Guacira Oliveira
Podemos afirmar que os valores e a ética encontram-se apenas na religião e o conhecimento racional na ciência? Seria a ciência orientada por valores e por uma ética própria? Entendo que existem valores nas ciências, que existe uma ética nas ciências. Faço esta reflexão no plural, por não aceitar as coisas no singular, uma vez que nós somos por demais reducionistas, nos afastando muito da realidade.
Também creio que não devamos utilizar o termo religião no singular e sim no plural, num conceito que agregue as várias religiões, retirando destas os rituais e o fundamentalismo.
Assim, é possível conciliar religiões e ciências. A ciência por um lado, cada vez mais admite suas próprias impossibilidades, cada vez mais reconhece seus limites para analisar determinadas questões e com isso abre um espaço maior para outras “ciências”, para outras interpretações do mundo, valorizando tais interpretações de uma maneira diferente de uma verdade dita cientifica, soberana. Existe atualmente um movimento da própria ciência visando reconhecer e valorizar outras visões do mundo. Assim, a convivência dessas duas visões de mundo é perfeitamente viável, possível, porque a ciência está se abrindo para isso. De outro lado, o conflito religioso nos dias atuais tem uma capacidade destrutiva tão grande quanto às disputas e à concorrência de mercado. Então, como discorrer sobre os meios de se conciliar estes dois temas? Há que se trabalhar muito para se desconstruir uma percepção ultrapassada e encontrar o espaço para a conciliação, o espaço da aceitação das diferentes visões e interpretações do mundo, o espaço onde sejam aceitáveis diferentes formas de viver. É esse espaço que estamos construindo.
Se é inegável que as ciências têm valores e parte dessas ciências não estão dedicadas ao ser humano, não têm nele o seu centro, o seu objetivo maior, a sua meta, às vezes, por outro lado, os valores são completamente alienados da religiosidade. Por mais transformadoras que sejam e apesar de promoverem muito mais a justiça e a paz, em vários momentos, as religiões agiram com violência para manter o seu poder. Essa é a história da civilização. Os poderes são mantidos a força e as religiões se mantiveram através do uso da força. A religião engessou-se como forma institucionalizada da espiritualidade.
Harmonizar a religião com a ciência e tratar da sua influência no desenvolvimento torna-se, então, algo desafiador, se não impossível. Há que se discorrer sobre o conceito de desenvolvimento, onde ele foi engendrado, qual o seu objetivo e o que queremos com o desenvolvimento.
Para as Nações Unidas, o que importa é o desenvolvimento humano. Existe toda uma definição calcada no respeito aos direitos humanos. Falamos muito em desenvolvimento econômico e social e terminamos por esquecer o humano. Continuamente qualificamos o desenvolvimento gerando-lhe diretivas de maneira a torná-lo razoável, aceitável, palatável, vendável. Mas, no fundo, mantemos aquela idéia primeira de desenvolvimento que é da modernidade, do desenvolvimento tecnológico, urbano. Nessa visão, um Ianomâmi não será considerado desenvolvido jamais. Esse termo não é aplicável para um Ianomâmi. No seu caso, o termo adequado seria o da prosperidade. Entendo que prosperidade para um povo é viver respeitando a sua cultura, as suas tradições, é ter a solidariedade para com o próximo, seja este oriundo de outras facções, de outras culturas, de outras religiões. Trata-se de reconhecer as verdades da raça humana, assegurando-se a cada um o seu espaço. Se um cidadão não garantir o direito do outro, se um povo não garantir o direito de outro povo, então, não teremos prosperidade no sentido da harmonia, da justiça. Irá prevalecer a concorrência, a violência, a disputa e principalmente a dominação de um sobre outro. Há que se ser solidário com o outro, reconhecer o outro e lutar pelos direitos do outro. Ser solidário é lutar por um direito que não é o seu. Há que se construir culturas solidárias, pois esta é a possibilidade que temos para ensejar a justiça, a eqüidade, e também a solidariedade.
Quando um ser humano se anula perante outro, existe então uma relação que não se processa de maneira pacífica. É uma violência, que pode ser de cunho psicológico, uma violência muito sutil que permite o comando da sujeição. A relação mais elementar de dominação que existe é a relação de dominação do homem sobre a mulher. Observamos que mesmo na base da sociedade, na célula mais simples que é a família, a marca da violência ali está assentada. Essa dominação não acontece de maneira consentida, de forma simples e pacífica. É evidente que não se trata apenas da responsabilidade de cada pessoa, mas é inegável que esta pesa sobre as nossas pequeninas, íntimas e insignificantes histórias individuais, que terminam por validar algo que vem de milênios, fazendo parte da própria história da humanidade. Outras submissões, outros sistemas de dominação foram se sobrepondo ao longo da história da civilização, mas entendo que a dominação patriarcal é a mais antiga dentro do processo civilizatório. O desafio é as pessoas se empoderarem, porque não acredito na possibilidade de alguém transmitir, de dar poder ao outro. O empoderamento das mulheres mudou muito a sociedade em todo o planeta. É a própria pessoa que conquista o seu poder e que o exercita. Uma vez estando empoderado o indivíduo pode agir pela justiça, com a solidariedade que abordamos acima, respeitando os outros e não se submetendo aos outros. O empoderamento poderia ser análogo à autonomia, uma vez que isso implica a possibilidade de relações pacíficas, respeitosas, educativas, igualitárias, solidárias.
Estamos passando por uma crise global de valores. Se não avançarmos no sentido da prosperidade, poderemos resvalar para o da barbárie. Temos um senso de humanidade, de cooperação, de colaboração, de todos aqueles valores que estão impregnados em cada um de nós. É por essa razão que temos conseguido evitar a barbárie. Creio que estes valores podem ter sido adquiridos através da religião.
