Cláudia Costin
Tenho uma visão otimista do curso da história. A humanidade vem, ao longo de sua trajetória, refinando sua percepção sobre seu papel no mundo e sobre o universo natural e social que a cerca. O Iluminismo, neste sentido, aparece como um avanço.Permitiu uma valorização do indivíduo como protagonista e portador da possibilidade de transformação do mundo e da razão com atributo humano fundamental para melhor compreensão do seu contexto e de seu vir-a-ser. Sabemos que há abordagens religiosas que trazem como visão central o resgate de um passado dourado que deve ser recuperado. É o saudosismo de uma época áurea, em termos de poder terreno, de uma expressão religiosa particular. O Iluminismo veio, de certa forma, romper com esse ciclo, ainda que tenha trazido consigo sérias perdas na relação entre o indivíduo e a comunidade. Por exemplo, se considerarmos a Idade Média como período de fragmentação do poder político, onde a Igreja passava reinar soberana, reviver-se hoje esse período através de percepções teológicas que levam à valorização do que é pequeno e fragmentado, rouba do indivíduo a possibilidade da sua plena realização. A expressão religiosa deve abrir um espaço para a realização do indivíduo como o bem mais precioso da sociedade e não da sociedade como fim em si, o objeto final de proteção.
A humanidade se caracteriza por suas diferenças. Para se construir uma sociedade harmônica e vitalizada, devemos valorizar e não massacrar as diferenças, as múltiplas formas de “ser no mundo”, na religião, nas opções políticas, identidades étnicas. O massacre do diferente com certeza leva a uma perda das qualidades do que é diverso e de sua contribuição para o desenvolvimento humano. Se a religião for oprimida, no mesmo sentido, perde-se a contribuição que ela pode dar ao somatório social.
É importante, porém, estarmos atentos para o fato de que a vida ritualizada preconizada pelas várias religiões pode, se for valorizada só como forma, acabar por ter uma tênue relação com a essência dos valores trazidos por elas: as qualidades como “compaixão, tolerância, confiabilidade, generosidade, humildade, coragem e disposição de sacrificar-se pelo bem comum que formam as bases essenciais, embora ainda invisíveis de uma vida comunitária em evolução”, valores esses tão presentes em expressões religiosas como a do judaísmo, perdem-se quando a prática religiosa se torna um conjunto de ritos, sem que haja a percepção de uma força motriz, a força da espiritualidade que lhes dá sustentação.
Se considerarmos que o progresso, conforme Carlos Mattus, é passar de problemas mais simples para problemas mais complexos, o Iluminismo ao desconstruir uma relação de dominação entre a fé cega e a razão libertadora, trouxe novas questões e desafios. Feuerbach chegou a dizer que, com o progresso material haveria de chegar um momento em que o homem não necessitaria da religião.Ora, ocorreu o contrário. Hoje, numa sociedade aparentemente dominada pelo racionalismo materialista, vemos, a exemplo do Brasil, movimentos pentecostais, movimentos esotéricos e outros que ganham espaço na busca incessante pelo transcendente, numa ansiedade humana que não foi sossegada pelo progresso científico alcançado.
Além disso, as instituições religiosas, cristãs ou judaicas tentaram num certo momento colocar a questão política como central, como o elemento mais importante do “estabelecimento do Reino de Deus na Terra”. A realização deste paraíso na sociedade humana deveria ser alcançada pela igualdade social a partir de regimes políticos que a promovessem. Mas os próprios “rebanhos” não se satisfizeram com essa colocação e impulsionaram as suas institucionalidades religiosas para uma retomada da dimensão espiritual da religião. Fica aqui a percepção de que o progresso se fez incorporando a dimensão racional, a reflexão crítica e o “ser na história” às práticas religiosas sem, no entanto, ofuscar a Revelação, o elemento essencial da fé, que a define como tal.
No judaísmo, temos um valor forte na ajuda ao próximo, concretizado através da “Tsedaka”, que significa justiça, envolve dar ao próximo a sua parte, a caridade como preceito ligado à realização dos planos de Deus na Terra e não como generosidade e grandeza de quem a faz.. Ela é parte de um código de orientações e mandamentos a serem observados por um judeu, uma das 613 Mitsvot, o código de ordenação da religião que, em síntese, coloca cada pessoa com a responsabilidade de aperfeiçoar-se ao melhorar seu entorno, seu mundo (tikun olam).Mas muitos se esquecem e aí entra o rito. Há, por exemplo, períodos festivos em que a “Tsedaka” ou a forma de praticá-la é enfatizada.
