Mônica de Oliveira Nunes
Há várias perspectivas nas quais a religião e a ciência contribuem, como forças motrizes, no alavancamento do desenvolvimento das relações entre os integrantes de um mesmo grupo social e entre este e outros grupos sociais de uma mesma comunidade.
Começando com a religião, a sua contribuição depende muito de como ela está presente nos vários tipos de comunidades conhecidas. É preciso saber que religião é essa, como ela se estrutura e se relaciona com os costumes, perfis e padrões dos integrantes desta sociedade/comunidade; de que época histórica se está falando - na contemporaneidade, por exemplo, o que é diferente para cada comunidade. Todos estes aspectos, juntamente com outros, devem ser esmiuçados, dissecados e relacionados ao cotidiano da comunidade em estudo.
A título de exemplo, posso citar um trabalho de pesquisa que fiz em uma cidade baiana que vive em pleno declínio econômico. Na pequena cidade de Cachoeira, Bahia, perto da capital Salvador, observa-se que a religião afro-brasileira realmente tem um papel econômico - se falarmos apenas do aspecto financeiro, deixando ainda de lado o social. É impressionante como em Cachoeira a religião funciona como uma rede de redistribuição de renda. Por exemplo, como as pessoas lá não têm trabalho e renda fixa, a cidade está a cada dia com o nível de desemprego mais elevado. No entanto, elas buscam alternativas a este problema através do candomblé, que atrai os doentes e moradores de outras localidades da Bahia e do Brasil em busca de tratamentos, de consultas, ajuda espiritual, entre outros serviços do gênero. Constatou-se que muitas famílias dessa comunidade se organizam de modo a colocar vários de seus membros participando dessas atividades religiosas. Tais pessoas conseguem uma ampliação de renda através da cobrança da consulta religiosa. O que ocorre então nessa cidade é que imediatamente essa renda é redistribuída àqueles indivíduos que naquela comunidade estão desempregados e que, às vezes, a única fonte de subsistência passa a ser esta.
Esse movimento de redistribuição de renda é algo que abrange essa comunidade e que as pessoas de fora nem avaliam nesta perspectiva! Isso toca no econômico, propriamente dito, de uma forma muito menos capitalista, pois nessa experiência não havia uma perspectiva de lucro, não havia enriquecimento de um desses membros e nem das pessoas que estavam numa posição de liderança, mas uma distribuição ligeiramente equivalente aos membros participantes - perfil bem mais próximo do socialismo que capitalismo. Isso, então, é uma coisa que fascina o pesquisador, pois ele presencia uma maneira real das pessoas tentarem resolver situações de sobrevivência.
Num outro nível, interno e comunitário, se percebe uma rede de solidariedade que se estabelece muitas vezes entre as pessoas que moram naquele lugar pelo simples fato de existir lá uma “Casa de Santo”, no centro de um bairro popular que tem um cotidiano miserável.
Via-se uma coisa fora do comum naquela “Casa de Santo”, enquanto local sagrado. Ela passa também a ter um papel de um lugar onde as pessoas poderiam vir para se alimentar (falo principalmente durante as cerimônias, mas também em momentos mais cotidianos) e as crianças ficarem lá, brincando, como se fosse uma creche. Era uma “Casa de Santo”, de religião, mas um local que também se prestava a outras atividades. Lá se via que as mães se organizavam para trabalhar e deixavam as crianças reunidas dentro da “Casa de Santo”. Uma das filhas de santo mais novas, de doze ou treze anos de idade, tomava conta daquela criançada toda. Mesmo dando-se o desconto em relação às devidas proporções geográficas e culturais, essa postura e comportamento é algo inovador para qualquer comunidade. Claro que Cachoeira é uma cidade pequena e, portanto, tem uma outra estrutura. Teríamos mais dificuldade em ver algo parecido com isso em Salvador, uma grande metrópole globalizada.
