Euclides Marchi
A leitura do texto Ciência, Religião e Desenvolvimento suscitou-me algumas reflexões sobre os diferentes papéis da ciência e da religião no debate sobre o tema do desenvolvimento e sobre os antagonismos que marcaram o uso destes conceitos na explicação da realidade social e científica.
Freqüentemente as duas foram consideradas como conceitos excludentes. A ciência empenhava-se em negar pressupostos da religião nas explicações do mundo físico e das realidades sociais e a religião opunha-se e dificultava os avanços científicos, sobretudo quando estes negavam os princípios da espiritualidade e construíam suas explicações a partir de fundamentos materiais.
Hoje, ciência e religião conseguem manter um diálogo que não é apenas complementar. É uma somatória de contribuições que podem ressignificar o conceito de desenvolvimento e contribuir para novos encaminhamentos em relação aos processos de superação das dificuldades enfrentadas pela sociedade contemporânea. Dessa maneira, as suas especificidades não são entendidas como mecanismos de exclusão, mas como características próprias de cada conceito.
As contribuições da ciência para o desenvolvimento sócio-econômico fundamentam-se em metodologias de pesquisas que visam a melhorar tanto os processos produtivos quanto o bem-estar da sociedade. Em larga escala, superou os preconceitos contra a religião e passou a valorizar também os aspectos culturais, sociais e antropológicos presentes no homem e na sociedade. Por sua vez, a religião ao construir suas explicações, fundamenta-se nas questões propostas pela teologia e pela moral, entre outras, evitando contrapor-se às conclusões das descobertas científicas. Ambas, ciência e religião, ao incorporarem os valores humanos, a cultura e a ética, buscam tratar o homem na sua globalidade e na sua totalidade.
As históricas disputas e o jogo de forças que marcaram os embates entre ciência e religião sobretudo quando tratadas sob o ponto de vista institucional ou quando dependiam das pessoas que nelas militavam, mais do que progressos na descobertas científicas ou teológicas, refletiam os processos de apropriação e institucionalização desses conceitos. Desse modo, ciência e religião no seu estado conceitual, nas suas metodologias de pesquisa, nas suas descobertas e reflexões, no conjunto dos seus rituais e procedimentos específicos não podem ser confundidas com os usos ideológicos que delas fazem os seus especialistas.
Cabe então ressaltar que ciência e religião “de per si” não se opõem, nem se amordaçam. E, se considerarmos que elas são a expressão das diferentes modalidades de apropriação e de uso, os possíveis antagonismos e embates refletem os posicionamentos ideológicos e os interesses dos que delas se apropriaram. Assim, tanto os mecanismos de amordaçamento das manifestações científicas, quanto as tentativas de exclusão de toda e qualquer manifestação religiosa na compreensão do mundo refletem, a meu ver, a luta pelo controle das idéias e do comportamento dos homens. Por isso, em respeito à história, há que se dizer que esse processo reflete o comportamento daqueles que delas se apropriaram e as utilizaram ideologicamente em benefício próprio ou para se sobrepor e controlar o surgimento das novas idéias.
As tentativas de se impor à sociedade uma única forma de explicação da realidade ou de manifestação da religiosidade, como se fosse a única verdadeira, não passa de mero reducionismo. Vejo, sobretudo com muito cuidado, o que as instituições religiosas fazem, especialmente quando querem institucionalizar práticas religiosas ou voltar aos tempos em que se buscava impô-las como únicas e verdadeiras. É muito difícil admitir-se que alguém que pratique uma religiosidade sadia possa comportar-se dessa maneira.
Outro aspecto que gostaria de ressaltar é que no interior das corporações religiosas há pessoas que detém o monopólio do conhecimento, transformando-o em instrumento de poder, seja ele do ponto de vista religioso, seja do ponto de vista científico. Talvez, ao se tratar da ciência isso não tenha ocorrido com tanto vigor como no interior das instituições religiosas. Em que pesem as dúvidas, acredito que o controle da ciência percorreu um caminho mais linear e com maior aceitabilidade. Todavia, uma coisa é certa: ela também se constitui como um mecanismo de poder. Tem sua própria moral, sua ética, tem todo um domínio próprio. Ela não é amoral e também se constitui num objeto de apropriação.
