Rosângela Azevedo Corrêa - Parte II
Esta filosofia se entende materialista, no sentido antigo, porque pressupõe que a matéria (átomos, partículas elementares, vácuo quântico etc) constitui a única realidade consistente; os demais fenômenos são derivações secundárias dela. Não assimilou ainda o fato de que a matéria não é simplesmente “material”, mas é energia estabilizada, cheia de interações complexas. A matéria, como a filologia da palavra sugere, é mãe de todas as coisas, até da vida que é a auto-organização da matéria. Ainda não se criou a consciência de que o visível é parte do invisível.
Hoje prevalece a lógica do ser no mundo como objeto. No centro de tudo se coloca o ser humano, dando origem ao antropocentrismo que instaura uma atitude centrada no ser humano e as coisas têm sentido somente na medida em que a ele se ordenam e satisfazem seus desejos; nega a conexão que o próprio ser humano guarda, quer queira, quer não, com a natureza e com todas as realidades, por ser parte do todo. Por fim, ignora que o sujeito, derradeiro da vida, da sensibilidade, da inteligência e da amorização, não somos, em primeiro lugar nós, mas o próprio universo, a Terra. Ela manifesta sua capacidade de sentir, de pensar, de amar e de venerar por nós e em nós. O antropocentrismo desconhece todas estas imbricações; e a ciência e algumas religiões parecem descansar no antropocentrismo.
No paleolítico, as culturas eram matrifocais e vivia-se uma fusão com a natureza; as pessoas sentiam-se incorporadas no todo. Eram sociedades marcadas pelo profundo sentido do sagrado do universo e pela reverência face à misteriosidade da vida e da Terra. As mulheres detinham a hegemonia histórico-social e davam ao feminino uma expressão tão profunda que ficou na memória permanente da humanidade através de símbolos, sonhos e arquétipos, presente na cultura e no inconsciente coletivo.
Mas a partir da revolução industrial, o trabalho passou a ser uma dominação que masculinizou as relações, abriu espaço para o antropocentrismo, o androcentrismo, o patriarcalismo e o machismo. Estamos às voltas com expressões patológicas do masculino desconectado do feminino, o animus sobreposto à anima.
O cuidado com a vida e todas as suas conseqüências foi difamado como feminilização das práticas humanas, como empecilho à objetividade na compreensão e como obstáculo à eficácia. Com o passo do tempo, o ser humano começou a utilizar a razão instrumental-analítica, que é mais eficaz para intervir com profundidade na natureza. Este tipo de razão exige “objetividade”, impõe um certo distanciamento da realidade a fim de estudá-la como a um objeto para acumular experiências e dela assorear-se. Tudo faz com que os fatos materiais são diferentes e distantes dos fatos espirituais, ciência e religião separam-se.
De fato, a ciência e a religião não reinam sobre o mesmo campo. A primeira aprende, a segunda ensina. A dúvida é o motor de uma; a outra se sustenta na fé. Não são indiferentes uma a outra. A ciência atualiza a discussão sobre a origem da vida, não termina com ela.
A ciência tenta compreender o mundo; as religiões (e as filosofias), em geral, têm a missão de dar sentido a vida. Pode haver um esclarecimento mútuo, desde que cada um mantenha o seu próprio território. Cada vez que a Igreja Católica tentou impor a sua explicação sobre o mundo houve conflitos. Galileu dizia a seus adversários, que eram teólogos: “Digam como se vai ao céu e deixem que nós diremos como “marcha” o céu”. Lembremos a oposição dos eclesiásticos às teorias de Darwin. À ciência lhe interessa os fatos visíveis, perceptíveis. Não permite interpretar o que existe “além” do visível. Contrariamente a uma opinião muito difundida, não elimina a Deus. Mas não pode provar a sua existência, nem a sua ausência. Este discurso é estranho para a ciência. A concepção científica sobre a origem da vida na Terra não é incompatível com a religião, pois a ciência, em última instância, só observa, não pode ser dogmática. Sabe muito bem que a realidade é sempre mais complexa. É preciso que a ciência desça do pedestal e que a religião promova a percepção da coletividade e a busca da humana-unidade.