Teria o Iluminismo influenciado, logo no seu despontar, outras sociedades e outros pensamentos e práticas religiosas que não só o cristianismo e o judaísmo? Pode-se dizer que sim, já que a globalização não é um fenômeno recente. As visões de mundo interagiam antes da sociedade moderna, embora a ritmo mais lento. É fato que hoje as culturas ao interagirem forjam quase que imediatamente novas culturas, num movimento de integração que pode, como no caso brasileiro tornar-se um cadinho cultural (este sim o verdadeiro “melting-pot” ao contrário do caso americano, muito mais próximo de um mosaico!), num movimento incessante de fusão, onde se, por um lado, há beleza na integração, perde-se, por outro a identidade, a especificidade de cada uma e cria-se o risco da homogeneização. O mundo moderno, em distintas dinâmicas e velocidades, promoveu a crença na ameaça do diferente em escala global, na ameaça de tudo que não se baseie na racionalidade explícita e concreta, como anteriormente faziam certas visões xenófobas e racistas.
O medo do diferente não é novo: o pensamento teocrático e a vida nas aldeias já o continham. Mas o que o mundo moderno faz é estabelecer padrões universais do que é aceitável em todos os campos de conduta. Assim, diferenças regionais no trajar, comer, portar-se em sociedade são eliminadas e substituídas por um jeito Mac Donalds de ser. O preconceito xenófobo e racista que excluía determinadas crenças e raças da possibilidade de acesso a determinadas profissões, a não ser que houvesse uma assimilação que muitas vezes resultava em conversão involuntária, acaba sendo como se substituído pelo monolitismo cultural. Assim, seguidores de algumas religiões sentem vergonha de ser diferentes numa sociedade que formalmente os aceita mas que lhes demanda tais alterações de conduta que os leva a rejeitar sua prática religiosa e, por conseguinte os seus valores. O fiel, ao perder a possibilidade de vivenciar suas emoções, torna-se fragmentado frente à onipotência da razão. Tira-se, então, do ser humano o direito de ser feliz, pois as emoções, vistas num conjunto de percepções psicológicas e espirituais são na verdade o complemento da razão e não sua adversária. Não conseguimos apreender a realidade de forma completa apenas com a razão.
A motivação religiosa torna-se uma expressão do compromisso de cada um com a espiritualidade. Somos, hoje, fruto de uma geração cética que, ainda que cultue seus heróis do passado, a exemplo do povo judeu, não é capaz de identificar a “força” que manteve a determinação de sacrificar-se por eles.
Esta “força” nos é trazida pela religião, religião esta compreendida como algo mais sublime que os meros ritos congregacionais, mas a expressão coletiva de uma força motriz que nos dá sentido e direção na vida. A espiritualidade passa então a ser a compreensão da religião como uma força viva.
Para entendermos o caráter universal que tem a religião, aquela expressão que se concretiza nos Livros Sagrados de todas as tradições, devemos fazer um esforço de exegese, uma vez que a expressão contida nestes Livros é fruto de um processo social em evolução. Não há somente alegorias nos Livros, mas sim a expressão de uma verdade universal que se adapta aos grupos e à época em que aparecem.
O desafio é traduzir estas expressões universais em nossa vida diária. No judaísmo há uma oração, a Shema, que os judeus fazem toda manhã e noite. Nela expressamos que “O Senhor é Um”. É único, é eterno, é a totalidade. Parte desta oração está inscrita na Mezuza colocada junto às portas das casas e também em paramentos usados nas orações e colocados junto ao braço, coração e cabeça (simbolizando que a Shema inspira nossas ações, emoções e pensamentos). Este simbolismo é o da busca de inspirarmos nossa vida exterior (casa) e nossa vida interior (paramentos) com as qualidades da compaixão, tolerância, confiabilidade, generosidade, humildade, coragem e disposição de sacrificar-se pelo bem comum. Os rituais religiosos nos servem como a lembrança deste nosso compromisso.
Se o Iluminismo de um lado representou um avanço na nossa libertação da fé cega e do dogmatismo religioso, temos agora, de outro lado, o desafio de aplicar o instrumental da razão para ressignificar o papel da religiosidade, trazendo para nós, seres contemporâneos um sentido mais profundo para estes ritos.