Tomemos como exemplo os procedimentos para se chegar à produção de um medicamento. Ele é propriedade de um laboratório, de um grupo de investidores ou de um país, converte-se numa patente e fica sob controle de interesses específicos em que pese sua relevância para a saúde da população.
Quando a ciência avança em determinadas esferas do saber que eram dominadas pelo poder religioso, consegue com certa facilidade “desbancar”, o domínio de determinadas “verdades”, provocando a descrença sobre valores religiosos utilizados para explicar a realidade. Nesse sentido a ciência contribui para a perda do controle das “verdades” impostas e permite que outros grupos e outras tendências religiosas, apresentem novos caminhos. Ao apresentar novas alternativas para a compreensão do mundo e da realidade, ao atacar dogmas e verdades historicamente estabelecidas provoca reações sobretudo de determinadas organizações. Hoje, salvo engano, observa-se que há maior facilidade de diálogo entre posicionamentos religiosos e científicos, especialmente se não prevalecer o fanatismo de ambas as partes.
Isso ocorre porque a ciência já não se julga tão detentora da verdade como ocorreu em outras épocas e porque a neutralidade cientifica já não é tão neutra para que se permita fazer qualquer coisa em seu nome e se considere que o seu único objetivo é buscar benefícios para a humanidade. Se isso fosse realmente verdade, estaríamos diante do surgimento de um novo paradigma de homem. Ou seja, ao invés de simplesmente tentar impedir o avanço da ciência, far-se-ia uma discussão sobre o sentido da ciência. Porque também a ciência, da mesma forma que a religião, em determinados momentos, teve uma posição salvacionista da humanidade. Tomemos o exemplo da energia nuclear: quando a humanidade se deu conta da sua verdadeira dimensão? No dia em que ela foi transformada numa bomba atômica e matou centenas de milhares de pessoas em poucos instantes. A idéia de se substituir o Deus das religiões pela divindade da ciência ou de se trocar o salvacionismo religioso pelo científico, de repente, caiu por terra. Tanto quanto a religião, a ciência se mostrou vingativa e atacou o homem e o desenvolvimento científico utilizado de maneira distorcida, de repente, apavorou a todos. O uso equivocado é tão pernicioso quanto o fanatismo religioso.
Outro aspecto que merece atenção é a tentativa de se explicar o desenvolvimento apenas sob o ponto de vista científico. Esse pseudo “paradigma de desenvolvimento” que prometia bem estar a todos, levou milhares de pessoas à miséria e à desgraça. Defendiam-se teses de que o modelo de desenvolvimento adotado salvaria a humanidade, que a sociedade seria liberta da fome e das doenças e teria uma vida de bem-estar. Essas teses são questionáveis, sobretudo porque, proporcionalmente, há mais gente passando fome hoje do que havia há um século ou há algumas décadas atrás. Portanto, esse modelo também representa uma forma de apropriação dos bens econômicos e pode provocar tantas desgraças quanto qualquer outro quando for apropriado de maneira inadequada.
A essas considerações soma-se a necessidade de diagnosticar o conjunto dos valores que uma sociedade elege como elementos que a identifica e preserva seus costumes e práticas cotidianas. A meu ver, os valores estabelecidos e aceitos coletivamente definem as formas de comportamento, as políticas sociais e o modelo de desenvolvimento. Os valores, as crenças e o significado dado à produção do conhecimento contribuem para evitar equívocos nas opções feitas pela sociedade e pelo estado. Não se pode pressupor uma ciência cujos efeitos não contribuam para melhorar as condições de vida da sociedade. O cientista também é cidadão e tem responsabilidade social, participa da cultura e tem valores. Além disso, o progresso científico tem uma historicidade, é produzido num determinado momento, com um determinado objetivo. Portanto, seria totalmente inadequado admitir que o cientista é um ser despido de qualquer perspectiva social; isto é, um cidadão absolutamente esterilizado, imune a tudo o que ocorre ao se redor.
Por esta e por outras razões, entendo a ciência e a religião como manifestações sociais específicas de momentos históricos determinados e, portanto, porque não é pertinente colocá-las em trilhos opostos, mas entendê-las como formas diferentes de manifestação da sociedade.
Assim, se hoje as religiões se abrem para novos diálogos, o mesmo ocorre com a ciência e por meio dele abre-se um caminho para ultrapassar o exclusivismo de um determinado saber.