O feminismo problematiza essa questão. De um lado falamos em produção de riquezas no setor produtivo, que depende dos meios de produção, que assegura o lucro para si mesmo; e de outro discorremos sobre a classe trabalhadora que coloca a sua força de trabalho para produzir e gerar essas riquezas que, em alguma medida, oferece as condições mínimas de sobrevivência de muitos e o lucro de poucos. O feminismo problematiza aspectos que a economia hoje não trata, relegadas a um plano absolutamente irrelevante das relações econômicas. Qualquer trabalho não remunerado não é visibilizado. É desvalorizado do ponto de vista econômico e do ponto de vista social é desqualificado. Um trabalho honesto que a mulher em geral faz dentro da casa, não gera lucro, não produz riqueza, caindo então na desvalorização e desqualificação total. Ao contrário, quando se faz uma guerra, se fala de todo o aquecimento da economia gerada pela guerra, pela venda de armas e tudo o que se destrói tem como contra-partida a capacidade de sua reconstrução. O feminismo ao analisar o mundo busca um novo significado para as relações na sociedade. A economia é um instrumento que tem que estar a serviço da felicidade humana. Se ela não servir para isso, do ponto de vista dos nossos valores, não está servindo para nada. Empoderar as mulheres, dar-lhes autonomia significa também abrir horizontes, criar possibilidades para uma transformação inclusive do ponto de vista econômico, para que a economia de fato esteja a serviço desse bem estar humano.
No mundo político a situação da mulher não é diferente. Ainda hoje, mesmo com a presença da sociedade civil nos mecanismos de gestão, de distribuição dos direitos do Estado, as mulheres ainda são as grandes ausentes. Produzir justiça nessas esferas de governança significa ter a capacidade de distribuir direitos até para quem não está dentro do aparelho do Estado.
Essa participação profunda da mulher transforma toda a existência humana e a educação é uma parte fundamental dessa transformação. Seja a educação no sentido formal ou a educação no da vida social de cada pessoa, de cada comunidade, de cada povo. A educação formal hoje está, como não poderia deixar de ser, a serviço dos valores que são hegemônicos na sociedade. Infelizmente estamos vivendo um momento de crise, mas felizmente existem possibilidades e está em desenvolvimento a transformação do processo educativo, do processo de socialização das pessoas dentro da nossa sociedade. A educação reúne o fundamental para a transformação da sociedade e para a manutenção dos valores que são nela inseridos. Ser capaz de desenvolver uma educação transformadora, seja no âmbito da família, seja na escola ou na comunidade, de alguma maneira é também uma possibilidade de transformação. As subjetividades se constroem a partir de um lugar objetivo que se ocupa no mundo. É possível que uma pessoa do sexo masculino tenha condições de ter uma vivência mais feminina. Uma nova forma de agir no mundo poderá torná-lo mais pacífico.
Na minha experiência pessoal, valores como justiça, solidariedade, igualdade, foram construídos no materialismo, de militante comunista. Portanto, penso que eles podem vir de qualquer lugar.
Certamente que a religião pode oferecer a justiça, como também outros valores importantes, que levam cada um a buscar a felicidade para si e para os outros. Esses valores podem estar despidos de religiosidade ou mesmo de espiritualidade. Existem pessoas que admiro profundamente, como Apolônio de Carvalho, um militante comunista, ainda vivo, tendo aproximadamente 90 anos de idade. Apolônio participou da resistência na II Guerra Mundial, veio para o Brasil, foi companheiro de Luis Carlos Prestes na criação do Partido Comunista e depois foi para a Europa. Era um comunista convicto, mas um ser humano de uma beleza, de valores fortes em seus pensamentos. O comunismo na forma como ele ou Martin e essencialmente Engels definiram, é muito lindo: igualdade para todo mundo, de uma sociedade onde todos se respeitariam, a utopia comunista. Talvez naquele momento histórico, poucas religiões fossem capazes de verdadeiramente promover essa utopia, de lutar por eles. Se temos de um lado um Dalai Lama completamente orientado numa concepção de religião, por uma prática religiosa, de outro vejo o Apolônio de Carvalho, sem a liderança do Dalai Lama, mas ambos homens valorosos por sua luta para tornar todos os seres humanos um só. De ambos os lados, podem vir as piores desgraças. A minha experiência individual foi assim. Hoje eu acho que sou uma pessoa espiritualista, não sou mais comunista, mas reconheço que a minha militância política, os valores que construí, essa idéia de humanidade, foi muito construída nessa militância política.
No caso do materialismo você tem que responder por si próprio em um dado momento e essa é toda a sua possibilidade. Você nasce, leva sua luta como um comunista, como um Apolônio de Carvalho, um dia você morre, fez o que tinha que ser feito e então acabou. Não existe nenhum desdobramento. Numa concepção religiosa, o sentido está muito além da sua própria vida. O materialismo traz onipotência, que foi o motor da história durante determinado momento. Esses ideais acabaram com essas pessoas e a justiça ficou numa concepção espiritualista, dentro de uma realidade que ultrapassa a sua própria existência, que ultrapassa a nossa própria racionalidade. Havia muito do racional na onipotência materialista. Então se racionalizava a sua possibilidade de transformar o mundo. Numa concepção mais espiritualista, o futuro a Deus pertence.
maio 19th, 2008 at 17:18
Caríssima Guacira,
Estou me organizando para participar do evento sobre o tema no dia 10 de junho de 2008 em Brasília.
Será uma oportunidade de aprofundar a questão no debate com os escritores.
Parabéns pela lucidez do texto.