Joaquim de Almeida Mendes

Não sou favorável ao desenvolvimento, em algum dos aspectos, como está sendo implementado. Imagino não ser esse o desenvolvimento da humanidade que nós queremos. Será o desenvolvimento exógeno ou endógeno ou será algo mesclado que possa vir a atender as perspectivas do ser humano sem lhe descaracterizar? A globalização tem fatores positivos para o desenvolvimento, mas ainda tropeça. A globalização não atende, por exemplo, ao preceito religioso dos povos. Querem impor ao islamismo um desenvolvimento ocidental; querem impor ao Japão valores de desenvolvimento ocidental etc. Dentro dessa perspectiva, as pessoas irão se conter até um certo ponto-limite e desse ponto em diante paradigmas serão quebrados. Muitos se sentirão sem referenciais e o processo desenvolvimentista será retardado por milênios, ocorrendo um imenso retrocesso na Civilização.

À medida que o ser humano começa a trabalhar a sua vida interior, a sua ligação com o divino, ele começa a ficar mais harmônico. Porque o divino é simples, é essência. A harmonia com o divino tem que ser resgatada lentamente para o ser humano. Onde é que está ocorrendo o distanciamento dessa harmonia nesse momento? Por exemplo: o brasileiro está, por assim dizer, se televisionando. Ele é guiado hoje por valores televisivos. Se entendo que o ser humano é harmônico, então para os valores que interessam, sinto que estão querendo iludi-lo, gerando um medo ilusório, gerando o desejo do consumismo, transformando-o por fim em um ser realmente teleguiado. Mas há também um pouco de harmonia nesse caos. Se alguém tem um valor harmônico ainda que seja um teleguiado, este valor pode ser trabalhado também dentro de aspectos psicológicos junto com a ciência para que ele seja um sujeito mais ainda. Harmônico com a mãe terra, harmônico com a Natureza.

Mas ele tem que imaginar que vive aqui, onde, como disse São Francisco de Assis, está a minha mãe terra que aos pés dá segurança de chegar. Isto posto, entendo que ele deve imaginar o pisar na terra, com aquela reação normal que o recebe. Entra aí a ciência mostrando a ele a física. O atrito no calcanhar que lhe faz ir para frente, ao caminhar, não é algo que possa ser despercebido: trata-se de uma harmonia, uma dança que ele está tendo com a terra. O caminhar dele sobre a terra é um gesto de amor. A partir do momento que se começa a cobrar esse tipo de amor do ser humano, ele começa a se aperceber de como seria o seu dia se o sol não nascesse de manhã. Como seria a sua vida se imaginasse que não existe mais o sol? Iremos compreender que iremos morrer, fenecer, porque quebramos a harmonia. Podemos deixar de ter sol na medida em que se jogam bilhões de toneladas de poluentes na atmosfera criando nuvens que irão acabar impedindo o sol de brilhar ou, então, esburacando a camada de ozônio e pondo tudo a perder.

Um dos caminhos é harmonizar o homem e a natureza em seu processo de desenvolvimento. Não podemos descartar que as próximas guerras poderão, por exemplo, ser travadas por falta de água. Ao compreender essa verdade, como poderemos, então, poluir os mananciais? Será que o desenvolvimento da soja pode acontecer com a extinção de um rio, de um manancial que existiu? E quando o agricultor for fazer outra irrigação no futuro, como ele terá acesso a água? Ele sabe que está acabando aquela fonte de água e sabe que de um certo ponto para baixo não tem mais água… e as pessoas que estão abaixo da represa que ele fez, como irão viver? Temos um ser humano que não está se harmonizando absolutamente com nada.

É aqui que começamos a tratar de alguns valores morais. Precisamos reunir os valores de respeito ao semelhante. Bem o sabemos: tanto nós quanto os nossos semelhantes têm o mesmo direito de ter água limpa. Imagino a terra como um ser vivo, não a imagino como um ser inerte. Desejo respeitar também esse ser como um ser vivo, depositário que é da possibilidade dessa experiência maravilhosa chamada vida. Tenho que respeitar, como fiéis depositários da divindade, o que Deus colocou aqui, mesmo sabendo que estamos aqui de passagem. Essa experiência, que pode durar 70, 80, 100 anos, devemos fazê-la da melhor forma possível.