Hoje os sinos dobram sobre o realismo materialista. Mas a física quântica demonstrou a profunda interconexão de tudo com tudo e a ligação indestrutível entre realidade e observador; não há realidade em si, desconectada da mente que a pensa; ambas são dimensões de uma mesma realidade complexa. O universo é consciente. A moderna cosmologia demonstrou que este universo é matematicamente inconsistente sem a existência de um Espírito Sagrado e uma Mente infinitamente ordenadora.
A nova filosofia apresenta-se holística, ecológica e espiritual. Ela funda uma alternativa ao realismo materialista, com capacidade de devolver ao ser humano o sentimento de pertença à espécie humana, à Terra, ao universo e ao propósito divino.
Assim se supera o dado mais grave que se esconde por detrás da falta de cuidado: a perda da conexão com o Todo; o vazio da consciência que não mais se percebe parte e parcela do universo; a dissolução do sentimento do Sagrado face ao cosmos e a cada um dos seres; e a ausência da percepção da unidade de todas as coisas, ancoradas no mistério do Supremo Criador e Provedor de tudo.
Boff (1999) afirma que a ditadura do modo-de-ser-trabalho-dominação está atualmente conduzindo a humanidade a um impasse crucial: ou pomos limites à voracidade produtivista, associando trabalho e cuidado ou vamos ao encontro do pior. Pela exasperação do trabalho produtivo se exauriram recursos não renováveis da natureza e se quebraram os equilíbrios físico-químicos da Terra. A sociabilidade entre os humanos se rompeu pela dominação dos povos sobre outros e pela luta renhida das classes. Não se vê outra coisa no ser humano senão sua força de trabalho a ser vendida e explorada ou sua capacidade de produção e de consumo. Perdeu-se a visão do ser humano como ser-de-relações ilimitadas, ser de criatividade, de ternura, de cuidado, de espiritualidade, portador de um projeto sagrado e infinito.
Concordo com Boff que é preciso o resgate do cuidado e a ciência e a religião podem contribuir para isto, desde que mudem de paradigma, com uma visão holística e sistêmica da vida. Dar centralidade ao cuidado não significa deixar de trabalhar e intervir no mundo. Significa derrubar a ditadura da racionalidade fria e abstrata para dar lugar ao cuidado. Significa captar a presença do Espírito para além de nossos limites humanos, no universo, nas plantas, nos organismos vivos, água, terra, ar, fogo etc.
Só que vivemos numa sociedade liberal que assume o desenvolvimento baseado na banalização do mal pelo trabalho, o que é visto como razoável e justificado, realista e racional, aprovado pela maioria dos cidadãos, preconizado abertamente como um modelo a ser seguido, no qual toda empresa deve inspirar-se, em nome do bem, da justiça e da verdade. Portanto, é um sistema que produz e agrava constantemente adversidades, injustiças e desigualdades e faz com que tudo pareça bom e justo.
Dejours (2001) afirma que a banalização do mal atenua a consciência moral em face do sofrimento infligido a outrem e cria um estado de tolerância ao mal. Além disso, este processo desdramatiza o mal e, por outro, mobiliza progressivamente um número crescente de pessoas a serviço da execução do mal, fazendo delas “colaboradores”.
Para mudar o paradigma do desenvolvimento, precisamos formular políticas para um mundo sustentável, o que significa introduzir uma nova dimensão ética na política. A ética ecológica é um padrão de comportamento que flui através da percepção de que todos pertencemos à comunidade global da biosfera. Nós devemos nos comportar como os outros seres vivos - as plantas, os animais e os microorganismos que formam esta vasta rede da vida, sem interferir com a capacidade surpreendente desta rede de sustentar a vida.
