Carlos Alberto Emediato
Conhecimento e Prosperidade
Ciência e Multidimensionalidade
Conhecer é talvez a experiência mais instigadora e fascinante do ser humano. É através do conhecimento que o ser no mundo expande seus limites e abre espaços inusitados. Seu caráter de desafio e aventura soma-se à necessidade de cada ser humano, e da humanidade como um todo, de equacionar questões vitais que só se resolvem com o avançar do conhecimento. Seja diante de doenças, da produção, do desvendar a natureza e o cosmos, ou seja, avançando através da expansão da nossa imaginação, intuição e capacidade de sentir e ordenar nossas sensações.
À medida que podemos não somente ter ciência, mas viver com ciência, incorporada nas nossas relações com o espectro externo-interno de nossa experiência, podemos ordenar de forma mais efetiva e satisfatória nossa vivência cotidiana. Ao penetrarmos as teias mais complexas e sutis da materialidade, ao desvendarmos as tramas que dão suporte à vida, e abrirmos para entender as formas culturais que ordenam a diversidade das relações no mundo avançamos nossa capacidade de organizar tanto a vida pessoal como social. Podemos, assim, criar visões e valores que dão conta de uma dinâmica surpreendente de descobertas e de inovações potencialmente úteis para todos que compartilharem os frutos do conhecimento gerado.
Todo conhecimento é auto-conhecimento. Ao conhecer estamos mergulhando no entendimento de nossas relações constituintes. Mesmo nas ciências físicas a superação da divisão sujeito-objeto vem indicar a insuficiência de modelos explicativos ou descritivos que desconsiderem a ação do conhecedor como elemento constitutivo do conhecimento. Não somente nossa posição no tempo e no espaço, mas nossas percepções, sentimentos e aparato sensório são componentes do processo. Isto não invalida, pelo contrário complementa a utilidade de conhecimentos que têm feito avançar, de forma acelerada, a capacidade criativa , de entendimento e de invenção da humanidade.
Todo conhecimento se refere a causas e condições de diversas naturezas que influem no resultado, que é por sua vez parte de um processo onde descobertas são recriadas ou enfraquecidas à luz de outras condições e de outros insights. Ao conhecer vamos não somente ampliando nossa intimidade com o mundo mas desvelando como nos constituímos e aprendemos no bojo destas relações.
O compromisso da ciência em ler a natureza com os olhos da razão, de uma forma sistemática, encontrou outras formas de conhecimento prévios com as quais dialogava ou confrontava. As explicações míticas que atribuem significado a fenômenos da natureza, a formas, e a acontecimentos fundantes como nas estórias de semideuses, heróis e monstros. As explicações anímicas onde o universo é todo povoado de espírito, portanto atuante, carregado de forças não somente as que a matéria condensa. Uma ciência objetivista e materialista, como foi se tornando a ciência moderna de até poucas décadas, tinha com certeza dificuldade de dialogar com estas narrativas, explicações e visões de mundo.
Ao confronto da teologia, especialmente fundada na palavra revelada e seus intérpretes, com as formas míticas de explicação do mundo, sucedem-se as disputas entre teologia e filosofia e subseqüentemente da ciência com as formas anteriores de conhecimento. Se as explicações míticas, animistas e teológicas apontavam para a natureza espiritual ou transcendente da humanidade e do universo, justamente aí se acirravam as disputas em busca de uma hegemonia e reconhecimento da validade de um corpo de conhecimento em detrimento do outro. Filosofia e teologia começam a se defrontar também por partirem de supostos e procedimentos distintos, onde a teologia busca fazer sentido de crenças e revelações enquanto a filosofia trabalha a partir do pensamento humano.
O novo estágio de conhecimento inaugurado pela ciência agregava a necessidade de verificabilidade e comprovação que ia além do observar e pensar da filosofia. A proximidade destes dois projetos de conhecimento que supõem uma racionalidade, mesmo na explicação de fenômenos naturais e de natureza não-racional, leva-os a disputas históricas a respeito do conhecimento válido. Em cada projeto de conhecimento constroem-se, sustentados pelos resultados que produzem, visões de mundo e sistemas de valores que configuram grupos sociais, nações e épocas civilizatórias.
Uma arqueologia do conhecimento poderia indicar que cada tipo de conhecimento como os acima mencionados, e que predominam em certas épocas e culturas, correspondem a camadas distintas da experiência humana, e muitas vezes a linguagens e métodos de conhecer próprios. Há com certeza na experiência de cada ser humano uma convivência com a dimensão mágica, com a relação com um deus ou deuses, com os processos intuitivos, racionais e reflexivos que ordenam o pensamento sobre o mundo exterior ou interior, e com as tentativas de conhecer as leis e procedimentos que regem o mundo exterior ou interior e habilitam seus detentores de certa previsibilidade e controle sobre o mundo e os comportamentos.
Uma característica comum entre estes sistemas de conhecimento é que mesmo referindo-se a experiências humanas que tem sentido em si mesmas, visões e valores que conformam ordenações distintas do mundo e dos comportamentos, cada um exclui os demais como caminhos de conhecimento e de certa forma desqualificam a realidade das dimensões a que se referem. Encurtam-se os campos da experiência humana ou as possibilidades de leitura e entendimento à medida que as questões precisam ser respondidas dentro do marco de seus sistemas de conhecimento.
