Affonso Camargo

A grande descoberta do século XXI será a percepção de que a questão religiosa é uma questão energética, que todos somos de uma ou de outra forma iluminados e chegaremos cedo ou tarde, à “hiperconsciência”. Através desse postulado podemos ter a expectativa de que a ciência e religião irão convergir. O enfoque precisa ser redirecionado: a ciência e a religião não são dois pilares paralelos, mas dois pilares convergentes que apontam em direção à frutificação dos maiores ideais humanos. Alimentar a estéril discussão de que são temas antípodas, antagônicos é negar uma visão totalizadora da natureza do ser humano.

Se considerarmos a sabedoria contida na máxima bahá’í de que “a verdade é um ponto, os ignorantes o multiplicaram”, concluiremos que esteja onde estiver, a verdade é uma só, podendo ser vista tanto pela luneta que a ciência nos oferece através de uma infinidade de instrumentais quanto pela rica percepção espiritual entesourada nos livros sagrados das grandes religiões a que temos acesso. É uma armadilha perversa continuar cultivando uma percepção excludente da Verdade e as suas conseqüências serão sempre danosas uma vez que todos os movimentos da História apontam para uma unidade ampliada, maior, abarcadora da realidade.

Um desafio a que não podemos nos furtar a enfrentar é exatamente a percepção de como e em que escala de tempo poderemos apreciar essas forças convergentes. Se ocorrerá a médio prazo, dentro de alguns anos ou algumas décadas ou dentro de um prazo mais longo, que envolve séculos ou milênios, dependerá em grande parte de como os principais artífices dessas duas grandes forças, os representantes da Ciência - aqui incluídos desde os cientistas até os filósofos - e os líderes espirituais ou representantes das grandes vertentes religiosas - aqui incluídos os Fundadores das Religiões e os representantes máximos de suas estruturas administrativas, avaliam esta questão.

Os caminhos da ciência e religião são a busca de nossas origens. Se o desenvolvimento é para todos, este deve ocorrer na ótica da justiça, onde a cada um é dado o que lhe é devido: bem-estar, paz, necessidades mínimas satisfeitas. Somente com a ciência não se alcança isso, pois só a religião traz a percepção dos valores. Não é demais observar que em qualquer campo da atuação humana, encontraremos uma gênese espiritual, um ponto focal que ordena os afazeres humanos. Um exemplo pertinente é o de que muito antes do advento dos códigos de leis - que podem ser tão remotos quanto o Código de Hamurabi e tão atuais quanto a Declaração Universal dos Direitos Humanos - existiam os princípios de justiça trazidos à emergência da consciência humana por Moisés, fundador da religião judaica e bem representada pela Tábua das Leis ou, como mais comumente o conhecemos, os Dez Mandamentos. Nesta mesma reflexão podemos inferir que muitos artigos inseridos na Declaração Universal dos Direitos Humanos são na realidade um conjunto, bem ordenado e em uma linguagem atualizada, dos principais ensinamentos contidos nos livros sagrados como o Bhagavad-Gita, o Alcorão. Ainda no século XIX, Bahá’u'lláh mesmo já sinalizava para a necessidade de um novo ordenamento mundial ao declarar ser a Terra um único país e os seres humanos, seus cidadãos. Hoje, nesta alvorada do século XXI, nos defrontamos pelos telejornais, pela internet e pelos demais meios de comunicação de massa com o advento e os desdobramentos inerentes a um Tribunal Penal Internacional e a uma Organização Mundial do Comércio, ao mesmo tempo em que vemos o lento, porém, irreversível surgimento de blocos econômicos em nível continental, como o são os processos conhecidos como “Europa Unida”, “Nafta”, “Alca”, “Mercosul”, isto apenas para brevemente ilustrar este ponto.

A questão econômica necessita ter um foco. Afinal, a má distribuição de renda não é um flagelo que enferma uma ou outra nação, mas antes, é algo que bem pode ser visualizado como um horror econômico, afinal mais da metade da humanidade se encontra abaixo da linha da pobreza enquanto menos que uma dúzia de nações usufruem de todo o conhecimento e bens materiais oriundos de uma contumaz perpetuação da ausência de uma justiça econômica planetária.
Na percepção política da democracia cristã, o verdadeiro desenvolvimento ocorre com a economia das necessidades. Sendo o Brasil um país de cultura paternalista, há uma dificuldade em se exercitar a plena cidadania, havendo sempre uma busca eterna do “salvador da pátria”. Nesta percepção, o político não é o servidor do povo, mas sim o protetor do povo. É um modelo que tem sido danoso, uma vez que o líder tem sido visto como aquele a quem as populações devem servir, obedecer, hipotecar apoio quando não solidariedade.

O desafio pode ser então identificado como aquele que resulte na incorporação de uma perspectiva espiritual à intervenção política que transforme essa visão paternalista e conceda um sentido mais amplo de justiça. Uma análise desapaixonada nos levará a perceber que isso somente ocorrerá através da formação, num processo de multiplicação de pessoas que pensem e ajam no sentido da incorporação do espiritual na vivência diária.

