Maria de Lourdes Siqueira
Há que se destacar a importância da comunidade negra no pensar da temática da ciência, religião e desenvolvimento. Considerando o caso brasileiro, onde a cor da pobreza é negra, assim como em muitos outros países, buscar novos eixos de referência face à percepção eurocêntrica da relação entre ciência, religião e desenvolvimento é, certamente, algo bastante desafiador.
Precisamos ir além da perspectiva histórica do desenvolvimento e da relação entre ciência e religião dentro do escopo das diferentes resultantes do Iluminismo. O Iluminismo representa um paradigma incompleto de percepção da humanidade. Neste caso, podemos antever que a crítica completa aos sistemas de idéias anteriores surgirá ao se incluir as percepções das diferentes etnias e populações que compõem a diversidade e a ética da sociedade humana.
Considerando-se os aspectos hereditários que caracterizam o comportamento humano e os processos históricos marcados por dominações e desigualdades, somos impelidos a concordar com a negação de um legado à humanidade que vem se desenvolvendo ao longo de gerações em termos de contribuição das populações hoje racialmente discriminadas. Este “legado da cor da pele” não pode ser negado ou desconsiderado quando tentamos propor uma reconsideração dos elementos centrais do paradigma do desenvolvimento humano.
Para a vasta maioria da humanidade a natureza tem uma dimensão espiritual. É fundamental a compreensão que dentro do ser humano existe um anseio fundamental que clama pela transcendência, algo que nos leva ao entendimento de que há que se aprimorar a qualidade das relações humanas, sejam elas raciais, interétnicas, entre pessoas, povos e nações.
Nunca antes, podemos afirmar com segurança, o advento de novos modelos de vida, resultantes das profundas mudanças que redimensionam os temas relacionados aos seres humanos estão ao alcance de uma comunidade global. Esta constatação nos impele a questionar o lugar do negro nesta comunidade e a reformularmos a nossa visão de que os diferentes segmentos da sociedade considerados socialmente minoritários da humanidade, ao estarem aptos a articular “suas aspirações e necessidades”, possam ser asseguradas de sua inclusão, o que significaria um passo importante para o término de um processo de exclusão secular que tanto sofrimento tem causado ao longo da história humana.
Como existe uma grande distância entre as organizações da sociedade civil e as raízes da sociedade, torna-se difícil ter uma percepção mais abrangente das relações e interações entre a população e os atores sociais engajados.
Partindo da assertiva de que as iniciativas sociais e econômicas têm negligenciado as culturas, os valores, tradições e percepções dos principais interessados - as próprias pessoas no processo de desenvolvimento é imperativo desenvolver em sua completude este conceito, tendo-se em conta a centralidade espiritual de cada indivíduo.
A própria multiplicidade da humanidade enseja uma percepção múltipla das formas como esta espiritualidade se manifesta, se torna palpável. Surge então o desafio de se estudar uma dimensão diferenciada da espiritualidade vivida pelo negro que, por sua vez, é bastante distinta da espiritualidade que emerge de uma sociedade hegemônica sem levar em conta que, onde o negro é histórico e culturalmente um dos povos constituintes dessa sociedade.
A inclusão dos não hegemônicos num processo de discussão de desenvolvimento e espiritualidade ou de ciência e religião é parte essencial do desafio. Certamente, a inclusão da transcendência de outras tradições religiosas é um imperativo impostergável.
Ao nos referirmos ao papel do conhecimento, é igualmente de fundamental importância que o mesmo tenha como postulado básico o reconhecimento da nobreza essencial de todos os seres humanos. Mas, para não sucumbirmos às tentações de trilharmos o caminho do abstracionismo, que sempre é diversionista, essa nobreza deve ser reconhecida no cotidiano de todas as pessoas.
Há que se ter um novo olhar sobre essas três vertentes do discurso. É este olhar que gera respeito e consideração e que eleva a auto-estima das populações durante longo tempo subjugadas e no mais das vezes, oprimidas. Uma vez reconhecida a nobreza essencial de todo ser humano, estaremos promovendo a igualdade entre as pessoas, o reconhecimento do valor da alteridade, das culturas diversas, bem como a aceitação de cada povo com suas culturas, crenças, costumes, linguagem, religiões, etnicidades, raízes, cores, configurações corpóreas ou corporais próprias e diversas.