À medida que um corpo de conhecimento se institucionaliza ele começa a conviver com a necessidade de validação das formas e procedimentos que ele mesmo criou. Busca manter a estrutura de autoridade que corresponde àqueles que zelam pelo conhecimento, o produzem, ou incorporam os poderes que o sistema específico confere àqueles que performam os ritos da instituição criada. A relação direta entre conhecimento e poder, ou entre posições de autoridade a que se atribui conhecimento ou exclusividades rituais e poder é presente em todas as instituições, sejam xamânicas, religiosas, filosóficas ou científicas.
Como o conhecimento permeia todas as demais formas de instituições mesmo laicas e não acadêmicas, esta relação de conhecimento e poder está sempre presente nas estruturas sociais de autoridade reconhecidas como legítimas ou não. Argüi-se em nome do conhecimento quando muitas vezes o que se faz é repetir e preservar cristalizações perceptivas e valorativas em nome das instituições que as criaram, na tentativa de mantê-las e suas correspondentes posições de poder, sejam nas igrejas, famílias, locais de trabalho ou de lazer.
É interessante notar que determinadas tradições de sabedoria confluem com a ciência ao enfatizar a importância da experiência como validador. Não redutível ao experimento controlado em laboratório que não dialoga com a tecitura ampliada do fenômeno examinado. Ver através de microscópios, telescópios ou obter retornos de radares ultra-sônicos que perscrutam o universo não nos deixa em dúvida ao confrontar afirmações dogmáticas a respeito da matéria, do cosmos ou da criação. Quando disciplinas espirituais nos fornecem ferramentas para entrar no laboratório interno de nossas mentes e descobrir dimensões inusitadas de nosso ser não cabe ficarmos parados nos limites da ortodoxia objetivista e materialista da ciência moderna. A ciência não pode parar em crenças, mesmo que departa delas ou tenha a própria ciência as criado. O compromisso do conhecimento requer a mesma radicalidade que todas as outras apostas que cada um faz na sua vida.
Teologia e Filosofia buscaram historicamente diálogo e integração em diversos momentos, fazendo que o sistema novo, ou externo ao pensamento hegemônico funcione, muitas vezes, como o desafiador e vivificador do pensamento predominante. É o caso dos padres da Igreja Católica que buscaram integrar o Platonismo, ou a escolástica integrando Aristóteles à teologia cristã. Há um emergir da tradição judaico cristã com a civilização grega, que já dava sinais com apóstolos como Paulo, mais se prolonga até nossos dias, passando pelo forte impacto da renascença via, especialmente, as artes e o humanismo. Estes confrontos e confluências não acontecem de forma repentina e nem sem conflitos de poder, e muitos deles físicos.
Com a filosofia e ciência moderna foram muitos séculos de confrontos com as religiões e tentativas que vão sendo feitas de quebrar os muros das ortodoxias. Não somente Giordano Bruno e Galileu, mas, mesmo o hoje criticado Descartes sofreu perseguições, outros publicaram suas obras postumamente. No entanto, com o tempo foram algumas das dificuldades sendo superadas pela evidência e pelo alargar das visões e valores que aromatizam os corpos pesados do conhecimento institucionalizado. Há a contribuição de Teilhard du Chardin incorporando Darwin em uma teologia multidimensional ou mesmo teólogos que incorporam Karl Marx e Freud tão execrados pela ortodoxia. Einstein, de forma bem interessante, não recebe tanto contestação militante, não obstante não ser integrado pelos que dizem, de forma ironicamente desafiadora, que falta comprovação a suas teorias para justificar mudanças nas visões religiosas ou filosóficas que sustentam sem comprovação, se é este o critério que prezam.
Entende-se que o diálogo de saberes é tão importante hoje em dia como o diálogo de tradições dos diversos povos. Um requisito é o admitir que cada tradição de sabedoria merece fazer parte do diálogo. É fundamental considerar que a experiência humana - da corporalidade, das emoções e afetos, da razão e da vastidão do espírito - guarda, felizmente, dimensões inusitadas, não ainda tocadas pelo saber, seja no universo micro e macro no qual habitamos ou nas dimensões manifestas do ser. O compromisso com o conhecimento, como dito acima, precisa ser uma aventura radical, pois ele é um convite a uma contínua abertura e investigação, e ao desfrute saboroso das descobertas.
Tomar a racionalidade e os critérios de validação racional gerados pela ciência como único caminho de conhecimento limita o projeto humano, habilitado que está à incorporação de sabedoria, de ampliação de sua inteligência e revelações de um universo vivo e multidimensional. Não se trata de se abdicar de sua especificidade e rigor, antes pelo contrário é utilizando-se de suas ferramentas mais potentes, neste caso a racionalidade humana, que o diálogo com outras funções e corpos de conhecimento pode enriquecer a todos. Não podemos negar os fenômenos e experiências que não cabem em nossos modelos, nem querer limitar o mundo àquilo que conseguimos explicar. Quando colocamos a razão a serviço de um entendimento maior, quando a incorporamos na tecitura concreta do universo que a gerou, diminui-se a ansiedade e o descolamento entre inteligência e vivência.