Numa analogia “fermento, massa, pão”, podemos perceber a importância do seguinte diagrama:

gráfico fermento, massa, pão

A era da modernidade tem extensas ligações com o advento, a consolidação e o uso dos meios de comunicação em massa. O papel dos mídias merece uma maior centralidade quando o tema em discussão é um discurso sobre ciência, religião e desenvolvimento. Afinal, se por um lado temos uma avalanche de informações, algo absolutamente inédito na história da humanidade, temos também um ser humano fragilizado, com baixa formação cultural e pouco apto a saber extrair benefício de tamanha carga de informação. Esta situação torna-se paralizante quando vemos que o ser humano luta também contra uma escassez de tempo físico suficiente para digerir uma informação, para refletir sobre a mesma e para tomar uma decisão quanto ao caráter ético, moral ou espiritual que tal informação encerra.

Feita esta consideração, há que se diferenciar o ato de informar do ato de formar uma opinião. Surge então com crescente importância a existência dos chamados formadores de opinião que, em tese, seriam aqueles que apreendem a informação, a contextualiza e então, incorporando suas opiniões sobre o tema, volta a apresentá-la através dos meios de comunicação como algo depurado, avaliado, ou melhor, digerível. Um outro exemplo seria a proliferação dos ditos comentaristas políticos, comentaristas econômicos, dos porta-vozes do Capital e também do Trabalho. Para estes, existe um público receptivo, nem sempre com uma boa dose de auto-confiança e de auto-estima, sequioso para abraçar esta ou aquela interpretação de um fato, de uma notícia.

Uma constatação que podemos fazer é o de que a grande maioria da sociedade não percebe nosso discurso de ciência e religião trabalhando juntos na direção do desenvolvimento. Mas há na sociedade um anseio por mudanças. Afinal, como foi afirmado “a única coisa que não muda é a própria mudança”. Se conseguirmos mostrar que há benefício da interação entre ciência e religião, que esse discurso traz em seu âmago percepções do que pode ser usufruído como fruto da interação entre ciência e religião, de fato entraremos num processo de mudanças. Pois, as mudanças mais aguardadas e que podem ter efeitos duradouros são aquelas que nos fazem alterar padrões de comportamentos, que nos fazem tomar esta ou aquela atitude ante uma situação de nosso cotidiano. Devemos encontrar exemplos claros de como a interação de ciência e religião resulta em transformações na nossa vida diária. Um exemplo seria o uso da meditação para resolver problemas no escritório, na fábrica, na empresa etc. É a interação do espiritual com o material. Não há apenas que se possuir um automóvel, há que saber como guiá-lo.

Para que tudo isso ocorra necessitamos de uma revolução cultural e não somente educacional. Voltando à percepção de que o Brasil é um país de cultura paternalista, como romper tal cultura sem ignorá-la? A sociedade quer distribuição de renda, emprego, assistência médica, educação e temos que encontrar o caminho para mostrar que ciência e religião associados para o benefício do desenvolvimento podem gerar isto. Sem um firme reconhecimento de que todo ser humano tem um projeto de felicidade a realizar, sem a compreensão de que temos um destino comum a compartilhar, é extremamente difícil agregar valores como o da solidariedade, a compaixão, as atitudes inegoístas nas relações humanas.

Um outro exemplo de ação transformadora seria incluir nos centros de ensino tecnológico o ensino da espiritualidade. A conquista da percepção da transcendência humana é uma base suficientemente vigorosa de onde se poderá construir um novo ordenamento da sociedade humana. Amar a paz pressupõe o reconhecimento das potencialidades que a paz entesoura, o estado de espírito que a paz enseja. Uma estratégia factível para realizar tal “convencimento” junto à sociedade seria a de se explicitar a nossa verdade: a proposta de que a satisfação pessoal, de realização interior é o que poderá fazer um ser humano feliz. A felicidade, então, é uma das maneiras como poderemos chamar aquele estágio em que uma pessoa realiza, de forma plena, o seu potencial.

7 Responses to “Affonso Camargo”

  1. Dulce Magalhães Says:

    Gostei demais da idéia da convergência e da não separatividade dos temas. Não dá para deixar de tratar de espiritualidade na academia e não da para deixar a ciência fora do templo.
    Parabéns pela clareza e leveza do texto.

  2. Dulce Magalhães Says:

    Prezado Deputado Affonso Camargo,
    Estou me organizando para participar do evento sobre o tema no dia 10 de junho de 2008 em Brasília.
    Será uma oportunidade aprofundar a questão no debate com os escritores.

  3. Gisele Says:

    Estou impressionadíssima com o texto, a sugestão e tal clareza!
    Vou buscar mais textos e divulgar este.
    Namastê.