Vejo, como já disse, o desenvolvimento com um sentido positivo. A humanidade, apesar de todo o sofrimento que vemos nos dias de hoje, tem avançado mais do que retrocedido. Eliminamos inúmeras escravidões, emancipamos a mulher, ao menos em alguns aspectos, em vastas áreas do planeta e criminalizamos o preconceito racial em vários países. A universalização do ensino fundamental, se ainda não é realidade generalizada, está incluída nas chamadas Metas do Milênio e um número crescente de meninas anteriormente excluídas do acesso à educação hoje se sentam nos bancos escolares junto com seus irmãos. Vivemos, porém hoje outra natureza de problemas e o interessante é que o ser humano vai desenvolvendo metodologias para resolvê-los.Em outros termos, à medida que o tempo passa vamos criando novas necessidades, a sociedade vai se tornando mais complexa e problemas solucionados são substituídos por novos, próprios desta nova fase de desenvolvimento humano. Para uma tribo indígena talvez a agressão à natureza não é um problema e, entre esquimós já foi usual se matar deficientes porque não haveria condições de sobrevivência. Hoje isso é inaceitável para a maior parte da humanidade.
Esta evolução pode ser percebida ao se analisar o que ocorreu com o nazi-fascismo.Hitler, de certa maneira, encarnava todas idiossincrasias da velha Europa. Quando empreende toda a insanidade que foi a II Guerra Mundial e transforma a xenofobia em projeto de genocídio, constrói o caminho para que, com sua derrota, nunca mais o racismo se torne política oficial de governo nestes países. E a derrota não foi somente a dele, pessoa, ou do Nazismo. Nunca mais a xenofobia e o anti-semitismo se tornaram política oficial de governo nestes países… Existe xenofobia na Europa? Sem dúvida. Existe anti-semitismo? Existe, mas não é mais a visão predominante e nenhum jornal sério terá a coragem de colocar como manchete uma visão racista, coisa que não acontecia antes dessa derrota.
Este é um avanço. Vamos ter retrocessos? Claro, pois, o avanço nunca é linear. Retrocessos acontecem e a guerra do Iraque é exemplo vergonhoso desta possibilidade.Mas, ao se acompanhar os indicadores de desenvolvimento humano, constatamos uma melhoria sistemática das condições de vida da população do planeta (exceção feita aos países africanos) que caminha passo a passo com a evolução nos direitos democráticos e afirmação das mulheres e minorias. Há um aprendizado em curso, o aprender a viver juntos, a respeitar o outro como portador de direitos e beleza.
O poder público também tem um importante papel nesse contexto. Jacques Delors, ex-comissário da União Européia para a Educação, escreveu um relatório preconizando que os europeus ensinassem às crianças a aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a ser (desenvolver todas as suas potencialidades) e, destaco, aprender a conviver, que passa pelo valor da tolerância e respeito ao outro.
O desenvolvimento da humanidade e o desenvolvimento individual não são coisas separadas. O desenvolvimento da humanidade cria condições favoráveis, como que um caldo de cultura favorável para o desenvolvimento individual. Mas eles não são sinônimos, um é o campo onde se semeia e o outro é o que resulta. Já compartilhei no passado da versão de que, para o indivíduo se realizar plenamente, basta desenvolver a humanidade, a partir de uma revolução que mude as relações de produção e implante o socialismo.Com isso, acreditava, a justiça estaria estabelecida. Já não penso mais assim. É fundamental transformar o coletivo, é difícil alguém com fome, com um sofrimento extremo, sem condições de criar os filhos, ficar voltado para seu autodesenvolvimento. No entanto, não me tranqüiliza pensar que vou lutar pela revolução e quando chegar lá se analisa como me torno um ser humano melhor. A ética é um valor para a sociedade, mas também é um valor individual.
É importante entender que o desenvolvimento individual não se faz sem sofrimento. Aprendo que o outro é portador de direitos; a criança pequenina quer brincar com um brinquedo que está na mão de outra e tenta arrancar o brinquedo. O outro não permite. A mãe interfere e explica “olha ele também pode brincar”, “mas eu quero também brincar agora e eu quero já”. “Não, vai brincar um pouco ele, vai brincar um pouquinho você” e isso é sofrido, não é uma coisa tranqüila, que a criança vai falar “ai que bom”. Quando o adolescente está explorando limites e possibilidades e ele descobre que se ele tem novos direitos, os demais também são portadores dos seus. Assim o som alto que lhe agrada perturba o direito ao silêncio do vizinho e a velocidade do seu carro põe em risco a vida de pessoas.