Partindo desse modelo descentralizador, se cada bairro tivesse a sua “casa de santo” e ela funcionasse como um eixo central de atividades e de religiosidade, certamente se estaria unindo a vida prática à vida espiritual, beneficiando assim as necessidades práticas. Evidentemente, que nem todas as pessoas dessa comunidade são de religião afro-brasileira. Isso também torna este exemplo mais interessante já que as crianças, que não necessariamente eram de tal religião, acabavam também participando, acabaram entrando naquele lugar para brincar ou assistir os rituais. A “Casa de Santo” funciona como um pólo. Ali se vê mulheres usufruindo de um espaço feminino, isso num mundo onde se sabe de tantos conflitos, da violência doméstica, violência de gênero. Algo estritamente feminino é revolucionário. Esse lugar era onde eventualmente uma mulher podia, estando ameaçada pelo marido, se esconder. Havia casos da mulher ficar escondida naquele lugar por um tempo até diminuir a ira, a fúria de seu companheiro. Evidentemente, que às vezes, ali mesmo, o que permeava era um discurso machista. Isso também necessariamente não significa que aquelas pessoas, que dão vazão aos anseios feministas, estão questionando aquela situação machista. Percebe-se que as contradições também fazem parte dessa vivência religiosa.
A religião e a religiosidade podem ajudar a concretizar a expressão da vontade de mudança na sociedade. A religião pode permitir forças transformadoras ou não. Ela pode ser uma forma de amarrar no mais tradicional, arcaico, retrógrado - tive essa experiência em Cachoeira, como também pode apontar para mudanças. Percebia-se que em “Casas de Santo” da cidade havia rituais nos quais fizemos uma análise mais de cunho antropológico, percebíamos que eram rituais que faziam certos questionamentos da realidade. Questionamento sobre situações que qualquer pessoa com alguma criticidade faz em relação à desigualdade, violência de homem contra mulher, a questões às vezes da própria marginalidade social. Ao se estudar o ritual, observa-se que há uma crítica, uma perspectiva. O candomblé historicamente foi fonte de resistência - foi uma das únicas formas de se manter uma tradição sem a qual a população negra teria sido completamente subjugada pela dominação branca. Então, esses são pontos importantes observados neste caso em particular.
Durante a realização de um documentário em uma favela do Rio de Janeiro, João Sales, o cineasta, observava grupos pentecostais. Nestes grupos, sobre os quais se tem muita denúncia em relação ao uso indevido do dinheiro dos seus fiéis, se podia observar outro tipo de ação de suas igrejas. Segundo ele, muitas delas ficavam muito “escondidas” em bairros periféricos e favelas, sem nenhuma expressividade maior, mas era ali que se fazia, por exemplo, negociação com traficante para se conseguir liberar um menino que estaria “perdido” pelo tráfico. A rigor, aquele jovem estaria com a vida ameaçada e a igreja era a única força que havia para possibilitar a reabilitação dele. Mas por que isso? Por que é igreja em si? Não, é porque se acha que, de um lado, ela toca em algo que realmente as pessoas têm enquanto valor e depende muito da força que possui aquela espiritualidade, aquela prática em uma comunidade ou em outra e do seu reconhecimento social. Pode ser que, em certas comunidades, isso não tenha nenhuma expressão. Em outras, pelo nível de organização que ela proporciona de crença, de fé, passa a ter uma representatividade até política mesmo, uma força social.
Que quer dizer, então, que forças sociais existem também em bases periféricas. As agências religiosas podem ser essas forças também. Exemplo disso é o movimento católico e cristão em geral que se vê em certos espaços. Essa postura tem sido algo até muito registrada e seu papel social, teorizado. Em Montreal, no Canadá, quando trabalhei estudando migrantes africanos e caribenhos, percebi que eram muito fortes, por exemplo, momentos nos quais certas crises irrompiam na família, no indivíduo. O que víamos, é que um dos espaços que eles recorriam para tentar dar solução em primeiro lugar era o espaço religioso. Então, eram as igrejas, principalmente as evangélicas, que tinham esse papel. No caso dos hindus, havia mais os centros de meditação. Esses eram os passos primeiros antes de procurar o médico psiquiatra ou até mesmo o policial, o responsável pela questão da migração. Tenho inúmeros registros de entrevistas que consegui fazer com pastores, com pessoas que eram altos gurus indianos e que moravam no Canadá ou que iam àquele país de tempos em tempos e que formavam essa base. Nessa perspectiva, era muito comum essa busca e a religião estava realmente nesse tecido social.
Em relação à consciência social, no sentido de que existem coisas que são cuidadas pelo espaço, mas que as pessoas não desenvolvem necessariamente uma conscientização social como, por exemplo, a violência de homens contra mulheres, e que às vezes o espaço da “Casa de Santo” vai dar guarita a essas mulheres, mas não desenvolve a consciência do machismo que está ali. O próprio espaço é machista e a própria mulher que vem buscar guarita no espaço não se dá conta disso. Mas como é que ela pode transformar o espaço e o espaço transformá-la?