Uma comunidade sustentável é organizada de maneira a promover a vida, os negócios, a economia, infra-estrutura e tecnologia sem interferir com a herança da natureza de sustentar a vida. O primeiro passo deste desafio é entender o princípio da organização dos ecossistemas para sustentar a rede da vida. Quando estudamos os princípios básicos da ecologia, descobrimos que eles são os princípios de organização de todos os sistemas vivos. Todos os organismos vivos dependem de um fluxo contínuo de energia e matéria, e todos produzem lixo, mas o lixo de uma espécie é o alimento de outra. A energia que move os ciclos ecológicos flui do sol. A rede é o padrão básico de organização da vida. Desde o princípio, há mais de três bilhões de anos, a vida surgiu no planeta não através da competição, mas através da cooperação, de parcerias e da formação de redes.
A natureza sustenta a vida criando e nutrindo as comunidades. Nenhum organismo sobrevive isolado. Os animais dependem da fotossíntese das plantas, as plantas dependem do dióxido de carbono produzido pelos animais, bem como do nitrogênio fixado pelas bactérias e raízes, e, juntos, as plantas, animais e microorganismos, regulam toda a biosfera e mantém as condições que mantém a vida.
A sustentabilidade não é uma propriedade individual, mas uma propriedade de uma rede inteira de relações. Ela sempre envolve toda a comunidade. Esta é a lição profunda que precisamos aprender da natureza. O modo de sustentar a vida é construir e manter comunidades. As comunidades interagem entre si. A sustentabilidade é um processo dinâmico de evolução conjunta. Ela inclui o respeito à integridade cultural e ao direito básico de autodeterminação e auto-organização das comunidades. Isto significa que a sustentabilidade ecológica e a justiça econômica são interdependentes. São dois lados da mesma moeda.
O fato da sustentabilidade ser uma propriedade de uma rede inteira de relações significa que a sustentabilidade de um país não pode ser implementada mudando apenas a política energética ou os subsídios para a agricultura. Ela só pode acontecer se for implementada simultaneamente em diversas áreas. A transversalidade é uma enorme tarefa e só obteremos sucesso se realmente compreendermos o principal princípio da ecologia: a vida não surgiu no planeta pela competição, mas através da cooperação, parcerias e formação de redes.
O conceito de sustentabilidade é como o de democracia: difícil e fugitivo, mas indispensável para marcar um ponto no horizonte do futuro. Também como o segundo, é uma forma de tratar o mundo que tem que construir-se a partir da prática. Igual que a moral teórica surge uma prática social da moralidade; a sustentabilidade irá adquirindo um conteúdo empírico suscetível de ser analisado e descrito, à medida que vai comparando as práticas de convivência social e com o mundo natural, com um ideal que, ao mesmo tempo, irá moldando essas práticas.
A busca de um desenvolvimento sustentável, tal como o formulou a Comissão de Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento aponta, nem mais, nem menos, ao desejo da espécie humana de seguir subsistindo na Terra com formas de vida semelhantes às que conhecemos hoje em dia. Semelhantes, mas não idênticas à tomada de posição a favor da sustentabilidade. Implica todo um programa de mudança social para o futuro.
Isto explica as controvérsias que existem ao redor do conceito. Perguntamos, num primeiro momento, qual é o estatuto científico que pode ter este conceito? Questionamos em seguida: o que implica isto em relação a programas políticos e econômicos já estabelecidos e canalizados da ação social? Finalmente, existem os conflitos e a manipulação da informação, surgidos a partir dos poderosos interesses de grupos econômicos ou nações, que já reagiram querendo aumentar a margem de dúvidas ao redor da necessidade de tomar medidas para a sustentabilidade. Como resultado, alguns governos e grupos de pressão continuam insistindo em que existe uma oposição entre a conservação do meio ambiente e crescimento econômico. De fato, não são necessariamente antagônicos; tudo depende do modelo de desenvolvimento que escolhermos. Ao contrário, só o equilíbrio entre ambos poderá levar a um desenvolvimento econômico e social que implique um uso racional, redistributivo e sustentável de seus recursos naturais.