As luzes recentes da ciência apontam em direção a um universo tecido junto, complexo, interdependente, onde todos os elementos atuam sobre os demais em graus variados. O reconhecimento do seu caráter vivo, onde matéria e energia se intercambiam e formam padrões distintos na dinâmica do tempo e do espaço. O reconhecimento de vivências que transcendem tempo e espaço, de realidades que antes eram apontadas como pertencentes a um mundo irreal, de formas e imagens que habitavam nosso inconsciente como que fantasmas, sendo parte de nosso psiquismo. Isto demanda outras leituras, outras linguagens e ferramentas de conhecimento. O aceitar a existência de estados diversos de consciência que apontam para uma realidade aberta e multidimensional - onde fontes sensoriais, de sentimentos, perceptuais, imagéticas, intuicionais, simbólicas como os sonhos, transauditivas ou transvisuais requerem ser incorporadas na nossa aventura de conhecer - indica que a ciência pode se alargar para contribuir com projetos mais arrojados de conhecimento. Sua contribuição específica será cada vez mais eficiente e valiosa à medida que for maior o rigor e a simplicidade.
Outros princípios além da interdependência e da multidimensionalidade ajudam a configurar o papel do conhecimento racional e científico no diálogo de saberes, e mesmo internamente, no diálogo entre as diversas ciências e leituras científicas dentro de disciplinas. O mencionado princípio da evolução, que pode ser equacionado com o princípio da impermanência, pode ser útil para entendermos que a própria racionalidade humana é fruto de um processo anterior e complexo, que ela se exerce em dadas circunstâncias e condições, e que, ao longo do tempo, o que era verdade e evidente ganha outros olhares e elementos que recriam o conhecimento. Isto quer dizer que a beleza do empreendimento científico, por mais que ele consolide conhecimentos, é uma construção coletiva, histórica, mutável e cheia de surpreendentes descobertas.
As importantes descobertas não impedem outras mais profundas e reveladoras. Quem sabe tem um jeito mais fácil de ir a lua ou marte, ou visitar outras galáxias? Se não descobrirmos vamos continuar achando que nosso limite é aqui para sempre. Se não descobrirmos outras formas de equacionar nossas relações e de organizar o mundo vamos continuar imaginando que o mundo é refém da violência e gerador de miséria e sofrimento.
Religião e Espiritualidade
As religiões vão se constituindo historicamente como grandes corpos de conhecimento e organizações que influenciam diretamente o comportamento humano e as relações institucionais e de poder. Haja visto os estados confessionais e as teocracias até hoje existentes. O peso da religião em diversas culturas é tão grande que confundem-se com as definições de povos e nações. Civilizações antigas têm na religião seu sistema predominante de conhecimento. A maioria das tradições de sabedoria se apresentam como interpretações e normatizações de caráter religioso que não somente explicam como também regem os grupos ou sociedade que as professam. Mobilizam uma enorme quantidade de poder e recursos à medida que se constituem como forças sociais capazes de orientar a construção de visões de mundo, de sistemas de valores e de congregarem grande quantidade de pessoas para atuarem de acordo com seus ensinamentos e recomendações.
Com a expansão da consciência humana ganha relevância a necessidade de investigar dimensões mais profundas de nossa experiência, bem como dar sentido a forças consideradas superiores capazes de criar ou interferir no mundo. Este avançar permite que conhecimentos mais sofisticados comecem a ganhar corpo e que mestres, avatares e profetas surjam em diversas culturas ajudando a revelar conhecimentos da esfera do divino na natureza e no homem, bem como, da relação dos homens com suas divindades. Há tradições que acreditam que inclusive o reino animal e a natureza física são depositários de tesouros de conhecimento.
Podemos reconhecer que ao longo do tempo e em diversas regiões do mundo vão surgindo corpos de conhecimento que consolidam visões de mundo e valores que ganham a configuração de religiões, inicialmente como fenômenos bem locais, regionais e inseridos numa cultura particular. Aquelas dotadas de força e universalidade vão se constituindo como tradições sólidas de conhecimento e ganhando, algumas delas, características de religiões institucionalmente identificáveis.
Uma forma de ver o surgimento destas tradições de sabedoria e religiões é tomá-las como respostas a necessidades e aspirações de cada tempo e a vocações específicas de cada cultura, o que compõe um caminho de revelações sucessivas. Isto porque, cada corpo de conhecimento tem seu ciclo de ascensão e descenso, bem como, há necessidades específicas a serem respondidas a cada configuração dos grupos humanos e da humanidade como um todo.Também, porque as vocações específicas de cada povo ou cultura onde esta revelação se desenvolve contribui com aspectos próprios, ao mesmo tempo que particularizam dimensões universais contidas na visão, valores e métodos oferecidos à humanidade através daquele povo ou cultura.
Sete Selos são tomados como representação dos momentos de revelação das religiões ou tradições espirituais que foram se configurando mundialmente. O primeiro diz respeito às tradições que se desenvolveram no extremo oriente: o taoismo, as tradições védicas, o hinduismo, o budismo. Este selo consagra a relação do manifesto com o imanifesto, do divino em todas as coisas, do constante movimento do mundo fenomênico, da relação do homem com princípios básicos do cosmos, das leis, e das qualidades fundamentais do ser. O homem e todas as demais manifestações como realidades inseparáveis do divino. O símbolo do I Ching contém os princípios do feminino e do masculino, no núcleo do feminino uma fonte masculina, no núcleo do masculino uma fonte do feminino. No hinduismo o símbolo da Suástica representando a lei, o carma, a justiça divina. No budismo a Lótus símbolo da compaixão, da abertura das energias espirituais.
