia em uma ou outra de suas várias formas. Seus processos associados de transferência, inovação, pesquisa e desenvolvimento, adaptação e difusão aplicáveis em muitos campos do esforço humano têm sido escrupulosamente analisados e seus resultados debatidos de forma completa. O intercurso entre tecnologia e os fatores determinantes da vida econômica, cultural, política e social de uma nação, tem sido também estudado em detalhes. É intrigante, então, o fato das discussões sobre tecnologia no campo do desenvolvimento terem continuado tão inconclusivas. Na maioria dos países desenvolvidos, a formulação de políticas científicas e tecnológicas continua a ser um enorme desafio. Toda vez que o tópico da tecnologia é destacado, um conjunto de outros fatores, principalmente econômicos e políticos, é apresentado e o resultado é que tal enfoque acaba sendo desconsiderado.

À parte da complexidade dos assuntos envolvidos, o avanço tecnológico é em si mesmo um tema elusivo, pois é tanto uma meta de desenvolvimento como um meio de realizá-lo. Muito da modernidade é definido em termos do uso da moderna tecnologia. Isso não reflete uma incompreensão, já que a mudança tecnológica é inerente ao progresso material. Assim, quando a água corrente é levada a uma vila, os habitantes podem com razão afirmar que o acesso a esta nova tecnologia constitui um passo avante no desenvolvimento. Pelo mesmo critério, a introdução de computadores em uma sociedade pode ser considerada uma contribuição ao seu progresso. O problema surge quando o elo essencial entre o progresso material e espiritual é ignorado e a civilização material acaba conseguindo ir avante com pouca ou nenhuma atenção dada à realidade espiritual. O papel da tecnologia como um meio de prover soluções às mais altas aspirações escapa à visão. Em vez disso, a tecnologia torna-se uma força autônoma e misteriosa que define como será o futuro. As pessoas se perdem neste pano de fundo, como se não tivessem outra escolha a não ser seguir qualquer tendência estabelecida pela invenção de novas tecnologias.

Obviamente, a solução para o dilema é não negar o valor intrínseco do progresso tecnológico, muito menos perpetuar noções defeituosas de espiritualidade e harmonia com a natureza. O que é preciso, na verdade, é proporcionar aos habitantes de cada região a capacidade para fazer escolhas cada vez mais válidas, tanto individual como coletivamente, relativas ao desenvolvimento, transferência e adoção da tecnologia.

Em um mundo acostumado a distorcer as palavras para justificar interesses econômicos, a capacidade de fazer escolhas tecnológicas apropriadas poderia facilmente tornar-se sinônimo de possuir os atributos de um bom consumidor. Claramente, não é isso o que pretendemos. O tipo de capacidade em discussão representa um conjunto complexo de atitudes, convicções, compreensões, habilidades e hábitos - que caracterizam a conduta dos indivíduos e organizações em sua interação diária com a tecnologia.

Um forte determinante de tal conduta é o que pode ser chamado de uma cultura científica e tecnológica. A inabilidade da estratégia de desenvolvimento em tratar deste aspecto da cultura em buscar alcançar uma mudança através dela - preferindo focalizar-se em fragmentos da ciência e acredito que da tecnologia modernas - é responsável por muitos fracassos seus passados. Acredito, seja a universidade a instituição capaz de remediar a situação, introduzindo na região um processo dinâmico de aprendizado sobre tecnologia em vários níveis.

Como definido anteriormente, a universidade deve atuar em uma variedade de espaços sociais, desde os círculos intelectuais mais sofisticados até as fazendas e fábricas da região à qual serve. Esses centros de aprendizagem podem ser utilizados para promover um discurso sobre ciência e tecnologia equilibrado em seu enfoque de mudança. A defesa militante de tradições quase sempre caracteriza uma expressão de medo por parte das massas e daqueles que as controlam. O desdém e a negligência para com os sistemas de conhecimento existentes entre as pessoas de uma região em desenvolvimento têm sua raiz na insegurança - neste caso, a insegurança daqueles que desejam impor as mudanças; entre os resultados indesejáveis desta forma especial de arrogância estão a alienação e a resistência. A universidade tem de se esforçar para cultivar uma relação saudável entre a herança cultural da população, cuja educação nutre - e os frutos da ciência moderna, permitindo assim que as pessoas tenham acesso ao novo conhecimento gerado pela interação dos dois.

Para que tal senso de propriedade seja significativo, deve ser acompanhado pela compreensão de que a tecnologia não é neutra. A noção de que a tecnologia pode ser boa ou ruim, dependendo de como é usada, é valida, mas somente dentro de um contexto muito limitado: claramente, uma faca pode ser usada para matar ou cortar pão. Mas a um nível mais fundamental, a tecnologia traz consigo uma ideologia e tem voz ativa no modo como a vida individual e social deve ser organizada. A escolha tecnológica influencia todas as outras escolhas feitas sobre a qualidade e direção de vida em uma região. Ela mesma é uma expressão de valores - políticos, sociais, culturais e, no final das contas, também morais e espirituais. A tarefa da universidade seria, então, infundir esta compreensão no pensamento geral das pessoas, de tal forma que venha a se tornar um elemento indiscutível da cultura.
Criar uma compreensão adequada da natureza da tecnologia na população de uma região constitui apenas um passo inicial para capacitá-la a enfrentar a escolha tecnológica, não como uma vítima desamparada do mercado, mas como uma entidade consciente, responsável por seu próprio destino. A universidade tem de buscar incessantemente a meta de promover um discurso dinâmico sobre ciência e tecnologia na região, ciente de que, a qualquer momento, as forças de propaganda política e comercial podem romper o processo de aprendizagem colocado em ação. O objetivo é não transformar programas de desenvolvimento em cursos de filosofia, perdendo-se em interminável debate acadêmico; tecnologias selecionadas têm de ser disseminadas amplamente e aplicadas de forma apropriada para que o progresso material se torne realidade. O desafio é assegurar que tal disseminação não ocorra como uma série de eventos isolados cujas implicações para a transformação social jamais são levadas em consideração.

Em uma região, pelo menos dois tipos de esforços deveriam ser incrementados para que a tecnologia possa ser um processo deliberadamente aberto ao escrutínio de uma população consciente. Primeiro, deve-se caminhar na direção de tornar explícitos os valores que estão subjacentes à operação de cada conjunto de produtos, instrumentos, processos e procedimentos inter-relacionados introduzidos na região. Infelizmente, em anos recentes, a palavra “valor” , como vários outros importantes termos incluídos no discurso social em moda, tem sido tão negligentemente considerada que se tornou quase inútil. O tipo de investigação do assunto aqui proposto implica uma oposição corajosa a uma cultura agressiva que não tem condições de lidar corretamente com questões de valores, podendo, conseqüentemente, reduzi-la a um assunto de caráter pessoal. Como poderia ser de outra forma, em um vazio moral e espiritual no qual propósito e identidade representam nada mais que um derivativo da própria atividade? Em contrapartida, em uma cultura ainda presa às suas raízes religiosas, surgem valores decorrentes dos ensinamentos espirituais que iluminam a vida individual e coletiva e definem o propósito do esforço construtivo.