O início de uma nova caminhada começa com o respeito ao próximo. A energia para a caminhada poderá ser extraída, obviamente, dos ensinamentos ancestrais que encontramos em nosso próprio cérebro, que são dádivas e potencialidades do Espírito Santo, do divino. Acredito que esses valores existem no ser humano em estado latente. O trabalho das religiões e da ciência é desenvolver a psique, as capacidades, as potencialidades de cada um e buscar em cada alma, em cada coração essa potencialidade. No exemplo dos sábios, no exemplo dos santos, no exemplo daqueles que souberam guiar as civilizações, o ser humano irá buscar valores e começar a sua transformação.

O grande diferencial do mundo de hoje para o mundo de 100 anos atrás é que hoje sabemos que estamos aqui como transmutadores energéticos e na verdade somos transformadores de energia. A energia existe, sabemos que ela não nasceu e que não vai se perder, ao contrário, irá sempre se transformar. Qual será então o nosso papel? É o de aglutinar essas forças de respeito principalmente pelo ser humano e de respeito à mãe-terra. Não são forças simples de trabalhar e nem são forças que sejam dominadas com facilidade, porque são forças de caráter transcendental, forças pouco conhecidas. Alguns líderes das grandes religiões chegaram a esta transformação e alguns chegaram até a deter a capacidade da transmutação. Surge então o aspecto milagreiro das coisas: será que o sujeito do século XXI irá promover o desenvolvimento sustentável gerando um milagre e fazendo redomas em volta de determinadas fontes de água ou de determinadas fontes de ar puro? Então, nesse contexto, sustentabilidade seria um milagre no mundo atual, porque seria um gasto adicional em um mundo que tem grande parte de sua população passando fome.

Acredito que o ser humano não deveria mais esperar pelo aparecimento de milagres. O tempo da espera dos milagres findou. Temos que olhar para a mãe África e ver seu povo morrendo, sendo dizimado de forma planejada, inclusive por potências maiores que querem aquele continente, talvez, para servir como um celeiro ecológico ou, na pior hipótese, para ser depósito de lixo no futuro. Podemos constatar que o que menos se precisa na África é de gente. Tais pensamentos representam valores perigosíssimos porque se a vaidade toma essas valores que são transcendentais, as pessoas que detiverem o poder do desenvolvimento associado a uma base científica sólida e uma religião de base exacerbada podem recuar rapidamente aos tempos da Inquisição.

Retornemos ao valor original da harmonia. Entendo que se tivermos o respeito ao ser humano, o respeito à mãe-terra-natureza e a harmonia dos valores intrínsecos e extrínsecos que tenhamos em função desse respeito dos valores que desenvolvemos, sejam estes morais, éticos, filosóficos, educacionais, transcendentais, religiosos, percebo que começaremos a desfrutar de uma visão mais real e começaremos então um novo desenvolvimento.

A devastação da mata é preocupante. No entanto, a pergunta ainda é: a natureza ou o homem? Se tenho que optar por derrubar uma árvore para salvar um homem, uma árvore de 900 anos, que dilema terrível. Uma árvore que conta a história do Brasil: derrubaria essa árvore ou deixaria morrer o homem? Finalmente, qual é o limite da ética e da ciência? A ética teria um limite nesse caso? Não ouso abordar esse dilema específico com tanta segurança. Prefiro nem responder se é a árvore ou o homem, tal a dúvida que me inquieta.

Qual seria, então, o limite da ética? No caso em destaque, provavelmente os ecologistas queiram ficar com a árvore, mas os ecologistas pugnam pela conservação da natureza para o homem. Sem homem não vai haver absolutamente ninguém - humano que contemple a natureza. Então há que se começar a trabalhar a mente de uma forma muito tranqüila e retornar à origem através dos exemplos dos sábios e dos nossos ancestrais. Perceberemos que foram os mestres e guias espirituais da humanidade, os fundadores de grandes religiões e líderes espirituais, que nos deixaram legados não para serem copiados, mas para exemplificarem, de forma educativa, a validade desses valores. Nem queremos dar aos valores um caráter epistemológico, mas também não podemos resvalar na simploriedade.