Seguem-se os selos correspondentes às religiões abrâmicas, ou do oriente médio, que incluem o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. E com elas a Estrela de Davi, a Cruz e a Lua Crescente com a Estrela, e a importância de se trazer o espiritual para o nível da matéria, para a cultura, para a forma; a importância do amor e do serviço ao próximo; a importância da entrega sem restrição. Neste modelo a Fé Bahá’í representaria o quinto selo que afirma a unidade de tudo que existe, a unidade da humanidade, a igualdade entre gênero, raças, povos, sem distinção. Unidade não restrita à esfera humana, nem mesmo aos limites do planeta, inclui tudo que existe. Está representada nesta iconografia da revelação pela Estrela de Nove Pontas.
O sexto selo não tem uma configuração institucional clara, mas se refere a movimentos espirituais de caráter universalista com origem nas tradições da Índia. Está representado pelo Sol Nascente, que simboliza o oriente e uma pequena Suástica que nos relembra da lei. Talvez um convite para um entendimento mais profundo de como funcionam o universo e suas incontáveis dimensões. Indica que a unidade não é somente do mundo externo, mas que há uma unidade interna no tudo que existe. A lei nos sugere talvez ações de reparação e religamento, um conhecimento do sagrado capaz de ressintonizar cada um com a fluidez e vastidão do ser. O sol tem sido visto por muitos como símbolo de um tempo da oferta generosa de energia, diferente de períodos lunares onde se absorve energia. Um dos objetivos desta nova espiritualidade é o conhecimento experiencial do sagrado.
E o sétimo selo, como fica neste grande signo?, Tema de diversos trabalhos e criações artísticas como no filme de Igmar Bergman onde a morte joga xadrez com o cavaleiro, o sétimo selo é a síntese dos passos anteriores que permitiria beber de todas estas fontes ao mesmo tempo, naquilo que elas têm de mais cristalino, puro e potente. Um confluir de sabedorias tornadas disponíveis para a humanidade como fontes inesgotáveis de paz e felicidade. A compatibilidade destas diversas revelações estaria nas raízes profundas de cada manifestação específica que passam a ser, porque já são, comuns, compartilham as mesmas dimensões e os mesmos mistérios.
Como empreendimentos humanos a caminhada destas tradições de sabedoria demandam hoje um grande diálogo, um novo entendimento, uma nova criação com base nos princípios e valores comuns, conciliação com o cotidiano, o direto, o corriqueiro de cada ser humano, e a identificação de uma fonte além das culturas, dos povos, de gênero, raça ou idade. É o desafio de se encontrar a unidade subjacente a tudo que existe. É uma oportunidade extraordinária para o reconhecimento.
Estou me valendo deste modelo para indicar como as religiões e tradições de sabedoria detêm chaves importantes para a construção de uma nova civilização fundada numa cultura de paz e de unidade humana, sustentada na solidariedade e numa forma generosa de construir parcerias, gestões coletivas e sustentação mútua diante de necessidades e aspirações humanas. Por outro lado, elas podem continuar, como hoje, a ser fonte do maior número de guerras e conflitos, e mesmo fonte de confusão para espíritos humanos que não conseguem distinguir a sabedoria que inspira estas instituições do jogo de poder, das interpretações unilaterais, da perda de conexão com a sacralidade de cada existente.
O que está proposto neste modelo é que as diversas religiões têm uma contribuição específica e complementar. O desafio está na construção conjunta de uma visão, valores e comportamentos que alarguem, integrem e reconciliem suas situações históricas particulares com um projeto de humanidade do qual elas podem ser garantidoras e artífices. Também está sugerido que há um movimento circular de volta aos fundamentos, não fundamentalismos, mas às fontes puras, límpidas e potentes da energia espiritual esquecida em meio a muitas recomendações, normas, mimetismos e distorções. Há uma sinalização que as tradições antigas podem contribuir como base desta construção à medida que elas apontam para a experiência do divino em cada um, de uma espiritualidade sem compromisso com as igrejas, instituições ou equações circunstanciais. Que os mestres, doutrina e práticas podem ser importantes como caminhos para o contato de cada um com sua fonte divina. Daí decorrem visão de mundo e ética, aí elas se sustentam em chão firme.
Sem uma espiritualidade profunda que floresça em cada indivíduo e faça dele o seu próprio templo, as instituições religiosas continuarão a deslocar o sagrado para fora de sua fonte e raiz. O aparente individualismo espiritual que esta postura parece indicar na verdade é o garantidor último da universalidade, que além de pautas prévias de conduta, ancora a vida espiritual na experiência do divino em nós, o qual nos revela radicalmente iguais, em natureza e dignidade, a todas as demais manifestações deste divino na humanidade e nos diversos reinos da existência.
Ao ensinar e ajudar a despertar a divindade em cada um e a conexão pessoal com a sacralidade de cada existente as religiões desenvolvem uma ação pacificadora e construtora de relações saudáveis, respeitosas e fraternas. Mesmo em situações mais adversas cada um tem chance de contatar sua fonte de força e buscar caminhos de afirmação de sua inteireza. Hoje mesmo tive o exemplo de um jovem que diante de dificuldades que diziam respeito à saúde de seu pai, e que vive em região onde muitos estão envolvidos com atos de violência e contravenção, buscou apoio deixando claro suas opções conscientes por uma vida correta, sustentado pela religião que ele decidiu seguir. A religião e a comunidade de praticante é para ele rumo e apoio. E nestas situações limites, é também o sinal que ele usa para afirmar sua opção de vida no meio da violência e contravenção buscando a cada momento preservar o que ele preza e encontrar soluções para suas dificuldades.