O autodesenvolvimento, acredito, é uma das principais contribuições de uma perspectiva religiosa não simplista. No judaísmo, isso se relaciona com a elevação da matéria. O papel do ser humano não é negar a matéria, mas elevá-la. Não que a carne seja apresentada como negativa ou que o mundo material seja apresentado como algo de que se deve fugir. Nosso papel é fazer com que o mundo se eleve, melhore e isso passa por um profundo trabalho de elevação individual, condição necessária para elevação da matéria. Devemos cotidianamente, para nos desenvolver como seres humanos, fazendo nossa alma animal crescer em diálogo com a alma divina, a centelha que nos dá vida e sentido.. O mesmo ocorre no mundo da matéria: o mundo não é ruim, a matéria não é ruim, a riqueza não é ruim. Não precisamos necessariamente desenvolver um ascetismo; pelo contrário, precisamos conviver com a riqueza sem sermos engolidos por ela. Temos que colocar este lado material a serviço do desenvolvimento da humanidade. O eremita que vai para um deserto, num certo sentido tem uma vida mais simples. Difícil é viver no mundo e colocá-lo a serviço do desenvolvimento pessoal e social. Se me isolo não sou tentado por nada, não tenho inveja de ninguém. Não é que seja errado optar por este tipo de vida, mas é muito mais difícil estar nesse nosso mundo cheio de desafios que nos remetem ao egoísmo, ao hedonismo e, neste espaço, trabalhar para que a humanidade também se desenvolva.
Uma das questões centrais que o pensador francês Edgard Morin levanta é que, os saberes são apresentados de uma forma muito compartimentada e a criança ou o jovem não percebe que o mesmo homem que está submetido às leis da natureza é o que se questiona sobre as leis da natureza. Essas coisas se interligam, não são coisas separadas. A matemática e o francês são duas linguagens: a matemática pode ser aprendida como se aprende uma língua estrangeira, que dizer, uma linguagem.
Seria a religião capaz de ser um desses impulsionadores desse questionamento? Sim, se ela for perseguida de uma forma mais elevada, porque durante muito tempo as religiões funcionaram como caladores de vozes. O questionar-se não era aceitável. Você recebe a revelação, recebe as verdades, apresentadas como axiomas, dogmas e não se tem o direito de questionar. Nesse processo, muita gente vira agnóstico ou ateu. Isso porque a religião tal como muitos de nós a aprendemos não fornece as respostas que uma pessoa com maior profundidade de reflexão faz. As respostas da religião soam como algo impossível de ter acontecido, porque a razão diz que seria impossível. Quando você consegue fazer perguntas e entender, percebe que a religião dá um outro nível de explicações e que se consegue alcançar algo dificílimo, o aprendizado da humildade. Não aquela falsa humildade, resultante de baixa auto-estima. Trata-se da humildade que vem com o conhecimento, condição para uma relação mais profunda com a religião. Trata-se de saber que a razão dá algumas respostas, mas não todas e que nem por isso precisa parar de estar permanentemente se questionando.
A falta de humildade certamente nos leva a uma postura que não permite o aprendizado, aí nos tornamos um velho precoce por não sermos capazes de incorporar idéias novas. George Orwell afirma que uma pessoa se torna velha quando fecha a mente para idéias novas.
Como harmonizar estas idéias para promover o desenvolvimento? Há duas questões que muitas vezes são apresentadas como contraditórias e que têm de ser equacionadas. Uma é o combate à pobreza e a outra o desenvolvimento econômico. O nó todo que estamos vivendo no país hoje é, como lidar com o equilíbrio monetário, quer dizer, evitar a volta da inflação, promover sustentabilidade econômica para o nosso desenvolvimento e ao mesmo tempo combater a pobreza. Há contradições, quando a taxa de juros fica extremamente elevada para proteger a nossa moeda. E num certo sentido isto é importante, porque se nós tivermos inflação, quem mais paga a conta na inflação são os pobres. Por outro lado os juros altos implicam menos dinheiro para o investimento e tendo menos dinheiro para o investimento, há menos empregos, a sociedade se desenvolve menos e, portanto, há mais pobreza.