Segundo, deveriam ser adotadas medidas para desenvolver na região a habilidade para compreender a ciência que há por trás da tecnologia propagada. Mais especificamente, pelo menos parte do texto científico responsável para cada passo dado no avanço do progresso tecnológico deveria ser introduzido no sistema de conhecimento da região. O grau de sofisticação com que isso é feito depende da natureza da tecnologia, da complexidade do texto científico em particular e das realizações antecedentes da população. Para alcançar esta meta, a universidade tem vários meios à sua disposição, desde publicações e filmes que popularizam temas científicos particulares, até currículos formais para todos os níveis educacionais têm também em sua estrutura de pesquisa, se não o máximo de substância, pelo menos o bastante dela para tirar a população da posição de mera receptora e usuária de tecnologia e colocá-la como sua efetiva proprietária.

Além da preocupação com a cultura, a dimensão tecnológica de criar capacidades em uma região tem implicações claras para os órgãos independentes encarregados do desenvolvimento, adoção e propagação da tecnologia. Essas agências precisam ser fortalecidas para estar em condições de assumir suas inúmeras responsabilidades, que incluem avaliar as exigências tecnológicas do processo de desenvolvimento; avaliar os recursos naturais da região como também os subprodutos de atividades em andamento e determinar como eles devem ser utilizados; planejar e monitorar a transferência de tecnologias específicas e avaliar seus efeitos; realizar pesquisas de alta qualidade e soluções tecnológicas para problemas concretos; além de suprir as necessidades de educação técnica. Todas estas tarefas devem ser executadas com conhecimento pormenorizado da ecologia da região e uma compreensão profunda da realidade social da população. Para assegurar que a aprendizagem realmente ocorra, a universidade precisa acompanhar as agências e instituições envolvidas nestes processos.

Da imensidão das tarefas acima descritas, fica claro que nenhum programa isolado de desenvolvimento focado em uma região específica pode dotar sua população com a capacidade de fazer escolhas tecnológicas sãs. A tecnologia é uma questão global e seu papel no avanço da civilização deve ser explorado e tornado claro dentro deste contexto. O discurso sobre ciência e tecnologia - do qual vários elementos foram aqui mencionados - tem de se estender além dos limites regionais. A universidade mencionada nestas páginas deve ser apenas um componente de uma rede maior de instituições de aprendizado que operam em cada sociedade, independente de seu grau de realizações materiais. O que realmente é preciso, é uma investigação aberta, mundial, de assuntos relacionados à escolha tecnológica, não uma investigação facilmente compartilhada por grupos privilegiados que buscam fixar a direção do progresso material e receber uma parte gigantesca do poder por ele gerado. Este esforço vigoroso deve ter enfoque científico no tratamento de problemas, mas também deveria poder utilizar livremente a herança religiosa da humanidade para esclarecer questões de valor e propósito. A atual revolução nas comunicações torna tal esforço global inteiramente praticável.
A própria revolução abre agora possibilidades para uma rápida mudança tecnológica em todo o mundo de uma forma inconcebível, quando, várias décadas antes, nasciam os primeiros esforços de desenvolvimento no mundo.

A Educação das Crianças e dos Jovens

Desde o início, aumentar a habilidade dos governos do mundo em prover educação aos seus cidadãos tem sido um componente essencial na estratégia de desenvolvimento. Inicialmente, a ênfase era dada, em grande parte, à infra-estrutura, mas, no decorrer dos anos, outros assuntos relacionados a currículo, administração, tecnologia educacional, capacitação de professores e até mesmo a relação entre a escola e a comunidade foram também sendo considerados. Deve-se reconhecer que um progresso enorme foi feito nessas áreas inter-relacionadas de esforço educacional, particularmente no contexto da universalização da educação primária. No entanto, há um sentimento difundido de que, apesar dessas marcantes realizações, a educação não está podendo cumprir com suas promessas e que, na verdade, os sistemas educacionais estão em crise em toda parte.

Uma análise mais completa dos males que afligem a educação moderna vai além do escopo deste trabalho. Mas um ponto precisa ser tratado brevemente para que a linha de argumentos aqui apresentada fique bem clara. À parte de um número relativamente pequeno de estudantes afortunados que freqüentam escolas de alto nível, a maioria das crianças e dos jovens recebe hoje em dia uma educação cada vez mais superficial, que sistematiza a fragmentação da mente dos estudantes, fazendo crescer, desta forma, a fragmentação de toda a sociedade. A solução para o problema não pode ser buscada simplesmente através de melhor administração dos parâmetros e relações que envolvem a escola, de uma melhoria do ensino - aprendendo a dinâmica dentro e fora da sala de aula, aplicando a mais recente tecnologia ou elaborando um fluxo de documentos que definem um jogo impressionante de objetivos para todo curso e toda área de estudo. Estas medidas são importantes em si mesmas e certamente criam a imagem de um movimento progressivo sempre envolvido com a reforma educacional em todos os países, um após o outro. As raízes da crise que aflige a educação, no entanto, encontram-se na forma como o conhecimento é entendido e tratado em muitos sistemas educacionais.

Na maioria das escolas, os currículos são organizados por assuntos. Embora enfoques mais avançados permitam atividades educacionais que buscam integrar dois ou três assuntos, a escolha do conteúdo de todo curso é feita dentro de uma estrutura que divide o conhecimento em componentes distintos e desconexos. A divisão em disciplinas é vista como virtualmente inerente ao conhecimento que está definido em termos de seus fragmentos - como a soma de todas as disciplinas em ciências naturais e sociais, artes e ciências humanas e campos profissionais como a engenharia e medicina. Ano após ano, os estudantes acumulam conhecimento em categorias separadas, sem se dar conta das relações essenciais que unem as partes, talvez sem ter ao menos idéia da interconexão subjacente à existência social, menos ainda do universo material.