A leitura do texto Ciência, Religião e Desenvolvimento também levou-me a pensar sobre o dilema do atual modelo capitalista de desenvolvimento. Mais do que nunca prevalece a idéia de que o valor das pessoas reside na quantidade de bens que elas conseguem acumular. Esse dilema se defronta com duas realidades: a inclusão e a exclusão. Ou seja, estabeleceu-se um paradigma de homem que serve apenas para alguns. Esta talvez seja a maior dificuldade que o atual modelo interpôs no seu próprio caminho e que inviabiliza os avanços na direção da equidade e igualdade entre os homens. Isto é, ao colocar o desenvolvimento sob o foco da apropriação de bens, construiu a idéia de que o homem feliz é aquele que tudo tem. No entanto, esta não é a realidade das sociedades contemporâneas. O grito dos excluídos, além do medo, angustia a todos.
Esse grito impõe uma nova tarefa a toda a humanidade na luta pela construção de um novo modelo de desenvolvimento: mudar o paradigma de homem. Tanto a ciência, quanto a religião, são instadas a definir as condições mínimas de vida de uma sociedade para que seus habitantes possam viver com dignidade E, se é possível estabelecer o mínimo, esse novo paradigma poderá prever também o máximo, contribuindo para que o conceito de apropriação deixe de ser individual e assuma sua condição de coletivo.
A partir do momento em que as diferenças sociais de um grupo geram perdas ao outro ou que a condição de vida de uma parcela da sociedade começa a bater à porta da outra, creio que o modelo chegou ao seu limite e é preciso rever os valores. Se o conceito de cidadania é um conceito coletivo e deve ser visto como um bem disponível a todos, então é chegado o momento de mudar de paradigma. O sucesso desse empreendimento requer que tanto a ciência, quanto a religião não se coloquem em campos opostos.
A necessidade de mudar de paradigma fundamenta-se em duas situações extremas: a primeira se caracteriza pelo medo que uma parcela da sociedade tem de perder sua atual condição de vida; a segunda pela solidariedade, ou seja, quando se percebe que a condição de vida de alguns prejudica a dos demais, resta apenas o caminho da solidariedade. Portanto, ou a sociedade assume a solidariedade como um valor social ou viverá dominada pelo medo. Ambos podem ser considerados valores, só que enquanto o medo é expresso em termos materiais, a solidariedade é um bem social, é a valorização da cidadania e do imponderável.
O caminho do medo talvez seja o pior dos caminhos, porque não basta blindar o carro, contratar guarda-costas e armá-los, imaginando estar protegido. Quanto maior o arsenal de proteção, maior o risco, porque todo esse arsenal é um indicador que algo está sendo protegido. Por esta razão a alternativa possível é repensar a dignidade do cidadão, rever a distribuição da renda e os processos de inclusão social, reconceituar a cidadania, redefinir o paradigma do desenvolvimento.
Essa redefinição sustenta-se em diversos pilares, os quais, juntos, definirão o processo de transformação social.
Um dos pilares mais representativos para um novo paradigma de desenvolvimento é a educação, considerada como um dos mais importantes mecanismos de socialização do conhecimento. Educação entendida não somente como escolaridade, mas como algo maior, como produção, apropriação e transmissão do saber e, portanto, como um caminho para o desenvolvimento e como possibilidade para que as pessoas cultivem as diferentes formas de convivência. Nesse contexto a escola desempenha um papel fundamental como local que facilita a apropriação do conhecimento disponível. Ela se constitui numa instituição essencial na transmissão dos valores, na construção da ética e da cidadania; portanto, uma instituição capaz de ajudar a alavancar o desenvolvimento econômico e social, contribuindo para o acesso da população aos bens materiais e morais rumo à igualdade. Ela se torna o local privilegiado para se trocar, para se adquirir e para se criar novos valores. É um espaço de convivência, de contato com o diferente, do pensar diversificado. Ou seja, pode ser uma excelente oportunidade para a construção da cidadania.
Todavia, há que ver a escola também como um local onde afloram interesses e orientações diversificados. Nela, tanto se pode trabalhar com o conceito de cidadania, como promover e valorizar a desigualdade ou promover a asfixia ou negação de valores, caso se omita na tarefa de criar as condições para a discussão da sociedade e de seus procedimentos. Mesmo assim, caso isso ocorra, não há como negar que a simples convivência entre os alunos já é um fator de troca de valores. Ela se constitui de espaços públicos nos quais as pessoas trocam as suas experiências, falam de suas crenças, de sua religião, de suas superstições e daquilo que lhes é mais caro. O pernicioso seria se a escola dissesse: “só há uma única verdade”, se filtrasse valores, se impusesse uma religião ou desqualificasse a religiosidade.