A centralidade do espaço depende, por exemplo, do valor social atribuído, que é um valor que não só aquelas pessoas que estão ali atribuem, mas que a própria sociedade contribuiria para com ele. O candomblé, por exemplo, no momento em que é marginalizado, por mais que aquelas pessoas que participem dele tenham até um sentimento do valor que aquele espaço social opera na vida delas, não há, às vezes, entre eles a coragem de assumir a importância desse espaço socialmente. Porque socialmente ele é marginalizado. Esse é um ponto.
O outro, de como transformar práticas que são feitas de modo inconsciente em algo que seja aprendido de forma consciente, que se transforme em consciência, é uma questão também importante. Sobre esta questão, há vários estudos que também tentam inclusive fazer essa distinção - mas isso é algo mais complexo. A título de exemplo, é válido citar a Igreja Católica, que tem os “teólogos da libertação”, que são pessoas que param para refletir sobre as questões sociais, entre outras relacionadas. Quando esses religiosos vão a uma comunidade, eles já têm isso como intenção mesmo. Então, a intenção é que, além da questão religiosa, se consiga trabalhar questões mesmo de cunho social, político, justiça etc.
A Igreja Católica, em alguns dos seus setores progressistas, é completamente distinta das demais, em relação a essa questão. No entanto, em outras religiões há grupos que vão trabalhar com a questão social, mas não têm essa consciência. Então, eles não têm como objetivo estar informando pessoas, construindo consciências críticas. São, então, duas coisas diferentes. Claro que não necessariamente se pode afirmar, que as pessoas da comunidade possam se aproximar mais dessas questões sociais de maneira crítica, dessa consciência e outros podem até se alienar mais participando da vida religiosa. Podem até fazer pactos com grupos que sejam mais de dominação, exploração, em vez de “libertários”.
O desafio é saber como é que se encontra o equilíbrio entre os dois, como é que se utiliza a consciência que se tem, que se assume. Claro que não se pode esquecer que as religiões estão inseridas num contexto social, histórico, político. Ainda quando elas têm esses valores e princípios, exercitá-los não é sempre tão simples.
É importante, também, fazer a leitura dos direitos humanos à luz de cada cosmologia que as próprias religiões propõem. Sem dúvida, chega-se a uma perspectiva universal - aquelas coisas a que todos teriam direito. Aí se vê até que ponto uma certa religião favorece ou não os direitos humanos no que prega. Pode estar privilegiando o exercício de certos direitos e deixando outros de lado.
É preciso ir fundo na compreensão do que está sendo proposto por cada religião e, sobretudo, pelas práticas religiosas de pessoas e grupos concretos. Isso é um espaço importante que, sem sombra de dúvida, pode conduzir aos direitos humanos, pensados dessa forma universal. Assim, se vê como cada religião pode contribuir ao desenvolvimento humano e também até sair da posição de aceitação das opressões.
Esse é um ponto que remete à necessidade de que não haja a imposição de valores ocidentais sobre todos os outros e, mesmo, a concepção de homem. Quais são as concepções de homem? Há religiões que o homem tem uma forte ligação com a natureza, quase de mimetismo com a natureza, o que se aproxima, de certa forma, da própria questão da ecologia, da defesa do meio ambiente. Ao analisar certas cosmologias religiosas, chegamos mais perto de uma relação menos conflituosa entre seres humanos e natureza. Podemos também pensar que o universo religioso facilita a expressão de valores culturais mais autênticos de certos grupos sociais.
A título de exemplo, volto um pouco até Cachoeira, onde uma menininha, minha afilhada, não aprendia, não conseguia estudar. Ela não gostava de estudar. Eu sabia que não era uma criança com problemas, ela tinha todas as capacidades mentais e cognitivas para aprender. Comecei a usar certas coisas que ela fazia, que ela gostava de ver no candomblé, que ela gostava de desenvolver, para educá-la. Usava aquilo para que ela começasse a escrever - coisa que ela detestava. Com pouco tempo, começou a desenvolver a escrita e a fazer articulações entre coisas que a escola não permitia que ela fizesse. Primeiro, porque era proibido falar de candomblé na escola - a professora era evangélica e não se podia falar em tal religião.