O problema é exacerbado pela ênfase que é colocada na assimilação de fatos em vez de compreensão de conceitos profundos. O aprendizado superficial é categoricamente condenado, mas é apenas brandamente substituído pelo domínio de técnicas de manipulação da informação. Até mesmo a pedagogia atrativa de aprender fazendo é distorcida por uma atitude exagerada de atividade recreativa. Em nenhuma parte está isto mais aparente que nos enfoques denominados modernos para a educação da ciência onde, em nome da descoberta individual, a cogitação é apresentada como a essência da investigação científica, mas a avaliação da estrutura complexa da ciência como um corpo crescente de conhecimentos recebe pouca atenção. A moralidade, quando é considerada, é tratada como outro fragmento, outro assunto discreto. A noção de serviço à humanidade é apresentada de forma mínima e o estímulo ao desenvolvimento de uma consciência espiritual é praticamente ignorado. Uma dicotomia entre teoria e ação resulta em uma tendência para ensinar habilidades práticas e manuais a alguns e o ensino através de livros a outros, capacidade de participar em planejamento e tomada de decisão, a poucos, e de levar a cabo as ordens dadas, à maioria. Nessas circunstâncias infreqüentes quando aprender a pensar recebe determinada prioridade, assume-se essencialmente que o método analítico preenche as exigências. O resultado é uma população de indivíduos com algum treinamento prático, que crescentemente podem focalizar-se em partes mais minuciosas da realidade, mas incapazes de uma visão maior, particularmente num contexto histórico. Não é de surpreender que quando tais indivíduos alcançam posições de liderança, ficam propensos a fazer julgamentos sem se dar conta das implicações morais e éticas envolvidas. Eles são capazes de negar a si mesmos o mais nobre dos sentimentos humanos em nome de fins escusos ou por conveniência. Somente agora começam a ser reconhecidas a destruição provocada em nosso ambiente físico e social por tais mentes, aparentemente polidas e ostensivamente educadas, com alarmantes e estreitas margens de entendimento.

Hoje, a tarefa de ampliar o alcance da educação felizmente desfruta de apoio geral e entusiástico. Se a avaliação precedente do drama por que passa a educação é de todo plausível, há que se reconhecer que a reforma do sistema educacional tem de ter a prioridade mais alta nos planos de desenvolvimento de nossa região típica. Aqui novamente, em um enfoque que coloque a aprendizagem no âmago de todos os esforços para transformar a sociedade, a universidade tem de exercer um papel preponderante, desenvolvendo um processo educacional apropriado entre a população à qual serve. Por sua própria natureza, a universidade está preocupada com a educação a níveis mais altos. O que dela se requer, no contexto de tão específica dimensão do processo de capacitação, é um esforço combinado para desenvolver sistematicamente o conteúdo e os métodos de três programas de educação: a educação pré-escolar, a educação básica, para crianças de 6 a 14 anos de idade e a escola secundária, que se focaliza no desenvolvimento intelectual e moral de jovens de 15 a 18 anos de idade.

O maior desafio da universidade neste sentido é unir o conhecimento pertinente à criação de programas pedagogicamente fortes, que respondam às exigências de cada fase do desenvolvimento intelectual e emocional dos estudantes. Em uma era de progresso acelerado da ciência e da tecnologia, ninguém negará a necessidade da especialização e aprimoramento técnico em campos bem definidos do esforço humano. Mas antes que ocorra a capacitação especializada - seja em um comércio ou profissão, ou em pesquisa e desenvolvimento - a estrutura básica da mente do estudante precisa seguramente ser considerada. A maioria dos livros texto hoje existentes parece assumir que todo estudante está sendo preparado para especializar-se nos assuntos específicos que tais textos focalizam. O resultado é não ocorrer nenhum desenvolvimento intelectual sólido nem um conhecimento razoável de qualquer disciplina. Uma indicação da seriedade do problema é a preocupação geralmente expressa em todos lugares por universidades sobre a qualidade da educação recebida pela maioria dos seus calouros.

A situação exige uma nova e séria atenção no universo do conhecimento, em busca de um modo novo de reunir seus diversos elementos em currículos que respeitem a totalidade do conhecimento, prevendo especializações em uma fase posterior. O foco de cada conjunto de atividades educacionais relacionadas deveria ser o desenvolvimento de uma ou mais capacidades - científica, artística, técnica, social, moral e espiritual - dotando o indivíduo com a compreensão de conceitos, conhecimento de fatos e domínio de métodos, como também habilidades, atitudes e qualidades que ele ou ela precisam para levar uma vida produtiva. Especificamente, nesta época de transição, é imperativo dotar os jovens de um duplo propósito moral: encarregar-se de seu próprio crescimento intelectual e espiritual e fazer contribuições significativas para a transformação da sociedade.
A reivindicação aqui exposta, para a qual tenho ampla comprovação, é que um processo educacional organizado em torno do desenvolvimento de um conjunto de capacidades cuidadosamente selecionadas, pode dar muito mais conhecimento às crianças e jovens, do que programas que visem cobrir a gama natural de habilidades e matérias estudadas. O cultivo de tais capacidades exige demandas especiais de cada um dos três estágios do empreendimento pedagógico. A pré-escola precisa enfatizar o desenvolvimento do caráter. Deveria prestar atenção à estrutura emocional de cada criança e deveria ajudar na aquisição das qualidades espirituais que amoldarão as atitudes e perspectivas do/da futuro/futura jovem. Precisa ensinar alegria e liberdade, instilando-lhes autodisciplina e criando em suas mentes uma estrutura moral duradoura. Precisa fomentar hábitos de investigação e reflexão e encorajar a pronta manifestação de pensamento bem delineado e fala eloqüente. Tais objetivos estão em completa harmonia com o desenvolvimento dos vários tipos de destrezas e poderes de percepção que preocupam tantos programas pré-escolares, grandemente propagados internacionalmente.

Qualquer que seja a definição da educação básica, um nível apropriado de proficiência em tais áreas de conhecimento como matemática, ciências naturais, história, geografia, línguas e literatura, é claramente um elemento importante. Mas o enfoque aqui defendido permitiria aos sistemas educacionais ir bem além das metas bem modestas de hoje. Temos que perguntar que atributos uns 8 anos de educação deveriam ser cultivados em um adolescente de 14 ou 15 anos de idade, para lhe permitir uma transição clara da infância para a mocidade. Podemos prontamente identificar alguns que são especialmente úteis à natureza da educação prevista: a compreensão de que é principalmente o serviço à humanidade e a dedicação à unificação da humanidade que liberam poderes criativos ocultos na natureza da pessoa; a compreensão de que não somente o conhecimento de princípios, mas o exercício e aplicação da vontade são essenciais ao crescimento pessoal e à mudança da sociedade; uma convicção de que honra e felicidade não residem na busca de riqueza e poder, mas em respeito próprio e propósitos nobres, em integridade e qualidade moral; e uma disposição para analisar e um desejo para entender as características de formas diferentes de governo, leis e administração pública. A estes devem ser somados outros atributos que aumentam a efetividade social: uma compreensão adequada, pelo menos no contexto local, das preocupações com programas de progresso social em tais áreas como saúde e serviço sanitário, agricultura, artes e indústria; um pouco de desenvolvimento do poder de investigação intelectual como um instrumento de uma bem sucedida ação individual e coletiva; uma certa habilidade para analisar as condições sociais e descobrir as forças que as causaram; a habilidade correspondente para expressar idéias e contribuir para a consulta sobre os problemas da comunidade; a capacidade de participar em ações da comunidade como um integrante, humilde mas decidido, que ajuda a superar conflito e divisão e contribui ao estabelecimento de um espírito de unidade e colaboração; e um grau razoável de excelência em pelo menos uma habilidade produtiva através da qual se comprove a verdade de que trabalho é adoração quando executado em espírito de serviço.