Dito de outra forma, seria absolutamente maléfico um sistema educacional que impedisse a discussão de valores em sala de aula, inclusive aqueles defendidos pelas diversas organizações religiosas. Ao contrário, será benéfico quando instigar a realização de debates sobre as formas ecléticas de manifestação do pensamento, das crenças, das vivências e das práticas quotidianas. Quando valorizar o diferente, aquele que não é o da exclusão, da apropriação dos bens materiais, mas o da valorização das múltiplas possibilidades de se pensar o diverso que se soma. O diferente como percepção da alteridade, como forma de existir e de se realizar.
Outro pilar que se constitui como paradigma do Desenvolvimento é a justiça. A ela cabe estabelecer as normas de convivência de uma sociedade para que todos tenham dignidade e liberdade para agir. Uma justiça construída coletivamente e aceita como instrumento de equilíbrio na convivência das pessoas. Caso contrário, se ela se limitar às individualidades, perderá seu caráter social e transformar-se-á numa instituição defensora do interesse individual. Nos seus diversos níveis, isto se refere tanto à comunidade internacional, quanto ao cidadão individualmente. Por isso, também a justiça deve ser historicizada, para poder ser conceituada e entendida e para que se possa estabelecer os parâmetros de comportamento de uma determinada sociedade. Comportar-se diferente, significa estabelecer outros padrões e eleger outros referenciais.
Para que esses referenciais tenham validade não podem nascer de um simples acordo entre partes. Devem estar acima e além delas e devem precedê-las. Sem isso, o que seria “fazer justiça”?
Fazendo uma fusão destes questionamentos com aquilo que apontam as organizações religiosas, parece haver uma certa precedência dos valores religiosos sobre os padrões de comportamento definidos pelas normas da justiça. Exemplo disso é a máxima: “todos são iguais perante Deus”. Se na prática isso ocorre não sei, mas é uma tentativa de estabelecer um plano de igualdade entre as pessoas. As religiões colocam essa igualdade como meta a ser atingida. A maioria das religiões não tem um objetivo terreno e material; elas nos remetem a outra esfera de perfeição, fora do mundo da materialidade.
É interessante observar como os formuladores das políticas sociais, às vezes, negam-se a aceitar que as pessoas são portadoras de valores que se geram comportamentos distintos do conjunto dos comportamentos sociais. São os valores espirituais e essa espiritualidade é entendida como um indicador da capacidade de se colocar em prática a solidariedade, a generosidade, a justiça. Indicador que não é entendido como instrumento, mas como meta.
Finalmente, cabe ressaltar que essas são apenas algumas reflexões, passíveis de muitos questionamentos, até porque, a humanidade está sendo colocada em xeque, está sendo instada a optar por um ou por outro caminho. Por isso, embora se questionem os procedimentos adotados pelas instituições religiosas no trato do tema da religião, há que se reconhecer que a religiosidade permeia os atos e comportamentos dos homens e que as instituições religiosas buscam apropriar-se deles, institucionalizá-los e submetê-los a controles. Quando nos atemos aos livros sagrados, como por exemplo a Bíblia, Alcorão e outros, percebemos que afloram as semelhanças, enquanto as diferenças ficam por conta dos mecanismos criados para se apropriar e institucionalizar as experiências históricas da vivência religiosa.
Desta forma, ciência e religião, consideradas como componentes estimuladores do desenvolvimento, significam a possibilidade de ousar ou de construir novas ordens sociais e as mais significativas são aquelas não institucionalizadas. As instituições, muitas vezes, cumprem outro papel, o do controle e apropriação da religiosidade e do conhecimento, da institucionalização das práticas e rituais, da fé e das descobertas científicas.
setembro 23rd, 2007 at 09:15
estive a ler esta matéria , fiquei muito satisfeita com este site, pois me ajudou muito .
OBS:nOTA 10
maio 19th, 2008 at 17:28
Oi Euclides,
Super lucidez está de transcender o limite das instituições. Seu texto está ótimo. Parabéns!