Neste exemplo, aspectos do Candomblé, como o contato da criança com objetos e animais, estavam favorecendo uma apreensão de conhecimento e isso não era utilizado no espaço formal da escola. Nem me refiro a uma força maior, transcendental, da religião supra-material, que para muitos é algo fundamental na educação. Prefiro citar, neste caso, a auto-estima que permite pessoas a acreditar em si mesmas, bem como da construção de uma identidade coletiva positiva. Muitas vezes, isso passa dentro da religião e é facilitado por ela, porque a pessoa acredita que existem seres, outros, que estão lá presentes, cuidam delas, acreditam nelas. Isso quer dizer que há uma valorização outra que transcende essa valorização ou a desvalorização do social.
Claro que há outros valores que a religião pode contribuir para o desenvolvimento das pessoas. Como falei, a auto-estima é fundamental - se não se tem auto-estima não se consegue nem começar a fazer alguma coisa interessante e transformar o seu redor. Que outros valores então a religião trazia como elemento de transformação do indivíduo para a transformação do grupo maior?
Uma delas é o descentramento, algo menos egóico, menos individualista. Valores de partilha, de solidariedade são percebidos em muitos casos.
Por outro lado, há coisas que são contraditórias na religião. Fala-se do perdão, da capacidade de ter compaixão, entre outras coisas. Mas se sabe que isso não acontece necessariamente com todos. Às vezes há muita vaidade nas pessoas que estão dentro de uma religião. Há também jogos de poder. Disputas até para saber quem vai ficar mais próximo daquele que é considerado o líder. Dentro desse espaço se pode ver que essa “fogueira das vaidades” está lá, viva. Então, na verdade, existem situações nas quais se busca questionar, transcender, observar se realmente há algo divino nas religiões.
Isso é um processo de aprendizado. Na verdade, se houver a consciência de que se está em um espaço religioso, dentro de um processo de aprendizagem, mesmo em uma “fogueira das vaidades”, é possível crescer em conhecimentos. Mas, neste bojo de informações surge uma pergunta: como o espaço religioso pode ajudar nisso? Porque ele, por essência, parece ser um bom laboratório desse aprendizado da transformação. Se não consigo auto-estima, se não consigo desenvolver a solidariedade, se não consigo desenvolver partilha, se não passo a ter uma característica menos egóica, se não aprendo a trabalhar em grupo, não vou ter desenvolvimento. Claro que não se está falando, nesse caso, do desenvolvimento tecnológico e material, como ter microondas, nem geladeira, carro, dinheiro, nem nada neste nível. Mas desenvolver o intelecto, os valores.
Se os ensinamentos religiosos, por natureza e essência, levam à idéia da transcendência, surge mais um questionamento: será que isso não é algo que em si reduz a percepção do homem, trazendo-lhe ilusão? Essa transcendência é interessante, porque ela é dialética. Ela é paradoxal - por um lado nos reduz apenas a algo pequeno em relação ao “transcendental”. Já por outro, nos dá força e poder para lidar e tentar entender o transcendente. Esse é um movimento que pode levar ao crescimento cultural e intelectual. Um exemplo desta dialética paradoxal é a humildade que Cristo diz que devemos ter. Mas ao mesmo tempo todos podem ser iguais a Ele. Como é que tenho que ser um nada, mas ao mesmo tempo posso ser o tudo. Esse é um movimento fantástico.
O conhecimento dialético, de contradições se dá também no espaço que a religião promove em termos do autoconhecimento através do outro. Ao se ver as dificuldades do outro e se percebendo como um grupo, esse integrante cria uma potencialidade que raros espaços dão. O espaço terapêutico pode dar, mas ele acontece uma vez por semana. Enquanto o espaço religioso pode ser o dia inteiro, a vida toda. Se não se vir a religião como sendo aquilo que se participa uma vez por semana, claro. No candomblé, por exemplo, a Casa de Santo tem uma centralidade da vida das pessoas. As pessoas vão à Casa de Santo a qualquer momento. Não é uma igreja que tem uma placa dizendo: “missa às 18h”. Então, só posso entrar às 18h. Mas a Mãe de Santo e o Pai de Santo estão lá à disposição o dia todo, a toda hora. As Casas de Santo são locais onde há uma verdadeira harmonização do material e espiritual. As vidas dos integrantes estão relacionadas. Todo mundo funciona, todo mundo existe, todos têm suas necessidades, mas existe esta centralidade espiritual.