A Comissão Brundtland, com base numa consulta em nível mundial, definiu a sustentabilidade como a possibilidade de “satisfazer as necessidades do presente sem comprometer a capacidade de que as futuras gerações possam satisfazer suas próprias necessidades”. Como este conceito pode ser rigoroso a partir de um anuncio de um bom desejo?
O problema com esta definição, segundo Robert Ayres, é que ninguém sabe como medir o bem-estar em termos sociais. Por isto, ele propõe uma definição mais complexa: “a sustentabilidade é um processo de mudança em que a exploração dos recursos, a direção dos investimentos, a orientação do desenvolvimento tecnológico e a mudança institucional está em harmonia com o aumento do potencial atual e futuro para satisfazer as necessidades e aspirações humanas” (Ayres, 1991). Por mais que esta definição seja precisa, ainda deixa o problema de definir “em harmonia com”. Isto aponta para a necessidade de envolver os cientistas sociais - antropólogos, sociólogos, psicólogos e outros - na exploração destes conceitos.
Mencionamos os anteriores porque, os economistas têm um caminho andado em elaborar uma definição mais operativa de sustentabilidade. Karl-Goran Maler, por exemplo, afirma que “o desenvolvimento econômico numa área específica (região, nação ou mundo) é sustentável se a reserva total dos recursos - humanos, de capital, de capital físico reprodutor, os recursos do meio ambiente e os recursos não renováveis - não decrescem com o tempo”. (1990:240) A CEPAL, por outro lado, argumenta que o conceito biológico que considera uma atividade como sustentável, se não afeta certas leis naturais, deve ampliar seu significado integrando critérios sobre a utilização e uso dos recursos naturais, tais como participação cidadã, tomada de decisões políticas e instituições. (1990:22) Destacam que a sustentabilidade não deve ser definida com base na quantidade disponível de recursos naturais, senão pela utilização que se faz destes recursos.
Esta utilização relaciona-se com a forma em que se reproduzem as sociedades. A este respeito resulta interessante que o conceito de sustentabilidade tenha surgido poucos anos depois de ter sido discutido nas ciências sociais o conceito de “reprodução social”. Sobretudo porque, sendo próximos em significante, são totalmente opostos no seu significado. O segundo derivou do interesse do neomarxismo, por saber como se reproduziam certas estruturas ideológicas ou culturais através do Estado ou das classes dominantes - Louis Althusser, Antonio Gramsci - ou culturas autoritárias através da violência simbólica na educação - Pierre Bourdieu, Jean-Claude Passeron.
A contraposição não poderia ser maior. O conceito de reprodução social se utilizou para questionar porque não mudam situações de dominação e desigualdade que são indesejáveis. Pelo contrário, o de sustentabilidade propõe mudar situações de degradação de recursos naturais porque é um fim desejável.
Num outro nível analítico, não são opostos. O primeiro busca os motivos pelo qual existem mudanças precisamente para poder mudar uma situação. O de sustentabilidade, também questiona os motivos em que as práticas levam a degradação ecológica, para poder mudar essa situação. Por isto, pode inclusive afirmar-se que existe uma coincidência nesta última instância entre os dois casos: se pensarmos que a dominação e a desigualdade, como mostram alguns estudos, provoquem maiores níveis de esgotamento dos recursos naturais, porque agudizam tanto o excesso de consumo como o sub-consumo, diminuir estes desequilíbrios forma parte integral das estratégias de conquista para um desenvolvimento sustentável.
Outro desenvolvimento teórico próximo ao de sustentabilidade é o conceito de reprodução na análise feminista. Neste caso se diferencia um âmbito social, o de reprodução, em contrapartida com o âmbito de produção; o primeiro estaria considerando o gênero feminino e o segundo o gênero masculino na grande maioria de sociedades humanas. Neste âmbito, se diferencia as atividades de reprodução biológica, de reposição da força de trabalho e de reprodução social.
Até agora, o termo sustentabilidade reforça o acento na relação macrosocial entre a sociedade e recursos naturais. Para dar sentido na realidade microsocial que é a que altera as decisões macropolíticas e, ao mesmo tempo, cria os padrões que permitem formar modelos macro e globais, haveria que conectá-lo com este eixo analítico da reprodução social na unidade doméstica. Isto nos parece fundamental para dar-lhe um conteúdo mais operativo.
