Perspectivas para o Brasil

Comente o pós-facio de Farzam Arbab que se encontra no livro. Aqui ele apresenta inúmeras sugestões de como o tema da ciência, religião e desenvolvimento pode ser trabalhado no Brasil. Dê a sua opinião e comente o texto!

Minha visita ao Brasil em outubro de 2003 foi muito animadora. As possibilidades abertas à sua nação são imensamente grandes. O fato dos líderes de pensamento estarem tão seriamente buscando um curso apropriado no qual o país seja conduzido da melhor forma possível é algo admirável e estou feliz em saber que o documento preparado pela Fundação para a Aplicação e Ensino das Ciências (FUNDAEC), destacando algumas idéias sobre o futuro da sociedade brasileira poderá contribuir para suas deliberações, mesmo que de forma modesta. Neste sentido, você me pediu algumas considerações adicionais sobre a natureza dos órgãos responsáveis pela promoção de aprendizado estruturado em uma população, descritas no documento acima e mencionadas em minha palestra no Centro de Estudos Estratégicos em Brasília. Espero que os seguintes comentários sejam úteis.

O documento preparado pela FUNDAEC sugere que o futuro da nação seja considerado em termos de dois pontos imperativos: promover prosperidade à inteira população do país e prover diferentes contribuições para o desenvolvimento de uma civilização global emergente. Estas duas metas inter-relacionadas, foi dito, demandam uma nova concepção do desenvolvimento social e econômico do Brasil. Foi proposto, então, que as estratégias de desenvolvimento se foquem na capacitação do povo do país em tornar-se o protagonista da transformação esperada, pois somente desta forma poderão ser alcançadas tão ambiciosas metas. O esforço de capacitação, por sua própria natureza, exige acesso ao conhecimento e neste contexto foi sugerido que uma atenção urgente seja dada ao estabelecimento dos alicerces de agências que possam se devotar formalmente à geração, aplicação e difusão do conhecimento junto às raízes da sociedade. Nos últimos meses, tenho refletido ainda mais sobre a natureza dessas estruturas e a seguir apresento algumas idéias que me parecem dignas de serem compartilhadas.

Quando um governo esclarecido decide pôr em ação um processo de transformação social, com o objetivo de engendrar condições que promovam uma prosperidade ampla e completa, irá certamente encontrar muitos desafios. Três se destacam como os maiores:

O primeiro tem a ver com a imperiosa necessidade das pessoas tornarem-se os protagonistas de seu próprio desenvolvimento. Isto claramente demanda uma gama de serviços, objetivando criar um conjunto mínimo de condições necessárias à ação individual e coletiva. Na verdade, todos sabemos dos efeitos debilitantes dos programas que reduzem o povo a meros recipientes de bens e serviços. Tais programas tendem a conduzir à passividade e à supressão do espírito de iniciativa nos indivíduos, famílias e grupos em geral. Oferecer os serviços necessários ao povo e, ao mesmo tempo, estimular iniciativas, implica a existência de estruturas apropriadas e de métodos adequados que criem condições para uma tomada de decisão com maturidade em diferentes níveis.

Um segundo desafio está relacionado à integração. Embora possa existir nos níveis mais elevados do governo uma visão integrada dos serviços oferecidos ao povo, quando estes alcançam os favorecidos intencionados, todos eles, muito freqüentemente, terminam como pacotes fragmentados, cada um deles voltado a algum aspecto isolado dos multifacetados problemas enfrentados pelas famílias carentes de ajuda. O tipo de coordenação necessário para contrapor-se à tendência de fragmentação não é fácil de se estabelecer. Em sua ausência, embora o propósito genuíno de serviços possa ser o de criar condições que levem ao empoderamento, o enfoque fragmentário torna isso virtualmente impossível.

Um terceiro desafio com o qual o governo se confronta é superar a falta de articulação entre o discurso da ciência e da tecnologia modernas com os tradicionais sistemas de conhecimento das populações atendidas. Estreitamente relacionado a isto, está o divórcio que convencionalmente foi imposto entre o discurso sobre desenvolvimento social e econômico e as aspirações espirituais do povo em geral, o qual deve tornar-se o protagonista de tal desenvolvimento.

Foi em resposta a esses três desafios que nossas conversas em Brasília, inspiradas pelo documento da FUNDAEC, centraram-se na criação de uma estrutura ao nível da comunidade local, a qual, por razões que tratamos naquela oportunidade, propusemos fosse chamada de um “Centro de Excelência.” A função de tal Centro, foi sugerido, seria precisamente assegurar que os programas e serviços oferecidos pelo governo fossem integrados, que levem ao empoderamento das pessoas e que reconheçam a inter-relação existente entre as aspirações materiais e espirituais das comunidades envolvidas.
O tamanho da população servida por um Centro deste tipo terá de ser determinado de acordo com a realidade particular do Brasil. A população não pode ser tão pequena que o custo da operação do Centro torne-se proibitivamente caro em relação ao número de pessoas que dele irá se beneficiar. Mas há que se cuidar para que sua área de influência não seja tão grande a ponto de tornar impossível a participação da inteira população. Parece-me que, conforme a natureza de cada área geográfica, um Centro podia servir a quem quer que fosse dentre uma população de alguns milhares de pessoas até cerca de cinqüenta mil, dependendo do grau de sofisticação ao qual espera-se que funcione.
O tema central do documento preparado pela FUNDAEC, o qual foi recebido bem por aqueles que participaram de nossas consultas em Brasília, foi conhecimento. Da mesma forma, um Centro de Excelência deve ser concebido como um espaço social para a geração, aplicação e difusão do conhecimento. Neste contexto, gostaria de sugerir que o ponto essencial para seu sucesso deve ser sua natureza apolítica. Algumas funções definidas à Centro de Excelência incluiriam o seguinte:

1. Prover às populações onde irá atuar uma forma de entendimento dos diferentes serviços que estão sendo oferecidos a elas pelo governo. O Centro não deve prover ele mesmo tais serviços, mas buscar, em vez disso, torná-los disponíveis à atenção das pessoas e ajudá-las a ver como se relacionam entre si. Assim, por exemplo, embora não ofereça o próprio crédito, pode muito bem promover programas de micro-crédito, se apropriado às circunstâncias particulares da localidade servida.

2. Promover qualquer tipo de capacitação necessária na comunidade, assegurando-se de não serem pacotes fragmentados, meramente um meio de transferência de tecnologia, mas que levem em consideração os sistemas de conhecimento já existentes na comunidade. Há ocasiões em que o Centro pode achar útil prover ele mesmo algum tipo de treinamento.

3. Deverá identificar talentos dentro da população e utilizar as habilidades existentes para benefício da comunidade. Nesse sentido, seria um Centro que se esforça para adequar os recursos às necessidades. Mas não somente buscar encontrar dentro da comunidade as pessoas que possam suprir necessidades específicas, mas também trazer para a comunidade especialistas de fora para ajudar na geração e aplicação de conhecimento em áreas específicas, tais como saúde e educação. Esta função implica que haverá uma estreita conexão entre o Centro e as universidades operando na região.

4. Buscará articular as aspirações da comunidade com o governo e servir como um canal através do qual os diferentes órgãos do governo possam chegar até a comunidade. Para este fim, reunirá, de tempos em tempos, os agentes do governo engajados na prestação de serviços na região, proporcionando-lhes a oportunidade de se beneficiarem do conhecimento e da experiência que estiverem sendo gerados no nível local.

5. Em todas as suas atividades, o Centro irá promover o princípio da consulta como um processo de tomada coletiva de decisões. Longe de ser um procedimento de negociação para promover interesses pessoais ou de grupos, o processo consultivo deve ser visto como uma investigação coletiva da realidade. Como tal, exige o livre intercâmbio de opiniões, desapego de pontos de vista pessoais e uma análise racional e desapaixonada de opções. Deve promover soluções criativas a problemas comuns e a distribuição justa de recursos. Deve prover oportunidade à participação de membros da comunidade, os quais têm sido tradicionalmente excluídos das tomadas de decisões, mais particularmente as mulheres, bem como estimular a expressão de qualidades espirituais como honestidade, tolerância, paciência e cortesia. Deve promover o consenso sobre os passos a serem dados e um comprometimento à ação unificada.

Como sugerido nos itens acima, o Centro deve ser, mais que qualquer outra coisa, uma estrutura local preocupada com a geração, aplicação e difusão do conhecimento. É neste contexto que o “Centro de Excelência” irá provar ser uma designação apropriada para tal finalidade. Parece-me que para as pessoas se transformarem de meros consumidores de bens e serviços - grátis, baratos ou caros - a protagonistas na construção de um processo civilizatório, uma visão de excelência espiritual, moral e intelectual deve ser criada e mantida ante os olhos de pobres e ricos igualmente.

Finalmente, gostaria de expressar algumas palavras sobre o processo de criação dos “Centros de Excelência”. Se a idéia for aceita, podemos assumir que inicialmente alguns centros seriam estabelecidos em áreas que representem a diversidade da sociedade brasileira, tanto urbana quanto rural. Creio que seria importante, principalmente nos estágios iniciais, que as tarefas determinadas a eles não deveriam ser muito complicadas. Quantas pessoas iriam trabalhar em cada Centro seria um ponto que irá depender certamente do tamanho da população atendida. Porém, independente do número do staff, cada Centro exigirá um coordenador treinado. Desenvolver um programa de formação desses coordenadores representaria, em minha opinião, a exigência mais urgente para que o esquema seja bem sucedido. Tenho dúvidas se tal programa pode ser desenvolvido reunindo-se especialistas para defini-lo, distanciados da prática devida. Pelo contrário, um programa deve surgir da experiência, através de um processo de ação, reflexão e consulta. Um conjunto de colaboradores seria treinado utilizando um programa com materiais que estariam provavelmente disponíveis em muitas organizações não-governamentais em operação no Brasil. Esses coordenadores treinados começariam então uma experiência e através de uma série de tentativas, um programa educacional seria aprimorado e melhorado com o tempo.

Colocar em ação tal processo de desenvolvimento curricular, imagino, exige a criação de uma estrutura conceitual dentro da qual o programa precisa ser formatado. Espero que você e os seus talentosos amigos que encontrei durante minha visita ao Brasil, que se encontram tão engajados em promover um discurso acerca da ciência, religião e desenvolvimento, possam prestar auxílio nesta conceitualização necessária.

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