  4. Ingrid Cañete Says:

    prezado Afonso Camargo,
    escrevo por indicação de Dulce Magalhães. aproveito para dizer que gostei muito deste artigo e que a título de contribuição, creio que sem dúvida temos que ajudar a resgatar o UNO em nossa sociedade, refazer a ponte entre ciência e espiritualidade. os caminhos me parecem que já estão sendo construídos e só temos é que refinar nossa percepção e caminhar por eles junto com as gerações mais jovens e com as crianças. eles nos trazem alto nível e qualidade de energia e a visão necessária bem como as atitudes mais fundamentais que são: ausência de medo, portanto coragem; visão holística 9com hemisférios diretio e esquerdo integrados); objetividade no sentido de que eles encurtam a distância entre pensar e agir, são velozes. acredito que para mudar essa cultura paternalista de homens machucados em sua masculinidade e adormecidos quanto a consciência temos que partir para ações via bairros, nas cidades, articulando os cidadãos via lideranças nos bairros e condomínios e assim formando uma rede que se amplia e se une em torno de ações obejtivas como cuidar dos canteiros e jardins, parques da sua rua e cidade; cuidar da reciclagem do lixo, cuidar das crianças da sua rua e do seu bairro, pois é uma forma de ir educando e fortalecendo os laços ao mesmo tempo em que se amplia a consciência e fortalece a motivação através do exemplo vivo destas ações e de seus resultados… bem parabéns pelo artigo muito claro e bem escrito sobre um tema tão urgente! desejo conversar consigo pois estou na busca de seguir realizando minha missão e desejo atuar/trabalhar mais e mais em rede com pessoas e instituições visando a educação dentro de novos paradigmas mais adequados as novas gerações bem como voltada para o terceiro setor. sou psicóloga, professora, consultora de empresas, palestrante e escritora. os livros mais recentes que escrevi são: Crianças Índigo, a evolução do ser humano (Reedição está saindo em setembro mas pode ser encontrado na livrariacultura) e Adultos Índigo (no prelo, eve sair este ano ainda).caso queira conversar sobre este tema estou a disposição, pois Dulce me disse que tens interesse. e posso também enviar meu currículo se quiser conhecer melhor meu trabalho.

    Grata pela atenção!

    Um abraço,

    Ingrid Cañete

  5. Edvaldo Bezerra de Melo Says:

    Frase do Deputado Affonso Camargo:

    “Um outro exemplo de ação transformadora seria incluir nos centros de ensino tecnológico o ensino da espiritualidade”.

    Como referencial humano de Sadabi, e por inspira do mesmo, digo:

    Excelentíssimo Deputado Affonso Camargo, esta frase é o incógnita que reflete a grande verdade, mas, com um sentido mais que perfeito da espiritualidade, e não com este conceito ensinado pelos religiosos aos humanos terráqueos que transformou a humanidade neste vale de lagrima, pois, ate hoje as conseqüências são terríveis por não terem tomado conhecimento da verdade da pureza Divina. Concordo com vossa excelência de que a espiritualidade deveria ter sido incluída nos ensinos tecnológicos das universidades, mas, com o conceito da Ciência Metafísica e da Teologia Divina transmitida e oficializada por DEUS através de Sadabi no fim do século passado e que deverá ser aplicada como a Metodologia do ETERNO para contribuir na evolução do ser humano neste milênio……Do relator Edvaldo.

  6. Deputado Affonso Camargo Says:

    Caro Edvaldo,

    Desde o momento em que participei da co-autoria do livro “Ciência, Religião e Desenvolvimento”, minha convicção sobre a importância da espiritualidade só aumentou.

    Hoje, respeito todas as religiões que procuram ensinar o caminho para encontrar Deus, mais estou convencido de que esse caminhar é individual, conduzido pela luz divina, que nasce da intuição e da meditação.

    Em outras palavras, ciência, religião e desenvolvimento, de nada valerão se não forem reais instrumentos para o crescimento da energia espiritual de cada ser humano.

    Finalmente, o poder das pessoas vale absolutamente nada perante o poder de Deus

  7. Edvaldo Bezerra de Melo Says:

    Como referencial humano de Sadabi, e por inspira do mesmo, digo:

    Nobre Deputado,

    Não tenho duvida do que busco, pois, tenho convicção da minha ligação com o DEUS ETERNO…… Neste trabalho unificado, a importância da minha espiritualidade só aumenta a minha evolução na metamorfose do rejuvenescimento em busca da imortalidade……

    As instituições religiosas são preceitos dos homens, respeito-as, mas, não aceito como referencial da evolução, realmente o caminho é individual, mas, precisamos criar uma base humana para exercer o conceito de povo de DEUS……Chegando ao consenso, aí sim, seremos conduzidos pela Luz azulada do ETERNO, e virá para esta base humana a inspiração determinativa da vontade do DEUS ETERNO, para criação do SEU Reino…….

    O conceito de ciência, religião e desenvolvimento, na realidade, só poderá ter o seu valor reconhecido se estiverem ligado ao DEUS ETERNO, aí, sim, a evolução dos que estiverem praticando estes conceitos se tornaram parte integral da evolução do universo…..

    Na realidade, sem o DEUS VERDADEIRO, nada seremos…….

    Do relator Edvaldo.

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