Estes são, sem dúvida, os objetivos mais necessários para os 8 anos de educação básica. Mas um bom começo pode ser feito em cada uma dessas direções. A escola secundária, então, deve assumir a responsabilidade de assegurar que tais capacidades - relativa tanto à aquisição de conhecimento como às qualidades da mente e do espírito - se desenvolvam ao ponto em que todo homem e toda mulher possam continuar a cumprir com o papel devido a cada um deles como membros da raça humana. Porém, isto não implica que o programa da escola secundária deveria ser uma mera continuação da educação básica. Pelo contrário, a transição pede uma mudança qualitativa, particularmente em termos de rigor científico, uso de linguagem e conteúdo social, pois é nesta fase da educação que esperanças e ideais vagos, em relação ao futuro da pessoa e serviço à humanidade, têm de se cristalizar no duplo propósito moral acima mencionado. O estudante tem agora que se tornar um agente decidido de sua própria educação. Todo esforço precisa ser feito para elevar a consciência do estudante a um nível mais alto - uma consciência das ramificações das escolhas pessoais que são feitas, das forças sociais às quais a comunidade é sujeitada e da natureza dos processos históricos nos quais se está imerso.

Não há dúvida que o planejamento e implementação destes três programas representam um desafio assustador tanto para a universidade como para o sistema escolar em qualquer região. Só poderá ser resolvido se um empreendimento de desenvolvimento global estiver propenso a ajudar qualquer população e assegurar a disponibilidade tanto de imaginação criativa como de recursos humanos e financeiros. Para que isso aconteça é imperativo que aprendamos da experiência de quase cinco décadas de desenvolvimento. Novas gerações precisam ser empoderadas - ao invés de simplesmente ser instruídas - para que o desenvolvimento possa oferecer mais que soluções superficiais às crises sociais e econômicas que estão sempre ocorrendo.

Meios Materiais

Para ilustrar o desafio inerente ao processo de capacitação de uma população para fixar a direção de seu próprio desenvolvimento, apresentei uma breve análise de dois processos - um relacionado à escolha tecnológica e o outro, à educação. Um enfoque mais completo do assunto teria que falar também de outras capacidades como aquelas que tratam da informação de forma mais eficiente e precisa, em vez de responder inconscientemente à propaganda política e comercial; interagindo com outras culturas de uma forma que leve ao avanço da própria cultura da pessoa e não a sua degradação; manifestando retidão na administração pública e privada; e imbuindo a interação social de um senso agudo de justiça. Ao focalizar as dimensões tecnológicas e educacionais do processo de capacitação, como exemplos, não foi minha intenção depreciar a importância do desenvolvimento econômico. Como mencionado anteriormente neste trabalho, colocar a geração e a aplicação do conhecimento no âmago do processo de desenvolvimento não é negar a natureza indispensável dos meios materiais. O desenvolvimento, como previsto aqui, requer a multiplicação dos meios materiais à disposição das diversas populações do mundo em uma escala jamais alcançada pela raça humana.

O aumento da capacidade de uma região típica para alcançar a prosperidade material e espiritual de sua população envolve o fortalecimento de sua economia, um processo que inclui mas não é idêntico ao crescimento econômico. Tal esforço deve, certamente, acontecer no contexto de alguma forma de pensamento econômico. A busca de uma base teórica apropriada, porém, está longe de ser facilmente alcançada, em um tempo em que os conceitos fundamentais do “pensamento econômico” atual considerado como a incorporação da racionalidade já por muitas décadas - estão sendo vigorosamente questionados. A resultante perda de fé é exacerbada continuamente pela crescente crise ambiental e pela ascensão e queda de sistemas econômicos cujas performances recebem exagerados elogios, até que começam a se desintegrar e expor as reais condições sob as quais vivem suas vítimas.
As críticas às economias vigentes provêm tanto de dentro como de fora; exigem tanto uma revisão da metodologia como da estrutura conceitual de análise. De acordo com os críticos,os economistas, diferente dos cientistas em muitos outros campos, demonstram pouca vontade para examinar, de forma desapegada, a natureza de sua metodologia ou para entender suas origens. A apreciação da física clássica os inspirou a criar metáforas e métodos sem levar em conta a disparidade entre os objetos de estudo. A estrutura mecanicista de suas mentes impede que dediquem a atenção devida aos fatores cruciais como o conhecimento, propósitos e mudanças qualitativas. O conceito mais central às suas análises tem sido um “homem” imaginário, o juiz exclusivo de seus próprios caprichos e desejos, tomando decisões para otimizar sua utilidade. O mecanismo pelo qual estas escolhas “racionais” devem ser entendidas tem sido uma abstração do mercado, uma abstração bem além do que é permitido em uma prática científica razoável. E, de uma forma curiosa, tanto o mundo físico, a origem de todos os recursos materiais, como a cultura, o ambiente dentro do qual são amoldados os recursos humanos, são relegados a uma consideração secundária.

Não me sinto competente para analisar em profundidade os argumentos dos críticos e defensores da teoria econômica atual. Neste momento, porém, parece claro que os portões de uma fortaleza poderosa, até pouco tempo presumidamente inexpugnáveis, estão sendo assediados com sucesso. O que esta atividade intelectual em rápida expansão irá trazer e como afetará a estratégia do desenvolvimento, não são perguntas fáceis de responder. Mas as poucas indicações sobre a natureza do “novo pensamento econômico” são muito encorajadoras. Por exemplo, pode-se assumir seguramente que as novas economias não irão ignorar a questão dos valores ou permitir que sejam ocultas atrás do véu das conveniências externas. Apoiará o princípio da igualdade entre homens e mulheres, reconhecerá o papel e as necessidades da comunidade e deixará de promover o individualismo desenfreado. E, pode-se afirmar com certeza, prestará atenção considerável às questões relacionadas aos recursos naturais e ao meio ambiente.