Em primeiro lugar, porque a primeira unidade de perseverança social é a família. Isto é, a competição pelos recursos, prestígio e poder cristalizam nas unidades primárias em nível local. É na família aonde se tomam as decisões, patriarcais ou não, sobre as necessidades de consumo e o preço em que estão dispostos a pagar por este consumo. Em segundo lugar, porque as ações mais imediatas sobre o mundo natural, desde o desmatamento até a compra de certos artigos no supermercado provêm das deliberações familiares. Em terceiro lugar, porque é onde afloram, com todo seu drama, as decisões desesperadas em quanto a utilização de recursos. Se bem nos países industrializados predomina o padrão altamente individualizado de comportamento e consumo, lembremos que na grande maioria de países em desenvolvimento, as decisões do indivíduo são fortemente influídas, senão que determinadas, pelas decisões corporativas, seja da família ou de outras entidades de parentesco ou sociais.
O passo novo que teríamos que dar é relacionar este imperativo humano de querer produzir o núcleo primário na qual se vive, cuja responsabilidade recai sobre tudo nas mulheres, com o novo imperativo de resguardar a utilização dos recursos para conservar um meio ambiente em equilíbrio.
A Maneira de Conclusão
Gostaria de sugerir neste momento algumas considerações para que possamos criar uma ponte entre as religiões e as ciências para a humanização da humanidade:
A) Espiritualidade
Voltar a descobrir e estabelecer as dimensões espirituais da humanidade que inspiram valores éticos e atitudes sociais, ecológicas, políticas etc, capazes de enfrentar os riscos que ameaçam a humanidade e o planeta Terra. A espiritualidade, longe de ser uma realidade estranha, da qual faz referência a verdades filosóficas, metafísicas e às vezes, misteriosas, é um elemento central na hora de elaborar a identidade cultural e os princípios éticos comuns e, em geral, na hora de explorar os mistérios da vida e da morte. A espiritualidade não nega a dimensão material da humanidade, senão que assume, com as suas virtudes e contradições, para oferecer valores éticos e pontos de referência e propor um projeto. Atualmente, a profundidade e abertura espiritual resultam necessárias ao favorecer uma atitude fundamental para a paz, respeito à natureza, justiça e fraternidade. Não se trata só de propor à humanidade projetos e linhas de ação que devam ser aplicados, senão dar um sentido a seu futuro.
B) Ética
É urgente que a humanidade, em toda a sua diversidade, comprometa-se a elaborar uma ética comum para dar sentido ao mundo do amanhã. Nesta tarefa, todas as religiões podem contribuir. Além das normas, ritos ou proibições, a humanidade espera que as religiões participem na construção do sentido para a vida, trata-se de criar uma ética comum a toda a humanidade que possa por uma parte, propor ações de oposição a tudo que seja contra a liberdade, a dignidade, a justiça, como o racismo, a miséria, a exploração, as novas formas de escravidão etc. Por outra parte, esta ética deve criar formas de ação concretas para construir sociedades onde cada pessoa possa alcançar sua plenitude. Os valores e os princípios podem inspirar atitudes inovadoras no âmbito dos intercâmbios econômicos, nas relações com o meio ambiente, o exercício do poder, a produção e distribuição de bens comuns etc. A ética do futuro deve buscar:
- Trabalhar para a humanização da humanidade.
- Trabalhar a feminilização social do mundo para dar luz a laços sociais afetivos.
- Efetuar a dupla pilotagem do planeta: obedecer à vida, guiar a vida.
- Alcançar a unidade planetária na diversidade.
- Respeitar no outro, ao mesmo tempo, a diferença e a identidade quanto a si mesmo.
- Desenvolver a solidariedade e a compreensão; o direito das minorias à existência e à expressão; é preciso proteger a diversidade de espécies para salvaguardar a biosfera assim como proteger a diversidade de idéias e opiniões, fontes de informação.