Este novo olhar e suas conseqüentes novas atitudes de ver e sentir o outro reforça o papel da educação na promoção de valores e atitudes para o desenvolvimento sistemático e deve encontrar espaço nas redefinições de currículos e nas políticas educacionais. Tal compreensão mais alargada da natureza humana pressupõe uma mudança de método nos processos de produção social do conhecimento, sendo possível assim iniciar uma nova discussão de ciência e religião, a partir do conhecimento de seus processos para educar e formar a alma das pessoas. Este olhar, portanto, deve ser um livre do preconceito e do sectarismo. Assim, propõe-se o resgate da espiritualidade a serviço da construção da igualdade. Isto posto, podemos estar seguros de que o progresso material, a saúde, o trabalho, a moradia, somente têm sentido se resultarem em uma maior percepção e vivência da felicidade que reconhece os níveis social e individual. Alcançada tal percepção da realidade, teremos abertura para reconhecer um novo paradigma de desenvolvimento. Se a aplicação de princípios espirituais integrados nas atividades de desenvolvimento resulta em práticas que promovem a autoconfiança das populações, é importante destacar que o surgimento da autoconfiança entre populações discriminadas é mais difícil de ser adquirida num contexto de desvalorização. Não sendo a sociedade um todo monolítico, a transformação que o desenvolvimento promove nas estruturas sociais em um dado momento resulta em novas estruturas que ainda incidem mais fortemente contra o progresso de outros segmentos sociais. Para que tais transformações possam de fato permear todos os aspectos do relacionamento e da atividade humana, há a necessidade que se tenha um novo olhar sobre a própria sociedade, uma vez que tais relacionamentos são ditados pelas percepções espirituais e práticas religiosas de cada um. Este olhar, portanto, deve ser um livre do preconceito da discriminação e do sectarismo. Assim, propõe-se o resgate da espiritualidade a serviço da construção da igualdade.
O modelo de modernidade apresentado pelo Ocidente quanto ao desenvolvimento, requer uma ampla reflexão. O corrente paradigma de modernização, a favor das hegemonias ocidentais, leva a uma uniformização do conceito do que é desenvolver-se. Suas conseqüências têm sido por demais desastrosas.
Em um certo sentido, podemos ver nas diferentes fases e tentativas de se promover o desenvolvimento, centrado na necessidade dos pobres, a apreensão de definições equivocadas do que seriam “as necessidades humanas básicas” pois os pobres não foram os recipientes do desenvolvimento que as definiram. Os estimuladores do desenvolvimento, sejam governo, agentes internacionais ou organizações não-governamentais não foram capazes de efetivamente promover esse diálogo. Um erro de origem está na constatação de que a própria representatividade das populações alvo, o processo de escolha dos seus representantes e lideranças, ocorreu de forma tal que estes também se distanciaram de suas próprias raízes. Ocorreu que essas lideranças e representações acabaram por buscar uma identidade com aqueles que vinham lhes trazer a possibilidade de desenvolvimento, reforçando novamente modelos eurocêntricos, não se chegando a uma compreensão adequada do que constitui as raízes da sociedade, que no caso brasileiro inclui os negros, indígenas e europeus. A própria diversidade de constituição da população negra-brasileira, com as etnias Geges, Nagôs, Minas, Cabindas, Angolas, Moçambique, a indígena com Tupis, Guaranis, Pataxós, Terênas, Ticunas; e européia, com alemães, italianos, holandeses, franceses, portugueses, dentre outros, mostra a importância do resgate das raízes que constituem esta sociedade. No aspecto da organização econômica, essas iniciativas devem estar voltadas para servir as necessidades das pessoas e é de real importância ter clareza quando se busca identificar as verdadeiras necessidades de cada população. Aqui cabe um papel preponderante à governança.