Embora as novas direções que estão sendo consideradas sejam promissoras, um avanço marcante na teoria econômica não pode ser esperado em curto prazo. Em primeiro lugar - e isto é esperado de uma ciência que entrou num período de crise - o leque de opções é muito vasto, havendo uma tendência de buscar uma teoria que trate também de muitos aspectos da vida individual e da existência social. Sem dúvida alguma a humanidade precisa de uma renovação da filosofia moral. Mas, também é verdade, pelo menos do ponto de vista da estratégia de desenvolvimento e planejamento, que precisamos de uma ciência econômica que esteja diretamente preocupada com a geração, distribuição e utilização dos meios materiais. Tal ciência deve ser rigorosa sem ser reducionista. Precisará escolher métodos apropriados ao objeto de estudo e não seguir cegamente algumas impressões inadequadas da física. Deverá estar interessada em propósitos e deixar clara suas suposições e seus valores subjacentes. Acima de tudo, deve ser uma ciência capaz de modificar suas premissas progressivamente - especialmente as relacionadas com a conduta humana - à medida que desenvolve o processo de construção da civilização. Reconhecendo que as políticas que engendra têm a capacidade de mudar sistemas de valores, terá de levar em conta suas próprias interações com um objeto mutável de estudo e permitir um reexame constante dos fatos sobre os seres humanos e sobre as estruturas sociais, a partir das quais constrói seus modelos de conduta e de desenvolvimento econômico. Se for factível a existência de tal ciência é uma pergunta que espero seja considerada em futuros discursos sobre ciência, religião e desenvolvimento.

Não é propósito deste estudo fazer um comentário profundo sobre a teoria econômica. O que está sendo enfatizado é que uma estratégia de desenvolvimento, baseada em capacitação, precisa dar maior atenção às dimensões da capacidade regional que tem a ver com a criação e utilização de meios materiais - de níveis específicos de atividade econômica, como produção agrícola comercial e pequenas fazendas familiares, produção industrial em unidades de vários tamanhos inclusive micro-empreendimentos e uma ampla variedade de serviços, tanto privados como governamentais, até a formulação e implementação de políticas econômicas que permitam à região participar em uma economia global, não como uma vítima desamparada, mas como um contribuinte forte e independente. O trabalho exigido para alcançar tal fortalecimento da economia regional não é sempre complexo, quanto mais hoje quando a teoria econômica precisa passar por uma revisão completa e fundamental. Uma vez mais, a instituição cuja participação no processo é indispensável - se reconhecemos a premência do enfoque proposto neste estudo - é a universidade. Como foi bem enfatizado, a universidade é a única instituição que pode assumir as responsabilidades gêmeas de manter o progresso em andamento na busca mundial de novas teorias e de coordenar a aprendizagem nos vários espaços onde ocorre a atividade econômica na região.

Uma palavra de advertência, porém, faz-se necessária. Seria um engano dar a responsabilidade pelo desenvolvimento econômico a programas que unicamente se focalizem sobre os pobres. Indispensável à criação da prosperidade para a humanidade é a eliminação dos extremos de riqueza e pobreza. Os estrategistas de desenvolvimento, então, fariam bem em atender à declaração atribuída a ‘Abdu’l-Bahá, que onde quer que se encontre grande pobreza, deve-se olhar atentamente e ver-se-á haver também riqueza extrema. Isto é verdade para uma região, para um país inteiro e globalmente para a comunidade de povos e nações.

Comentários Adicionais

A capacitação das pessoas é um assunto muito vasto, que apenas mencionei de leve nestas páginas. Os comentários seguintes oferecem novas percepções sobre o assunto.

O Conceito de Universidade

Em minhas referências sobre universidade, utilizei minha própria experiência na FUNDAEC onde a estrutura conceitual e o modo de operação da universidade rural, mencionados na primeira parte deste documento, foram desenvolvidos. Ao longo desses anos de intensa pesquisa e ação, fui me questionando freqüentemente por que teimei em usar o título de “universidade” para o que parecia ser, embora inovadora, outra organização de desenvolvimento. Espero que as idéias apresentadas neste estudo justifiquem de alguma forma o uso do termo. Basicamente, o que está sendo dito é que, no âmago do desenvolvimento de qualquer povo, deve haver um processo de aprendizagem. É sempre altamente desejável que tal aprendizagem aconteça em círculos de tomada de decisão e influentes instituições acadêmicas internacionais. Mas isto, por si só, seria insuficiente. Em cada região, também, programas de desenvolvimento têm de operar de acordo com um modo de aprendizagem, no qual a população da região assuma um papel ativo no processo. Tal aprendizagem sistemática não pode acontecer em um vazio institucional. Há necessidade da existência de uma instituição que se encarregue de prover a aprendizagem coletiva e a universidade é a indicada junto a disciplina intelectual exigida pela função.

Infelizmente, na maioria das regiões em desenvolvimento, a universidade tornou-se irrelevante à vida das pessoas; é focalizada praticamente apenas no processo rotineiro de produzir diplomados para várias carreiras. O desejo de recriar a universidade, então, surge de duas considerações. Uma, a necessidade da coordenação da aprendizagem no contexto do desenvolvimento; a outra, a necessidade urgente de salvar esta instituição fundamental da sociedade de seu estado atual de estagnação.

Tecnologia Autônoma

Enquanto refletia no tema do presente projeto - ciência, religião e desenvolvimento - reli um livro que havia influenciado significativamente meu pensamento nesta área de estudo. O trabalho é a Tecnologia Autônoma: Técnicas-fora-de-controle como um Tema de Pensamento Político, por Langdon Winner (1978). Há mais de 20 anos, quando nossa pesquisa na área de tecnologia na FUNDAEC tinha avançado consideravelmente e estávamos ansiosos por compartilhar nossos resultados e discernimentos com outras instituições, a análise rigorosa e completa de Winner foi valiosa para mim.
Estava claro para mim, na ocasião, que apesar da grande popularidade do movimento da tecnologia-apropriada havia uma tendência geral para tratar da tecnologia apressadamente e não na profundidade necessária. Os argumentos de Winner me convenceram de que devíamos muito desta situação infeliz à idéia difundida de que a tecnologia era uma força autônoma que induz mudança na sociedade de uma forma além do controle dos seres humanos. Alguns comemoraram a operação desta força, mas outros lamentaram. Ambos os grupos, porém, eram vítimas da paralisia sutil da idéia que tal convicção produz em todos aqueles que a ela se submetem. Tal compreensão me fez ver a enormidade da tarefa que era persuadir os programas de desenvolvimento a se engajarem na construção da capacidade de fazer escolhas tecnológicas nas populações que serviam - uma noção que já estávamos utilizando na FUNDAEC - e abandonar o hábito de buscar soluções aos problemas causados por mudanças tecnológicas fortuitas em mais novos e melhores arranjos tecnológicos.
Ao expressar estas conclusões - tão verdadeiras hoje como eram quando foram escritas - Winner se apega à imagem do Frankenstein de Mary Shelley:

A melhor declaração singular de sua visão vem da página do título do livro, uma citação do Paraíso Perdido, de Milton:

Eu te pedi, ó Criador, da minha argila
Me modelar homem? Solicitei a ti,
Da escuridão promover-me?