Uma pergunta que atualmente se faz é se podemos ter uma sociedade em que essa centralidade possa ser resgatada, porque ela existiu no passado. Com o nosso cartesianismo de separar as coisas - a religião para um lado e a vida real para outro -, perdemos isso. Pergunta-se, então: será que se pode voltar a ter essa confluência de religião e ciência, nesse aspecto? Será que no futuro poderemos visualizar, retomar isso? Esse é um desafio que a humanidade tem que voltar a enfrentar? Infelizmente, ao que parece, no momento, ainda não há resposta para tais questionamentos. É necessário desenvolver elementos e investigações para se aproximar de respostas no mínimo satisfatórias.
Já em relação a um sistema econômico que resulta da religião, essa redistribuição de renda aos moradores de comunidades religiosas no candomblé, há uma relativa consciência dos seus benefícios. Há quase que uma intencionalidade. Por exemplo, uma “mãe de santo”, que tem vários filhos de santo, ela pede e recebe mais ofertas (animais, dinheiro, objetos) dos que têm mais condições financeiras. Em seguida, ela divide, distribui as ofertas para aqueles que não podem pagar ou ofertar tantos bens. Evidentemente que essa distribuição é velada, não é revelada a ninguém do grupo. O filho que tem mais sabe que está dando além dos outros e até suspeita que há distribuição. É como se fosse um pacto, mas não dito. A impressão que dá é que, se essa distribuição fosse normatizada, estragaria tudo, não funcionaria. A Mãe de Santo tem uma capacidade administrativa e de gestão de fazer inveja a muitos gestores e acadêmicos mundo a fora. Ao se falar para um público qualquer que a religião cobra para fazer as consultas - embora todo mundo saiba que ela cobra para jogar os búzios e fazer outros trabalhos - todos vão achar um absurdo! Vão achar que é gente querendo explorar, que é charlatanismo, é enganação. Essa questão econômica relacionada à religião é cheia de subterfúgios. Também se sabe que há os desvios. A Igreja Católica, por exemplo, enriqueceu e Roma é fruto disso. Pelo fato do Estado e da Igreja estarem separados, isso funciona no plano da informalidade. Ao formalizar-se isso, corre-se o risco de voltar do equívoco de antes, a confundir estado com religião.
As qualidades que se vê na Mãe de Santo, que os gestores precisavam aprender, estão relacionadas com o perfil de governância, a capacidade de ser uma pessoa carismática, ter confiabilidade e confiança atribuída - as pessoas saberem que é uma pessoa que não está desviando dinheiro, que não está enganando os fiéis.
Mas, então, o que leva a mãe de santo a ter este perfil? Ela representa aquele grupo porque é escolhida como a mãe de todos. Para tanto, ela precisa ter, enquanto líder, os valores morais aceitos como necessários para o cargo. Às vezes as pessoas até sabem dos defeitos dela enquanto pessoa, porque isso não está mascarado. A Mãe de Santo é uma pessoa que tem também os seus defeitos. O interessante, nesse caso, é que nem sempre o que ela é enquanto pessoa, é o que é enquanto líder. Todos sabem que o bem estar coletivo é uma preocupação dela. O sucesso dela só é importante, isso é muito claro para todos, se o terreiro funciona. Porque a religião para ela é fundamental, a comunhão com todos. Essa é uma coisa diferente do desvirtuamento que se percebe muito na política. As pessoas vão à política para se realizarem individualmente ou conseguir benefícios para um grupo que está próximo na linha de interesse. Uma coisa que é extraordinária de se perceber é que os grandes líderes religiosos não estão na religião para se beneficiar. Claro que há os que vão abrir as suas casas de santo para se dar bem. É diferente daqueles que têm uma legitimidade pelo fato de perceber que o grupo que participa está em questão. Alguém com tal perfil é uma pessoa com inteligência. Tem capacidade de projetar coisas no futuro e fazer articulações, de educar a comunidade.
A educação, enquanto um conjunto de procedimentos, de metodologias que a ciência desenvolveu, a ciência do educar, tem em muitas comunidades pobres uma relação com a espiritualidade e a religiosidade nesse sentido mais elevado, mais puro, não egóico - não da pessoa que abriu uma igreja para se dar bem, mas aquele que vê a legitimidade no fato de reintroduzir valores éticos.
De maneira geral, há dois grandes aspectos que interrelacionam educação e religião. Num primeiro momento, a religião educa, dá valores e, então, projeta o indivíduo para a vida. O outro lado é a educação necessária para que o indivíduo tenha maior acesso a certas religiões. Se alguém quer ter acesso à “Palavra”, no caso principalmente das religiões que se fundamentam sobre a palavra escrita, ele precisa antes de uma construção, precisa aprender a ler. Esses dois funcionam juntos. Há pessoas, por exemplo, que simplesmente memorizam, repetem frases, informações. São capazes de repetir, repetir, repetir sem internalizar, sem produzir algo seu, se diluindo no grupo.