São muitos os que não professam nenhuma religião e se desenvolvem através do autoconhecimento e do serviço generoso à humanidade. Poderíamos dizer que há uma espiritualidade vivida sem credos formais ou vínculos institucionais. Há pessoas de grande bondade e vigor ético que seguem suas fontes internas de sabedoria e estão dispostas a aprender e contribuir. Muitos se livram da arrogância e do dogmatismo se distanciando de crenças fechadas, de sistemas que não aprendem, de verdades que não reverberam na vivência interna de uma espiritualidade viva. Muitos nem mesmo equacionam como sendo espiritualidade sua ação de refinar o espirito humano através de avançar o conhecimento, criar pelo trabalho e servir a comunidade.
Há uma dimensão de conectividade na vivência espiritual que ao incorporar qualidades básicas liga pessoas e mecanismos da convivência coletiva na fluidez da energia seja do amor, da alegria, da compaixão, do serviço generoso. Estas energias operam sem estatutos, preceitos ou prescrições. No entanto, as relações humanas, mesmo as institucionais e normatizadas, podem e devem expressá-las como condição para a harmonia, vitalidade e deleite. Esta possibilidade está disponível para todos em todos os momentos, ao mesmo tempo em que a engenharia de sua fluidez se apresenta como desafio central para aqueles que buscam construir relações justas e saudáveis.
Temos senhores da guerra e da destruição que se dizem religiosos, temos predadores, colonizadores e especuladores que defendem os valores espirituais de uma civilização que no concreto mostra sua crueldade e desafeto. O desafio de se construir uma civilização planetária convida ao aprendizado conjunto aos membros das diversas tradições de sabedoria na busca de tecer juntos, de forma prática, cotidiana, o novo que alimenta, conecta, responde às necessidades básicas e às aspirações humanas profundas. Este também é o desafio de se desenvolver a engenharia de novos processos sociais e culturais capazes de fazer confluir os níveis mais profundos da nossa experiência com os avanços da racionalidade humana e a concretização de novas relações econômicas, políticas e culturais que dão corpo a vida de todos nós.
Prosperidade e Governança
A construção de uma civilização planetária requer uma outra corporalidade, ou seja, novas formas culturais que permitam e promovam a diversidade, o colorido, a especificidade de cada pessoa no espaço comum da convivência. Espaço este das relações pessoais, das famílias - ou unidades básicas de convivência, das comunidades, das esferas locais, nacionais, regionais e mundial. Requer a ampliação do conceito de cidadania que integre cada pessoa, e que seja capaz de garantir direitos fundados em valores humanos universais desde a concepção e suas condições até após a morte.
As questões comuns que afetam a todos e a cada um nos oferece o chão para uma conversa em todas as línguas e para além das linguagens convencionais. Desta forma a conversa se funda neste chão compartilhado que não decorre de preceitos morais prévios, mas sim do reconhecimento da nossa comunalidade. Somos herdeiros e co-partícipes de uma herança física, material, genética, e cultural que nos envolve a todos.
A conectividade exercitada nos tempos atuais, que produz entusiasmo ou apreensão causada pela ampliação dos espaços de interação, é na verdade, mais o resultado de um reconhecimento do que uma invenção. Se as ferramentas são novas o chão onde elas proliferam sempre existiu. Compartilhamos situações comuns, somos afetados e afetamos a todos, desde a água que bebemos, ao ar que respiramos, aos alimentos que produzimos, à paz e segurança que todos buscam, às condições cósmicas que geram a configuração astronômica da qual participa o nosso planeta.
Com populações menores, isoladas geográfica e culturalmente, a comunalidade parecia não existir. As próprias tramas cotidianas atuais, no entanto, a torna concreta desde os artigos que consumimos, às informações compartilhadas, às ondas de impacto geradas com os movimentos financeiros, militares, vírus biológicos ou virtuais ou pela mobilização de interesses coletivos.
Está se criando uma nova cultura, uma nova corporalidade social que reexamina visões e valores e que desenvolve uma nova arquitetura de relações e ambiências mentais. O homem liberal visto como um indivíduo isolado que toma decisões racionais em função do mercado, das opções políticas, começa a ser reinserido na corporalidade de suas relações, nas causas e condições de sua situação e na universalidade das necessidades e aspirações compartilhadas.
Não se trata de devolver ao homem sua identidade clânica ou estamental dos períodos anteriores, mas incorporar em todas suas esferas de participação a individuação, intensificada no período moderno, que nos leva a assumir responsabilidades por nossas ações e sermos ativos criadores de cultura, reinseridos na tecitura complexa e multidimensional que nos constitui.
Se o indivíduo isolado é uma abstração, sua identidade social também é uma construção pobre e limitadora. Uma cidadania planetária, exercida desde o local ao mundial, deve nutrir-se da fonte de presença e mistério que cada um é, e se desenvolver numa arquitetura de relações constituintes onde o arcabouço institucional garanta a definição participativa das agendas, das prioridades e das alocações de recursos nos diversos elos de células de convivência, interagindo com redes solidárias, onde a mobilidade dirigida por afinidades e fluição não venha em prejuízo das questões concretas de cada esfera de gestão.