Não tenho uma receita para resolver esta equação, mas tenho algumas intuições. Primeiro, temos que ter coragem de fazer com que o gasto social não seja voltado para a classe média. Isso significa repensar o papel do Estado. O Estado no Brasil não foi desenhado, não foi concebido para prestar serviços públicos e para melhorar a situação da população mais pobre. Sua origem está ligada à geração de emprego e renda, especialmente por meio da marca registrada de nosso sistema político que é o clientelismo e para baratear o custo de produção de capital, fazendo uma série de investimentos em infra-estrutura. Neste sentido, precisamos dotar a máquina de regras e processos de trabalho mais adequados para implementar políticas sociais competentes e combater a pobreza. Precisamos acabar de redesenhar o Estado para fazer com que o gasto social seja um gasto voltado para os mais necessitados. Pensar em mecanismos mais corajosos de política monetária que não impactem de forma tão perversa a geração de emprego. Para tanto é necessária uma boa dose de coragem.
A coragem é, no entanto, um valor elevado desde que não seja marcado por uma visão messiânica. Uma coragem não arrogante e que tem que estar caminhando com duas coisas: a capacidade de ouvir e a competência para fazer. A idéia totalmente original pode ser rica, mas é fundamental consultar a população beneficiária, especialmente quando se trata de políticas públicas. Da mesma forma, não basta idealizar um caminho original, mesmo que respaldado pelo apoio popular, é importante saber trilhá-lo.
Mas tenho um pouco de medo da palavra “coragem” dado o risco da sua identificação com a onipotência. O fascismo reforçou um estereótipo ligado à virilidade, à capacidade de decisão rápida e ação. Em contrapartida, a democracia é percebida muitas vezes como lenta.Mas nada mais seguro que o processo de formar consensos demandado pelos regimes democráticos. Pode não soar viril. Pode parecer moroso e não conclusivo. Mas permite que o outro seja ouvido, que as múltiplas leituras sobre uma mesma realidade sejam postas na mesa. Isto para a juventude pode parecer uma loucura. “Se você já sabe o que tem que ser feito porque já não sai fazendo?” Ora, o que sei que tem que ser feito pode ser diferente do que o outro sabe que tem que ser feito. Aí está o problema das ditaduras. Elas têm uma aparência de velocidade, de coragem, mas se constroem com base apenas na visão limitada (por humana) do líder.
O importante é cidadania. Acredito em cidadãos que saibam cobrar, porque não existe um líder perfeito. Os dirigentes públicos são seres humanos, têm suas limitações e, neste sentido são frágeis, têm seus interesses egoístas e não adianta esperar que sejam uma super pessoa.. Agora, se são confrontados constantemente com a imprensa livre, que vai exigir uma explicação para seus atos, aumentam as chances de se ter um bom governo. Se os parlamentares que estão no Congresso recebem constantemente cartas dos eleitores protestando porque eles votaram numa lei que contraria o interesse público, porque fizeram concessões não aceitáveis, temos muito mais chance de ter bom governo. O que faz bons governos é uma população bem formada e preparada para cobrar os governantes. Neste sentido, o bom governante é aquele que deixa a população bem informada, podendo crescer e se desenvolver. O líder que tem medo do desenvolvimento do seu povo é, certamente, um péssimo governante.
O governante pode se pautar numa visão religiosa do mundo? Ora, tudo depende de como nós definimos religião. Há uma oração que fazemos duas vezes por dia, antes de dormir e quando acordamos. Ela fala que essas verdades que regem a nossa vida têm que estar nos umbrais da porta, perto do coração e na cabeça, e que ensinemos nossos filhos a fazê-lo.Isto significa que a casa se rege pelos valores da Torá, o meu fazer e o meu coração serão regidos pelos princípios da Torá e minhas idéias também assim se pautarão. O que é isso? É teocracia? Não, é dizer que aqueles valores, a ética judaica regerão as suas ações. Eu não vou ajudar uma instituição de caridade e depois no meu dia a dia no trabalho agir de forma corrupta, não solidária, em desacordo com os valores que aprendi. Toda a prática, o fazer, o sentir e o pensar estarão associados a essa ética e a esse esforço por auto-elevação e elevação da matéria.
abril 14th, 2008 at 21:16
Oi Cláudia,
Tb acredito muito no projeto humano. Elevar-se não é galgar outro status, mas alcançar novos cenários. E tudo está dentro, a mudança começa em nós. Valeu muito a reflexão do texto.
Parabéns!
abril 20th, 2008 at 10:24
Olá, Cláudia!
Fiquei fascinado com seu texto.
Quanta clareza e inteligência!
Concordo plenamente com você.
Até porque, ao meu ver, só há desenvolvimento da humanidade a partir do momento em que o homem se tornar livre de amarras que ele próprio construiu ao longo de sua história.
A hipocrisia de alguns não pode superar os aspectos éticos que permeiam a dignidade do ser humano.Parabéns!