O excesso de cada um dos dois aspectos tem grande influência na construção do ser humano. Se ficar só na construção do seu ser, só na educação individual, se vai para um lado. Se ficar só na diluição que a religião proporciona, vai ficar fora da realidade. É preciso ver como é que você constrói o seu ser e também se dilui ao mesmo tempo com todos.
É, então, o extremismo da religião que faz com que ela se torne um espaço massacrante onde perco a minha potencialidade, onde sou enquadrado e sou até meio mortificado. O extremo da educação entendida como a construção do seu próprio ser leva a um individualismo supervalorizado.
A religião vai muitas vezes na contramão do individualismo, pois ela é autenticamente relativa. É pensar que ela tem algo de uma autenticidade, é quase que primordial esse lado de você ser, antes de individual, algo coletivo, ser algo que transcende esse corpo. Na espiritualidade africana, tudo está pautado nesta idéia de que, se algo acontece com o avô, aquilo pode estar repercutindo no neto. Na indiana, há a idéia de se integrar ao cosmos, ao próprio espaço e de podermos também nos abrir enquanto seres numa dimensão muito mais ampla.
Religião e espiritualidade podem, por vezes, ter conotações diferenciadas. A espiritualidade virou individual, porque está sendo ressignificada pelo homem ocidental. Ela é a forma que o homem ocidental encontrou de não entrar em contradição com ele mesmo. Foi de dizer: “eu não sou religioso; eu sou espiritualista”. É a forma que ele tem de conter essa religiosidade no plano individual.
Quando se fala na religião, está-se falando de um grupo ou instituição. Minha espiritualidade por outro lado, pode estar no meu quarto, numa atividade que pratico de forma individual. A religião, não. Ela precisa de um grupo para se desenvolver. Não existe religião de uma única pessoa.
Com respeito ao caráter epistemológico da religião e da ciência: não acredito em ciência neutra e puramente racional. Porque a ciência, apesar de ter um método, está permeada de valores, não só no destino que alguém dá àquilo que conhece, mas na própria produção científica. Que dizer, no momento em que você está produzindo sua pesquisa, seus preconceitos, seus valores, também estão construindo um saber. Embora de naturezas diferentes, posso dizer que as religiões também estão permeadas por valores, relações sociais e guardam uma racionalidade consigo.
Se a ciência está aberta para ser contestada por outros grupos, a religião também deve estar aberta ao escrutínio externo. Isso cria o diálogo, isso cria a possibilidade de caminhar junto.
O diálogo entre religião e ciência pode gerar inúmeros conhecimentos para o homem. Se pensarmos em desenvolvimento humano nessa dimensão mais vasta, mais larga, acredito realmente que essa dimensão religiosa traga algo de diferente daquilo que é produzido no conhecimento científico.
Aí acho realmente que, às vezes, as pessoas reduzem quando se fala assim: “a fé que cura”. Talvez elas tentem trazer essa influência da experiência religiosa da forma mais simples possível. Nessa fé ou nessa dimensão religiosa, tem muita coisa. É uma dimensão do humano, sem dúvida, nova. Quando entrevistamos pessoas ou mesmo quando temos algumas dessas experiências narradas, percebemos que muitas dimensões da vida pessoal e social estão em jogo. Como traduzir isso ainda é difícil. Tenta-se traduzir pelo domínio do psicológico: é uma forma psíquica, sua auto-estima fica mais elevada. Então, tem essas traduções que tentamos fazer pelo tangível. O que sabemos é que essa vivência religiosa, toda vez que você busca, pode traduzir talvez o que está mais próximo a esse campo do emocional, mas também dessa transcendência, no sentido do encontro com o outro, nessa coisa menos fechada, mais coletiva. Esse e outros vários recursos que vão muito além de uma estratégia de sobrevivência, de solidariedade e várias coisas que se desenvolvem realmente nessa prática de “se encontrar” e começar a “encontrar o outro”. Acho que valores são experimentados na prática. Esses valores podem não ser apenas falados, mas eles podem ser vividos. Nessa perspectiva, o espaço religioso é um espaço pode se revelar um espaço de múltiplas potencialidades.