A Sociedade do Conhecimento não somente requer e se utiliza de conhecimento para seu funcionamento, mas gera conhecimento em todas suas unidades. Se isto sempre aconteceu, pois cada indivíduo gera conhecimento de alguma forma, a capacidade de receber e elaborar de uma forma continuada uma grande quantidade de informações é um fenômeno relativamente recente. Da prensa de Gutemberg à produção editorial, do rádio à televisão, e na seqüência, os computadores, os computadores pessoais e as redes mundiais acontecem em alguns séculos, mas com uma clara aceleração do processo de informação e elaboração de conhecimento nas últimas décadas.
Os processos de divulgação e articulação, transposição de barreiras, ajudado também pelos transportes, viagens e aberturas institucionais de organizações fechadas ou secretas, cria uma outra dinâmica do conhecimento desafiando formatos como o das nossas escolas e outras organizações tradicionais que ainda não conseguiram se reconceber para este novo tempo. Métodos de transmissão de informação lentos e antiquados sustentam-se na suposição de que alguém detém o conhecimento e o afere conforme o relativamente pequeno estoque de informações que dispõe, comparado à vastidão de fontes já disponíveis. Se os profissionais dos diversos campos de atuação privada e pública se apoiam naquilo que as instituições codificam como sendo o conhecimento, passam a depender da dinâmica e velocidade com que as instituições aprendem para serem capazes de gerar conhecimento atualizado. Dependem do livro didático, da cartilha, do manual de procedimentos, dos textos selecionados, da consultoria da moda.
Entretanto, o diálogo, a convergência, a elaboração de cada um a partir da sua própria incorporação de conhecimento não faz parte desta metodologia. Muitas organizações continuam a falar e não ouvem nem perguntam. O conhecimento ainda é tido como algo externo, apropriável e credenciável sem a interação e a diversidade. A questão não está em deixar de se formatar o ensino e os corpos de conhecimento das organizações, mas de comprimí-lo em dinâmicas e estruturas que não dão conta da experiência dos seus usuários, porque não as inclui como fonte de um processo dialogal e de sínteses sucessivas, gerador de novos insights. Onde o aprender de forma constante é um critério em si mesmo, e os espaços de compartilhar podem e devem se beneficiar com a dinâmica criativa de cada um.
Democracia e participação têm a ver com as micro-dinâmicas do gerar e elaborar conhecimento, da capacidade de contínuo aprendizado das próprias organizações em coexistência com mundos - percepções, valores e pautas de comportamento - distintos, girando em suas próprias esferas. Podemos imaginar dinâmicas diferenciadas se articulando em um espaço comum de interações que garanta a corporalidade, a sustentabilidade destas diversas dinâmicas, nas múltiplas dimensões que operam. Desde o nível das unidades básicas de convivência - sejam famílias tradicionalmente constituídas ou unidades domiciliares com composições múltiplas ou uniparentais - onde supõe-se um grau mais alto de afinidade, até os níveis de atuação com maior componente contratual como em relações de trabalho menos duradouras, este processo de gerar e elaborar conhecimento requer interações contínuas, diálogo, mecanismos de resolução pacífica de conflitos e capacidade de gerar serviços ou bens úteis para serem compartilhados.
A sociedade emergente possibilita e requer para sua saúde associativa uma grande quantidade de relações que não passam necessariamente pelas clivagens tradicionais de consangüinidade, de raça, de sexo, idade e mesmo de nacionalidade. Necessidades e interesses comuns sinalizam de forma mais eficiente as composições dos grupos e dinâmicas organizativas. Um mercado de trabalho cada vez menos centrado na fixidez de cargos e posições, com percentagens cada vez menores de pessoas na agricultura e na indústria, gera uma maior volatilidade nas relações produtivas no dinâmico setor dos serviços com suas modas, sazonalidades, e com as mudanças tecnológicas incorporadas por um maior número de indivíduos ou pequenos grupos.
A formação de redes industriais, comerciais e de serviços públicos e privados, ao mesmo tempo que possibilita uma maior autonomia e adaptabilidade de seus componentes, tem gerado uma maior concentração de capital, uniformidade de produtos, sistemas de gestão e padrões de comportamento em escala ampliada.
O aumento de poder que a humanidade experimenta nos últimos séculos, e especialmente nas últimas décadas, tem se caracterizado pela separação de seus referentes e pela concentração. A volatilidade do dinheiro, sua alta velocidade de circulação tem vindo junto com o controle de poucos atores na cena mundial. Mesmo que tenha um alto componente de pequenas poupanças o capital financeiro é gerido em grandes blocos, sejam fundos de pensão, grandes complexos financeiros ou mega investidores.
A comunicação amplamente desconcentrada pelos mecanismos interativos dos últimos anos, como a internet, ainda guarda nas grandes redes de informação as características da separação de quem vive e de quem fala em seu nome. A comunicação de massa não somente noticia o que interessa às suas agendas editoriais como também as interpretam. Geram padrões de comportamento, definem tipo de beleza e modelos a serem seguidos.
Na esfera do poder político as democracias representativas distanciam representantes de seus representados, mediados pela comunicação de massa ou distanciados pelos mecanismos de concentração de poder pelo processo de eleições que delegam por longos períodos o direito de representatividade, deslocam o poder dos indivíduos para políticos, despolitizando assim a vida das unidades elementares da sociedade e criando uma dinâmica decisória própria vinculada aos interesses dos decisores, distinta daqueles que teoricamente são a fonte de poder, mas que não tem ferramentas efetivas para atuar e decidir.