Nestas palavras, encontra-se, a mim me parece, o ponto verdadeiramente em jogo no Frankenstein como um todo: a dificuldade em que se encontram as coisas que foram criadas sem terem recebido o cuidado necessário. O problema define bem a essência dos temas de minhas investigações.
Victor Frankenstein é uma pessoa que descobre, mas recusa ponderar as implicações de sua descoberta. É um homem que cria algo novo no mundo e então coloca toda a sua energia em um esforço para esquecer. A invenção dele é inacreditavelmente poderosa e representa um salto quantitativo na capacidade de desempenho de um certo tipo de tecnologia. No entanto, divulga isso para o mundo sem uma real preocupação de como melhor incluí-la na comunidade humana. Victor encarna um artefato com um tipo de vida só manifestado em seres humanos. Ele contempla, então, surpreso, quando volta a ele como uma força autônoma, com uma estrutura própria, com demandas aparentemente inaceitáveis. Sem nenhum plano para sua existência, a criação tecnológica impõe um plano sobre seu criador. Victor fica confuso, medroso, e totalmente incapaz de descobrir um meio de reparar os estragos causados por seu trabalho imperfeito e ainda feito pela metade. Ele nunca vai além de um sonho de progresso, a sede por poder, ou a conversa de convicção incontestável de que os produtos da ciência e da tecnologia são uma bênção valiosa para a humanidade. Embora esteja atento ao fato de haver algo extraordinário e grande no mundo, é uma enorme dificuldade convencê-lo que a responsabilidade é dele. Infelizmente, até que supere sua passividade, as conseqüências de suas ações continuarão irreversíveis, e ele continuará totalmente desamparado diante de uma realidade que jamais imaginou.
(Winner, 1978, pp. 312-313)

Tendo afirmado que o mundo inteiro enfrenta agora este mesmo problema, Winner continua:

Além destas convicções e atitudes dominantes, porém, existe algo até mesmo mais fundamental, pois existe um senso no qual toda atividade técnica contém uma tendência inerente para o esquecimento. Não é o caso de que toda invenção, seja técnica ou algum mecanismo e mesmo de organização, assim que confirmada é dada como suficiente? A pessoa não quer mais se aborrecer em construir, desenvolver ou aprender a mesma coisa novamente.
A pessoa não quer se aborrecer com sua estrutura ou com os princípios de seu funcionamento interno. O que se quer é a coisa técnica simplesmente pronta para ser utilizada. Os bens serão utilizados sem a necessidade de que se entenda como são fabricados ou como funciona sua rede de distribuição. A energia será utilizada sem a preocupação com as miríades de conexões que tornam sua geração e distribuição possíveis. A tecnologia, então, nos permite ignorar nossos próprios trabalhos. É a licença para esquecer. Em sua esfera são encaixadas as verdades dos processos mais importantes, ocultos e removidos de nossa preocupação. Isto mais do que qualquer outra coisa, estou convencido, é a verdadeira fonte da colossal passividade que se constata nas ações do ser humano com os meios técnicos.
(Winner, 1978, pp. 314-315, ênfase no original)


O Propósito da Educação

Alguns comentários feitos anteriormente podem parecer críticos demais aos sistemas educacionais existentes no mundo. Mas é difícil assumir uma posição imparcial neste assunto, sabendo quão sedentas por conhecimento encontram-se as crianças e a juventude em todas as sociedades e tendo comprovado o entusiasmo com que elas se engajam na atividade educacional quando o lado espiritual é tocado. Um programa altamente bem sucedido, desenvolvido pela FUNDAEC como parte de seus esforços para definir os parâmetros dentro dos quais uma universidade rural operaria, é conhecido como Sistema de Aprendizagem Tutorial. Ele cobre as fases finais do que neste documento chamei de educação básica, como também o programa da escola secundária em sua totalidade. Atinge atualmente uns 40.000 estudantes nas áreas rurais da Colômbia e está penetrando gradualmente em outros países Latino-Americanos. Todas as vezes que visitei algum grupo de jovens que participa no programa, observei suas atividades, ficando muito emocionado, com uma mistura de alegria e tristeza. O nível de desempenho intelectual dos participantes era surpreendente. Mas nunca pude sentir-me satisfeito com as realizações da FUNDAEC sabendo que eram apenas um pequeno passo rumo a um processo educacional comensurável com as potencialidades enormes ocultas em todo ser humano.
Uma característica do currículo desenvolvida pela FUNDAEC é o esforço que faz para elevar progressivamente o nível de consciência dos estudantes. Isto se aplica ao processo de educação como também a todo outro processo de transformação no qual eles estão empenhados. Por exemplo, em uma unidade cujo propósito principal é fortalecer capacidades na área de idioma, durante o último ano da escola secundária, são apresentados aos estudantes uma série de leituras, com os exercícios correspondentes que tornam bem claros os conceitos fundamentais que são intrínsecos à sua própria educação. Para ilustrar algumas idéias que mencionei brevemente, gostaria de fazer algumas citações dessas leituras.

[Da leitura 1]

Para que um processo educacional seja bem sucedido, deve estimular os estudantes a refletirem nas bases conceituais de sua própria educação. As unidades chamadas de “Conceitos Básicos” irão lhes prover a oportunidade para se ocuparem com tal reflexão. Como com outras unidades na área de idioma, o propósito delas é ajudar a desenvolver suas habilidades de expressão. Porém, o seu conteúdo explorará conceitos fundamentais que a gente encontra em vários cursos sem ter tido a chance de examiná-los a fundo.

Comecemos considerando o propósito de sua educação. Foi-lhe dito muitas vezes que sua educação tem um propósito. Qual é esse propósito e como se manifesta no programa educacional que você está seguindo agora já por vários anos?

Dizer que a sua educação tem um propósito não faz com que, por si só, tenha algum significado relevante. Todos os programas de sistemas educacionais têm metas louváveis. Tornar-se um cidadão útil, contribuir ao progresso do país, ser um participante produtivo da sociedade, alcançar felicidade, encontrar trabalho e melhorar o padrão de vida da pessoa - são expressões que existem em abundância em livros e documentos sobre a educação. Por que é, então, que hoje, apesar dessas metas explícitas, a maioria dos estudantes no mundo está confusa sobre o propósito de sua própria educação? Por que existem tão poucos que se mostram verdadeiramente motivados para aprender? O que os motivou a mostrar zelo e entusiasmo durante o curso de seus estudos? O entendimento que têm do propósito de sua educação tem algo a ver com seu alto nível de motivação?