Ousaria afirmar que a sociedade padece de credibilidade em si mesma porque os seres humanos ficaram impróprios. Sempre aguardando as oportunidades, os momentos mais fáceis. Acho que grandes decisões deverão ser tomadas. A humanidade precisa delas porque sabemos, por exemplo, que um dia a terra será engolida pelo sol. Como o homem definiria seu próximo passo sabendo que amanhã era o fim de sua odisséia sobre a terra? Nessa hora, sem dúvida, ele saberia tomar decisões. A única certeza moral do homem é a morte. Temos certeza que vamos morrer (a morte física, humana), vamos acabar essa experiência maravilhosa na Terra e vamos morrer. Ora, se nós vamos morrer, sempre imaginamos uma morte indolor, sempre imaginamos a melhor morte possível. Mas temos de tomar decisões. Eu tenho que saber agora se devo ir ao local do sacrifício para que o meu semelhante continue vendo a água correr. Mas, por ter amor à minha vida, chego no meio termo e compreendo que em mim está a responsabilidade igual àquela do beija-flor da famosa fábula que tentava apagar um incêndio na floresta. Tenho que fazer a minha parte.

Não se deve mais ter medo de se falar da religião como uma parceira da ciência, do desenvolvimento, da educação. Temos que falar isso de forma muito aberta, muito contundente e responsável. O primeiro ponto é não colocar na mente das pessoas coisas que as distanciem ainda mais do processo de desenvolvimento educacional. Entendo que a religião deve exercer sua influência através dos valores do direito, da cidadania, da oratória, da linguagem.

A nova educação não será, inicialmente, massiva; será, infelizmente seletiva. Existe uma dificuldade, um temor nas pessoas, de se quebrar paradigmas e valores. Esses paradigmas que estamos buscando são difíceis de serem realizados pelo ser humano. É muito difícil pensar em expandir e contrair os movimentos normais em harmonia com o universo. Geralmente, o ser humano que tenta sempre se expandir, não pensa em ouvir o irmão, silenciar; o ser humano gosta da expressão, da fala. Ele pensa sempre nas disputas, nos espaços, nos valores, no poder e isso concorre para tornar a educação cada vez mais seletiva.

Há que se ter coragem de primeiro fazer esse processo, começando desde o início, com poucas pessoas, buscando um efeito multiplicador. Uma base extremamente sólida é buscar a parceria da escola e através de serviços de extensão, de trabalhos com a comunidade ir inoculando valores no cotidiano. Temos que transmitir a ciência com os valores da religião, da espiritualidade, da vida intrínseca do ser humano, da harmonia com Deus. É urgente passar isso como exemplo de vida dentro de vivências inspiradoras próprias.

O professorado necessita primeiramente ser bem preparado, numa direção de reconquista dos valores do ser humano que estão represados. Um homem novo tem que florescer dentro da gente. Então, para que esse homem novo vingue, surja, é preciso que ele seja tocado com a pedra filosofal para virar a fonte da eterna juventude. Talvez seja essa a grande alquimia que tanto se fala através dos milênios. Existe ouro dentro dele, mas ele precisa saber como tocá-lo. Precisamos ter a coragem de tocar, mesmo que erremos na abordagem inicial. Mas, algo é certo: temos que começar com a pedagogia do fazer. Essa pedagogia do fazer tem que começar pelo trabalho cotidiano do “ensina-me a viver”. As pessoas estão querendo novamente que lhes ensinemos valores mais simples, resumamos para elas como é o seu dia-a-dia, porque elas estão num processo tão alucinante que não sabem mais como abordar e vivenciar o dia e dormir. Elas precisam de métodos e disciplinas, precisam saber que todos esses valores que elas aprendem poderão amanhã ser derrubados pela ciência, pela novidade da ciência, por uma fusão nuclear, por uma fissão nuclear, por um novo código genético do DNA, por uma clonagem. Isso feito compreenderão que não podem se apegar a esses valores como sendo a única verdade. Se assim fizermos, as escolas que pensarmos, juntando-se às grandes filosofias, às grandes religiões, darão início a um diálogo produtivo nessa direção.

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