Uma nova visão de organização social e política requer que cada individuo exercite o poder desde o nível das suas interações diretas até os representantes mundiais. Uma arquitetura mais orgânica de governança mundial implica em um conceito de cidadania que não exclua ninguém, cada ser humano é um componente vivo da vida mundial. Que as condições do exercício político não se restrinjam aos critérios produtivistas, do mundo dos adultos empregados ou incluídos na força de trabalho. Que uma variada cesta de remunerações ou retribuições sociais incorporem valores que o mundo moderno e seus antecessores históricos da chamada civilização excluíam.
Deliberadamente uma sociedade comprometida com a saúde do planeta, com a preservação da vida, com a produção de conhecimento como direitos de cada um, criará sistemas de remuneração para as funções da maternidade, do estudar, do preservar os recursos coletivos, do criar obras culturais, do transmitir sabedoria para as novas gerações, do criar contribuições à ciência e à tecnologia que elevem a qualidade de vida de todos, do criar mecanismos de gestão e equalização dos recursos básicos que respondam às pautas que materializem nossa comunalidade apontada acima. Uma sociedade que operacionalize o princípio da interdependência e celebre a originalidade, o colorido de cada indivíduo ou grupo na associação dinâmica de seus membros, em seus diversos momentos e descobertas, demanda formas de governança baseadas nas interações diretas nos níveis básicos da organização social - as unidades básicas de convivência, ou sejam famílias ou similares e as comunidades de base territorial.
Se a experiência das ecovilas, hoje já uma rede de 15 mil em todo mundo, nos dá o exemplo destas células comunitárias da sociedade, onde cada uma, de forma original, incorpora princípios universais e busca respeitar os direitos decorrentes da consciência da interdependência, outras formas de gestão de comunidades indicam caminhos de recriação do mercado funcionando em bases não territoriais, mas sim como mecanismos de troca. Exemplo destes últimos são os grupos de troca que operam em diversos países e que foram, creio que ainda são, importantes na transição da Argentina. Muitos outros experimentos do que se chama economia solidária existem no mundo cozinhando com bom tempero formas e fórmulas capazes de materializar outros critérios de valor e incorporar mecanismos de governança, de gestão compartilhada das dinâmicas cotidianas. Reinserir o poder na vida de cada cidadão, em suas dinâmicas interativas diárias é um requisito da cidadania planetária.
Se por um lado o princípio da interdependência nos dá a consciência de nosso pertencimento e o mútuo afetar de todos, por outro lado ele nos demanda um cuidado carinhoso e contínuo com cada elemento da vida presente em nosso corpo e na materialidade de nossas relações. A responsabilidade pelo todo deixa de ser um mero preceito moral para ser a incorporação contínua da minha universalidade vivida em cada gesto, serviço, criação, interação. E todo o universo pode ser celebrado em cada flor que nasce, em cada criança que se alimenta, em cada aprendizado silencioso.
Neste cenário, cada unidade individual ou coletiva é aberta e se toca na materialidade das condições compartilhadas que caracterizam a esfera pública. Necessidades básicas dão o tom do chão comum onde cada um precisa se nutrir e ajudar a prover as condições para que todos se nutram, participem e criem.O próprio indivíduo é uma construção dinâmica que se recria constantemente - inclusive suas células e órgãos - nas relações com a natureza e com os demais seres vivos com os quais interage. A sustentabilidade individual depende da sustentabilidade das comunidades da qual a pessoa participa.
O princípio da interdependência chama o princípio completar da autonomia. Se somos partes da teia da vida, somos também seus agentes, afetamos e somos afetados. Quanto maior o conhecimento das causas e condições que constituem o mundo interdependente, maior consciência das possibilidades de atuação e dos efeitos de nossas decisões e atos sobre esta teia. Uma maior autonomia das formas comunitárias em relação aos aparatos de estado pode gerar uma dinâmica mais viva e saudável para a esfera pública, onde a verificação, avaliação e recriação de processos possam se incorporar na dinâmica diária de aprendizagem e gestão compartilhada.
A governança é condição para a prosperidade. Uma prosperidade sustentada depende da governança das unidades da sociedade. Isto implica ver o poder público como uma construção da sociedade, que nasce na sociedade e que suas ações ou omissões afetam a sociedade. Governo é governar alguma coisa. Governar a sociedade é função das instituições políticas onde se inserem os aparatos estatais, que no presente aparecem como estruturas descoladas da cidadania, dos seus referentes. Reinserir o poder na sociedade começa por diminuir a extração de recursos, poderes e competências das unidades básicas da sociedade para os aparatos impessoais, burocráticos e centralizados, dotando estas unidades de condições de governança local.
Isto não significa mera municipalização, que transfere para a esfera dos municípios, e de forma quase sempre impositiva, funções e atribuições dos aparatos estatais centrais, que funcionam sobre a sociedade como se a fonte de poder estivesse neles. Comunidades com maior grau de autonomia poderiam ir se tornando mais responsáveis e introduzir seus membros a uma prática de cidadania ativa. Os corpos gestores em escala mais ampla se constituiriam da articulação destas unidades comunitárias de convivência onde a participação física possa se dar sem constrangimentos ou exigências difíceis de serem cumpridas. As unidades comunitárias funcionariam com constantes negociações, trocas, interações com as demais comunidades em redes de suprimentos, de serviços e de aprendizagem coletiva.