Se fôssemos resumir tudo que o que tratamos sobre o tema educação ao longo dos anos, diríamos que o propósito de sua educação é o crescimento do aluno como indivíduo e o desenvolvimento de sua capacidade para contribuir à transformação da sociedade. Esta é uma simples declaração com numerosas ramificações. As leituras que se seguem trazem nova luz, cada uma a seu próprio modo, ao significado e implicações desta declaração.
(FUNDAEC, 1998, p. 1)

[De Leitura 3]

O estímulo ao entendimento é uma das metas mais fundamentais do processo educacional do qual você está participando. As duas próximas leituras foram tiradas de uma série de conferências sobre desenvolvimento de currículos feitas por um dos fundadores da FUNDAEC. Contêm muitas idéias -algumas mais ou menos evidentes - que serão úteis a você ao considerar por si mesmo a importância de sua educação, mesmo que a educação secundária que você recebeu não tenha sido através da FUNDAEC.

O verbo “entender” obviamente tem que ter um sujeito e um objeto. O assunto tratado pelo verbo é a mente e o coração, que têm de cumprir certas condições para chegar às praias da verdadeira compreensão. “Objetos do entendimento” são essas coisas que a mente e o coração entendem; são extremamente variados e se situam em muitas categorias aparentemente sem conexões entre si.
Um exame superficial de algumas declarações feitas em conversação informal aponta para algumas dessas categorias:

“Não entendo por que você age deste modo.”
“Não entendo por que existe tanto sofrimento no mundo.”
“Ele não entende nossa amizade.”
“Eu gostaria de poder entender química.”
“Você entende como este dispositivo funciona?”
“Entendo o que você está dizendo.”
“Não entendo aonde você quer chegar.”
“Você deveria se esforçar mais para entender os sentimentos dele.”
“Entendo completamente os pontos de vistas dele”.
“Precisamos alcançar maior compreensão da dinâmica de crise e vitória.”
“Precisamos entender a verdadeira natureza do homem.”

Destes poucos exemplos é fácil ver que os “objetos” do entendimento situam-se em categorias como: assunto, relações, sentimentos, visões, interações, a origem das coisas, a razão das coisas, o significado das coisas, o propósito das coisas, a forma de funcionar das coisas e a realidade ou essência das coisas. A isto você pode adicionar visões, contextos, enfoques, atitudes, resultados, convenções e indubitavelmente uma miríade de outras coisas - e você chegará a uma lista enorme de categorias de coisas a serem entendidas. O que é importante para você perceber é que no transcorrer de sua educação, cuidamos muito para tratar de um número suficiente de objetos (assuntos) de várias categorias, para despertar suas faculdades e equipá-lo com as ferramentas mentais necessárias para alcançar um entendimento realista sobre você mesmo e sobre o mundo que o cerca.
Duas destas ferramentas mentais, ambas extremamente poderosas no processo de investigação da realidade, são merecedoras de menção. Uma é a análise, quer dizer, dividir as coisas em partes menores e examinar as relações e interações entre elas. A outra é colocar as coisas em contextos maiores para alcançar discernimentos sobre as causas e razões de sua existência e comportamento….
(FUNDAEC 1998, pp. 15-16)

[Da Leitura 5]

O processo educacional do qual você está participando é caracterizado por sua ênfase na moral e em considerações éticas. A preocupação com moralidade, porém, não é expressa em forma de sermões sobre bom comportamento; conversações sobre assuntos éticos e morais são incorporados em um novo tópico do currículo. As próximas duas leituras consistem de alguns parágrafos de um documento que explora as bases necessárias para um modelo de educação moral apropriado para este período da história humana, um período ao qual o documento se refere como a idade de transição da infância da humanidade para a sua maturidade. Foram feitas leves modificações para tornar as leituras adequadas a esta unidade.

Para agir efetivamente durante o período atual de transição na sociedade humana, devem os indivíduos, acima de tudo, estar imbuídos de um forte senso de propósito que os leve a transformar seus próprios egos e contribuir à transformação da sociedade. Em um nível pessoal, este propósito é dirigido para o desenvolvimento das enormes potencialidades da pessoa, incluindo tanto essas virtudes e qualidades, que devem adornar todo ser humano, como os talentos e características que são dons singulares das pessoas. Em um nível social, é expresso por dedicação à promoção do bem-estar da raça humana. Estes aspectos da consciência do duplo propósito são fundamentalmente inseparáveis, pois são os padrões de comportamento dos indivíduos que formam o ambiente onde vivem, o qual, em contrapartida, é moldado por estruturas e processos sociais. A menos que a transformação do caráter individual e do ambiente seja considerada simultaneamente, o pleno potencial da idade de maturidade da humanidade não poderá ser alcançado.

Uma consciência profunda da relação recíproca entre crescimento pessoal e mudança orgânica nas estruturas sociais é, então, essencial à educação moral. A pessoa não pode desenvolver virtudes e talentos em isolamento, mas só por esforço e com ações em benefício dos outros. Adoração passiva e isolada e um afastamento prolongado da convivência social, defendidos por algumas filosofias do passado, não podem nem promover desenvolvimento individual, nem ajudar no progresso da humanidade. Focalizar o senso de propósito somente no desenvolvimento do próprio potencial da pessoa é perder objetividade e perspectiva. Sem interações externas e metas sociais, a pessoa não tem nenhum padrão pelo qual julgar seu progresso pessoal e nenhum resultado concreto pelo qual medir seu desenvolvimento. Uma pessoa que desconsidera a dimensão social do propósito moral é propensa a formas sutis de egocentrismo - combinações de culpa, farisaísmo e presunção.
Reciprocamente, um senso de propósito impulsionado somente pelo desejo de transformar a sociedade, sem dar atenção às necessidades de crescimento e transformação pessoais, é facilmente desviado de sua finalidade. A pessoa que culpa a sociedade por toda injustiça e ignora a importância da responsabilidade individual perde o senso de respeito e compaixão pelos outros e torna-se propenso a cometer atos de crueldade e opressão. A transformação social, se divorciada do desejo de transformar o próprio caráter da pessoa, é um empreendimento extremamente frágil.
(FUNDAEC, 1998, p.35)

[De Leitura 7]

Pelo termo “capacidade” queremos dizer capacidade desenvolvida para pensar e agir numa esfera bem definida de atividade e de acordo com um propósito bem definido também. Usamos a palavra para nos referirmos não a habilidades individuais, mas a esferas complexas de pensamento e ação, cada uma delas exigindo um parceiro com habilidades e destrezas correlatas. Além disso, damos grande importância à noção de que a aquisição gradual de uma determinada capacidade, além do domínio de habilidades, depende da assimilação de informações pertinentes, da compreensão de um conjunto de conceitos, do desenvolvimento de certas atitudes e do progresso em várias qualidades espirituais.
Por exemplo, classificação é uma capacidade, neste caso matemática, que um indivíduo pode adquirir em diferentes níveis de competência. No nível mais elementar, digamos, no início da escola secundária, envolve a aquisição de uma compreensão de conceitos de grupo, de componente de um grupo e de pertencer a um grupo. Também requer uma compreensão do conceito que as coisas podem ser divididas em grupos, de acordo com propriedades comuns. Mas, até mesmo a este nível, tal compreensão não é suficiente. A habilidade de reconhecer as propriedades de acordo com as quais os elementos em questão serão classificados, como também um pouco de informação pertinente sobre esses elementos, é necessária também. Por exemplo, se alguém for classificar objetos de acordo com o tamanho, é fundamental que tenha a habilidade de calcular ou medir o tamanho dos objetos. Atitudes, cuidado e gosto pela ordem, são aspectos altamente desejáveis. A um nível mais fundamental, a veracidade é uma qualidade espiritual que ajuda na geração de recompensas pelas atitudes positivas de precisão e atenção.