- Assumir a condição humana indivíduo/sociedade/espécie na complexidade de nosso ser.
- Assumir o destino humano em suas antinomias e plenitude.
- Reconhecer ao Outro o direito de não ser.
C) Redistribuição de Recursos
Nas condições atuais do mundo, a humanidade deve se esforçar de forma ativa e eficiente para conseguir que todo mundo tenha o mesmo acesso aos bens essenciais, principalmente em relação à alimentação, saúde e educação. As diferentes religiões devem trabalhar no mundo para que haja uma autêntica distribuição dos recursos entre os povos, especialmente para que os menos favorecidos tenham acesso real aos bens essenciais pois o que temos observado durante o século XX, é que povos diferentes estão tendo destinos diferentes, onde uns estão fadados à pobreza e miséria e outros, à riqueza e à prosperidade como seu destino.
D) Cultura da Paz
As religiões devem comprometer-se ativamente na construção da paz no mundo. Os “senhores da guerra” sempre utilizam a religião para justificar seus atos e instigar a população a lutar em nome de Deus. É urgente realizar um exame crítico sobre as razões pelas quais se associa a religião e a violência e sobre as suas conseqüências. É preciso uma postura clara e permanente. Os devotos não podem cair nesta trampa de sacralização da violência, senão que devem participar ativamente na erradicação de todo tipo de violência e na construção da paz no mundo.
Gerar a paz é o processo de organizar as relações, mediando os diferentes interesses e necessidades de indivíduos, grupos e sistemas vivos e tecnológicos, buscando viabilizar as ações concretas que permitam solucionar as situações detectadas como problemas por estes mesmos grupos, sem ignorar as diferenças de perspectivas individuais. Esta gestão é entendida como participação e diálogo entre os diferentes atores, em torno de situações concretas, historicamente compreendidas e geograficamente contextualizadas.
E) Educação Transreligiosa
O diálogo interreligioso aporta um novo desafio na educação religiosa convencional e confessional. Mostra a necessidade de criar uma educação que ressalte a compreensão e o respeito a todas as tradições religiosas. A experiência de viver a fé em uma “aldeia global” exige que os diferentes ensinamentos religiosos saibam responder as situações que ameaçam a paz e a justiça. A educação transreligiosa se concebe não só como uma forma de preservar e revitalizar as identidades culturais e as disciplinas espirituais, senão também como uma forma de enfrentar os desafios sociais relacionados, por exemplo, com a injustiça, a discriminação, a intolerância, a violência etc. É necessário que todas as religiões realizem um exame profundo e real da auto-crítica com respeito a certas práticas de educação religiosa que tem favorecido as divisões e inclusive a repressão. Também é necessário que as religiões respondam a situações onde a ideologia de alguns governos censura, controla, desvia e manipula a educação religiosa, de maneira que os fiéis não possam conhecer sua herança, nem a de seus vizinhos.
F) Atitude Transreligiosa
O sagrado é o que liga, mas não é atributo de uma única religião.
O sagrado não implica acreditar em Deus, em deuses ou espíritos. É a experiência de uma realidade e a origem da consciência de existir no mundo. É aquilo que liga seres e coisas e, conseqüentemente, induz nas profundezas do ser humano um absoluto respeito pelos outros, com os quais ele está ligado por estarem todos compartilhando uma vida comum numa única e mesma Terra. Uma atitude transreligiosa torna impossível qualquer guerra religiosa.
Exige uma filosofia do ser e uma reflexão espiritual que nos fale do Sentido de todos os sentidos e que saiba organizar a convivência humana sob a inspiração da lei mais fundamental do universo: a sinergia, a cooperação de todos com todos e a solidariedade cósmica. Mais importante que saber, é nunca perder a capacidade de sempre mais aprender. Mais do que poder, necessitamos de sabedoria, pois só esta manterá o poder em seu caráter instrumental, fazendo-o meio de potenciação da vida e de salvaguarda do planeta.
Bibliografia
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