Já se sabe que a humanidade produz há décadas o suficiente para alimentar cada ser humano com três mil calorias/dia advinda somente da produção de grãos, frutas e vegetais. Sabe-se também que podemos produzir por períodos maiores que aqueles nos quais conseguimos estar formalmente empregados. Sabe-se também que existem diversos bens e serviços que não estão monetarizados e são fundamentais para a vida social, como a educação familiar das crianças e outras mais. Ainda, sabemos que os critérios e indicadores que orientam nossos planos estatais e as prioridades de política econômica são tão insuficientes e distorcidos por uma visão financeira economicista, quanto nossos modelos explicativos de uma variável independente para explicar fenômenos complexos e multidimensionais. Quando o poder é intrínseco às relações sobre as quais as decisões se referem ele pode ser exercido de forma mais orgânica, dizendo respeito a pautas mais compreensivas e dinâmicas de acordo com as necessidades, aspirações e descobertas daqueles envolvidos com as questões.
Muitas das comunidades hoje são, na verdade, comunidades de afinidade e não locais. É o exercício de uma outra espacialidade fundamental para a construção de uma cidadania planetária. As comunidades de afinidade perpassam os vínculos tradicionais de família, raça, religião, sexo, nacionalidade. Como estruturadores de uma ordem política mundial as redes que se formam a partir de interesses comuns atuam como articuladores de poder sem serem parte por natureza das estruturas estritamente políticas. Acrescem-se como instrumentos de cidadania e de interação não institucional que podem oferecer aos corpos comunitários e seus articuladores mecanismos de aprendizagem conjunta, potencialização de cooperação e geração de intercâmbios e trocas.
Na esfera das instituições a reinserção do poder na sociedade e na dinâmica dos cidadãos requer uma nova arquitetura de relações de decisão e gestão. Protocolos equalizadores de direitos e regulamentadores de recursos comuns à humanidade devem ser discutidos e aprovados por conselhos/parlamentos que se formarem organicamente a partir da ampliação dos espaços comunitários e seus níveis de gestão desde o local até o mundial. As questões comuns da paz e segurança, sustentabilidade da vida no planeta, direitos econômicos, políticos e culturais básicos, devem ser discutidas em todos os níveis de decisão e gestão e articuladas de forma a garantir as condições essenciais a todos do planeta.
Garantir os padrões de justiça distributiva mínima é uma das condições e objetivos destes corpos de governança ampliados. Também garantir os protocolos que regulamentem as trocas e os empreendimentos individuais e coletivos. A fluidez e comunicação entre unidades devem permitir e garantir a espacialidade ampliada como ambiente legítimo de exercício da cidadania onde se efetivam os direitos básicos, universais, de cada ser humano, não restritivos à idade ou outros atributos separadores acima mencionados. Isto significa ter o planeta como território e as comunidades de diversas abrangências como as unidades estruturadoras das relações cotidianas com seus protocolos próprios, diversos, desde que não inflijam os direitos e garantias universais.
Um fluxo contínuo de conhecer e criar pode se estabelecer nos processos de geração de bens e serviços e nas dinâmicas, nem sempre simples, de resolução de conflitos. Um rico aprendizado, no entanto, pode se estabelecer aí. A ciência, como um corpo de descobertas validadas e testadas na sua trajetória histórica, disponibilizando ferramentas de conhecimento que integrem a racionalidade nos múltiplos processos de conhecimento, ou assimilando estas dimensões transracionais nos seus procedimentos, pode estar a serviço de um grande avanço da prosperidade para todos. A apropriação coletiva do saber gerado pela humanidade é um estágio necessário neste caminho.
As tradições de sabedoria com suas revelações, rituais e celebrações podem oferecer disciplinas potentes de aprendizado multidimensional e de recriação de laços profundos entre os seres viventes e suas origens espirituais. Para tal as religiões e tradições fechadas em si mesmas precisam passar pelo teste da ética universal e não infringirem os preceitos que quase todas elas pregam e prezam. Uma fraternidade além dos rótulos e separações pode se nutrir de uma espiritualidade viva, que mediada ou não por religiões ou instituições similares, mora no coração dos seres viventes como também no pulsar invisível no interior da matéria. O pulsar do mundo manifesto é contíguo com o mistério, talvez pleno de não-movimento, do imanifesto. Reconciliar a vivência ou mesmo a aspiração desta ligação, deste emergir, é uma condição para o passo civilizatório que estamos prestes a dar.
Conhecimento é a chave para que as novas formas de organização e gestão planetária emerjam e se sustentem como dinâmicas criativas e colaborativas. Onde visão correta sustente valores integradores e prazerosos da convivência e da vida. Governança compartilhada e articulada dos processos geradores de paz e prosperidade dependem deste conhecimento incorporado nas instituições e mecanismos operativos do cotidiano da sociedade. As ferramentas para a prosperidade a humanidade já criou e continuará a criar, precisamos construir as novas relações humanas capazes de torná-las propícias e efetivas à dignidade e deleite de todos.
abril 14th, 2008 at 21:13
Oi Carlos, meu amigo,
Excelente reflexão, traz uma compreensão maior e mais adequada do poder e do valor do conhecimento.
Vou compartilhar com toda a rede da paz.
Em parceria…