Para citar outro exemplo, as mecânicas que ensinam a ler e escrever são habilidades, mas ler com um certo nível de compreensão é uma capacidade bastante complexa. Outra capacidade relacionada a idioma é descrever o que observamos no mundo à nossa volta em contextos maiores. Descrever o mundo quantitativamente é uma capacidade matemática. Exemplos de capacidades científicas altamente desejáveis são aquelas que produzem observações organizadas de fenômenos e experiências definidas para testar uma hipótese. Participando efetivamente em uma consulta é uma capacidade necessária na vida social, como é a capacidade de participar em empreendimentos coletivos. Administrar os assuntos e as responsabilidades da pessoa, com retidão de conduta, é uma capacidade moral. Outra capacidade moral essencial é a de criar ambientes de unidade, com base em um reconhecimento da diversidade.

(FUNDAEC, 1998, pp. 60-61)

[Da Leitura 8]

O enfoque que adotamos para a formação de um currículo, organizado em torno de capacidades em vez de em assuntos, ajudou nossos estudantes a aprenderem com rapidez extraordinária. Que todas as capacidades que tentávamos desenvolver tinham o mesmo propósito explícito de integração social, foi uma realidade que nos permitiu enfrentar e resolver um dos desafios básicos de integração curricular: como superar a dicotomia entre conhecimento teórico e prático. A maioria dos sistemas educacionais atuais tende a ensinar habilidades práticas e manuais a alguns e o aprendizado através de livros a outros. Em alguns, é desenvolvida a capacidade de participar no planejamento e na tomada de decisão, enquanto que a maioria é treinada apenas para obedecer e fazer. O que tentamos alcançar é manter o interesse dos estudantes simultaneamente em atividades concretas e abstratas. Por exemplo, foram reunidas as habilidades de criação de animais com o estudo da fisiologia animal e definidos os passos para estabelecer uma loja rural com a análise de abstratas teorias sociais e econômicas. No grau em que formos bem sucedidos na integração do conhecimento teórico com a aplicação prática, vimos preconceitos e falsas escalas de prestígio gradualmente desaparecer e ser substituídos por uma atitude propositada de aprender e mudar.

Mas o desafio mais difícil de nossa inovação educacional provou não ser a fusão de elementos de conhecimento do universo físico e da sociedade. Uma tarefa bem maior era a integração dos conceitos materiais e espirituais em um sistema de conhecimento que permitisse aos indivíduos e populações inteiras contribuir à criação de uma civilização mundial para a qual, é nossa convicção, a humanidade está se movendo inexoravelmente. Para enfrentar este desafio, não desenvolvemos cursos específicos sobre religião; nem nos engajamos em estudos humanísticos de ética e comportamento social. A espiritualidade foi tratada como um estado, uma condição interna que deveria se manifestar em ação nas opções do dia-a-dia, num entendimento profundo da natureza humana e em contribuições significativas para a vida da comunidade e da sociedade em geral. Seguindo esta interpretação, tentamos integrar espiritualidade em toda atividade educacional: todo ato tinha de ser um meio para a clarificação e aplicação de princípios espirituais.

Procedendo desta forma, achamos que vários assuntos precisavam ser considerados. A espiritualidade tinha de ser incluída nos currículos sem negar o bem-estar material ou relegar a prosperidade para outra vida. O que tinha de ser feito era elevar o grau das atividades cotidianas a um estado mais sublime, imbuindo-as com o espírito de serviço. Porém, identificar a espiritualidade exclusivamente com serviço cria o risco de se entender que a espiritualidade surge de ações que levam ao bem-estar. Para contrabalançar este efeito, as manifestações dos anseios mais profundos da alma humana, como a busca pela proximidade de Deus através da oração e da meditação, devem também ser consideradas devidamente. “Ser” e “fazer” estão intimamente ligados e não deveriam ser separados artificialmente.
Além disso, esta integração do espiritual com o material exige um entendimento crescente do equilíbrio delicado que deve existir entre as muitas forças em operação na mente e no coração do ser humano: equilíbrio entre liberdade pessoal e obrigação social, entre ser o senhor da natureza e viver em harmonia com ela, entre humanismo e ciência, entre o racional e o emocional. Para alcançar tal equilíbrio a pessoa precisa ir além dos atributos da mente e chegar àquelas qualidades da alma que são a base do caráter humano. Um requisito essencial para alcançar um equilíbrio entre as forças em operação na mente e no coração seria, então, o desenvolvimento de qualidades espirituais, como justiça, amor, generosidade, compaixão, humildade e veracidade. Além disso, se estas qualidades devem dar origem a atitudes e comportamentos que sejam um reflexo autêntico da espiritualidade, devem ser desenvolvidas de tal modo que moderam um ao outro. Caso contrário, tudo aquilo que for alcançado em nome da espiritualidade é farisaísmo e fanatismo. Ainda mais, é somente através do entendimento da interação das qualidades espirituais que aprendemos a distinguir moderação de mediocridade - justiça moderada por compaixão, não meia-justiça; generosidade pródiga com humildade, não doação precavida; veracidade absoluta agindo através do amor, não a mistura de verdade com mentiras.
(FUNDAEC, 1998, pp. 71-72)


1. Informações adicionais sobre os princípios e atividades da FUNDAEC podem ser obtidas em seu site: www.bcca.org/services/lists/noble-criaton/fundaec1.html.

Referências

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2 Responses to “Parte II - Promovendo um Discurso Sobre Ciência, Religião e Desenvolvimento”

  1. Catia Says:

    Metologia texto tirado do site: http://www.cienciaereligiao.org.br em 22/04/2009

  2. Sumo Mangostão XanGo Says:

    A XanGo reconhecida pela Sociedade Americana de Cancro

    http://sumodemangostao.com/a-xango-reconhecida-pela-sociedade-americana-de-cancro/

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