Três fatores determinam a condição de governança: a qualidade de liderança, a qualidade dos governados e a qualidade das estruturas dos processos existentes. Quanto à qualidade dos governados, há que se notar que no caso do Brasil, representações sociais para construir a democracia nascem das próprias diferenças civilizatórias de um país gerado no âmbito da colonização e da escravidão, de mestiçagem não negociada, de desigualdades, contradições e conflitos e indefinições quanto a questões fundamentais. Tais indefinições incluem o papel do negro na sociedade, bem como o lugar do índio, a contribuição de outras culturas, o que leva a uma necessidade de redefinição da própria representação do país no exterior. Outra qualidade de liderança diz respeito às questões vitais que não são respondidas por uma liderança que demonstra ser inconsciente de quem são os seus governados, quais são as reais estruturas do país, a quem devem servir, como foram historicamente construídas e também quais os critérios de participação em tais estruturas.
Essa multiplicidade, no entanto, é negado, quando mais uma vez se centra o diálogo entre ciência e religião, espiritualidade e materialidade, no rompimento do dogmatismo, superstição e facções teológicas que ocorrem com o advento do Iluminismo.
A afirmação de que “o Iluminismo, na verdade, marcou uma guinada crucial de despertar da consciência humana das garras do dogmatismo e fanatismos religiosos” refere-se apenas a uma percepção hegemônica do homem branco, europeu e cristão. Há que se explicitar como se manifesta esse despertar da consciência humana entre povos da África, Ásia e das Américas, que não participaram e até hoje não participam dessa era pós-Iluminista. A centralidade da discussão no iluminismo reforça o risco de perder-se a dimensão sagrada das outras civilizações e de outras tradições religiosas.
Os valores humanos que constituem a base de um processo de transformação, onde haja a promoção da igualdade, da responsabilidade cidadã, a convivência com as diferenças e o desenvolvimento, que são qualidades necessárias a uma vida comunitária. Na perspectiva do desenvolvimento humano e social emergem igualmente das populações indígenas e negras no continente americano e nas diferentes tradições e percepções na África, Ásia e Australásia. Nosso desafio é também aprendermos com essas populações os valores que trazem como contribuição a esse processo.
Feitas estas considerações, podemos asseverar que nosso maior desafio é o encontro com o âmago da verdade dos outros. É esse encontro que ajudará a superar as dicotomias históricas entre ciência e religião.
Há, também, a necessidade de repensar o que é a justiça e bem-comum, o papel do núcleo familiar nesse processo, o próprio conceito de família extensa a exemplo das famílias africanas, o entendimento de como é operada a justiça, o papel dos mais velhos e sábios no processo e a percepção de como se vê a justiça e com que olhar ela ocorre uma vez que com a justiça poderemos ver com nossos próprios olhos. O papel da justiça como requisito do desenvolvimento, está intimamente ligado a um processo de desenvolvimento moral e espiritual. Assim, há que se questionar as próprias definições morais da nação brasileira: o quanto é visto como imoral tratar o outro desigualmente ou quanto é imoral discriminar?
O mesmo se coloca na questão da “aplicação do conhecimento no centro do planejamento da atividade desenvolvimentista”, também nos leva a questionar quem define este conhecimento e a serviço de quem e para que ele é aplicado. É possível que o distanciamento que se dá entre os estimuladores do pensamento do desenvolvimento e a população alvo desse processo é de não se reconhecer a visão de quem são os materialmente pobres, onde se situam, o que pensam para se organizar para sair da pobreza, com quem querem se organizar, que formas de conhecimentos possuem, por quê esses não pertencem às organizações, não se vinculam a elas para transformação de suas vidas, em torno de quem se reúnem, por quê se reúnem e por quê não participam do processo que constrói socialmente o conhecimento oficial hegemônico.
Quanto ao elo que une ciência e religião, enquanto as civilizações dependeram dessas duas forças como dois principais sistemas do conhecimento que guiaram o seu desenvolvimento, temos que considerar a história de toda civilização independentemente de terem a sua história e suas culturas legitimadas socialmente por civilizações dominantes. A herança espiritual brasileira é constituída de três civilizações reelaboradas, reinventadas e recriadas em meio a um processo histórico construído entre colonização e escravidão, no que tange ao Brasil e de dominação em suas formas contemporâneas, no que tange ao mundo.